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Relativismo Cultural, Nova Era e Nazismo

Olá Osame, desculpe só fui ler sua resposta hoje, pois havia perdido o endereço do seu blog:
Se me permite ainda estou curioso, pois dados os floreios paradoxais de sua resposta sobre tuas inclinações teóricas ainda estou confuso. Confesso que andei dando uma lida nos textos do blog e gostei de algumas colocações tuas (um exemplo pode ser visto aqui com tua inclinação para Gardner e Margullis), por isso insisto em entender esses conflitos que acredito ter o discurso aqui com um pertencimento ao chamado “movimento cético” (coisa cientificamente incabível, paródia ateísta de internet que nunca foi sequer manifestada por uma corrente filosofia ou episteme, natimorto como uma manifestação universalista do conhecimento, há muito tempo, tempos pré-históricos!!! – a saber, desde Hume e Locke e fatalizado por Kant e Nietzche):
Bem, não vou “desprezar” a pesquisa que vc fez no universo Wikipédia sobre o que é ser “reacionário”, porém, utilizei o termo no contexto de hoje, pois me referia às revoluções relativistas da ciência (Círculo de Viena, Escola de Frankfurt, lembra?) desde a Teoria do Conhecimento até nossos dias, digo isso, pois era a isso que me referia reacionário + pensamento cientifico (assunto de seu blog, se vc voltar à página do Wiki poderá ler logo de início “Reacionário é todo aquele que se contrapõe à Revolução, entendida como a subversão da estrutura socioeconômica e política da sociedade, para a resolução das contradições sociais em determinado momento histórico. Nesse sentido, entende-se como reação o conjunto de forças que atuam no sentido de retorno a uma situação passada, revogando mudanças sociais, morais, econômicas ou políticas.” Humm, não ta mal. Portanto, se você é a favor da modernidade científica e sua lógica (na tríade – VERDADE, CERTEZA e RAZÃO, empirismo, materialismo, determinismo, reducionismo, metodismo universal etc.) você é certamente um reacionário, pois “as demarcações sobre ciência” “dos epistemólogos contemporâneos” já não acreditam mais em uma ciência positiva. Os revolucionários ganharam essa, a ciência não é mais o que era a duzentos anos atrás, porém, existem muitos movimentos que reagiram contra o relativismo epistêmico, o “neopositivismo” por exemplo, o movimento cético é uma caricatura “leiga” e exagerada dessas reações (pouco acadêmicas e largamente políticas).
Por isso se vc for um cético deste movimento, ideologicamente faz jus a bandeira “ultrapassado” e “neo-positivista” (não são ofensas, mas sim enquadramentos histórico-sociais, pode ser que o todo o quadro episteme da ciência pós-moderna atual volte a uma valorização cega do indutivismo, coisa que duvido muito.

Caro Antonio,

Infelizmente, se você perceber bem, o relativismo cultural (quando aplicado à ciência) se mostrou apenas como um fenômeno fin de siecle (engraçado que os movimentos filosóficos tipo Empiriocriticismo e o movimento de romantismo espiritualista científico (Energética de Ostwald), ambos do final do século XIX, também foram fenômenos fin de siecle, ambos criticando o materialismo da ciência moderna e anunciando sua morte (“fim da ciência”). E tudo isso por volta de 1890, antes das revoluções da física moderna!

São como modas recorrentes (essas modas ou ciclos realismo-romantismo foram retraçadas no livro “A Temperatura da História” e queo ocorrem como ciclos Lotka-Volterra desde pelo menos o primeiro Renascimento Europeu do século XIII ou mesmo antes.

Em termos filosóficos, a rejeiçao da Modernidade (iniciada pela Revolução Francesa) é sim feita pelos reacionários, ou seja, a Reação Romântica que critica a Revolução e enaltece a Tradição e as tradições particulares de cada povo etc. Muitos desses autores reacionários estão sendo hoje “recuperados” pelos relativistas culturais.

