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Lula, o SUS e SiCKO

Para conhecer o sistema de saúde americano, assista SiCKO.

PS: Precisei certa vez, durante meses, de remédios que custavam R$ 600 a caixa, e o SUS me forneceu. Então acho que pelo menos essa parte dos remédios para a população funciona razoavelmente bem.

Cut and paste total, via o Facebook da Maria Guimarães (pois eu não conhecia este blog).

PURPLESOFA

 

 

 

 

It can always get worse.

Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto

by Nina Crintzs

Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.

Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.

Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.

O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.

O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.

A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.

O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.

O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.

Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.

Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.

Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.

Estudos americanos

27/10/2011

Agência FAPESP – Transformações no Estado e na sociedade no contexto do regime militar brasileiro, ainda que sem essa intenção, permitiram que um grupo de médicos com o objetivo de implantar um sistema universal de assistência médica pública, nacional e descentralizada, viesse a alcançar sua meta por meio de graduais transformações, consolidadas formalmente pela Constituição de 1988.

Este é, em síntese, o conteúdo do trabalho apresentado no dia 25 de outubro na FAPESP Week, em Washington, por Tulia Faletti, professora da Universidade da Pensilvânia, intitulado “Assistência Médica Universal e Participação Comunitária no Brasil”.

Faletti afirma que a criação do SUS (Sistema Único de Saúde) no final da chamada “década perdida”, num período de grande dificuldade econômica para toda a América Latina, em que a maioria dos Estados no subcontinente ou retirava recursos da saúde ou a privatizava, contraria a tendência conjuntural e, ao mesmo tempo, a literatura acadêmica anteriormente estabelecida, segundo a qual mudanças drásticas em sistemas públicos de saúde costumam ocorrer em situações de extremada crise política.

Ela argumenta que algumas instituições solidamente estabelecidas no país, como o corporativismo e o federalismo, forneceram a base necessária a propostas do tipo do SUS. Igualmente, algumas mudanças impostas pelo regime militar (embora não com esse objetivo) ajudaram a paulatinamente criar as condições ideais para o surgimento do SUS.

Por exemplo, a decisão do governo Castello Branco em 1964 de unificar numa só entidade (o INPS) os sete institutos de previdência social de diversas categorias de trabalhadores (tomada para enfraquecer os sindicatos) teve entre seus efeitos o de criar uma previdência social estatal poderosa e rica, a qual, quando foi incorporada pelo SUS, lhe ofereceu recursos materiais de que o sistema público de saúde não dispunha antes.

A palestra de Faletti foi a primeira das três que compuseram a sessão de estudos brasileiros e americanos do simpósio FAPESP Week, coordenada por Fernanda Gandara, vice-presidente da Synthetic Genomics. Inc.

O professor da Unesp Tullo Vigevani fez aos participantes um sumário dos objetivos e produção do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), que ele dirige.

Vigevani ressaltou que estudos sobre EUA são feitos há muito tempo e em largo escopo, mas até agora não haviam sido sistematizados, e que organizá-los é uma das missões do INEU.

A sessão foi encerrada pela professora Elizabeth Stein, da Universidade de Nova Orleans, que apresentou trabalho sobre o papel da imprensa brasileira durante o regime militar, no qual defende a tese de que em regimes autoritários o jornalismo pode funcionar como uma espécie de barômetro para medir a tolerância do governo em relação a manifestações públicas de dissenso.

De acordo com ela, quando as críticas nos meios de comunicação crescem em número e intensidade, é sinal de que a repressão será menos dura, e isso incentiva outros setores da sociedade a se organizar. Tal processo, segundo Stein, ocorreu no Brasil a partir de 1968 até o fim do regime militar.

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