Home // Articles posted by okinouchi (Page 96)

Excêntricos (II): Luca Turin

Ok, ok, sim eu li o livro do Luca Turin. Achei que, se ele estiver certo, sua história seria mais um exemplo interessante da afirmativa Kuhn-Plankiana de que novas teorias só vencem quando os defensores das velhas teorias envelhecem e morrem (na verdade, acho mais plausível que a mudança se de via comportamento de manada, ou seja, quando coletivamente os cientistas começam a ponderar, de forma agnóstica, os ganhos e perdas de uma mudança de posição. Ou seja, para se fazer pesquisa sobre uma dada teoria, não é necessário acreditar nela, mas apenas ficar motivado por sua possível fertilidade, facilidade de ataque de problemas e obtenção de resultados (mesmo negativos), financiamento, recompensa para quem chegar primeiro (ou em segundo) caso a teoria esteja correta. Tudo isso, claro, fica facilitado se alguns lideres científicos (os caras do extremo da distribuição de status científico e intelectual -os dois status não necessariamente coexistem) derem seu aval sinalizando aos jovens pesquisadores que aquele tópico é quente. Ah sim, essa sinalização também tem sido feita, ultimamente, por jornalistas científicos da Nature e Science…
Entretanto, usando os critérios usuais de detecção de cranks, eu fiquei achando que Luca Turin certamente apresenta todos os sintomas de ser um crank segundo Gardner, a saber:

(1) First and most important of these traits is that cranks work in almost total isolation from their colleagues. Cranks typically do not understand how the scientific process operates that they need to try out their ideas on colleagues,
attend conferences and publish their hypotheses in peer-reviewed journals before announcing to the world their startling discovery. Of course, when you explain this to them they say that their ideas are too radical for the conservative scientific establishment to accept.

(2) A second characteristic of the pseudo-scientist, which greatly strengthens his isolation, is a tendency toward paranoia, which manifests itself in several ways:(a) He considers himself a genius. (b) He regards his colleagues, without exception, as ignorant blockheads…. (c) He believes himself unjustly persecuted and discriminated against. The recognized societies refuse to let him lecture. The journals reject his papers and either ignore his books or assign them to “enemies” for review. It is all part of a dastardly plot. It never occurs to the crank that this opposition may be due to error in his work…. (d) He has strong compulsions to focus his attacks on the greatest scientists and the best-established theories. When Newton was the outstanding name in physics, eccentric works in that science were violently anti-Newton. Today, with Einstein the father-symbol of authority, a crank theory of physics is likely to attack Einstein…. (e) He often has a tendency to write in a complex jargon, in many cases making use of terms and phrases he himself has coined.

Outro sintoma é publicar suas idéias em livros de divulgação dirigidos ao público. Sim, eu sei, Galileu apresentava todos esses sintomas também… Afinal, escrever livros populares em italiano corrente sem peer review em vez de usar a linguagem acadêmica internacional da época (latim) me parece muito suspeito. Mas quem disse que Galileu não era, psicologicamente, um crank?
A teoria de Turin, chamada de Vibratory Theory of Smell (hummm, vibratory é uma palavra bem crank) consta da lista de teorias pseudocientíficas da Wikipédia. Talvez isto se deva devido aos resultados negativos referentes às previsões de Turin encontrados por Leslie Vosshall, da Universidade de Rokfeller, em 2004, comentadas aqui:
(…) Turin never undertook a series of experiments that he said, in a theoretical paper, would prove his theory. “Since Turin’s theory was based solely on his unverified reports about the smell of certain odorants, the scientific community rejected it as a universal theory of smell based on one man’s olfactory impressions,” says postdoc Andreas Keller, first author of a report on the research published in the April issue of Nature Neuroscience. A few months ago, Keller and Vosshall — who normally study olfaction in fruit flies — decided to conduct the human studies that Turin never did.

