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Ética, ciência, ética científica e ciência da ética

Post originalmente colocado na (saudosa) Roda de Ciência (Março de 2009).
 

Parafraseando Pareto, conceber uma ética (ou uma religião) baseada na ciência é gerar um monstro, no sentido de uma “criatura bizarra”, uma quimera que une partes de animais diferentes.
Rubem Alves (alguém que normalmente não cito) diria que “a ciência pode ensinar como cultivar um jardim, mas não pode despertar o desejo de transformar um deserto em um jardim”… Basicamente ele relaciona o campo do desejo com as “religiões” (quer religiosas, quer seculares), ou pelo menos com a espiritualidade. Desejar demais algo é adorar…
Max Weber (ao lado) defende algo semelhante em “Ciência e Política, duas vocações“: que o que o cientista pode fazer não é justificar fins mas auxiliar na análise dos meios (os meios são eficazes para tais fins?). Quem define os fins são (ou deveriam ser) as pessoas diretamente afetadas pelos mesmos, e isto é um exemplo de afirmação ética, não científica.
Eu simpatizo com as posições éticas de Peter Singer (ver Vida Ética) embora reconheço que o Utilitarismo (uma das éticas axiomáticas possíveis) possui um defeito grave: não funciona em um mundo (como o nosso) que apresenta fenômenos críticos e caóticos: ou seja, não podemos predizer se a ação que tomamos agora irá maximizar a diminuição do sofrimento no futuro.
Então eu imagino que o que temos que discutir aqui são as relações entre a Ética e a Ciência, não a redução de uma à outra ou vice-versa. Que relações? A(s) ética(s) podem questionar os fins a que se propõe os cientistas (pois os fins da ciência fazem parte de sua ética, não são científicamente justificáveis): por exemplo, obter conhecimento a qualquer custo ou risco não é éticamente defensável. Os meios apresentados por cientistas para se atingir certos fins (sociais, tecnológicos etc) também podem ser questionados éticamente. E assim vai…
Na direção contrária, a Ciência pode estudar a origem da “predisposição humana para a ética” em termos de psicologia evolucionária ou de teoria de jogos. E fazer também a crítica de certos sistemas éticos, com relação a sua eficácia ou viabilidade, como eu fiz rapidamente em relação ao Utilitarismo.
Além disso existe uma Ética da Ciência tipo “não roubarás as idéias do teu próximo”, “não falsificarás dados”, “não usarás teu anônimato como referee para oprimir o orientado do teu inimigo”… Mas o que basearia ou fundamentaria tal ética? Quais são seus axiomas éticos, a partir dos quais poderiamos deduzir tais preceitos práticos? Talvez isso possa ser o tema de um outro post.
Acho que falei um monte de trivialidades (menos a crítica do Utilitarismo, que é original minha embora eu possa ter reinventado a roda). Então proponho aqui uma atitude ética: tomarmos muito cuidado quando formos relacionar Ética e Ciência e não achar que o problema seja fácil, como geralmente querem as partes em uma discussão ético-científica polarizada.
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