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O Bonobo e o Ateu

Concordo com de Wall, mas o perigo no século XXI não é o comunismo mas sim o neofacismo.
27/04/2013 – 03h00

‘Religião não é fonte da moral, mas eliminá-la é temerário’, diz primatólogo

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Para alguém que tem se especializado em demonstrar que o ser humano e os demais primatas têm um lado pacífico e bondoso por natureza, Frans de Waal conseguiu comprar briga com muita gente diferente.

Autor de “The Bonobo and the Atheist” (“O Bonobo e o Ateu”), que acaba de sair nos Estados Unidos, o primatólogo holandês-americano provavelmente não agradará muitos religiosos ao argumentar que ninguém precisa de Deus para ser bom.

Seu modelo de virtude? O bonobo (Pan paniscus), um primo-irmão dos chimpanzés conhecido pela capacidade de empatia com membros de sua espécie e de outras, pela sociedade tolerante, sem “guerras”, e pelo uso do sexo para resolver conflitos.

Com base nos estudos com grandes macacos e outros mamíferos sociais, como cetáceos e elefantes, De Waal diz que a moralidade não surgiu por meio de argumentos racionais nem graças a leis ditadas por Deus, mas deriva de emoções que compartilhamos com essas espécies.

Bonobos e chimpanzés sabem que é seu dever cuidar de um amigo doente, retribuir um favor ou pedir desculpas.

Por outro lado, o livro é uma crítica aos Novos Ateus, grupo capitaneado pelo britânico Richard Dawkins que tem dado novo impulso ao conflito entre ateísmo e religião desde a última década.

“Eu não consigo entender por que um ateu deveria agir de modo messiânico como eles”, diz De Waal, ateu e ex-católico. “O inimigo não é a religião, é o dogmatismo.”

*download

Folha – Quem está mais bravo com o sr. depois da publicação do livro?
Frans de Waal – Bem, no caso dos ateus, recebi muitas mensagens de gente que me apoia. É claro que, em certo sentido, estou do lado deles, tanto por também ser ateu quanto por acreditar que a fonte da moralidade não é a religião. O que eu digo no livro é que os Novos Ateus estavam gritando alto demais e que precisam se acalmar um pouco, porque a estratégia deles não é a melhor.

Em seu livro, o sr. faz uma referência ao romance “O Senhor das Moscas”, de William Golding, história na qual garotos perdidos numa ilha reinventam vários aspectos da sociedade, inclusive a religião. Mas a religião que eles criam é brutal, com sacrifícios humanos. O sr. acha que a religião nasceu brutal e foi ficando mais humanizada?
Acho que não. Quando olhamos para as sociedades tradicionais de pequena escala, que foram a regra na pré-história, vemos que esse tipo de coisa não está presente entre elas.
É claro que elas tinham crenças sobre o mundo sobrenatural e podiam sacrificar um ou outro animal aos deuses, mas, no geral, eram relativamente benignas.
É só quando as sociedades aumentam de escala que elas começam a se tornar mais agressivas e dogmáticas.

Quando se enfatiza o lado pacífico e ético das sociedades de primatas não humanos e do próprio homem, não há um perigo de fechar os olhos para a faceta violenta dela?
Concordo que, nos meus livros mais recentes, essa ênfase existe. Por outro lado, meu primeiro livro, “Chimpanzee Politics” [“Política Chimpanzé”, sem tradução no Brasil], era totalmente focado na violência, na manipulação maquiavélica e em outros aspectos pouco agradáveis da sociedade primata. Mas a questão é que surgiu uma ênfase exagerada nesses aspectos negativos, e as pessoas não estavam ouvindo o outro lado da história.

O sr. acha que encontrar um chimpanzé ou bonobo cara a cara pela primeira vez pode funcionar como uma experiência religiosa ou espiritual?
Eu não chamaria de experiência religiosa (risos), mas é uma experiência que muda a sua percepção da vida.
No livro, conto como a chegada dos primeiros grandes macacos vivos à Europa no final do século 19 despertou reações fortes, em vários casos deixando o público revoltado porque havia essa ideia confortável da separação entre seres humanos e animais. Por outro lado, gente como Darwin viu aquela experiência como algo positivo.

E o sr. sente que essa aversão aos grandes macacos diminuiu hoje?
Sim, e isso é muito interessante. Eu costumo dar palestras em reuniões de sociedades zoológicas de grandes cidades aqui nos Estados Unidos. Tenho certeza de que muitas pessoas ali são religiosas. E esse público é fascinado pelos paralelos e pelas semelhanças entre seres humanos e grandes macacos ou outros animais.
Isso não significa que queiram saber mais sobre a teoria da evolução, mas elas acolhem a conexão entre pessoas e animais.

Na sua nova obra, o sr. defende a ideia de que não se pode simplesmente eliminar a religião da vida humana sem colocar outra coisa no lugar dela. Que outra coisa seria essa?
É preciso reconhecer que os seres humanos têm forte tendência a acreditar em entidades sobrenaturais e a seguir líderes. E o que nós vimos, em especial no caso do comunismo, no qual houve um esforço para eliminar a religião, é que essa tendência acaba sendo preenchida por outro tipo de fé, que se torna tão dogmática quanto a fé religiosa.
Então, o temor que eu tenho é que, se a religião for eliminada, ela seja substituída por algo muito pior. Acho preferível que as religiões sejam adaptadas à sociedade moderna.

Outro argumento do livro é que o menos importante nas religiões é a base factual delas. O mais relevante seria o papel social e emocional dos rituais. Para quem é religioso e se importa com a verdade do que acredita, não é uma visão que pode soar como condescendente ou desonesta?
Pode ser que, para quem é religioso, essa visão trivialize suas crenças. Mas, como biólogo, quando vejo alguma coisa que parece existir em quase todos os grupos de uma espécie, a minha pergunta é: para que serve? Que benefício as pessoas obtêm com isso? Não tenho a intenção de insultar ninguém com esse enfoque.

The Bonobo and the Atheist
editora W.W. Norton & Company
preço R$ 29,35 (e-book na Amazon.com), 313 págs.

Palestra no Instituto de Estudos Avançados (RP) sobre Ciência e Religião

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ciência e Religião: quatro perspectivas

Escrito por 

Data e Horário: 26/11 às 14h30
Local: Salão de Eventos do Centro de Informática de Ribeirão Preto – CIRP/USP (localização)

O evento, que será apresentado por Osame Kinouchi, discutirá quatro diferentes visões sobre a interação entre Ciência e Religião: o conflito, a separação, o diálogo e a integração. Examinando as fontes de conflito recentes (Culture Wars), o professor sugere que elas têm origem no Romantismo Anticientífico, religioso ou laico.

Segundo Osame, a ideia de separação entre os campos Religioso e Científico já não parece ser viável devido aos avanços da Ciência em tópicos antes considerados metafísicos, tais como as origens do Universo (Cosmologia), da Vida (Astrobiologia), da Mente (Neurociências) e mesmo das Religiões (Neuroteologia, Psicologia Evolucionária e Ciências da Religião).
A palestra mostrará também que tentativas de integração forçada ou prematura entre Religião e Ciência correm o risco de derivar para a Pseudociência. Sendo assim, na visão do professor, uma posição mais acadêmica de diálogo de alto nível pode ser um antídoto para uma polarização cultural ingênua entre Ateísmo e Religiosidade.

Vídeo do evento

Ciência como Brincadeira

Ação e reação na manutenção de crenças

How facts backfire

Researchers discover a surprising threat to democracy: our brains

By Joe Keohane July 11, 2010

It’s one of the great assumptions underlying modern democracy that an informed citizenry is preferable to an uninformed one. “Whenever the people are well-informed, they can be trusted with their own government,” Thomas Jefferson wrote in 1789. This notion, carried down through the years, underlies everything from humble political pamphlets to presidential debates to the very notion of a free press. Mankind may be crooked timber, as Kant put it, uniquely susceptible to ignorance and misinformation, but it’s an article of faith that knowledge is the best remedy. If people are furnished with the facts, they will be clearer thinkers and better citizens. If they are ignorant, facts will enlighten them. If they are mistaken, facts will set them straight.

In the end, truth will out. Won’t it? Maybe not. Recently, a few political scientists have begun to discover a human tendency deeply discouraging to anyone with faith in the power of information. It’s this: Facts don’t necessarily have the power to change our minds. In fact, quite the opposite. In a series of studies in 2005 and 2006, researchers at the University of Michigan found that when misinformed people, particularly political partisans, were exposed to corrected facts in news stories, they rarely changed their minds. In fact, they often became even more strongly set in their beliefs. Facts, they found, were not curing misinformation. Like an underpowered antibiotic, facts could actually make misinformation even stronger. This bodes ill for a democracy, because most voters — the people making decisions about how the country runs — aren’t blank slates. They already have beliefs, and a set of facts lodged in their minds.

The problem is that sometimes the things they think they know are objectively, provably false. And in the presence of the correct information, such people react very, very differently than the merely uninformed. Instead of changing their minds to reflect the correct information, they can entrench themselves even deeper. “The general idea is that it’s absolutely threatening to admit you’re wrong,” says political scientist Brendan Nyhan, the lead researcher on the Michigan study. The phenomenon — known as “backfire” — is “a natural defense mechanism to avoid that cognitive dissonance.”

These findings open a long-running argument about the political ignorance of American citizens to broader questions about the interplay between the nature of human intelligence and our democratic ideals. Most of us like to believe that our opinions have been formed over time by careful, rational consideration of facts and ideas, and that the decisions based on those opinions, therefore, have the ring of soundness and intelligence. In reality, we often base our opinions on our beliefs, which can have an uneasy relationship with facts. And rather than facts driving beliefs, our beliefs can dictate the facts we chose to accept. They can cause us to twist facts so they fit better with our preconceived notions. Worst of all, they can lead us to uncritically accept bad information just because it reinforces our beliefs. This reinforcement makes us more confident we’re right, and even less likely to listen to any new information. And then we vote. Continua…

A Relatividade do Relativismo Ético

Ética e direitos humanos

Desidério Murcho

Universidade Federal de Ouro Preto

Um dos papéis públicos da filosofia é esclarecer confusões comuns. Uma dessas confusões formula-se rapidamente na forma de uma contradição: ao mesmo tempo que é comum considerar-se que “os valores são relativos” (às culturas, por exemplo, ou ao contexto histórico) é também comum defender a universalidade dos direitos humanos; mas se os direitos humanos são meramente relativos, não são universais e se não são universais qualquer cultura, sociedade, comunidade ou pessoa nada está a fazer de errado se não aceitar os direitos humanos. A limite, isto significaria que os colonizadores que fundaram o Brasil com base na exploração de índios e de negros, nada de errado moralmente teriam feito, pois estariam apenas a obedecer aos seus valores, que contudo não são agora os nossos. Como sair desta contradição aparente? Serão realmente os valores relativos? Serão os direitos humanos universais? Este é o tema destas páginas.

É preciso começar por dizer alguma coisa sobre a natureza da filosofia, que muitas vezes não é entendida correctamente. A filosofia dá origem a perplexidades porque nem é literatura, nem é religião, nem é ciência. Não é ciência porque não é constituída por um conjunto enorme de resultados, como acontece com a física ou a biologia ou a matemática ou a lógica. Não é religião porque não se baseia na autoridade, tradição e escritos considerados sagrados. E não é literatura porque não visa efeitos estéticos nem a construção de ficções. Precisamente porque a filosofia não é qualquer destas coisas, é por vezes reduzida a qualquer uma delas. Assim, faz-se por vezes da filosofia uma disciplina meramente técnica ou científica, com muita lógica ou muitas questões exegéticas. Outras vezes, faz-se da filosofia uma espécie de discurso religioso que visa dizer-nos coisas reconfortantes e que nos dão esperança. Outras vezes ainda lê-se os filósofos como se fossem romancistas, construtores de ficções sem outra pretensão que não a de proporcionar momentos agradáveis de leitura amena.

