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Podem os ateus tornarem os religiosos mais racionais?

Ao contrário de muitos de meus amigos ateus, tenho muitos amigos tanto ateus quanto religiosos. Isso significa que tenho acesso a uma experiência mais ampla em termos de troca de ideias e relações interpessoais. Recentemente, Nestor Caticha, Renato Vicente e colegas, em um trabalho de sociologia computacional baseado na teoria moral de Haidt, mostrou que a interação social diversificada evita que nos fechemos em um gueto cultural e facilita o surgimento de uma mente liberal (ao contrário de mentes conservadoras) que privilegia os valores de cuidado, justiça e liberdade mais do que valores de lealdade ao grupo, autoridade e pureza.

Meus amigos religiosos (como Reinaldo José Lopes), porém, são mais racionais que a média de sua população. Meus amigos ateus também, embora um ou outro as vezes cai num ateísmo militante que enfatiza a lealdade ao grupo (de ateus), autoridade (de Dawkins) e pureza (um ateu puro não deve apreciar objetos – musica, arte, arquitetura – de origem religiosa). Ou seja, alguns de meus amigos ateus são, mentalmente, conservadores na classificação de Haidt (por causa de seu isolamento social?), e não é a toa que muitos votam no PSDB e mesmo têm a posição ultraliberal em economia defendida pelo pastor Everaldo e Ayn Rand.

Dado que minha tarefa principal como cientista é a divulgação da ciência (e não do ateísmo, que é uma filosofia particular – uma outra é o neo-Deísmo),  visando que seja valorizada e apreciada pelo maior número de pessoas, tenho tentado pensar soluções racionais e realísticas para esse problema. Segundo alguns amigos meus, apenas ateus podem realmente aceitar e apreciar a ciência: religiosos que gostam e divulgam ciência, como Reinaldo Lopes (que considero o melhor blogueiro de ciências brasileiro em termos de adequação da linguagem para o público leigo), seriam ou esquizofrênicos ou portadores de dissonância cognitiva. Sim, não apenas Reinaldo, mas também os inúmeros cientistas religiosos espalhados pelo mundo: todos esquizofrênicos!

Ora, o problema da agenda ateísta para melhoria do mundo é que ela não é sensata, racional ou científica, e não se baseia em estudos sociológicos e demográficos sérios. Por exemplo, Richard Dawkins afirma que seu objetivo de vida é a destruição de todas as religiões (e nisso o Estado Islâmico é seu aliado ao destruir templos e estátuas budistas). Só que destruir todas as religiões é uma Utopia não realizável: os comunistas tinham mais recursos, energia e mesmo o monopólio estatal da violência (comparado com o ateísmo atual) para combater a religião, mas não conseguiram. Basta ver o exemplo da China comunista que, mesmo depois da  Revolução cultural Maoista, possui o maior contingente cristão do mundo atualmente. O processo de secularização do mundo moderno teve os seus vai-e-vens, avanços e reações, e não está claro se atualmente estamos em um período de secularização ou em um período de contra-reação religiosa estimulada pelo neo-ateísmo militante.

Além disso, em termos demográficos, os religiosos aumentam sua população (“crescei e multiplicai-vois”)  enquanto que os ateus na Europa desenvolvida e no Japão ficam trocando filhos por cachorro e gato: afinal, não é racional ter filhos, pois isso envolve risco no parto para a mãe e inúmeras despesas, perda de liberdade, perda de nível econômico etc. Mulheres estritamente racionais não tem filhos, ponto! Se tiverem, isso é devido a instintos gerados por genes egoístas não racionais e pressão social irracional.

Pior ainda, vai que o filho vira crente! Nos anos de adolescência rebelde isso geralmente acontece com os filhos de ateus (um exemplo seria o filho monge budista de Changeaux, autor do Neuronal Man), assim como os filhos de crentes viram ateus na adolescência: tudo facilmente explicado por uma psicodinâmica familiar que nada tem a ver com a Razão. Ou seja, demograficamente, os muçulmanos, os mórmons e o pessoal do Bible Belt entendem bem melhor sobre o que significa fitness biológico que os ateus com apenas zero, um ou dois filhos.