“This is a theory that has been universally rejected by every scientist, so you might ask why we bothered,” Vosshall says. “We felt that his theory has been given, by virtue of press coverage, some degree of credibility although it was never been put up to scientific scrutiny.”

(…) “In order for science to have integrity, you have to do studies properly. You can’t just sniff the substances yourself, decide in advance what the answer is supposed to be, confirm by testing it yourself and then publish a paper,” says Vosshall. “I did the boring work of actually doing Turin’s experiments and showing what the real answer is,” says Keller, with a laugh. Because the study was not designed to prove either theory, the results say only how smell doesn’t work. They don’t bring us any closer to knowing how it does work. “This is a paper of solely negative results,” Vosshall says. “We didn’t disprove the vibration theory, we just didn’t find anything to support it. The results show that molecular vibrations alone cannot explain the perceived smell of a chemical. And while all of our data are consistent with the shape theory, they don’t prove the shape theory.”
Qual então foi a minha surpresa em ver esses dias essa nota na Nature News:

December 7, 2006

Rogue theory of smell gets a boost
Physicists check out a bold hypothesis for how the nose works.
by Philip Ball
http://www.nature.com/news
RELATED SITES

Could humans recognize odor by phonon assisted tunneling?

A controversial theory of how we smell, which claims that our fine sense of odour depends on quantum mechanics, has been given the thumbs up by a team of physicists.
Calculations by researchers at University College London (UCL) show that the idea that we smell odour molecules by sensing their molecular vibrations makes sense in terms of the physics involved.
That’s still some way from proving that the theory, proposed in the mid-1990s by biophysicist Luca Turin, is correct. But it should make other scientists take the idea more seriously.
“This is a big step forward,” says Turin, who has now set up his own perfume company Flexitral in Virginia. He says that since he published his theory, “it has been ignored rather than criticized.”

Physics, abstractphysics/0611205

From: Andrew Horsfield [view email]
Date: Wed, 22 Nov 2006 08:04:17 GMT (22kb)

Could humans recognize odor by phonon assisted tunneling?

Authors: Jennifer C. Brookes, Filio Hartoutsiou, A. P. Horsfield, A. M. StonehamComments: 10 pages, 1 figureSubj-class: Biological Physics
Our sense of smell relies on sensitive, selective atomic-scale processes that are initiated when a scent molecule meets specific receptors in the nose. However, the physical mechanisms of detection are not clear. While odorant shape and size are important, experiment indicates these are insufficient. One novel proposal suggests inelastic electron tunneling from a donor to an acceptor mediated by the odorant actuates a receptor, and provides critical discrimination. We test the physical viability of this mechanism using a simple but general model. Using values of key parameters in line with those for other biomolecular systems, we find the proposed mechanism is consistent both with the underlying physics and with observed features of smell, provided the receptor has certain general properties. This mechanism suggests a distinct paradigm for selective molecular interactions at receptors (the swipe card model): recognition and actuation involve size and shape, but also exploit other processes.
Full-text: PostScript, PDF, or Other formats
Update: O artigo será publicado pelo Physical Review Letters, ver link aqui.

Excêntricos (I)

Eu ainda preciso achar aquela referência de um historiador da matemática, que o Daniel Ferrante achou horrível, dizendo que os grandes avanços nessa área se devem a apenas meia dúzia de pessoas a cada século. Acho que isso talvez seja plausível, não sendo louvação do mito do gênio histórico mas sim apenas mais um caso de eventos extremos em leis de potência aplicadas a impactos científicos (ou seja, as revoluções Kuhnianas justificadas pela física estatística).
Interessante comparar esta notícia da Folha, redigida pelo Ricardo Bonalume, com esta outra da Revista FAPESP. Notar o uso diferente de analogias, simplificações e ênfase em fatos curiosos (como o título já diz).

Gênio excêntrico fez descoberta do ano

RICARDO BONALUME NETO
da Folha de S.Paulo

A resposta para um enigma secular da matemática, a conjectura de Poincaré, foi considerada pela revista científica americana “Science” o mais importante avanço científico de 2006.