Não é assim que entendo a filosofia, e penso que ao longo da história da filosofia não foi também assim que a maior parte dos filósofos a entenderam. Entendo que a filosofia se ocupa de problemas de real interesse cognitivo, apesar de não serem problemas que tenham resolução científica. Vejamos alguns desses problemas, em contraste com problemas que não são filosóficos:

  1. Serão os valores relativos (à história, às sociedades, aos indivíduos)?
  2. Será toda a realidade uma mera ilusão?
  3. Sabemos realmente o que pensamos que sabemos?

O primeiro destes problemas será abordado de seguida. Os outros são problemas respectivamente da metafísica e da epistemologia. O que há de comum a todos é que não se consegue ver que tipo de metodologia científica se poderia usar para tentar responder-lhes. Compare-se com três problemas subtilmente diferentes:

  1. Diferentes pessoas, em diferentes momentos da história e em diferentes sociedades, têm valores diferentes?
  2. Algum filósofo defende que toda a realidade é uma mera ilusão?
  3. Como explicar os processos cognitivos que ocorrem no cérebro de uma pessoa quando ela conhece algo?

Nenhum destes problemas é filosófico precisamente porque só empiricamente podem ser adequadamente estudados. No primeiro caso, trata-se de um problema sociológico e antropológico, e só pode ser adequadamente estudado fazendo investigação empírica, típica em sociologia — inquéritos, estatísticas, etc. No segundo caso, trata-se de algo que só pode responder-se recorrendo aos métodos empíricos da história da filosofia — leitura e interpretação de textos, nomeadamente. E o terceiro problema só pode ser adequadamente estudado recorrendo aos métodos empíricos da psicologia cognitiva.

Os problemas filosóficos têm assim duas características curiosas:

  1. Não se consegue ver como poderão ser resolvidos recorrendo às metodologias das ciências empíricas, como a sociologia ou a física, nem formais, como a lógica ou a matemática;
  2. Apesar disso, não é possível demonstrar sem contradição que os problemas da filosofia são todos meras confusões ou ilusões.

A filosofia é, assim, uma disciplina em que nos dedicamos ao estudo de problemas em aberto, que ninguém sabe como se resolvem. A tentação natural e de senso comum é desistir de tentar resolvê-los, por se pensar que só vale a pena enfrentar problemas quando já temos metodologias para os resolver. Deve-se resistir a esta tentação, entre outras razões porque 1) saber enfrentar problemas em aberto é crucial para uma democracia saudável e 2) pode-se saber muito sobre um problema e muito ganhar em compreensão, apesar de não sabermos resolvê-lo.

Vejamos o primeiro aspecto. Os problemas sociais, económicos e políticos que enfrentamos nas nossas sociedades são insusceptíveis de solução científica. Certamente que as ciências — como a medicina ou a economia — muito nos ajudam a resolver alguns dos problemas das nossas sociedades. Mas não nos dão respostas prontas, que possamos aplicar cegamente. Para resolver os problemas das populações precisamos de discernimento; precisamos de tomar decisões sem garantias científicas de que estamos a fazer o melhor. Isto significa que precisamos de saber deliberar e discernir quando não há soluções científicas para os nossos problemas. Por exemplo, a engenharia diz-nos exactamente como podemos fazer uma ponte de modo a suportar o peso que queremos que suporte; mas nenhuma ciência nos diz se é melhor fazer uma ponte ou um hospital ou uma escola; se é melhor tomar esta ou aquela decisão. Precisamos, pois, de saber pensar claramente e com discernimento onde as meras receitas científicas e matemáticas não se aplicam. Uma formação adequada em filosofia pode ajudar-nos a fazer isso melhor precisamente porque em filosofia estudamos problemas que ninguém sabe resolver — e tentamos resolvê-los, apesar disso.

Quanto ao segundo aspecto, pode-se saber muito sobre um dado problema sem saber resolvê-lo porque na tentativa de o resolver esclarecemos confusões, vemos que vias estão fechadas e que alternativas existem realmente. Muitas ideias que parecem óbvias quando não temos formação filosófica revelam-se confusões insustentáveis ou, pior, preconceitos interesseiros disfarçados de concepções cuidadosamente pensadas. Ao longo da história da humanidade, alguns dos maiores terrores basearam-se precisamente em preconceitos interesseiros em que ninguém poderia genuinamente acreditar se pensasse seriamente no assunto, mas em que era muito vantajoso acreditar. Por exemplo, duvido que os esclavagistas europeus do séc. XV pudessem acreditar em boa-fé que os negros ou os índios não tinham alma, ou que os alemães pudessem realmente acreditar que os judeus eram sub-humanos; mas em ambos os casos estas ideias prevaleceram porque era vantajoso acreditar nelas e porque ninguém as analisava cuidadosamente para ver se eram realmente sustentáveis. A filosofia, mesmo não apresentando resultados aplicáveis para a melhoria da sociedade, como acontece com a engenharia ou a medicina, pode mesmo assim ter um papel público fundamental: o de pôr em causa com rigor os preconceitos do nosso tempo, ensinando-nos a pensar cuidadosamente.

Comecei com estes esclarecimentos porque algumas pessoas encaram a filosofia não como uma actividade primariamente cognitiva e crítica, mas como um discurso emocionalmente reconfortante, que serve para dar um ar de fundamentação académica às ideias que já preferimos. O que farei, ao invés, é: 1) mostrar que o relativismo ético, muito comum hoje em dia, é incompatível com a aceitação da universalidade dos direitos humanos, 2) argumentar que a ideia de que os valores são relativos se baseia em maus argumentos e confusões e 3) mostrar como se pode ter uma concepção minimalista da ética que evite as confusões atrás detectadas.

A ética é uma disciplina filosófica que estuda três famílias de problemas, dividindo-se por isso em três áreas:

  1. A metaética estuda problemas relacionados com a natureza da própria ética, como a questão de saber se os valores éticos são relativos ou não — tema que abordaremos de seguida;
  2. A ética normativa estuda o problema de saber o que é o bem último, isto é, o bem que não é meramente instrumental para outros bens, e o problema de saber o que faz uma acção ser boa — o deontologismo, o consequencialismo, a ética das virtudes e o contratualismo são as quatro grandes famílias de teorias éticas normativas;
  3. Finalmente, a ética aplicada ou prática estuda problemas como a permissibilidade do aborto, a relevância moral dos animais inumanos, a obrigatoriedade de ajudar as populações mais pobres ou a moralidade da guerra.

Alguns autores fazem uma distinção confusa entre ética e moral, que tem raiz em Hegel, mas que nada esclarece e só confunde. Usarei os termos “ética” e “moral” como sinónimos, até porque o segundo tem origem num termo latino que é a tradução do termo grego que é a origem do primeiro. A ética não é um mero conjunto mais ou menos arbitrário de códigos de conduta; entre outras coisas, é o estudo cuidadoso das razões a favor ou contra a nossa conduta. Isto significa que em ética se dá muita importância à argumentação: queremos saber que razões há para agir ou não agir de determinada maneira, por exemplo.

O relativismo cultural, em ética, distingue-se da mera diversidade cultural. A diversidade cultural é apenas a existência de diversas culturas, eventualmente com diferentes códigos de comportamento. O relativismo cultural é uma tese ética: um tipo particular de relativismo moral. O relativismo moral é qualquer posição que defenda que as acções são correctas ou incorrectas, e os estados de coisas são bons ou maus, relativa e não absolutamente. Relativamente a quê? Depende do tipo de relativismo moral. Quando se defende que são relativos ao tempo histórico, trata-se de relativismo histórico; quando se defende que são relativos a cada pessoa em particular, trata-se de subjectivismo; quando se defende que são relativos a culturas ou mentalidades, trata-se de relativismo cultural. Estes são três tipos de relativismo moral, e podem ser combinados entre si.

Do ponto de vista do relativismo cultural não há diferença entre uma população considerar que um certo comportamento é moral e esse comportamento ser realmente moral. Por exemplo, se numa cultura se considerar que é moral excluir as mulheres ou os negros da vida política, então é realmente moral fazer tal coisa. Dado que no séc. XIX se considerava isso mesmo na Europa e noutros países, então era realmente moral fazer isso.

O relativismo cultural opõe-se ao irrelativismo. Não uso a palavra “absolutismo” porque esta palavra dá origem a duas ilusões.

A primeira é dar a impressão de que quem se opõe ao relativismo cultural está obrigado a defender que todos os valores são absolutos, o que é falso. Compare-se com alguém que se opõe à ideia de que todos os homens são louros; esta pessoa não está obrigada a defender que nenhum homem é louro, mas apenas que alguns homens não são louros. O mesmo acontece com o relativismo cultural: dado que quem defende esta ideia aceita que todos os valores são relativos à cultura, quem se opõe a esta tese só tem de defender que alguns valores não são relativos à cultura. Não tem por isso de defender que nenhum valor é relativo à cultura, como a palavra “absolutismo” dá a entender.

A segunda ilusão é confundir o relativismo moral com o contextualismo moral. A negação do relativismo cultural é compatível com a aceitação do contextualismo moral. Compare-se com alguém que se opõe à ideia de que as verdades são relativas; esta pessoa nega que uma mesma verdade, como “Hoje é terça-feira,” possa ser falsa só porque uma dada cultura ou conjunto de pessoas consideram que é falsa. Mas esta rejeição é compatível com a aceitação de que a frase “Hoje é terça-feira,” proferida amanhã, é falsa, apesar de ser verdadeira hoje — mas isto não é relativismo, é apenas atenção ao contexto. Em diferentes contextos, a mesma frase exprime diferentes ideias, que poderão ser verdadeiras ou falsas em função do contexto. O que opõe o relativista ao irrelativista quanto à verdade é o primeiro considerar que a verdade é sempre relativa ao que as pessoas consideram, ao passo que o segundo afirma que isso nem sempre acontece. Contudo, aceitar que as frases são relativas aos contextos em que são proferidas não é uma forma de relativismo, mas sim de contextualismo — e é inócuo. Afinal, é evidente que, entre outras razões, é porque a neve é branca que a frase “A neve é branca” é verdadeira. Contextualismo não é relativismo.

O mesmo acontece no caso da ética. Quem se opõe ao relativismo moral opõe-se à ideia e que uma acção seja correcta ou incorrecta em função do que as pessoas de uma dada cultura ou tempo histórico consideram. Quem se opõe ao relativismo moral considera que as acções nem sempre são correctas ou incorrectas em função do que as pessoas consideram, e portanto que a maior parte das pessoas de uma dada cultura pode considerar que, por exemplo, excluir as mulheres e negros seja moralmente correcto, apesar de na realidade isso não ser moralmente correcto. Esta ideia, contudo, é compatível com o contextualismo moral, que é a ideia banal de que as acções de um certo tipo são correctas em certas circunstâncias e incorrectas noutras. Por exemplo, numa circunstância em que uma pessoa não vê que está prestes a ser atropelada, pode ser moralmente correcto empurrá-la violentamente para lhe salvar a vida; mas, noutra circunstância, pode ser moralmente incorrecto empurrá-la violentamente. Outro exemplo: em certas circunstâncias é permissível retirar a liberdade e o direito de voto a uma pessoa, nomeadamente se cometeu um crime de um dado tipo; mas noutras circunstâncias não é permissível fazer isso a essa pessoa.

Assim, o relativismo cultural é a ideia de que todas acções são correctas ou incorrectas consoante são consideradas correctas ou incorrectas numa dada cultura. A negação disto é a ideia de que nem todas as acções são correctas ou incorrectas em função do que as pessoas pensam. O relativista nunca vê diferença entre considerar-se numa dada cultura que algo é moralmente correcto e algo ser moralmente correcto, ao passo que o seu opositor defende que pelo menos em alguns casos existe tal diferença.