Mas vamos voltar ao assunto: como fazer com que uma porcentagem cada vez maior da sociedade brasileira aprecie e valorize a ciência (e não apenas a tecnologia)? A proposta de “se aumentarmos o número de ateus então o número de apreciadores de ciência crescerá” pode até estar correta (isto não é óbvio, pois existem inúmeros ateus adeptos das pseudociências e outros que tem ojeriza filosófica pela ciência, como Nietzsche), mas é sociologicamente inviável: precisamos divulgar a ciência aqui e agora (e essa divulgação científica inclusive pode até formar novos ateus, mas não o inverso), sem esperar por uma Utopia ateísta onde todas as religiões foram destruídas, Utopia que pode muito bem nunca acontecer.

Como fazer isso? Bom, eu tenho uma proposta concreta: os ateus divulgadores de ciência não devem tentar converter os crentes, uma atividade com minúsculo e demorado resultado, basta fazer a estatística de quantos neoateus da ATEA eram, anteriormente, crentes fervorosos… 0,001%?. E quantos bons ateus se tornaram religiosos depois da juventude? Na verdade muitos, por exemplo meu falecido pai, que me deu o “Por que não sou cristão? ” do Russell quando eu tinha 15 anos. E essa conversão ateu -> crente está cada vez mais facilitada pelas drogas enteogênicas tais como maconha e chá de Ayahuasca…

O que os ateus precisam entender é que existe um espectro de racionalidade entre os religiosos: dos mais fanáticos e intolerantes, passando pelos místicos, depois pelo crente comum sem formação filosófica (mas que pode ser muito racional no seu dia a dia), depois os religiosos que gostam de Ciência e até mesmo de Fiçcão Científica (caso do escritor Orson Scott Card, que morou aqui em Ribeirão Preto enquanto missionário mórmon) culminando com os cientistas religiosos.

Então, a tarefa realista para os ateus divulgadores de ciência é tentar converter, usando a própria divulgação cientifica, histórica e filosófica (por exemplo, a critica bíblica e a arqueologia, como bem faz Reinaldo Lopes)  um crente fanatizado em um crente moderado racional (no sentido de um agente racional em economia), e ajudar a fazer a transição de um crente moderado para um crente apreciador de ciência e cultura. Isso pode ser feito, é viável sociologicamente e deve ser feito.

Mas para isso, o ateu militante precisa ser ser mais cordial, ter um mínimo de urbanidade e renunciar à propaganda de ódio contra os religiosos que apenas leva o ateu ao ridículo, como fica claro nesta página da Desciclopédia. Idealmente, precisa fazer, senão uma certa amizade com os mesmos (a sociologia mostra que adquirimos ideias principalmente de nossos amigos e não de nossos adversários) pelo menos abrir um canal de comunicação que não fique entupido por emocionalismos,  frases de efeito e piadinhas meméticas. Afinal, é papel do ateu ser mais racional e civilizado do que os religiosos, não o contrário.

Nesse sentido, o blogueiro Reinaldo Lopes tem feito mais para trazer os cristãos para uma atitude mais racional, histórica e cientifica do que o resto da blogosfera atéia inteira. Considero isso um verdadeiro fracasso dessa blogosfera: ficar pregando para os já convertidos (ao ateísmo) e mandar a mensagem para a maioria religiosa da população que “se você soubesse mais ciência sua fé ficaria abalada”. Essa frase até pode ser verdadeira (ou pelo menos tal fé seria reformulada em outro patamar), mas é a ideia errada na divulgação cientifica, pois as pessoas não vão renunciar à sua fé por causa da ciência.