O feito foi obra de um excêntrico e recluso matemático russo, Grigori Perelman, e trouxe na esteira polêmicas e conflitos de egos entre outros pesquisadores. Perelman ganhou a Medalha Fields, prêmio considerado o “Nobel” da matemática, mas recusou.

Mas não foi esse o único fato que demonstrou mais uma vez como a ciência é uma atividade humana, sujeita aos mesmos caprichos de outras, como o esporte, a política ou a arte.

(…)

Geometria de borracha

A conjectura foi proposta pelo matemático francês Jules Henri Poincaré em 1904. Durante sete anos, Perelman trabalhou na sua demonstração, que expôs em três artigos em 2002. “Em 2006, quase quatro anos depois”, diz a “Science”, “pesquisadores chegaram a um consenso de que Perelman tinha resolvido um dos mais veneráveis problemas da área”.

Poincaré é o fundador da topologia, disciplina que estuda as propriedades mais fundamentais das formas, aquelas que não são perdidas com deformações. É uma espécie de “geometria de borracha”, na qual um objeto pode ser esticada e comprimido, mas não rasgado ou remendado.

A conjectura, grosso modo, afirma que dadas três dimensões, é impossível transformar uma forma com um furo no meio, como uma rosquinha, numa esfera, sem apelar para cortes e remendas. Mas formas sem furos têm como ser deformadas até virarem esferas –considerando uma quarta dimensão espacial.

Um grande passo na resolução foi dado em 1982 pelo matemático americano Richard Hamilton, que criou uma técnica, o “fluxo de Ricci”, que trata matematicamente as formas com uma espécie de ferro de passar, “alisando-as”. Mas mesmo assim sobravam “caroços” no fluxo. Só Perelman conseguiu eliminar o problema.

Outros autores, nos EUA e na China, confirmaram o trabalho de Perelman, mas começaram a brigar entre si por causa de supostos méritos, plágios, e declarações polêmicas. O próprio Perelman ficou indignado com os “padrões éticos” dos colegas.

Da Wikipedia:

The Fields Medal and Millennium Prize
In May 2006, a committee of nine mathematicians voted to award Perelman a Fields Medal for his work on the Poincaré conjecture.[2] The Fields Medal is the highest award in mathematics; two to four medals are awarded every four years.
Sir John Ball, president of the International Mathematical Union, approached Perelman in St. Petersburg in June 2006 to persuade him to accept the prize. After 10 hours of persuading over two days, he gave up. Two weeks later, Perelman summed up the conversation as: “He proposed to me three alternatives: accept and come; accept and don’t come, and we will send you the medal later; third, I don’t accept the prize. From the very beginning, I told him I have chosen the third one.” He went on to say that the prize “was completely irrelevant for me. Everybody understood that if the proof is correct then no other recognition is needed.”[2]
On August 22, 2006, Perelman was publicly offered the medal at the International Congress of Mathematicians in Madrid, “for his contributions to geometry and his revolutionary insights into the analytical and geometric structure of the Ricci flow”.[11] He did not attend the ceremony, and declined to accept the medal.[12][13]
He had previously turned down a prestigious prize from the European Mathematical Society,[13] allegedly saying that he felt the prize committee was unqualified to assess his work, even positively.[10]
Perelman may also be due to receive a share of a Millennium Prize (possibly together with Hamilton). While he has not pursued formal publication in a peer-reviewed mathematics journal of his proof, as the rules for this prize require, many mathematicians feel that the scrutiny to which his eprints outlining his alleged proof have been subjected exceeds the “proof-checking” implicit in a normal peer review. The Clay Mathematics Institute has explicitly stated that the governing board which awards the prizes may change the formal requirements, in which case Perelman would become eligible to receive a share of the prize. [citation needed] Perelman has stated that “I’m not going to decide whether to accept the prize until it is offered.”[2]