O relativista moral tem de defender que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948, não exprime princípios éticos universais em qualquer sentido robusto do termo. Apesar de esta declaração ter sido aprovada por unanimidade nas Nações Unidas (com a abstenção de alguns países, como a União Soviética, a Polónia e a África do Sul), o relativista cultural terá de defender que a violação de qualquer dos direitos consagrados na Declaração é eticamente permissível desde que seja permissível numa dada cultura. Assim, se numa dada cultura se considera que é correcto discriminar as pessoas com base na origem étnica ou no sexo, violando o artigo segundo da Declaração, o relativista tem de aceitar que nessa cultura é correcto fazer tal coisa e que a Declaração se limita a exprimir uma convicção diferente.

Muitas pessoas que aceitam o relativismo cultural rejeitam a ideia de que é eticamente permissível violar qualquer um dos direitos humanos consagrados na Declaração. Mas estas duas ideias são incompatíveis. O relativismo cultural é incompatível com a ideia de direitos humanos universais.

Que razões haverá para aceitar o relativismo cultural? Uma primeira razão é pura confusão. Consiste em confundir o relativismo cultural com o respeito pela diversidade cultural. Muitas pessoas defendem que devemos respeitar as culturas alheias, e consideram que no passado os europeus e outros povos cometeram o erro moral de não respeitar as culturas alheias, impondo à força os seus padrões e classificando as culturas alheias como selvagens ou primitivas ou incivilizadas. E essas pessoas pensam que para defender este respeito pelas culturas alheias temos de defender o relativismo cultural — mas isto é uma confusão.

Em primeiro lugar, a ideia é incoerente, porque defende um valor ético universal (o respeito pelas culturas alheias) com base na premissa de que todos os valores éticos são relativos à cultura. Contudo, se todos os valores éticos fossem relativos à cultura, o valor do respeito pelas culturas alheias só poderia ser um valor relativo a certas culturas, mas não a outras. Nomeadamente, não era um valor na cultura europeia do séc. XVI, e portanto os europeus nada fizeram de moralmente errado ao não respeitar as culturas alheias.

Em segundo lugar, é simplista: não distingue o que deve ser cuidadosamente distinguido. Há uma grande diferença entre respeitar costumes que não têm relevância ética — como as cerimónias de casamento, a nudez ou os comportamentos sexuais — e respeitar costumes que têm relevância ética — como a escravatura, a discriminação das mulheres ou a violação de crianças. O respeito pelas culturas alheias tem o mesmo género de limite que tem o respeito pelos comportamentos alheios: é defensável que respeitar todos os comportamentos e estilos de vida alheios desde que não prejudiquem injustamente outras pessoas.

Em terceiro lugar, defender a tolerância de culturas alheias com base no relativismo cultural denuncia uma enorme incompreensão do conceito de tolerância. Uma pessoa não pode exercer qualquer tolerância quanto a um estilo de vida alheio se não puder condenar esse estilo de vida. Se não podemos condenar um dado estilo de vida, não podemos tolerá-lo — aceitamo-lo como bom, ou indiferente. A tolerância consiste em defender que um dado estilo de vida é condenável, por ser tolo ou por outra razão qualquer, mas que as pessoas têm o direito a viver desse modo desde que não prejudiquem ninguém. Assim, a tolerância cultural consiste em considerar que o hábito europeu de só as mulheres usarem saias é uma tolice, ao mesmo tempo que se tolera esse hábito. Se começarmos por considerar que esse hábito não é condenável, nada teremos para tolerar.

Assim, uma das motivações do relativismo cultural é pura confusão. Essa motivação é a tolerância cultural. Mas não só a tolerância cultural não resulta do relativismo cultural, como é na verdade incompatível com ele.

Vejamos agora uma segunda razão para aceitar o relativismo cultural. Neste caso, o argumento de algum modo aludido intuitivamente é o seguinte:

O que numa comunidade se considera moralmente correcto, noutra é visto como moralmente incorrecto.

Logo, não há padrões universais do correcto e do incorrecto, e a ética é relativa à cultura.

Este argumento ganhou força na Europa quando as pessoas se viram confrontadas com códigos de comportamento muito diferentes dos seus. A nudez e certos comportamentos sexuais, por exemplo, eram vistos como inaceitáveis pelos europeus, profundamente influenciados pelos códigos de conduta do cristianismo. Eis que se descobre que partes substanciais da população humana nunca tinham ouvido falar do deus cristão e não tinham o mesmo género de atitude relativamente à nudez nem ao comportamento sexual. A primeira reacção dos europeus foi condenar o modo de vida considerado imoral e selvagem; mas mesmo nesta altura muitos críticos europeus perguntavam: “se tais sociedades consideradas primitivas precisam de ser civilizadas pelos europeus, quem irá civilizar a civilização europeia, na qual há tantas iniquidades?” Assim, a primeira reacção de rejeição dos costumes alheios foi dando lugar a uma reacção diferente: diferentes povos têm diferentes códigos de comportamento, e só um certo tipo de ignorância ou soberba poderá fazer alguém pensar que o código de comportamento da sua sociedade ou comunidade é correcto, sendo todos os outros incorrectos. Esta posição é então confundida com a tese relativista, a ponto de parecer que quem hoje rejeita o relativismo é por ignorância ou soberba. Compare-se, contudo, as duas teses:

  1. Tese da diversidade cultural: diferentes culturas têm diferentes códigos de comportamento.
  2. Tese relativista: não há padrões universais do correcto e do incorrecto, e a ética é relativa à cultura.

As duas ideias são muito diferentes. A primeira diz-nos algo que podemos verificar empiricamente, algo que pode ser estudado por disciplinas como a história ou a antropologia ou a sociologia. A tese da diversidade cultural é empírica; diz respeito ao que as pessoas fazem ou pensam em diferentes culturas.

A segunda ideia é muito diferente. Não dos diz apenas que diferentes pessoas em diferentes culturas consideram que diferentes comportamentos são correctos ou incorrectos. Diz-nos que não há padrões universais do correcto e do incorrecto. Esta afirmação pode parecer mais ou menos igual à primeira porque pode ser entendida apenas empiricamente, da seguinte maneira: se fizermos uma lista de todos os padrões de comportamento das diferentes sociedades humanas, não encontraremos um denominador comum, não encontraremos padrões iguais em todas as sociedades humanas. Mas se esta ideia for entendida desta maneira, é simplesmente falsa. Em nenhuma sociedade humana é moralmente permissível torturar crianças por prazer. Em quase todas as sociedades humanas já se torturaram crianças por prazer, mas não como norma de comportamento, comummente aceite, e sim como um desvio comportamental fortemente condenado.

De modo que se entendermos empiricamente a ideia de que não há padrões universais de comportamento, a ideia é falsa. Alguns comportamentos são condenados numa sociedade e não o são noutra, mas isso não acontece com todos os comportamentos. Esta ideia, contudo, pode ser entendida não como uma tese empírica mas antes como uma tese filosófica sobre a impossibilidade de justificar padrões universais de comportamento, ainda que vários comportamentos sejam por acaso condenados em todas as sociedades. Esta ideia é muito mais forte e é isto que constitui o relativismo cultural em ética. A ideia é a seguinte: mesmo que alguns comportamentos sejam condenados em todas as sociedades, isso é irrelevante; o que é relevante é que muitos comportamentos condenados numa sociedade não o são noutra. E isto é relevante porque mostra que não pode haver justificação para condenar ou não um dado comportamento; os comportamentos são condenados ou não por motivos históricos, culturais, eventualmente até práticos, mas não têm realmente justificação, numa qualquer acepção robusta do termo.

Chegámos assim ao torna a tese do relativismo cultural tão atraente. O que a torna atraente é a perplexidade perante o que poderia justificar as nossas escolhas éticas; perante essa perplexidade, declara-se então que as escolhas éticas resultam do contexto cultural, ou outro, não podendo resultar de qualquer tipo de deliberação cuidadosa.

Se esta for a motivação fundamental do relativismo cultural, é irrelevante demonstrar cabalmente a invalidade do argumento acima apresentado a favor desta tese. O argumento, recorde-se, parte da ideia de que diferentes comunidades ou culturas consideram correctos diferentes comportamentos, e conclui que não há padrões universais do correcto e do incorrecto. Reflectindo um pouco, é óbvio que o argumento é inválido. Afinal, do facto de várias comunidades ou culturas ao longo da história considerarem correctas diferentes afirmações sobre a Terra não se pode concluir que não há afirmações universalmente verdadeiras ou falsas sobre a Terra. A mera discordância e diversidade de opiniões quanto a um assunto não permite concluir que todas as opiniões sobre esse assunto são “igualmente verdadeiras.” Apesar de ser verdade que muitas pessoas em muitas culturas pensaram que a Terra estava imóvel no centro do universo, ao passo que outras pessoas noutras culturas pensam que a Terra não está imóvel no centro do universo, dessa discordância de opiniões não se segue que a posição e movimento da Terra é relativa às culturas — ou seja, não se segue que a Terra ora se move ora não se move consoante as pessoas acreditam ou não nisso. Ou seja, da discordância e diversidade de opiniões sobre o movimento da Terra não se segue o relativismo sobre o movimento da Terra. Assim, da discordância e diversidade de opiniões éticas entre culturas não se segue também o relativismo cultural.

Esta refutação é sólida. O argumento original a favor do relativismo cultural está claramente errado. Mas se nos limitarmos a refutar o argumento deste modo não estaremos a responder à sua motivação, que é presumivelmente o factualismo (que por sua vez é uma versão de cientismo). Perante a refutação apresentada, a resposta previsível de quem defende o relativismo cultural é que os valores éticos são coisas muito diferentes dos factos sobre o movimento e posição do planeta Terra; estes factos são o que são, independentemente do que as pessoas pensam acerca deles; mas os valores são muito diferentes dos factos e não podem ser estabelecidos objectivamente ou cientificamente; por isso, são meras expressões das culturas, da história, etc.

Esta é que me parece a razão central a favor do relativismo cultural. As diferenças culturais não desempenham o papel de premissa de um argumento obviamente errado, mas apenas deconfirmação do que é tomado como uma evidência. E o que parece evidente é que os valores não são factos e só os factos podem ser objectivamente estabelecidos. Mas o que quer isto dizer?

A ideia fundamental é uma certa concepção de justificação. A justificação é vista de um modo algo mecânico: é uma questão de espelhar factos. Se não há factos que possam ser espelhados, nenhuma justificação adequada pode existir — e ficamos entregues à mera perspectiva, relativa às arbitrariedades históricas, culturais e até psicológicas. O problema é que esta concepção de justificação é incoerente porque se baseia numa ideia que, segundo os seus próprios padrões, não é justificável.

A ideia é que só uma ideia empiricamente verificável — pela observação ou experimentação científica — pode ser adequadamente justificável. Mas o que justificará esta mesma ideia? É por isso que esta ideia é incoerente; segundo os seus próprios critérios, esta ideia só seria justificável se houvesse maneira de a verificar pela observação ou pela experimentação científica. Mas não há qualquer maneira de verificar esta ideia pela observação ou pela experimentação científica — trata-se de uma ideia tipicamente filosófica; não se vê como poderíamos verificá-la empiricamente. Logo, a ideia é incoerente porque se for realmente verdadeira, não temos qualquer justificação para pensar que é verdadeira; só poderíamos ter justificação para pensar que é verdadeira se fosse falsa, isto é, se nem toda a justificação for de carácter empírico e verificacionista.

O que acontece no caso do relativismo cultural é muito comum: defende-se uma ideia com base num princípio filosófico que parece óbvio mas que na realidade é incoerente.

O factualismo e o verificacionismo exercem uma forte atracção; parecem critérios últimos de justificação, e levam-nos a pensar que onde não há factos nem verificação possível de factos, não pode haver justificação. Mas esta ideia só parece plausível à primeira vista. Mal a vemos com algum cuidado, desfaz-se em fumo. Isto não é dizer que os factos e a verificação de factos não desempenham um papel importante na justificação; sem dúvida que sim. Se eu disser que há cisnes pretos na Austrália e outra pessoa insistir que não, o melhor a fazer é mesmo ir lá ver se há ou não. Em casos como estes, a verificação de factos aproxima-se da justificação última. Na verdade, a verificação de factos nunca é a justificação última, pois precisamos de aceitar muitas outras ideias e princípios para que possamos interpretar as nossas observações de um certo modo em vez de outro. Mas mesmo assim é verdade que a verificação de factos, num certo contexto de justificação, é muitas vezes o tira-teimas crucial. Daí ser natural pensar que a verificação de factos é o tira-teimas crucial em todos os contextos.