Existe um fio condutor, que eu chamo de Romantismo, que parte de Nietszche, atravessa o nazista Heidegger e, via o Romantismo Alemão do início do século XX (chamado de Modernismo Reacionário por autores como Jeffrey Herf) afeta tanto pensadores de direita como esquerda (Escola de Frankfurt, Feyrabend, Marcuse, Roszack) e os filósofos pós-modernos (Paul de Main, Derrida, etc,). Eu espero que você, pelo menos reconheça, que Nietzsche e Heidegger eram aristocráticos e anti-democráticos (que é a minha definição de reacionários de direita). Já Marcuse e Roszack seriam reacionários de esquerda. Não sei bem onde colocar Feyrabend, dado que em sua autobiografia ele confessa que o seu ideal de ser humano era “ser um capitão das SS”.

Não, eu não estou usando a falácia do Reductio ad Hitlerum porque não estou querendo desqualificar argumentos lógicos mas sim fazer a pergunta incômoda de por que os filósofos românticos do século XX compartilham MUITAS das crenças da filosofia nazista e não apenas uma ou outra característica (o que poderia ser pura coincidência, como é o caso do vegetarianismo de Hitler).

Ou seja, eu não estou chamando Nietzsche de filósofo nazista (pois não haviam nazistas em sua época) mas sim me perguntando sobre por que os nazistas, em especial as SS,  adoravam ler Nietszche (e não me venham com a história da carochinha sobre a irmã nazista de Nietszche, isso é mito urbano, please!).  Já no caso de Heidegger e alguns de seus seguidores pós-modernos, como Paul de Man, acho que o alinhamento com o Nazismo não foi de conveniência ou mentirinha, como poderiam atestar vários historiadores sérios.

O problema com todo esse pessoal é que seus argumentos podem ser retraçados aos românticos anti-modernos e mesmo pré-modernos. Ao mesmo tempo, nenhum físico teórico (como eu) pode ser chamado de empirista ou indutivista (você acha que as supercordas e o Multiverso sao conceitos empiristas????) . Logo, qualquer crítica que você fizer ao positivismo e empirismo eu farei coro, pois eu sou partidário da Epistemologia Evolucionista pós-Popperiana que, na medida que contempla os fenomenos de stasis e avalanches evolucionárias, confirma e fortalece a perspectiva Kunhniana (sem cair no relativismo de seguidores de Kuhn mas não do próprio Kuhn – que era um físico, afinal de contas, e sabia o que era ciência na prática).

Quanto ao movimento cético, eu o apóio na medida de que é uma pequena resistência à onda avassaladora de espiritualismo New Age. Por outro lado, reconheço sim que esses jovens blogueiros céticos são ingênuos filosoficamente e contaminados pela ideologia do Cientificismo, que eles não percebem que é uma ideologia e não faz parte da ciência (ou seja, a maior parte dos cientistas ativos não se alinham com a ideologia do Cientificismo). Se você perceber bem, meu blog se dedica à crítica do Cientificismo que eu vejo na blogosfera científica – algo que você achou se tratar de uma contradição mas não é pois (devo repetir de novo?) eu sou um cientista não-cientificista: gosto das áreas interdisciplinares e interfaces entre ciência, filosofia, arte e religião, mas não acredito que nenhuma delas possa ser reduzida integralmente à uma determinada área.

Assim, dado que Filosofia ão pode ser reduzida à Ciência, o inverso deve também ser válido: a Ciência não pode ser reduzida à Filosofia (ou mesmo à uma ciência humana como a Sociologia, como querem os construtivistas sociais). Essas pessoas que querem reduzir as amplas áreas científicas à disciplinas específicas como Filosofia ou Sociologia é que são os verdadeiros Reducionistas.

O meu problema com a New Age, esclareço, não é apenas científico (a New Age está cheia de wishfull thinking e honestidade intelectual parece ser algo sacrificável para eles). Minha maior preocupação com a New Age surgiu quando li “A Sociedade Planetária”, de Marcio Bomtempo, onde, depois de defender o vegetarianismo e a contracultura, o autor começa a falar de ocultismo, sociedades secretas, Protocolos dos sábios de Sião, Conspiração Judaica Internacional e a vinda de um novo Avatar, um “Condutor” (Fuher?) que irá por fim à sociedade consumista moderna, iniciando uma Nova Era, Holista e Integral (Integralista?). Seria o quarto Reich?

