Nosso mundo pós-Utópico
Eu não se vocês já perceberam mas eu faço um esforço enorme neste blog para propor idéias não convencionais. Ou seja, este não é um blog de divulgação e repetição de argumentos tradicionais (sobre política, sobre aborto, sobre religião etc) ou de conhecimento científicos bem estabelecidos. Não é um blog de divulgação científica (DV) mas um blog de especulação científica (EC). A divulgação científica pretende ser educativa, a especulação científica quer ser provocativa.
O título desde post, portanto, não se refere a uma visão tradicional (1989-2009) de que vivemos em um mundo onde já não existem mais utopias políticas, onde o bom gerenciamento da sociedade de consumo seria o único propósito social, o mundo sem ideologias do qual se lamentava Cazuza, o fim da História de Fukuyama. Esta visão está totalmente ultrapassada, e se você ainda acredita nisso, então eu sinto muito comunicar-lhe que você também está ultrapassado.
Primeiro, vamos derrubar o principal mito político anti-utópico, vamos fazer um Mythbuster ideológico, OK? Esse mito ou lenda urbana do romantismo político é que o “progresso social” não existe. A idéia de progresso seria uma ilusão da Modernidade e vivemos em um mundo pós-moderno.
HAAAN… OK, essa idéia foi moda no final do século passado, na verdade a Pós-modernidade é um modismo fin-de-siecle XX. Acabou. Esqueça isso. Foi apenas uma grande bobagem, e uma defesa erudita de uma bobagem não a torna menos boba. Não confunda águas franco-linguisticamente barrentas com águas profundas. O rei está nú. Vivemos em um mundo pós-pós-moderno, o mundo Neomoderno (farei um post sobre o que seria o Neomodernismo).
Fundamentalismo religioso, Romantismo New Age, Crítica Pós-moderna? Reações à onipresença da Modernidade, mas cheias de ideais utópicos que incorporam as conquistas da própria Modernidade, por exemplo, a idéia de que todas as pessoas nascem com os mesmos direitos, sem castas sociais.
É claro que, para definir progresso, temos que definir um objetivo ou pelo menos uma direção, um horizonte. Ora, o horizonte utópico ocidental é o horizonte judaico-cristão: o desejo de uma sociedade com mais igualdade, mais liberdade e mais fraternidade. Sim, a Revolução Francesa não podia ocorrer em sociedades orientais de castas como a Índia Brahmanista, tão admirada por Nietszche e modelo para os nacional socialistas. Nietszche odiava a democracia liberal por ela ser, na sua visão, apenas um judeo-cristianismo laico cujos outros filhotes seriam o socialismo, o anarquismo e o feminismo. Coisa de plebeus…
Sim, essa direção, esse horizonte utópico, é uma escolha livre, não fundamentada, não absoluta, não justificável racionalmente. É uma opção filosófica, uma escolha existencial, não é dedutível de teorias científicas, não pode ser demonstrada a partir de outros axiomas sociais: é, ela mesma, uma escolha axiomática. Se você quiser ser Nietszcheniano, Aristocrático, Anti-democrático ou Nazista, você é totalmente livre para sê-lo, e isso também será uma escolha axiomática, nem mais nem menos compatível com os fatos científicos, a biologia, a psicologia humana etc. O Darwinismo Social não é mais compatível com a biologia apenas por carregar o nome de Darwinismo… Cá entre nós, é apenas, uma pseudociência.
Uma vez definida a direção utópica (mais igualdade, mais liberdade, mais fraternidade), que não é exatamente Moderna mas sim foi definida pelo Judaismo primitivo, pelo Cristianismo primitivo e pelo Budismo Mahayana, é fácil verificar que progredimos muito nessa direção. Para ver isso eu proponho um experimento. Leia o livro A Utopia (1518), de Thomas More (coleção Folha, 14,90, nas bancas!). Eu acabei de lê-lo anteontem. A Utopia faz uma crítica social da Inglaterra e Europa do século XVI e propõe uma República Platônica ideal, em ambos os sentidos. Ora, hoje, a palavra utópico é usada como sinônimo de “impossível de se alcançar”. Mas… surpresa! Se compararmos a sociedade utópica de More com a nossa, veremos que, em diferentes aspectos, nós a alcançamos e ultrapassamos, e muito. Vejamos:
Igualdade: Embora More proponha uma sociedade comunista, onde a propriedade é social, na Utopia as pessoas não são realmente iguais (ou seja, não possuem os mesmos direitos). O príncipe de Utopia não é escolhido por sufrágio universal mas indiretamente, por um senado de 1200 magistrados (todos homens, por sinal). O cargo é vitalício. Os religiosos de Utopia, se cometem crimes, não são levados à justiça comum. As mulheres são seres de segunda classe, apenas elas fazem o trabalho doméstico e não escolhem seus maridos. As crianças, adolescentes e jovens servem as refeições aos adultos e comem por último, em pé e em silêncio. Existem escravos em abundância, para fazer o trabalho sujo.