Withdrawal from mathematics
As of the spring of 2003 Perelman no longer works in the Steklov Institute.[3] His friends are said to have stated that he currently finds mathematics a painful topic to discuss; some even say that he has abandoned mathematics entirely.[14] According to a recent interview, Perelman is currently jobless, living with his mother in St Petersburg.[3]
Although Perelman says in the New Yorker article that he is disappointed with the ethical standards of the field of mathematics, the article implies that Perelman refers particularly to Yau’s efforts to downplay his role in the proof and play up the work of Cao and Zhu. Perelman has said that “I can’t say I’m outraged. Other people do worse. Of course, there are many mathematicians who are more or less honest. But almost all of them are conformists. They are more or less honest, but they tolerate those who are not honest.”[2] He has also said that “It is not people who break ethical standards who are regarded as aliens. It is people like me who are isolated.”[2]
This, combined with the possibility of being awarded a Fields medal, led him to quit professional mathematics. He has said that “As long as I was not conspicuous, I had a choice. Either to make some ugly thing” (a fuss about the mathematics community’s lack of integrity) “or, if I didn’t do this kind of thing, to be treated as a pet. Now, when I become a very conspicuous person, I cannot stay a pet and say nothing. That is why I had to quit.”[2]

Bom, é interessante notar que Poincaré também era um “excêntrico”.

Da Wikipédia:

Character: Poincaré’s work habits have been compared to a bee flying from flower to flower. Poincaré was interested in the way his mind worked; he studied his habits and gave a talk about his observations in 1908 at the Institute of General Psychology in Paris. He linked his way of thinking to how he made several discoveries.
The mathematician Darboux claimed he was un intuitif (intuitive), arguing that this is demonstrated by the fact that he worked so often by visual representation. He did not care about being rigorous and disliked logic. He believed that logic was not a way to invent but a way to structure ideas and that logic limits ideas.

Toulouse’ characterization
Poincaré’s mental organization was not only interesting to Poincaré himself but also to Toulouse, a psychologist of the Psychology Laboratory of the School of Higher Studies in Paris. Toulouse wrote a book entitled Henri Poincaré (1910). In it, he discussed Poincaré’s regular schedule:
He worked during the same times each day in short periods of time. He undertook mathematical research for four hours a day, between 10 a.m. and noon then again from 5 p.m. to 7 p.m.. He would read articles in journals later in the evening.
He had an exceptional memory and could recall the page and line of any item in a text he had read. He was also able to remember verbatim things heard by ear. He retained these abilities all his life.
His normal work habit was to solve a problem completely in his head, then commit the completed problem to paper.
He was ambidextrous and nearsighted.
His ability to visualise what he heard proved particularly useful when he attended lectures since his eyesight was so poor that he could not see properly what his lecturers were writing on the blackboard.
However, these abilities were somewhat balanced by his shortcomings:
He was physically clumsy and artistically inept.
He was always in a rush and disliked going back for changes or corrections.
He never spent a long time on a problem since he believed that the subconscious would continue working on the problem while he consciously worked on another problem.
In addition, Toulouse stated that most mathematicians worked from principles already established while Poincaré was the type that started from basic principle each time. (O’Connor et al., 2002)
His method of thinking is well summarized as:
Habitué à négliger les détails et à ne regarder que les cimes, il passait de l’une à l’autre avec une promptitude surprenante et les faits qu’il découvrait se groupant d’eux-mêmes autour de leur centre étaient instantanément et automatiquement classés dans sa mémoire. (He neglected details and jumped from idea to idea, the facts gathered from each idea would then come together and solve the problem.) (Belliver, 1956)

Miguel Nicolelis e Mayana Zatz começam a blogar

Os mundialmente conhecidos cientistas brasileiros Miguel Nicolelis, da Universidade de Duke e Mayana Zatz, atual pró-reitora de pesquisa da USP, lançaram recentemente seus blogs no portal de notícias da Globo. Isso é uma ótima notícia para nós blogueiros científicos!