Mas pensar isso é incoerente — pelas razões que vimos, e também porque em matemática ou lógica a verificação de factos não desempenha qualquer papel justificativo, ou pelo menos não desempenha um papel justificativo primário. Os lógicos e matemáticos não andam de microscópios ou telescópios em punho verificando factos. Nem os filósofos, a propósito.

O que torna o relativismo cultural tão atraente é precisamente a ausência de factos éticos que possamos verificar. Não é possível verificar empiricamente se torturar crianças por prazer é impermissível. Portanto, se toda a justificação for empírica e factual, não há justificação para a nossa ideia de que torturar crianças por prazer é impermissível. Por mais que observemos crianças a serem torturadas, nunca conseguiremos observar o facto de isso ser impermissível. Apenas observamos as crianças a sofrer, nada mais.

Uma vez que é incoerente pensar que toda a justificação é empírica e factual, que outros tipos de justificação teremos de admitir como razoáveis? A resposta é: a argumentação. E na argumentação não há garantias: um argumento pode parecer bom apesar de ser mau; pode parecer válido apesar de ser inválido; pode parecer que parte de bases sólidas apesar de partir de falsidades. O que isto significa, na verdade, é que não há justificação última; há apenas processos de justificação continuamente abertos à refutação, à objecção, ao contra-argumento. Aplicando isto à ética, o crucial não é procurar factos éticos e, na sua ausência, concluir que a ética é relativa à cultura. O crucial é procurar justificações, que neste caso não poderão ser factuais — ainda que dependam crucialmente de factos, como veremos.

E o que são justificações? Não são meros motivos, nem meras motivações interesseiras. Uma justificação é um argumento ou plêiade de argumentos, e para que esses argumentos sejam bons têm de ser cuidadosamente pensados e têm de estar continuamente abertos à discussão livre — porque nos enganamos muitas vezes e tomamos como bom um argumento que afinal é mau. Justificar ideias exige probidade intelectual e a aceitação de que as nossas ideias mais queridas e confortáveis podem estar erradas. Na verdade, a justificação livre e pública de ideias é um dos fundamentos da democracia e é uma pena que o factualismo faça as pessoas pensar que a discussão pública é apenas um jogo de interesses e uma farsa intelectual. Claro que a discussão pública pode ser mal conduzida e é muitas vezes mal conduzida. Mas dadas as nossas limitações cognitivas — dado o facto óbvio de não sermos omniscientes — a única coisa razoável a fazer é discutir todas as nossas ideias aberta e livremente, para descobrimos quais delas são mais plausíveis. E isto tanto se aplica à ética quanto à matemática ou à física. Em nenhum destes casos são os factos que dão objectividade aos nossos juízos. A objectividade dos nossos juízos resulta da discussão aberta e livre de acordo com preceitos de probidade intelectual.

Assim, a procura de justificações em ética não é a procura de factos que justifiquem automaticamente os nossos juízos éticos. A justificação é muito mais complexa do que isso. No entanto, isto não significa que a justificação em ética deva desprezar os factos. Por exemplo, um facto crucial quando se tortura crianças é que as crianças sofrem e querem escapar desse sofrimento. Este facto é crucial porque exige uma justificação para não atender ao seu sofrimento nem à sua preferência. Se alguém está a torturar uma criança por prazer, tem de presumir que há algo que torna as preferências da criança menos importantes do que as suas preferências.

Assim, é algo irónico que o factualismo moral procure factos morais ao mesmo tempo que ignora factos cruciais para os nossos juízos morais. O facto de as crianças terem preferências exige-nos uma justificação para não atender a tais preferências porque passamos a vida a atender às nossas próprias preferências. A menos que haja um qualquer argumento que mostre que as minhas preferências são sempre mais importantes do que as de qualquer outra pessoa, a minha desconsideração pelas preferências dos outros não tem qualquer justificação. E, claro, não há qualquer bom argumento que mostre que as minhas preferências são sempre mais importantes do que as das outras pessoas.

Há maneiras de continuar a defender o egoísmo contra este esboço de argumento. Eu poderia dizer que as minhas preferências só são mais importantes para mim, ao mesmo tempo que reconheço que as preferências dos outros são mais importantes para eles. E poderia acrescentar que cada qual deve agir de acordo com as suas preferências e não de acordo com as preferências dos outros. Este tipo de argumento parece enfermar de uma confusão crucial, contudo. O que está em causa é saber se as únicas preferências a que devo atender são as minhas preferências, dado eu reconhecer que os outros também têm preferências. Responder que devo atender apenas às minhas preferências porque são as mais importantes para mim não é ainda responder coisa alguma, pois o que queremos saber não é se as minhas preferências são as mais importantes para mim mas se devo atender apenas às preferências que são mais importantes para mim. Responder que só tenho razões para agir quando tenho motivações internas para agir é confundir o que quero fazer com o que devo fazer. Claro que o que quero fazer é o que tenho motivação interna para fazer. Mas perguntar o que devo fazer é fazer outro tipo de pergunta. É perguntar o que tenho justificação para fazer. Ora, se não tenho justificação para agir segundo as preferências dos outros, por não serem as minhas preferências, também não tenho justificação para agir segundo as minhas preferências, só por serem minhas.

Não vou continuar este debate filosófico, que apresentei aqui só a título exemplificativo: rapidamente se vê que, devidamente compreendido, o debate ético não é factual, nem diz respeito à verificação de factos. Diz respeito, antes, à argumentação, à apresentação de razões, cuidadosamente pensadas e pesadas. E por isso é largamente irrelevante que existam desacordos morais entre culturas — porque as pessoas enganam-se ao raciocinar. Pior: muitos desses enganos são mal-intencionados, pois são interesseiros. Como comecei por dizer, não acredito que algum alemão pudesse honestamente pensar que os judeus eram sub-humanos — mas era proveitoso pensar tal coisa e por isso tudo o que parecesse justificar tal ideia era aceite sem mais discussão.

Assim, perante a diversidade de comportamentos tidos como morais em diferentes sociedades, devemos perguntar que razões há a favor ou contra tais comportamentos. E a procura dessas razões não pode ser meramente a reafirmação dos preconceitos culturais da nossa própria cultura. É preciso procurar essas razões com probidade epistémica, procurando genuinamente saber que razões há para aceitar ou rejeitar que um dado comportamento é imoral. A cada passo temos de ver se não estamos a fazer confusões ou apenas a defender o que nos interessa defender, por qualquer motivo injustificável abertamente. E temos de fazer distinções conceptuais cuidadosas, como as seguintes:

1. Os comportamentos não se dividem todos entre moralmente obrigatórios e moralmente impermissíveis; também há actos permissíveis mas que não são obrigatórios. Por exemplo, é moralmente permissível comer maçãs com a mão esquerda, mas não é obrigatório fazer tal coisa. Quando não se tem formação filosófica há tendência para confundir estas categorias e condenar como moralmente impermissível comportamentos diferentes dos nossos só por serem diferentes. Os comportamentos sexuais dos nativos brasileiros, ou a sua nudez, eram muito diferentes dos europeus, e isso levou os europeus a condenar moralmente tais comportamentos; mas seria preciso mostrar primeiro que tais comportamentos têm alguma coisa a ver com a moralidade e não apenas com costumes moralmente neutros. Com certeza que andar nu e andar a matar pessoas na rua são coisas muito diferentes. A primeira pode ser culturalmente chocante, mas daí não se segue que seja imoral. A reflexão filosófica cuidadosa é um bom antídoto para o preconceito provinciano.

2. Os comportamentos prescritos ou condenados por uma dada religião não são sempre moralmente obrigatórios ou impermissíveis. Quando se justifica um dado comportamento ou proibição apelando a um dado texto sagrado, estamos já a excluir todas as pessoas que não pertencem a essa religião nem a consideram uma religião verdadeira. Se quisermos viver moralmente com pessoas que não partilham a nossa religião temos de encontrar uma base comum de entendimento moral, e essa base comum não pode obviamente ser a religião, porque pessoas diferentes professam religiões diferentes e algumas nenhuma. Tem de ser o simples facto de sermos agentes morais a fornecer uma base comum de entendimento moral.

3. A natureza raramente é um bom guia moral. Isto significa que o facto de um dado comportamento ser mais ou menos natural é geralmente irrelevante moralmente. Condenar moralmente comportamentos por não serem naturais é geralmente falacioso, além de ocultar geralmente uma mentira. Vejamos dois exemplos. A homossexualidade é um comportamento comum entre muitos animais; quem condena a homossexualidade por não ser natural ou mente ou é ignorante. Matar os filhos dos outros é um comportamento comum entre leões; mas dificilmente alguém quereria defender a moralidade de tal prática aplicada a nós com base na sua naturalidade. O objecto da moral não é o que é ou deixa de ser natural, mas o que é ou não justificável — e como os leões e outros animais inumanos são incapazes de justificação, não são os melhores guias morais.

Procurei mostrar três ideias centrais. Primeiro, que o relativismo cultural é incompatível com a universalidade dos direitos humanos. Segundo, que os argumentos a favor do relativismo cultural não são bons. E terceiro, que podemos ter uma concepção mais plausível da justificação ética, concepção que não seja factualista. Mas ao mesmo tempo usei estas ideias e argumentos como ilustração da importância pública da filosofia. Correctamente ensinada e cultivada, a filosofia torna-nos cidadãos e políticos melhores, porque nos ensina a tomar decisões e a discutir ideias quando as decisões não são fáceis e os problemas não são susceptíveis de solução científica.

Desidério Murcho

Leituras recomendadas

Para que servem os ateus?

 

Coelhos = religiosos, raposas = ateus?

Estou achando que preciso correr para escrever o meu livro intitulado “Deus e Acaso”, baseado em postagens deste blog. Alguns dos temas do livro já estão sendo discutidos em papers recentes, parece que existe um interesse cada vez maior sobre o assunto. Ver por exemplo o artigo abaixo, que foi um target article em um número inteiro dedicado a discussões desse tipo na revista Religion, Brain & Behavior.

What are atheists for? Hypotheses on the functions of non-belief in the evolution of religion

DOI: 10.1080/2153599X.2012.667948

Dominic Johnsona*
pages 48-70

Version of record first published: 27 Apr 2012

Abstract

An explosion of recent research suggests that religious beliefs and behaviors are universal, arise from deep-seated cognitive mechanisms, and were favored by natural selection over human evolutionary history. However, if a propensity towards religious beliefs is a fundamental characteristic of human brains (as both by-product theorists and adaptationists agree), and/or an important ingredient of Darwinian fitness (as adaptationists argue), then how do we explain the existence and prevalence of atheists – even among ancient and traditional societies? The null hypothesis is that – like other psychological traits – due to natural variation among individuals in genetics, physiology, and cognition, there will always be a range of strengths of religious beliefs. Atheists may therefore simply represent one end of a natural distribution of belief. However, an evolutionary approach to religion raises some more interesting adaptivehypotheses for atheism, which I explore here. Key among them are: (1) frequency dependence may mean that atheism as a “strategy” is selected for (along with selection for the “strategy” of belief), as long as atheists do not become too numerous; (2) ecological variation may mean that atheism outperforms belief in certain settings or at certain times, maintaining a mix in the overall population; (3) the presence of atheists may reinforce or temper religious beliefs and behaviors in the face of skepticism, boosting religious commitment, credibility, or practicality in the group as a whole; and (4) the presence of atheists may catalyze the functional advantages of religion, analogous to the way that loners or non-participants can enhance the evolution of cooperation. Just as evolutionary theorists ask what religious beliefs are “for” in terms of functional benefits for Darwinian fitness, an evolutionary approach suggests we should also at least consider what atheists might be for.

Tendência à honestidade produzida por seleção sexual?

