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Ainda tentando entender as manifestações muçulmanas contra o Ocidente

18/09/2012 – 03h00

Um só Deus, muitas vozes

Durante a Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio em Doha (2001), o então ministro da Saúde José Serra foi abordado por uma jornalista árabe que queria uma entrevista sobre a chamada “guerra das patentes”, um dos eixos em torno do qual girava a reunião.

Serra olhou para a moça e disparou: “Você é árabe e está vestida desse jeito?”

A jornalista vestia uma T-shirt branca discreta e jeans idem. Suponho que Serra deve ter pensando que mulher árabe usa obrigatoriamente o véu islâmico, talvez a burca.

Conto esse episódio, obviamente micro, apenas para pontuar o fato de que “o público e a mídia ocidentais tendem a ser no geral ignorantes a respeito do Islã e da natureza dos movimentos islamitas”, como diz Joost Hiltermann, sub-diretor do Programa para o Oriente Médio e o Norte da África do International Crisis Group, dedicado à prevenção de conflitos.

Completa o especialista: “O movimento islamita é muito diverso, com muitas diferentes ideologias, metas e métodos”.

Essa diferenciação é essencial se se quiser entender melhor as manifestações dos últimos dias a pretexto de um filme que ofende o Profeta Maomé. A violência empregada nelas dá a sensação de um levante dos muçulmanos contra o Ocidente ou mais precisamente os Estados Unidos.

Impressão falsa. Foi, essencialmente, uma agitação salafista (o movimento ultra-ortodoxo que pretende viver o Islã como nos tempos do Profeta; “salaf” em árabe quer dizer exatamente “predecessor” ou “ancestral”).

Tariq Ramadan, um dos principais acadêmicos do Islã no Ocidente, já havia deixado claro esse aspecto na excelente entrevista que Marcelo Ninio fez com ele, publicada ontem, ao dizer que os militantes salafistas usaram o filme “com o objetivo de se apresentar como a única e exclusiva corrente islâmica”.

Os salafistas não são os únicos nem sequer os majoritários nem a violência é predominante no Islã, como o demonstra a equação assim apresentada por Joost Hiltermann:

“Todos os militantes da Al Qaeda são salafistas mas nem todos os salafistas são membros da Al Qaeda ou de qualquer outra variante de ‘guerra santa’ violenta; de fato, a maioria dos salafistas são inteiramente pacíficos”.

Mais: “Embora todos os salafistas sejam muçulmanos, a vasta maioria dos muçulmanos não são salafistas, o que significa dizer que estamos falando da minoria de uma minoria, de um grupo extremamente pequeno de pessoas que, no entanto, por sua extrema violência tem influência desproporcional”.

Influência ainda maior quando se acrescenta a visão de Jean-François Daguzan, diretor-adjunto da Fundação para a Pesquisa Estratégica de Paris, para “El País”: a força dos grupos violentos “cresce ante a debilidade do Estado (Líbia) ou o que se percebe como debilidade dos partidos islamitas no poder (Egito, Tunísia, Marrocos), que não sabem bem como enfrentá-los, se com dureza ou mediante negociação”.

Tudo somado, é razoável supor que a galáxia continuará desafiando a compreensão do Ocidente.

Clóvis Rossi

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno “Mundo”. É autor, entre outras obras, de “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e “O Que é Jornalismo”. Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa do caderno “Mundo” e às sextas no site.

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