Isto porque ambos cientistas são pessoas extremamente ocupadas mas duvido que alguém vá criticá-los por estarem desperdiçando seu tempo. Que tenham iniciado seus blogs poderia ser explicado pelas seguintes razões:

  • Blogs já podem ser considerados ferramentas consagradas de divulgação científica, especialmente se hospedado por um portal de notícias (o portal da Globo contém mais meia dúzia de outros blogs científicos que comentarei no futuro);
  • Manter um blog de ciências é uma atividade de extensão universitária que complenta o ensino e a pesquisa: o pesquisador divulga a sua área mas também presta contas ao público refletindo sobre as implicações do seu trabalho e de seus colegas;
  • Ok, ok, eles postam apenas a cada semana ou quinze dias;
  • Outras razões que vocês podem colocar nos comentários.

Blog do Nicolelis: Neuroblog.

Blog da Mayana: Transcrições.

    Artemis Fowl – Uma sugestão de livros para as férias

    Você tem filhos na pré-adolescência e não sabe o que conversar com eles? Bom, a culpa é de quem? Sei, sei, você não tem tempo para compartilhar o universo deles, existe o tal gap geracional etc. Ok. Bom, dou aqui uma sugestão que funcionou comigo: dividir com eles, durante as férias, a experiência de leitura de livros de fantasia, os tais livros de múltiplos níveis de interpretação.
    Então eu recomendo, para começar, a série do Artemis Fowl, que acho muito mais criativa que a do Harry Potter (ok, eu não li Harry Potter, só vi os filmes com as crianças e talvez esteja sendo injusto). Qualidades da série? Uma mistura de ação e mitologia irlandesa (onde as fadas usam armas e computadores de alta tecnologia!). Artemis é um menino de 12 anos, gênio do crime e anti-herói. A fada policial Holly Short é inteligente e sexy. O livro foi proibido e excluido das bibliotecas em várias escolas americanas. Mariana, que se orgulhava de detestar ler (para contrariar o pai), agora trocou a novela e o Orkut pelo segundo livro da série. Quer mais?
    Bom, se você precisa do aval intelectual de autoridades literárias para ler esse tipo de “subliteratura”, então forneço extratos de um texto encontrado aqui.

    Tales of talking animals and fantastical adventure aren’t just for children, argues Ursula Le Guin – we can and should return to them throughout our lives

    (…)

    The modernists extended this misconception by declaring fantastic narrative to be intrinsically childish. Though modernism is behind us and postmodernism may be joining it, still many critics and reviewers approach fantasy determined to keep Caliban permanently confined in the cage of Kiddie Lit. The voice of Edmund Wilson reviewing J R R Tolkien is still heard, bleating: “Oo, those awful Orcs!” There should be a word – “maturismo”, like “machismo”? – for the anxious savagery of the intellectual who thinks his adulthood has been impugned.

    To conflate fantasy with immaturity is a rather sizeable error. Rational yet non-intellectual, moral yet inexplicit, symbolic not allegorical, fantasy is not primitive but primary. Many of its great texts are poetry, and its prose often approaches poetry in density of implication and imagery. The fantastic, the marvellous, the impossible rode the mainstream of literature from the epics and romances of the Middle Ages through Ariosto and Tasso and their imitators, to Rabelais and Spenser and beyond. This is not to say that everybody approved of it. Conflict with religion and with realism always loomed. In the first great European novel, imagination and realism meet head-on, and their contest is the very stuff and argument of the book. Don Quixote is driven mad by chivalric fantasies – but what is he without his madness?

    Shakespeare may have influenced English literature towards fantasy in a rather particular way. Spenser has Continental counterparts, but A Midsummer Night’s Dream and The Tempest do not. Nowhere else in Europe did folk tale, legend, medieval romance, travellers’ tales and individual genius coalesce in such works of imagination as those plays. That may be one reason why the literature I am talking about is very largely an English-language phenomenon.