De novo, o motivo é puramente sociológico: o que os ateus militantes precisam entender é que a religião não é primordialmente um sistema de crenças cognitivas para as pessoas em geral. A comunidade religiosa é basicamente um espaço de desenvolvimento pessoal e interpessoal, de efeito terapêutico (por exemplo contra a anomia depressiva da falta de sentido existencial, falta de sentido enfatizada pelo ateísmo!) e de formação de redes sociais. Toda comunidade religiosa funciona como uma espécie de maçonaria light (por isso as pessoas se chamam de irmãos, a fim de criar uma base memética para o altruísmo sociobiológico de parentesco). Essas relações tipo maçônicas, onde um irmão compra na loja do outro porque tem ali uma faixa “Deus é fiel (em suas promessas de prosperidade)” são de fundo econômico, e a infra-estrutura  econômica explica a consciência religiosa superestrutural, como já diagnosticava com acerto tanto Marx como Dawkins, caso ele tomasse realmente a sério sua Memética em sociologia, em vez de perder tempo com a analogia fácil religião = vírus mental. Afinal, só as ideias dos outros são vírus mentais? E as nossas?

Estou já advinhando o comentário de alguns amigos ateus mais radicais: “Ah, mas esse religioso moderado que gosta e apoia a ciência nunca poderá se tornar um verdadeiro cientista (pois afinal, todos os verdadeiros cientistas são ateus, os que não são ateus não são verdadeiros cientistas mas sofrem de dissonância cognitiva)”. Bom, o que eu posso dizer é que é muito melhor se mover na direção correta rumo a uma maior racionalidade e menor fanatismo do que ficar dando murro em ponta de faca. Aparece aqui a valorização da pureza conservadora: ou a pessoa é 100% atéia ou ela não é um ser humano (parcialmente) racional. Tal tipo de purismo ou puritanismo, porém, cabe apenas aos fanáticos. E de fanáticos já estamos cheios, não?

PS: Acho que faltou aqui uma definição de fanático. Darei esta: um fanático é uma pessoa incapaz de rir de si mesma e usar este riso como forma de auto-crítica. O fanático se leva demasiadamente a sério e não sabe brincar com suas próprias contradições. Tenho muitos amigos religiosos, tanto católicos como evangélicos,  que apreciam muito as piadas sobre si mesmos (acho que a quantidade delas daria um livro). Por outro lado, não tenho visto ateus contando piadas sobre ateus, visando pelo menos uma leve autocrítica. Bom, se alguém conhecer um site de piadas sobre ateus feito por ateus, por favor me comunique aí nos comentários.

Exemplo de piada: O crente morreu e foi recebido por um anjo no Céu. O anjo lhe falou que iria apresentar os bairros celestes. O homem foi acompanhando o anjo, que primeiro lhe mostrou um bairro chique, tipo um Morumbi celeste. “Aqui moram os Presbiterianos”, disse o anjo, complementando: “A casa do Airton Sena é logo ali”. “Ah, sim, os Presbiterianos, reconheceu o homem”. Depois visitaram um bairro de classe média. “E aqui moram os Metodistas”, confirmou o anjo. “Ali do lado tem até um polo de EAD da UNIMEP”, informou o anjo.”Claro, os Metodistas”, disse o crente. Em seguida o anjo lhe apresentou uma espécie de BNH celeste, com casinhas humildes que se perdia de vista. “E aqui estão o pessoal das Assembleias de Deus”, comentou o anjo. “Claro, Assembleias de Deus”, observou o homem impressionado com a vastidão do lugar. Depois entraram em um grande galpão, que lembrava um clube, onde os crentes cantavam hinos fervorosamente. “E aqui moram os Batistas…” disse o anjo bem baixinho. “O quê?”, perguntou o homem. “Aqui moram os Batistas”, sussurrou o anjo, ainda mais baixo. “Sim, mas, seu anjo, por que o sr. está falando tão baixo assim?”, exclamou o crente. “Shiuuu”, fez o anjo. “Fale baixo, eles pensam que estão sozinhos!”.

OK, acho que apenas quem conhece as denominações protestantes, evangélicas e pentecostais – que são três coisas diferentes – entende a piada, mas ela é contada até pelos Batistas…

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