De vez em quando eu leio o site WIKI How to do anything. Um dos tópicos de hoje falava sobre como ser um bom namorado. Me impressionou a ênfase em ser honesto e não “cheat” (trapacear ou trair) a namorada. Nesse tópico temos:

  • Be honest. In any relationship, honesty is almost always the best policy. It may be difficult at times, but basing your interactions on truth will allow your relationship to breathe and feel secure. No matter what happens, no one can ever challenge the fact that you are truthful, which will often mean that the other person returns the same respect by being truthful in turn. Studies have found that when couples were more honest from the start, they are more likely to work on their relationship and grow together.[1]
  • Foster trust and openness. This will allow you to create a more open relationship toward each other, as well as creating a very good understanding in what your mate wants, feels, and needs.
  • Trust her and give her reason to trust you. Trust should form the foundation of your relationship; after all, love is a combination of trust and commitment.
  • Avoid breathing down each other’s necks––allow space to do things separately as well as apart, trusting in each other to honor the relationship. Openness, in combination with honesty, should blend in perfect harmony and help your relationship to endure.
  • Never cheat. It will backfire on you. Once will be enough to convince someone to dump you. Realize where your heart is and stick to that.

Isso me sugeriu uma possibilidade em Psicologia Evolucionária. E se as tendências instintivas do ser humano para a honestidade vierem não da teoria de jogos ou de seleção natural, mas sim da seleção sexual exercida pelas mulheres? Você já percebeu como, em qualquer sociedade, os desonestos não são valorizados, mesmo dentro da Máfia? Veja como o pessoal do Mensalão está sendo execrado, mesmo por aqueles que são corruptos no dia a dia.  Ou seja, as mulheres selecionaram, ao longo da evolução, os parceiros mais confiáveis, que não dividiam seus recursos e seu tempo com outras mulheres.

Por outro lado, me parece que os módulos cognitivos iguais a detetores de mentira que as mulheres possuem em seus cérebros (você já tentou mentir para uma mulher com olho no olho?) poderiam sim ter origem na seleção natural. Será que alguém já publicou essa hipótese? Read more [+]

Femeas Alfa e Machos Beta

27/10/2009 – 20h22

Altos níveis de testosterona levam à avareza, diz estudo

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EWEN CALLAWAY
da New Scientist

Se você está em busca de pechinchas, fuja dos vendedores musculosos. O mesmo hormônio responsável pela força também pode reduzir a generosidade, indica um estudo.

“Nossa conclusão é a de que a testosterona faz com que homens sejam essencialmente pães-duros”, diz Karen Redwine, neuroeconomista do Whittier College, na Califórnia, que apresentou o trabalho no encontro anual da Sociedade de Neurociência em Chicago, na semana passada.

Um estudo prévio com 17 negociantes em Londres apontou que níveis matinais de testosterona são correlatos a cada ganho e perda do dia –com a quantidade maior de hormônios associada ao lucro. Mas este estudo não estabeleceu a relação de causa e efeito entre testosterona e sagacidade mercantil.

Para resolver este caso, Redwine e seu colega Paul Zak, da Universidade Claremont, na Califórnia, deu um gel contendo testosterona a 25 estudantes universitários do sexo masculino, para então testar a sua generosidade. Todos os participantes também receberam um placebo sem testosterona, alguns dias antes ou depois do gel à base de testosterona. Nem pesquisadores, tampouco os participantes sabiam quais amostras eram verdadeiras e quais eram placebos até o final do estudo.

O creme de testosterona funcionou. No dia seguinte, a potência do hormônio sexual dobrada foi levada diretamente às veias dos voluntários, proporcionalmente.

Os voluntários jogaram, então, um jogo econômico simples por intermédio de um computador. Um dos voluntários tinha US$ 10 disponíveis, enquanto o outro tinha qualquer valor que desejasse. Cada um aceitava ou rejeitava a oferta conforme achasse justo ou não –neste caso, ninguém ganhava nenhum dinheiro. Os voluntários jogaram uma rodada em ambas as situações, isto é, com e sem o gel de testosterona.

No geral, o creme de testosterona causou uma redução de 27% na generosidade das ofertas, de US$ 2,15 para US$ 1,57.

Uma variedade mais potente da testosterona, a di-hidrotestosterona (DHT) exerceu uma influência ainda mais forte no comportamento. Homens com uma amostra maior de DHT no sangue ofereceram aos parceiros a reles quantia de US$ 0,55 dos US$ 10, enquanto os homens com menor nível de DHT ofertavam US$ 3,65, em média.

Hormônio egoísta

Há duas interpretações nos resultados, diz Redwine. Por um lado, a testosterona empurra o homem a buscar uma quantidade maior de dinheiro, caso ele esteja fazendo uma oferta ou decidindo aceitá-la ou rejeitá-la.

No entanto, ao rejeitar as ofertas injustas, voluntários abastecidos pela testosterona realmente cumprem a ordem social da divisão igualitária entre partes. “Pessoas são egoístas, mas altruístas também, e não está entendido por que esse comportamento ocorre.”

Um fator biológico pode ser a dinâmica entre testosterona e outro hormônio chamado oxitocina. Às vezes chamado de “química do afago”, a oxitocina também influencia na generosidade. Em um estudo de 2007, a equipe de Zak descobriu que a administração de oxitocina impulsionou a generosidade no mesmo jogo em 80%.

Redwine nota que a testosterona bloqueia a ação de oxitocina no cérebro. “É possível que a criação destes machos alfa realmente iniba a oxitocina”, diz ela.

Casar com mulher jovem e inteligente faz bem para a relação

Natalie Portman, PhD em Psicologia por Harvard, vai fazer o papel da enfermeira Jane Foster no filme Thor, que estréia em 20 de maio de 2011

26/10/2009 – 11h47

Mulher mais jovem e inteligente é chave para casamento longo, diz pesquisa

da BBC Brasil

Uma pesquisa britânica afirma que o segredo para os homens terem um casamento feliz e duradouro é escolher uma mulher mais inteligente e, no mínimo, cinco anos mais jovem.

Essa combinação, segundo os pesquisadores da universidade britânica de Bath, é a que tem maior probabilidade de dar certo no longo prazo, especialmente se nenhum dos dois tiver sido divorciado no passado.

O trabalho foi publicado na revista científica “European Journal of Operational Research”.

Os pesquisadores entrevistaram mais de 1,5 mil casais casados ou em relações estáveis. Após cinco anos, eles checaram quais casais ainda estavam juntos.

Fatores objetivos

Os cientistas descobriram que, em casos onde a mulher era mais velha que o marido em cinco anos ou mais, as chances de divórcio aumentaram para três vezes.

Se a diferença de idade é invertida –com o homem mais velho do que a mulher– as chances de sucesso no casamento aumentam.

Outro fator é o grau de educação da mulher. Quanto maior a escolaridade da mulher, maiores são as chances de o casamento durar, segundo a pesquisa.

Os casais em que nenhuma das pessoas foi divorciada também teriam mais chances de ficarem juntos por mais tempo. Mas casais em que apenas uma das pessoas foi divorciada são mais instáveis do que casais em que os dois já foram casados antes.

Para Emmanuel Fragniere, o pesquisador que conduziu o trabalho, homens e mulheres escolhem seus parceiros “com base no amor, atração física, semelhança de gostos, crenças e atitudes, e valores em comum”, mas fatores objetivos –como idade, educação e origem cultural– também podem ajudar a diminuir os casos de divórcio.

Aneuplodia em neurônios e compactação em supercordas

Essa históriade aneuplodia me lembra um processo de quebra de simetria em f´sica: de início todas as células (tronco) são idênticas, mas o processo de diferenciação celular envolve quebras de simetria com base (onto)genética. Felizmente, não envolve números como as 10^500 maneiras de se compactificar as supercordas, que o Ion Vancea da UFRRJ discutiu comigo…
12/10/2009 – 09h08

Perda de DNA faz célula se “especializar”, mostra pesquisa da UFRJ

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EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo, enviado especial ao Recife

REINALDO JOSÉ LOPES

da Folha de S.Paulo

Ninguém imaginaria que arrancar pedaços substanciais do DNA das células pudesse ser importante para a correta estruturação do cérebro, mas é justamente isso que o trabalho de pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) anda demonstrando. A degola de material genético parece estar ligada à divisão de tarefas nos muitos tipos de células do sistema nervoso.

Roberto Price/Folha Imagem
Stevens Rehen com imagem de células-tronco na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
O pesquisador Stevens Rehen com imagem de células-tronco na UFRJ

Ainda é difícil afirmar exatamente o que os achados significam, mas Stevens Rehen, Bruna Paulsen e seus colegas da UFRJ já flagraram o fenômeno estudando dois tipos diferentes de células-tronco, as embrionárias (como o nome diz, oriundas de embriões no estágio inicial de seu desenvolvimento) e as iPS (células adultas que, manipuladas em laboratório, retornam a um estado que lembra muito o embrionário).

A alteração detectada pela equipe é conhecida como aneuploidia, forma indigesta de dizer que as células ditas aneuploides possuem um número irregular de cromossomos, as estruturas parecidas com carretéis que carregam o DNA.

Como regra geral, toda célula do corpo humano deveria carregar 23 pares de cromossomos. Cada membro do par é “doado” respectivamente pelo pai e pela mãe aos filhos. A aneuploidia consiste na presença de pares “mancos”, sem um dos membros, ou “excessivos”, formados por trios, por exemplo. Há doenças importantes ligadas à aneuploidia, como a síndrome de Down (cujos efeitos, aliás, vão muito além do desenvolvimento mental do portador).

Lado bom

A hipótese de trabalho de Rehen e companhia, no entanto, reabilita parcialmente o número irregular de cromossomos. “A aneuploidia também pode funcionar para o bem, para moldar o cérebro de uma forma única”, afirma o pesquisador, que foi o primeiro a detectar o fenômeno no sistema nervoso, em pesquisa de 2001. Até 30% dos neurônios do córtex (a área mais desenvolvida e complexa do cérebro em seres humanos) podem ser aneuploides.

Mais recentemente, Rehen topou outra vez com a aneuploidia ao estudar como as células-tronco embrionárias, responsáveis por construir todo o organismo humano, passam pelo processo de diferenciação (especialização) que as transforma em neurônios. A surpresa é que, quando viram neurônios, as células também perdem cromossomos. Coincidência ou relação de causa e efeito?

“Chegamos a pensar que a aneuploidia poderia ser efeito do ácido retinoico [substância empregada para induzir as células a se especializar]”, diz Rehen. Não era, a julgar por experimentos posteriores. O mesmo fenômeno foi verificado enquanto as células iPS, também com propriedades embrionárias, foram “convencidas” a virar neurônios, afirma ele.

Os pesquisadores ainda estão longe de bater o martelo em relação a esse paradoxo. A próxima fase dos experimentos deve envolver o caminho oposto: em vez de induzir especialização celular e observar aneuploidia, Rehen e companhia planejam arrancar cromossomos das células e ver se isso as ajuda a se diferenciar em neurônios.

Ainda é cedo para dizer aonde essas pistas conduzem, mas não é impossível que a aneuploidia esteja ligada à grande complexidade celular do cérebro, que está repleto de neurônios de todos os tipos e especialidades. E talvez ajude a elucidar por que, afinal, nenhuma cabeça pensa igual à outra.

“Ele poderá até ajudar a explicar a diferença que existe entre o comportamento de gêmeos idênticos, por exemplo”, diz Rehen. A alteração nos cromossomos introduziria um elemento de inesperado no processo que leva à maturação do cérebro ao longo da vida.