    It begins with, say, George MacDonald’s At the Back of the North Wind and runs on through Alice in Wonderland and Through the Looking Glass, The Wind in the Willows, the Just So Stories and The Jungle Book, the Pooh books, Dr Dolittle, The Hobbit, The Once and Future King, Charlotte’s Web, to my first three Earthsea books and all the serious imaginative fiction that continues to be published “for children” but is often read by adults. Does any other kind of fiction cross age-lines this way?

    Realism does not. Realism comes in three separate age categories, fully recognised by publishers. Didactic, explanatory, practical and reassuring, realistic fiction for young children hasn’t much to offer people who’ve already learned about dump trucks, vaccinations and why Heather has two mommies. Realistic “Young Adult” novels tend to focus tightly on situations and problems of little interest to anyone outside that age group. And realistic fiction for adults, with its social and historical complexities and moral and aesthetic ambiguities, becomes accessible to adolescents only as and if they mature.

    (…)

    Not all fantasy, of course. Few eight-year-olds get much out of Borges, Calvino or García Márquez. As the grip of realism weakened, the fantastic element began returning into adult fiction by various routes, magical realism being one of them. Borges and Calvino followed an older tradition, that of Voltaire and Kafka, the satiric or philosophic tale, or conte. Yet that form, when it uses fantasy, may become accessible to children, even if not intended for them. Animal Farm is read by kids of nine or ten, as is Gulliver’s Travels.

    Saint-Exupéry’s The Little Prince is a lovely example of the conte deliberately written (and illustrated) for both the child and the adult, enigmatic yet entertaining to the child, ambiguously transparent to the adult, fully satisfying to both. Such “duplicity” certainly helps explain the durability of the books I am talking about. Lewis Carroll wrote to and for the child, with no winks and sniggers over her shoulder at the grown-ups. He clearly took pleasure in making the story equally absorbing for Charles Dodgson, the professor of mathematics, and for any adult who was ready to appreciate his jokes, tricks, politics and chess moves, his half-hidden intellectual game-playing.

    (…)

    The Harry Potter phenomenon, a fantasy aimed at sub-teenagers becoming a great best-seller among adults, confirmed that fantasy builds a two-way bridge across the generation gaps. Adults trying to explain their enthusiasm told me: “I haven’t read anything like that since I was ten!” And I think this was simply true. Discouraged by critical prejudice, rigid segregation of books by age and genre, and unconscious maturismo, many people literally hadn’t read any imaginative literature since childhood. Rapid, immense success made this book respectable, indeed obligatory, reading. So they read it, and rediscovered the pleasure of reading fantasy – which may be inferior only to the pleasure of rereading it.

    Ursula Le Guin is the author of many fantasy novels and short stories, including “The Earthsea Quartet” (Puffin) [e dos premiados A Mão Esquerda da Escuridão e Os despossuídos]

    Paquistão

    Re-Imagining Pakistan
    From despardes:
    (Commencement lecture by Pervez Hoodbhoy at the Indus Valley School of Art and Architecture, Karachi, December 9, 2006.) To help us along, let’s imagine a film like “Jinnah”. You die and fly off to the arrival gate in heaven where an angel of the immigration department screens newcomers from Pakistan. Admission these days is even tougher than getting a Green Card to America. You have to show proofs of good deeds, argue your case, and fill out an admission form. One section of the form asks you to specify three attitudinal traits that you want fellow Pakistanis, presently on earth, to have. As part of divine fairness, all previous entries are electronically stored and publicly available and so you learn that Mr. Jinnah, as the first Pakistani, had answered – as you might guess – “Faith, Unity, Discipline”. This slogan was in all the books you had studied in school, and was emblazoned even on monuments and hillsides across the country. Since copying won’t get you anywhere in heaven, you obviously cannot repeat this. What would your three choices be? As you consider your answer, I’ll tell you mine. First, I wish for minds that can deal with the complex nature of truth. My second wish is for many more Pakistanis who accept diversity as a virtue. My third, and last, wish is that Pakistanis learn to value and nurture creativity.