Liberdade: Em Utopia, o adultério é punido com a mais dura escravidão e, se houver reincidência, punido com a morte. A escravidão perpétua e os trabalhos forçados também são usados como penas. O sexo antes do matrimônio recebe um censura severa, o casamento é posteriormente interdito aos infratores e os pais que não controlaram os jovens ficam desonrados. O divórcio é quase impossível. É crime sair de sua provincial sem autorização. Para viajar, é preciso ter uma carta do príncipe, uma licença que fixa o dia de regresso. O Estado não é laico e ateus e agnósticos são fortemente discriminados. Aos suícidas é negada a sepultura e seus corpos são jogados em pântanos. Os homossexuais nem são citados, provavelmente por que seriam eliminados se se tornassem públicos.
Fraternidade: A ilha de Utopia entra frequentemente em Guerra para defender os direitos comerciais de seus aliados. Nisso empregam os Zapoletas, povo bárbaro, como mercenarios, e pouco estão precupados com as baixas entre eles, pois consideram que o genocídio desse povo seria um bem para a humanidade. Vencendo a Guerra, os gastos devem ser pagos pelos vencidos em pesados impostos e concessão de territórios conquistados. Os soldados inimigos são escravizados. Qualquer criminoso tem sua orelha esquerda decepada para servir de estigma social. As pessoas com deficiências são impedidas de se casar. Os homens castigam fisicamente suas mulheres, e ambos castigam fisicamente suas crianças e escravos.
A coisa impressionante é que na Inglaterra do século XVI a desigualdade social era maior que em Utopia, a liberdade ainda menor, as penas criminais mais duras (a pena de morte aplicada a ladrões que roubavam por fome), a guerra ainda mais desumana. Ou seja, a nossa sociedade atual não apenas é muito mais igualitária, livre e fraterna do que a sociedade feudal e mercantil do século XVI, ela é em muitos aspectos muito mais utópica que a mais utópica sociedade imaginada naquela época. Nós somos uma sociedade pós Utopia.
Acho que o grande erro da visão pessimista, antiprogressista e reacionária do neoconservadorismo pós-moderno é confundir flutuações com tendências. Se para cada dois passos em direção ao horizonte utópico eu dou um passo para trás, não podemos ficar impressionados com o passo para trás e esquecer a média. Para averiguar o progresso social, faça médias geracionais, ou seja, médias de 30 anos ou mais. Compare 2010 com 1980, 1950, 1920, 1890, 1860, 1830, 1800 até a aurora da civilização na Mesopotâmia em 4000 AEC.,… em termos de IDH mundial, direitos humanos, violência (per capita), destruição ambiental (per capita), número de mortes em guerras (per capita), taxa de mortalidade infantil. Se você quer uma medida de educação e cultura, meça o número de livros (per capita) e a porcentagem da população mundial alfabetizada. Use medidas estatísticas, taxas per capita em vez de valores absolutos. É simples assim.
Ou seja, no horizonte definito pelo desejo de mais liberdade, igualdade e fraternidade, a humanidade vem “progredindo socialmente” há milênios, realizando um random walk (Levy flight?) com bias positivo no espaço das organizações sociais. O Paraíso não está na época do Bom Selvagem (que nunca existiu – o bom selvagem foi o responsável pela extinção da megafauna americana) ou na Era de Ouro grega. O Paraíso está na Terra Prometida, na Utopia, na Gaia Pensante, na Federação de Planetas Unidos, na Biosfera Galática, no futuro.
Na pior das hipóteses, a civilização humana pode fracassar no caminho de erigir ou contribuir para a GWW (Galactic Wide Web). Mas basta que uma entre as várias civilizações tecnológicas planetárias consiga esverdear a Galáxia, no dizer de Freeman Dyson, para que a Vida se espalhe, permaneça e talvez crie outros Universos antes deste chegar ao fim. A Civilização Galática Utópica é, em termos puramente estatísticos, inevitável.
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