Dawkins e o Beijo de Juliana (II)

Do Beijo de Juliana: Quatro físicos teóricos conversam sobre crianças, ciências da complexidade, biologia, política, religião e futebol…
15/Fevereiro/1999
Caros amigos,
A Pati manda lembranças…
Vocês devem estar se perguntando porque insisto em citar a minha querida cachorra nesses e-mails. Deve estar ficando claro agora… Minha relação de amor e ódio com a Pati exemplifica aquela idéia sobre emergência do amor e da cooperação a partir de motivações egoístas. Não que eu tenha planejado isso tudo. Aconteceu, simplesmente, e só me dei conta do que estava acontecendo nesse final de semana. Talvez meu inconsciente tenha preparado isso: ele é muito mais inteligente que eu…
Em todo caso, está bastante claro agora: em vez de discutir o beijo de Juliana, exemplo que foi escolhido de propósito para provocar vocês, parece ser muito mais produtivo discutir o abanar de rabo da Pati. Além disso, eu já notei que vocês, em especial o Richard por também ter filhos, não conseguem discutir o exemplo da Juliana objetivamente (creio que apenas o Jean consegue pensar nisso com o distanciamento necessário).
Assim, vamos lá. É incrível como a Pati abana o rabo e faz festa para mim, mesmo após eu lhe dar a maior bronca por ter fuçado na lata de lixo, espalhando tudo pelo chão. Ando meio nervoso tentando calcular qual a quantidade de coliformes fecais que estou ingerindo ultimamente, dado que não consigo manter o chão da cozinha limpo, sem pelos ou urina. E, mesmo assim, hoje vou à pracinha com a Pati, e vivo comprando doces para ela. Por que?
Existem vários motivos: a Pati vigia a casa à noite e quando estou fora. E desconfio de que ela talvez seja útil para caçar escorpiões… Os vizinhos aqui da rua dizem que existem muitos, devido aos terrenos baldios em volta; dizem que onde há baratas, há escorpiões, que as caçam. Bom, baratas é o que não falta aqui em casa…
Enquanto me mostrava um belo exemplar de escorpião amarelo dentro de um pote de vidro, o vizinho me falou também que os escorpiões costumam se aninhar dentro dos sapatos. É claro que não acredito nessas histórias, mas outro dia fiquei bastante intrigado com a insistência da Pati em entrar dentro do armário e ficar fuçando meus sapatos. Tudo bem, eu reconheço que não encontrei escorpião algum, e que provavelmente a Pati queria apenas roer meus sapatos…
Mas esses motivos iniciais de natureza egoísta (“Eu compro Pedigree pra você e você fica de olho nos escorpiões, ok?”) que formam a base de todo mutualismo, vão pouco a pouco gerando motivos menos e menos egoístas. Companhia na solidão, a diversão mútua com as brincadeiras (o Pitchuco é engraçadinho…), o aprendizado mútuo e… o carinho: o que a Pati mais gosta é colocar a cabeça no meu colo enquanto leio um livro.
Ou seja, o que estou tentando dizer é que sobre a base forte dos interesses mútuos e do egoísmo, daquele esterco tão fértil, é que nascem as flores da amizade e do amor. São plantas viçosas, reais, não são uma ilusão. Ou vocês acham que o mutualismo simbiótico é uma ilusão? Os liquens serão ilusões???
Talvez eu escute algum de vocês resmungando que estou confundindo a esfera da realidade e dos sentimentos humanos com a esfera biológica. “Simbiose nada tem a ver com amor!” Só posso replicar que aqueles que querem entender o humano sem entender de biologia é que são os verdadeiros iludidos.
Uma coisa a levar em conta é a questão da “consciência do egoísmo”. Uma pessoa que pratica um crime inconscientemente tem alguma culpa? Claro que sei que o abanar de rabo da Pati foi evolucionariamente gerado, assim como o sorriso dos bebês, mas será que ela sabe? É um fato a ser lembrado que os genes, mesmo sendo egoístas, não sabem que o são. As crianças e os cachorros também… Nós, homens, somos os maiores exploradores inconscientes! Quem realmente conhece e detecta o egoísmo são as mulheres (elas têm um módulo cognitivo especialmente evoluído para isso, vem da época em que a gente ia caçar e pescar enquanto elas ficavam cuidando das crianças).
Ou seja, o egoísmo moral (não o egoísmo da Teoria de Jogos) está nos olhos de quem o vê, e na vida cotidiana estamos quase todos cegos. Só é um problema real quando uma das partes não está recebendo o suficiente, uma troca injusta. Quando o mutualismo virou parasitismo. O que é uma linha difícil de ser traçada com precisão, mas que em todo caso precisa ser traçada.
Lembram aquela piada (ou será uma idéia séria?) de que as bactérias são todas fêmeas e que os machos são parasitas que descobriram como injetar seu DNA e deixar o resto do serviço com elas? Mas isso era um parasitismo ineficiente porque eliminava as hospedeiras: daí apareceu um processo aleatório que fez com que esse processo gerasse apenas uma fração dos parasitas (50% é o máximo?), de modo que isso permitia um relacionamento simbiôntico entre as duas espécies (embora eu não entenda o que as fêmeas ganharam com isso…).
Assim, tenham cautela com pessoas que não gostam de crianças ou animais.Tais pessoas não sabem o que é transformar o egoísmo em amor, criar o amor a partir do egoísmo. Na sua decepção na busca do amor puro e desinteressado, tornam-se amargas e acabam por parasitar os outros. Busca que estava condenada ao fracasso desde o início, pela biologia, pela teoria de jogos e pelo mito do pecado original (ou “defeito original de fabricação”, o egoísmo).

Dawkins e o Beijo de Juliana


Raphael

Leonardo

Juliana

Mariana

Uma amiga recebeu este recado da filha no Orkut:


Porque eu te αmo αcimα de quαlquer coisα ..
porque você é α
únicα pessoα que eu tenho certezα que so quer o meu bem
eu
prometo de todo o meu corαçαo que nαo vou e mαndαr prα um αzilo quαndo você ficαr velhα ..
sαbe porque ?
porque
eu te αmo , e é prα sempre.

Bom, acho que Dawkins diria que este comportamento representa uma estratégia evolutiva de genes egoístas com bastante sucesso. Se a criança consegue fazer a mãe acreditar que ela a ama, a probabilidade dela ser melhor cuidada e sobreviver aumenta. Crianças que não faziam isso acabaram morrendo. É um comportamento que a Psicologia Evolucionária explica…

Mas essa explicação científica, correta em todos os pontos, deixa alguns de nós chateados, porque gostaríamos de acreditar (ter fé?) no sentimento da criança. Como conciliar a visão científica com a visão tradicional de que crianças podem amar seus pais (às vezes). Ou devemos abandonar qualquer esforço de conciliação e rejeitar ou Dawkins ou o sentimento de nossos filhos?

Este é o tema do livro O Beijo de Juliana, ver aqui também. Acho que eu preciso deixar esse tema mais claro ao longo do livro, que o tema seja o fio condutor da história, como me sugeriu a Suzana Herculano-Houzel. Na próxima versão, tentarei fazer isso…

Nietszche estava errado? Animais reagem contra injustiça.

O Bem e o Mal são relativos. O conceito de injustiça é cultural: em uma sociedade dominada por nobres, é possível educar (treinar behavioristicamente) os plebeus para que acreditem que o status quo é justo, e se alegrar com a boa vida dos dominadores, e festejar sua própria miséria. Assim falava Zaratustra.
Mas no mundo animal, onde o efeito da cultura é menor, parece que o Bem e o Mal, ou pelo menos o cerne da moralidade que é o conceito de injustiça, não é tão fácil de ser relativizado. Chimpanzés e cães (e certamente outros animais como golfinhos, elefantes e talvez cefalópodes) não se deixam enganar: o que é justo, é justo, o que é injusto, é injusto. Talvez seja possível fazer um treinamento behaviorista com eles também, ensinar algum tipo de sado-masoquismo moral. Mas isso seria sempre a exceção, não a regra.
A partir de hoje vou tomar mais cuidado com meus cut and paste de notícias. Os comentários serão maiores, e sempre colocarei o link e o abstract do artigo original, algo que os jornais não fazem.

Cães entendem injustiça e sentem inveja, diz estudo

RICARDO BONALUME NETO
da
Folha de S.Paulo

Quem tem mais de um cachorro sabe o óbvio: que na hora de dar um biscoito ou um osso, todos têm que ter o seu próprio. Mas o “óbvio” do dono de um animal doméstico não é o mesmo da ciência. Foi preciso uma equipe de pesquisadores na Áustria testar se existe “inveja” entre cães para deixar claro que isso não só existe, como faz parte de um mecanismo biológico vinculado à evolução da cooperação em indivíduos de uma mesma espécie.

Testados, os cães deixaram claro que possuem uma natural “aversão à iniqüidade”, e que fazem “greve” se não forem tratados do mesmo modo como seus semelhantes, algo já descoberto em macacos.

O estudo, liderado por Friederike Range, da Universidade de Viena (Áustria), está na edição de hoje da revista “PNAS”.

Os experimentos parecem mais adestramento canino doméstico do que algo associado a um laboratório universitário. Foram testados 29 cães capazes de “dar a patinha”. Os cachorros selecionados eram já adestrados nesse comando com seus donos, mas o teste envolvia “dar a patinha” para um experimentador desconhecido, acompanhados pelo dono e por um outro cachorro logo ao lado.

Leve-se em conta que são cachorros austríacos, acostumados à dieta local. Ao obedecer ao comando, o cachorro poderia receber uma recompensa boa –um pedaço de salsicha–, ou uma nem tanto –um pedaço de pão preto. Pior, poderiam não receber nada pelo “trabalho” de dar a pata.

Os testes foram planejados de modo a excluir interpretações alternativas. Os cães foram testados, por exemplo, sem receber recompensa; ou sem o cão parceiro; ou com ambos recebendo o prêmio.

“Cães têm uma forma de ciúme, e todo dono de mais de um cão sabe que se faz carinho em um, o outro vem pedir”, diz Cesar Ades, especialista em comportamento animal do Instituto de Psicologia da USP, que elogia o experimento. “É um trabalho cuidadoso, eles mostram a recompensa ao cachorro, feita com vários controles. Se um recebe e o outro não, ele pára de dar a pata até antes daquele que não recebe recompensa sem contato social.”

Ao contrário dos experimentos com chimpanzés, os cães não davam importância à qualidade da recompensa (salsicha ou pão preto). Já os macacos eram mais discriminantes quanto ao tipo de recompensas que ganhavam.

Os cães também sempre comiam o que recebiam; os macacos podiam rejeitar a comida se achavam que estavam sendo injustamente tratados. Só não há explicação clara no estudo para o fato de um cão não fazer distinção entre salsicha e pão, diz Ades.

Experimentos anteriores mostraram que os cães cansam da brincadeira e param de dar a pata depois de 15 a 20 vezes sem receber nenhuma recompensa.

O resultado do novo teste foi o que os donos de cães poderiam prever: animais sem prêmio pelo mesmo “trabalho” do colega ao lado logo pararam de “cumprimentar” o experimentador, e mostravam sinais de “indignação” –ficavam se coçando, bocejando, lambendo a boca ou desviando o olhar.

PS: Esta notícia me fez lembrar um aforismo, não me lembro de quem: “Dizem que o homem é o lobo do homem. Não, na verdade, o homem é o cão do homem”.

The absence of reward induces inequity aversion in dogs

  1. Friederike Rangea,b,1,
  2. Lisa Horna,
  3. Zsófia Viranyib,c, and
  4. Ludwig Hubera

+

Author Affiliations


  1. aDepartment of Neurobiology and Cognition Research, University of Vienna, A-1091 Wien, Austria;

  2. cKonrad Lorenz Institute for Evolution and Cognition Research, A-3422 Altenberg, Austria; and

  3. bWolf Science Center, 4645 Grünau, Austria
  1. Communicated by Frans B. M. de Waal, Emory University, Atlanta, GA, October 30, 2008 (received for review July 21, 2008)

Abstract

One crucial element for the evolution of cooperation may be the sensitivity to others’ efforts and payoffs compared with one’s own costs and gains. Inequity aversion is thought to be the driving force behind unselfish motivated punishment in humans constituting a powerful device for the enforcement of cooperation. Recent research indicates that non-human primates refuse to participate in cooperative problem-solving tasks if they witness a conspecific obtaining a more attractive reward for the same effort. However, little is known about non-primate species, although inequity aversion may also be expected in other cooperative species. Here, we investigated whether domestic dogs show sensitivity toward the inequity of rewards received for giving the paw to an experimenter on command in pairs of dogs. We found differences in dogs tested without food reward in the presence of a rewarded partner compared with both a baseline condition (both partners rewarded) and an asocial control situation (no reward, no partner), indicating that the presence of a rewarded partner matters. Furthermore, we showed that it was not the presence of the second dog but the fact that the partner received the food that was responsible for the change in the subjects’ behavior. In contrast to primate studies, dogs did not react to differences in the quality of food or effort. Our results suggest that species other than primates show at least a primitive version of inequity aversion, which may be a precursor of a more sophisticated sensitivity to efforts and payoffs of joint interactions.