Marcio Bomtempo não é exceção, mas vai se tornando a regra dentro de um Movimento Nova Era brasileiro que, dada a tendencia conservadora de nosso povo, vai tomando feições Integralistas. Assim, a minha discordância em relação ao Relativismo Cultural é simplesmente de que: 1) filosoficamentte ele provém do nazista Heidegger e seus discipulos franceses contaminados por idéias romântico-facistas; 2) o Relativismo Cultural e Moral fazia parte da ideologia nazista; 3) Não aprecio o Nazismo mas sim o Anarquismo Científico de Kropotikin e mesmo a Dialética da Natureza de Engels, e ambos são autores de esquerda não-relativista; 4) Acho que o físico esquerdista Sokal mostrou convincentemente que as águas barrentas do relativismo pós-modernista não são águas profundas; 5) Finalmente, quando Bruno Latour renuncia ao relativismo cultural aplicado à questões científicas (relativismo este que está sendo usado pelos Criacionistas e Céticos do Clima), me parece que o relativismo sofre uma ferida de morte e apenas agoniza, especialmente em países filosoficamente atrasados como o Brasil.

PS: O relativismo cultural, quando aplicado à Moral, tem uma validade maior. Entretanto, devemos lembrar que questionar os direitos humanos a partir do relativismo moral (cada classe – no caso do Marxismo, ou cada povo – no caso do Nazismo, teriam seus próprios padrões morais incomensuráveis com os dos outros seres humanos)  serviu como racionalização para o Gulag e os campos de concentração. Bom, mas tudo bem, pois os relativistas históricos acham que o Holocausto é uma historinha inventada pelos vencedores e na realidade não aconteceu…  Mas afinal, o que significaria “mentira” e “falsidade” para um relativista?

 Da WIKIPEDIA:

Why Has Critique Run Out of Steam?

In a lengthy 2004 article,[29] Latour questioned the fundamental premises on which he’d based most of his career, asking, “Was I wrong to participate in the invention of this field known as science studies?” He undertakes a trenchant critique of his own field of study and, more generally, of social criticism in contemporary academia. He suggests that critique, as currently practiced, is bordering on irrelevancy. To maintain any vitality, Latour argues that social critiques require a drastic reappraisal: “our critical equipment deserves as much critical scrutiny as the Pentagon budget.” (p. 231) To regain focus and credibility, Latour argues that social critiques must embrace empiricism, to insist on the “cultivation of a stubbornly realist attitude — to speak like William James”. (p. 233)

Latour suggests that about 90% of contemporary social criticism displays one of two approaches which he terms “the fact position and the fairy position.” (p. 237) The fact position is anti-fetishist, arguing that “objects of belief” (e.g., religion, arts) are merely concepts onto which power is projected; the “fairy position” argues that individuals are dominated, often covertly and without their awareness, by external forces (e.g., economics, gender). (p. 238) “Do you see now why it feels so good to be a critical mind?” asks Latour: no matter which position you take, “You’re always right!” (p. 238-239) Social critics tend to use anti-fetishism against ideas they personally reject; to use “an unrepentant positivist” approach for fields of study they consider valuable; all the while thinking as “a perfectly healthy sturdy realist for what you really cherish.” (p. 241) These inconsistencies and double standardsgo largely unrecognized in social critique because “there is never any crossover between the two lists of objects in the fact position and the fairy position.” (p. 241)

The practical result of these approaches being taught to millions of students in elite universities for several decades is a widespread and influential “critical barbarity” that has—like a malign virus created by a “mad scientist” — thus far proven impossible to control. Most troubling, Latour notes that critical ideas have been appropriated by those he describes asconspiracy theorists, including global warming skeptics and the 9/11 Truth movement: “Maybe I am taking conspiracy theories too seriously, but I am worried to detect, in those mad mixtures of knee-jerk disbelief, punctilious demands for proofs, and free use of powerful explanation from the social neverland, many of the weapons of social critique.” (p. 230)

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