Sheldon tem síndrome de Asperger?


Para uma discussão sobre o tema, ver aqui.

Abaixo uma lista de possíveis casos de cientistas com síndrome de Asperger (para as referências, ver a Wikipédia). Acredito que muitos deles tem comorbidade com transtorno bipolar. transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de ansiedade social.
É interessante ver a reação de colegas cientistas a esse tipo de lista. Normalmente tão frios e racionais (em geral, fortes defensores da psiquiatria biológica e explicação de comportamentos humans pela psicologia evolucionária), têm grande dificuldade de aplicar tais conhecimentos na análise de seu próprios heróis, cujas vidas são retratadas de forma anedótica e mitológica aos alunos, sem rigor histórico ou científico. Um caso divertido de dissonância cognitiva, acredito.

Person Speculator
Lewis Carroll – writer, logician Michael Fitzgerald[4][6][11]
Henry Cavendish – 18th century British scientist. He was unusually reclusive, literal minded, had trouble relating to people, had trouble adapting to people, difficulties looking straight at people, drawn to patterns, etc. Oliver Sacks,[3][8] and Ione James;[2][7] Fred Volkmar of Yale Study Child Center is skeptical.[3]
Charles Darwin – naturalist, associated with the theory of evolution by natural selection Michael Fitzgerald[16]
Paul Dirac – British mathematician and physicist. He was Lucasian Professor of Mathematics at Cambridge University, 1933–1963 and a Fellow of St John’s College. Awarded the 1933 Nobel Prize in Physics for his work on the mathematical foundations of Quantum Mechanics. Ione James[2] and Graham Farmelo[18]
Albert Einstein – physicist See analysis below
Isaac Newton See analysis below
Srinivasa Ramanujan – mathematician Ioan James[7] and Michael Fitzgerald[30]
Charles Richterseismologist, creator of the eponymous scale of earthquake magnitude Susan Hough in her biography of Richter[31]
Nikola TeslaSerbian inventor, and electrical and mechanical engineer. Was able to mentally picture very detailed mechanisms; spoke 8 languages; was never married; was very sensitive to touch and had an acute sense of hearing and sight; was obsessed with the number three and also had several eating compulsions NPR,[32] Harvey Blume[33]
Alan Turing – pioneer of computer sciences. He seemed to be a math savant and his lifestyle has many autism traits about it. Tony Attwood[22] and Ioan James[7]
Michael Ventris – English architect who deciphered Linear B Simon Baron-Cohen[34]

Eu acrescentaria como prováveis candidatos o lógico Kurt Gödel e o matemático Paul Erdös. E talvez a caracteristica de “ausência de senso de humor” devesse ser retirada da nosologia da síndrome de Asperger. Muitos desses candidatos tinham um agudo e curioso senso de humor, muitas vezes insensível às convenções sociais.
Tenho uma teoria (mais uma) de que as síndromes e distúrbios citados representam a linha de frente da evolução. Explico: as fortes evidências de herdabilidade familiar e razoável disseminação entre a população (por exemplo, estima-se que 15% da população é constituida por ciclotímicos) pedem uma explicação em termos de psicologia evolucionária.
A explicação mais fácil é que tais desordens conferem, além dos handicaps notados, vantagens evolutivas. Por exemplo, TOC e ansiedade social podem conferir uma defesa maior em casos de epidemias, e bipolaridade e ciclotimia podem aumentar a atividade e a atratividade sexual de seus portadores.
Como na evolução nós temos poucos genes para muitas funções, ou seja, os genes são multifuncionais, uma mutação potencialmente benéfica implica em “efeitos colaterais” em outras funções, normalmente maléficas. Como é muito dificil existir backmutações (ou reversão de mutações), o caminho normal para um traço se estabelecer seria a ocorrência de novas mutações que compensassem os handicaps produzidos pelas primeiras.
Ou seja, supondo que com alguma sorte Sheldon tenha filhos, se novas mutações ou crossover promoverem compensações (por exemplo, um filho de Sheldon poderia ter uma mutação no sistema dopaminérgico que agregasse o traço de hipersexualidade aos seu alto QI. Esses novos mutantes teriam alto fitness biológico e poderiam espalhar seus genes pela população…

People with Asperger syndrome may refer to themselves in casual conversation as aspies, coined by Liane Holliday Willey in 1999.[91] The word neurotypical (abbreviated NT) describes a person whose neurological development and state are typical, and is often used to refer to non-autistic people. The Internet has allowed individuals with AS to communicate and celebrate with each other in a way that was not previously possible because of their rarity and geographic dispersal. A subculture of aspies has formed. Internet sites like Wrong Planet have made it easier for individuals to connect.[10]

Autistic people have advocated a shift in perception of autism spectrum disorders as complex syndromes rather than diseases that must be cured. Proponents of this view reject the notion that there is an “ideal” brain configuration and that any deviation from the norm is pathological; they promote tolerance for what they call neurodiversity.[92] These views are the basis for the autistic rights and autistic pride movements.[93]There is a contrast between the attitude of adults with self-identified AS, who typically do not want to be cured and are proud of their identity, and parents of children with AS, who typically seek assistance and a cure for their children.[94]

Some researchers have argued that AS can be viewed as a different cognitive style, not a disorder or a disability,[10] and that it should be removed from the standard Diagnostic and Statistical Manual, much as homosexuality was removed.[95] In a 2002 paper, Simon Baron-Cohen wrote of those with AS, “In the social world there is no great benefit to a precise eye for detail, but in the worlds of math, computing, cataloguing, music, linguistics, engineering, and science, such an eye for detail can lead to success rather than failure.” Baron-Cohen cited two reasons why it might still be useful to consider AS to be a disability: to ensure provision for legally required special support, and to recognize emotional difficulties from reduced empathy.[96] It has been argued that the genes for Asperger’s combination of abilities have operated throughout recent human evolution and have made remarkable contributions to human history.[97]

Por que psicólogos devem estudar estatística?


Para obter resultados interessantes como este:

The thermodynamics of human reaction times

Authors: Fermín Moscoso del Prado Martín
(Submitted on 21 Aug 2009)

Abstract: I present a new approach for the interpretation of reaction time (RT) data from behavioral experiments. From a physical perspective, the entropy of the RT distribution provides a model-free estimate of the amount of processing performed by the cognitive system. In this way, the focus is shifted from the conventional interpretation of individual RTs being either long or short, into their distribution being more or less complex in terms of entropy. The new approach enables the estimation of the cognitive processing load without reference to the informational content of the stimuli themselves, thus providing a more appropriate estimate of the cognitive impact of different sources of information that are carried by experimental stimuli or tasks. The paper introduces the formulation of the theory, followed by an empirical validation using a database of human RTs in lexical tasks (visual lexical decision and word naming). The results show that this new interpretation of RTs is more powerful than the traditional one. The method provides theoretical estimates of the processing loads elicited by individual stimuli. These loads sharply distinguish the responses from different tasks. In addition, it provides upper-bound estimates for the speed at which the system processes information. Finally, I argue that the theoretical proposal, and the associated empirical evidence, provide strong arguments for an adaptive system that systematically adjusts its operational processing speed to the particular demands of each stimulus. This finding is in contradiction with Hick’s law, which posits a relatively constant processing speed within an experimental context.

Comments: Submitted manuscript
Subjects: Neurons and Cognition (q-bio.NC); Disordered Systems and Neural Networks (cond-mat.dis-nn); Statistical Mechanics (cond-mat.stat-mech); Human-Computer Interaction (cs.HC)
Cite as: arXiv:0908.3170v1 [q-bio.NC]

OK, OK, isto também é interessante (engraçado que a mesma teria explicaria a questão dos bumbuns…):

Large breasts

Why men prefer women with large breasts had long been a mystery in evolutionary psychology, especially since the size of a woman’s breasts has no relationship with her ability to lactate; women with small breasts can produce as much milk for their infants as those with large breasts. So women with large breasts do not necessarily make better mothers than women with small breasts. Why, then, do men prefer women with large breasts? There was no satisfactory answer to this question until recently.

Marlowe suggested a solution to this puzzle in the late 1990s, although with hindsight it is another mystery why nobody else thought of the idea sooner. Marlowe makes the simple observation that larger, and hence heavier, breasts sag more conspicuously with age than do smaller breasts. Thus, it is much easier for men to judge a woman’s age (and her reproductive value) by sight if she has larger breasts than if she has smaller breasts, which do not change in shape as much with age. Recall that there were no driver’s licenses or birth certificates that men could check to learn how old women were in the ancestral environment. There was no calendar and thus no concept of birthdays in the ancestral environment, so women themselves didn’t know exactly how old they were. The ancestral men needed to infer a woman’s age and reproductive value from some physical signs, and the state of her breasts provided a pretty good clue, but only if they were large enough to change their shape conspicuously with age. Men could tell women’s age more accurately, and attempt to mate with only young women, if they had larger breasts. Marlowe hypothesizes that this is why men find women with large breasts more attractive.

More recently, there has been a competing evolutionary psychological explanation for why men prefer women with large breasts. A study of Polish women shows that women who simultaneously have large breasts and a tight waist have the greatest fecundity, indicated by their levels of two reproductive hormones (17-β-estradiol and progesterone). So men may prefer women with large breasts for the same reason as they prefer women with small waists. Further empirical evidence is necessary to evaluate which of these two competing evolutionary psychological explanations is more accurate. This is just one of many areas where there are competing hypotheses in evolutionary psychology — a sign of active, healthy science and clear evidence that critics of evolutionary psychology who claim that it consists of empirically untestable “just-so stories” are simply ignorant of the field.

Men can accurately infer a woman’s age and reproductive value if they can directly observe their breasts and other physical features (such as the fat content and distribution of the body, evidenced by the small waist, as I explain in the previous post). But what would men do if they could not directly observe women’s bodies? What if the woman’s body is concealed, by heavy clothing, for example? Men need another way to determine a woman’s age: her hair color. That’s the topic of my next post.

Pessoas inteligentes se matam mais?

Ontem comecei a dar aulas de Estatística para Pedago na Filô. Então aqui vão algumas reflexões sobre Estatística e liberdade humana: é possível prever suicídios? Onde fica a questão da liberdade humana neste ato existencial?
No início da história da Estatística as pessoas ficaram chocadas com o contraste entre livre-arbítrio individual e o poder preditivo da Estatística. Por exemplo, se a taxa de suicídio de um país tem sido de cinco pessoas por cem mil habitantes (como no Brasil), podemos prever o número de suicídios a serem cometidos no ano seguinte, com certa margem de erro. Mas não podemos prever exatamente quem vai se suicidar.
É claro que a previsão pode falhar bastante, por exemplo se estourar uma guerra (as pessoas se suicidam menos durantes as guerras, possivelmente por serem tempos de maior coesão social). Em todo caso, ao contrário do que acreditavam os existencialistas, o ato do suicídio não é livre (a maior parte dos suicídios está relacionada a depressões clínicas). Mas outros fatores entram na conta, por exemplo certos fatores culturais.
A taxa de suicídio varia bastante de país para país e pode refletir certa aceitação cultural do suicídio, menor dose de exposição à luz solar, genética da população, urbanização e inúmeros outros fatores. Os dez países com maior taxa de suicídio são.
Country Males Females Total pop. Year
Lithuania 68.1 – 12.9 – 38.6 – 2005
Belarus 63.3 – 10.3 – 35.1 – 2003
Russia 58.1 – 9.8 – 32.2 – 2005
Slovenia 42.1 – 11.1 – 26.3 – 2006
Hungary 42.3 – 11.2 – 26.0 – 2005
Kazakhstan 45.0 – 8.1 – 25.9 – 2005
Latvia 42.0 – 9.6 – 24.5 – 2005
Japan 34.8 – 13.2 – 23.7 – 2006
Guyana 33.8 – 11.6 – 22.9 – 2005
Ukraine 40.9 – 7.0 – 22.6 – 2005

Nota-se também que a taxa de suicídios entre homens é bem maior que entre as mulheres (embora as tentativas de suicídio sejam maiores entre as mulheres…). Demograficamente, sabe-se também que é mais alta a taxa entre jovens e idosos. Sabe-se também que, por motivos culturais, pessoas religiosas se suicidam menos.

Ser caucasiano também é um fator auxiliar. Finalmente, ter alto QI predispõe ao suicídio. Uma das teorias aventadas para explicar isso se refere ao comportamento de baixa vinculação social demostrado por pessoas de alto QI no extremo do espectro autista (vulgo “nerd”). Um amigo existencialista já me disse que o suicídio é o ato mais racional e ecologicamente correto que um ser humano pode fazer. Então não é de se surpreender que pessoas racionais sejam mais predispostas a esta opção.

Quanto ao fator temporal, é mito que as pessoas se suicidem mais no inverno ou na época do Natal. Mas é verdade que a taxa de suicícios aumenta na segunda-feira!

Sem querer brincar com assunto sério, eu dou um conselho para os meus amigos homens cientistas de alto QI caso queiram evitar a tentação do suicídio. Seja irracional: arranje uma namorada e tenha filhos. Passe seus genes de alto QI para as gerações futuras! Pelo menos tente ser um Leonard, não um Sheldon. Você vai ficar tão atarefado tentando sustentar seus filhos com o parco salário de professor que não vai sobrar tempo para pensar em se matar…
PS: Takata, por favor considere que o parágrafo acima não é machista. Eu não tenho conselhos para minhas amigas nerds porque considero que elas são mais inteligentes e bem resolvidas do que meus amigos nerds…

PS2: Se a coesão social e sociabilidade forem os principais fatores de prevenção ao suicídio, então pode-se prever que a taxa de suicídio no Brasil deve decair dramaticamente durate as copas do mundo. A verificar…

Mais uma evidência contra o sociodeterminismo

Acima: Rapaz faz cara de que não está conseguindo enxergar direito…




As pessoas tem uma tendência de gostar daquilo que fazem bem. Talvez as mulheres tenham mais facilidade para fazer tricô, crochê e enfiar linha em ponta de agulha do que os marmanjos. Essas atividades são culturais, mas a facilidade para fazê-las vai além do simples treinamento. Talvez isso explique porque as mulheres são melhores no uso de microscópios (tenho certeza que alguém vai reclamar sobre esta frase)…

Enviado por Sandro Reia:


Homens enxergam melhor de longe e mulheres, de perto; efeito é atribuído à seleção natural.

LONDRES – Homens e mulheres veem diferente por uma questão de programação cerebral derivada de quando os antepassados masculinos se dedicavam predominantemente a caçar e os femininos a colher, segundo um estudo publicado no British Journal of Psychology.

As conclusões do estudo, dirigido pela psicóloga Helen Stancey, são o resultado de uma série de experiências que demonstraram que os homens têm uma maior capacidade de discernir à longa distância e as mulheres focalizam melhor a curta distância.

A pesquisa, segundo os autores, sugere que o cérebro dos homens e das mulheres evoluiu de maneira diferente por causa das tarefas definidas que tinham os indivíduos de cada sexo para garantir a sobrevivência do grupo.

Os homens eram os caçadores e tinham que forçar a vista para as distâncias longas, em busca de presas, o que gerou uma seleção a favor da capacidade para distinguir de longe, enquanto as mulheres, em sua condição de coletoras de frutos ou raízes, se adaptaram melhor à visualização de objetos ao alcance das mãos.

Para demonstrar que há uma diferença de percepção visual em função do sexo, os pesquisadores pediram a um grupo de 48 homens e mulheres que marcassem com um ponteiro laser o eixo central de várias linhas traçadas em uma folha de papel.

O resultado foi que os homens eram mais precisos quando o papel se situava a uma distância de 100 metros e que as mulheres se aproximavam mais do ponto central quando se situava a 50 centímetros.

“Já existia evidência de que houve caminhos separados na maneira de processar cerebralmente a informação visual. Nossos resultados sugerem que a relacionada com as distâncias curtas favorece as mulheres e a relacionada com as distâncias longas os homens”, disse Stancey, professora do Hammersmith and West London College.

Teoria da conspiração: vírus da gripe foi inventado pelos produtores de álcool gel

Mauro Copelli me disse que estou muito hipocondríaco com a gripe suína. Não é verdade, dado que minha rotina não mudou em nada: por exemplo, eu fui para Campinas para encontrar o Mauro Rebelo e conversar sobre o II EWCLiPo. Aproveitei para visitar a FNAC no Shopping do Pinto do Português. Eu tinha a ilusão de que a FNAC seria tipo assim uma Livraria Cultura (em Montpellier, na década de 80, ela era).

Reconheço que comprei um tubinho de álcool gel (é mais fácil para limpar as mãos das crianças do que obrigá-los a ir para a pia antes de almoçar). E ando tentando comprar Tamiflu, mas isso tá difícil.

Um tubinho de álcool-gel está prá lá de R$ 7 reais. Pelos meus cálculos, o volume de vendas e o lucro com o álcool gel é bem maior que o lucro da Roche com o Tamiflu. O que leva a concluir, seguindo os parâmetros dos conspirólogos, que são os produtores de álcool gel os responsáveis pela engenharia genética que criou o vírus.

Tenho uma teoria (mais uma) sobre a origem do comportamento obsessivo-compulsivo de lavar as mãos e ter medo de germes. Somos todos filhos de pessoas que sobreviveram à gripe espanhola. Somos filhos de pessoas predispostas a pânico. Provavelmente uma fração desproporcional de pessoas com baixo nível de ansiedade morreram em 1918-1919. Os normais morreram, sobraram os mutantes…

Dawkins, uma desilusão na FLIP

Em tempo, um post interessante do Mauro (blog Você que é Biólogo): Dawkins uma Desilusão (na FLIP). Apena um reparo sobre a pergunta que ele fez ao Dawkins, sobre se a propagação dos mais aptos não vale para os seres humanos, dados que a elite tem poucos filhos (por exemplo, os genes egoístas de Dawkins não tiveram descendentes).

Mauro, você que é biólogo devia saber que “as pessoas em posições hierárquicas na sociedade” não são os bem adaptados. Tais pessoas têm uma maior probabilidade de apresentar várias patologias psiquiátricas tais como desordem de personalidade obsessiva-compulsiva, desordem de personalidade narcisística e mesmo psicopatia. Isso não é muito compatível com a atividade de criar filhos.

O bisavô de meus filhos é um homem negro de mais de 90 anos que ainda descasca o própio arroz num pilão em seu sítio. Casou duas vezes, teve 24 filhos e um número incontável de netos. Por todos os parâmetros biológicos, é um ser humano de altíssimo fitness. A evolução continua a favorecer os mais aptos…

O meme religioso “crescei e multiplicai-vos”, favorece os genes de seus portadores. Muçulmanos, mórmons e o pessoal do Bible belt tem alto fitness biológico (número de descendentes férteis). Intelectuais e cientistas, especialmente os europeus, ocupados demais para terem filhos tem baixo fitness biológico. É simples assim…

E não adianta criticar os religiosos pelo fato da superpopulação ser ecologicamente insustentável. Mais cedo ou mais tarde, todos os grupos sociais reduzirão sua taxa de natalidade, mas os grupos que fizerem isso por último herdarão a Terra. Portanto, a estratégia deles é sumamente racional e coerente, mesmo se feita de modo inconsciente. Talvez possuam genes mais egoístas e espertos…

Guerreiros altruístas

Guerras modelaram altruísmo humano, dizem pesquisadores

RICARDO BONALUME NETO

da Folha de S.Paulo

A guerra na Pré-História era frequente e altamente letal, mas essa luta constante está ligada ao surgimento de comportamentos altruístas na espécie humana. E quando os grupos humanos atingiram determinado tamanho, criava-se o potencial para uma revolução no comportamento e na cultura.
É o que indicam dois estudos publicados na edição de hoje da revista científica “Science”.
José Manuel Ribeiro/Reuters
Figura de 10 mil anos com cavalos copulando é uma das primeiras que dão a ideia de movimento, afirmam pesquisadores em artigos
Samuel Bowles, do Instituto Santa Fé (EUA) e da Universidade de Siena (Itália), usou dados arqueológicos e etnográficos sobre populações de caçadores-coletores e mostrou que a mortalidade produzida pelos conflitos poderia ter promovido a predisposição para ajudar membros de grupos não diretamente aparentados.
O guerreiro “altruísta” é aquele que está disposto a sacrificar a vida em prol da sobrevivência do grupo.Mas quão precisas são as estimativas de populações pré-históricas, ou da mortalidade das guerras mais remotas?
“É surpreendente –e um pouco reconfortante– que os conjuntos de dados etnográficos e arqueológicos resultem em quase a mesma estimativa -14% de mortalidade”, disse Bowles à Folha.
Revoluções
Já os pesquisadores Adam Powell; Stephen Shennan e Mark Thomas, do University College, de Londres, afirmam que o tamanho das populações explicaria o motivo de comportamentos socioculturais modernos terem surgido na África há 90 mil anos, desaparecido há 65 mil anos e ressurgido na Europa 45 mil anos atrás.
“Por comportamento moderno, nós queremos dizer um salto radical em complexidade cultural e tecnológica, que torna nossa espécie única. Isso inclui comportamento simbólico, como arte abstrata e realista, decoração corporal usando contas, ocre ou kits de tatuagem; instrumentos musicais, artefatos de osso, chifre e marfim; lâminas de pedra e tecnologia de caça mais sofisticada, como arcos, bumerangues e redes”, afirma Powell.
Em geral, os pesquisadores especulavam que essa revolução cultural tivesse surgido por conta do aumento do cérebro humano. Mas os autores lembram que esse comportamento só surgiu cerca de 100 mil anos depois de ter aparecido o ser humano anatomicamente moderno, e que em alguns casos as inovações foram perdidas.
Eles argumentam com cálculos sobre o tamanho das antigas populações, que mostram que só quando elas atingem uma determinada massa crítica é que as inovações podem surgir e ser transmitidas.
Ruth Mace, também do University College, de Londres, discutiu as duas pesquisas em artigo também na edição de hoje da “Science”. “Os dois estudos sugerem que a estrutura demográfica das nossas populações ancestrais determinava como a evolução social procederia”, diz Mace.
Ela lembra que os biólogos tendem a achar que a seleção natural darwiniana, o motor da evolução, age principalmente em indivíduos e em genes. Mas novos estudos têm procurado mostrar que a seleção também age no grupo social.
“Definir altruísmo também é sempre problemático. Aqui ele é definido como um comportamento que ajuda o grupo, mas que pode ser custoso ao indivíduo”, disse Mace à Folha.
Bowles diz que procurou usar dados apenas sobre populações de caçadores-coletores que não faziam grande uso de animais ou plantas domesticados, pois ele queria manter o foco sobre as condições que existiam há 100 mil anos, e não há 10 mil, quando a agricultura e a pecuária já existiam. Ficaram de fora, assim, dados sobre a guerra entre os índios Yanomami da fronteira Brasil-Venezuela, “o povo feroz”.
“O outro artigo é consistente com o meu trabalho. Mas a questão é muito diferente. Uma população mais densa não apenas cria oportunidades para troca, mas também para conflitos”, comenta Bowles.