    Dawkins no blog da Nature


    Legenda: Snapshot of faith. People in the UK are less likely to believe in God than those in any other country, according to a BBC-commissioned global survey of religion. The survey was conducted in January 2004 by independent research company ICM for the BBC’s What the World Thinks of God programme.

    Gráfico retirado deste site da BBC.

    Não sei porque mas não estou tendo acesso a este post do blog da Nature aqui na USP. Se alguém tiver acesso, me mande um pdf.

    Delusions of faith as a science
    Dawkins’s attempt to test the existence of God is as silly as using logic to tear down Santa Claus in the eyes of a child, says Henry Gee.

    In his book Unweaving The Rainbow, Richard Dawkins boasts (boasts!) that he told a six-year-old that Father Christmas doesn’t exist. His logic was purely scientific – there wouldn’t be time for Santa to reach the homes of all the good children in the world in one night.

    Achei os comentários nesse post meio cansativos (a conversa de surdos de sempre, além de alguns cranks que apareceram para divulgar suas idéias). Mas este comentário valeu:

    To all sides: When my daughter was a toddler and asked me “does God exist?”, I answered that it is purely a matter of faith. She went on “can you prove one or the othyer?” I explained that any proof is based on premisses which themselves require proof, which require premisses, and so on. In the end, there is always a beginning which is adopted without proof. They may be declared evident “by thmselves” (axioma). Therefore, the proof of any “truth” depends on those axioma which you choose (or are inspired) to believe. For a discussion to be valid, there must first be an agreement on those axioma (premisses). The “truth” that will be “proven” is implicit in those premisses. Because the premisses of science and of theism are inconsistent with each other, each will prove a different truth. A discussion under such conditions cannot be conclusive: the 2 (or more) sides are not discussing with each other, but at each other, sometimes killing the other. Each side has its own faith: the theist has faith in (a) God, and the scientist has faith in science: philosophically, there is no difference.

    A real incident may illustrate the point. A young school drop out and drug user (and seller) found God. Ben was saying: “God chose me and loves me over all others, and inspires me so that I know things without the effort of study.” He worked as a technician in a lab. He asked what results I expected from an experiment he was carrying out. I told him, but he disagreed, predicted a different outcome and that the resuts will prove him right, as he is inspired by God “because God loves me over everyone else.” The results agreed with my prediction. Ben became very depressed. I asked if I could help (I thought explaining the experiment complexity of electrochemical/viscous flow dynamics). He said: “No, there is nothing you can do: God loves you more than he loves me”
    Posted by: Jacques Leibovitz November 13, 2006 11:04 PM

    Jaques Leibovitz parece ser um físico-químico aposentado que deu um seminário sobre matéria escura no 2006 APS April Meeting.

    Gostaria de comentar a frase “Each side has its own faith: the theist has faith in (a) God, and the scientist has faith in science: philosophically, there is no difference”. Me parece que o que Leibovitz quiz dizer não é que não haja diferenças, mas sim que não existe diferença em termos filosóficos (ou seja, apenas considerando o nível lógico, não empírico). Exemplificando: Dawkins diz que a concepção que o que existe é “Universo + Deus” é menos parcimoniosa do que a concepção “Universo apenas” e que os cientistas deveriam adotar essa posição devido à navalha de Occan, mesmo antes de olhar qualquer questão empírica (tais como o já famoso fine tuning das constantes universais).
    Mas o problema é que a Navalha de Occan é uma tese filosófica não demonstrada, e só parcialmente validada, por exemplo, em Estatística. Sim, devemos diminuir a complexidade do modelo para evitar overfitting, mas hipersimplificação também é um problema. Exemplo (para os entendidos): Dado um conjunto finito de dados gerados por uma rede neural multicamadas – ou mesmo por um processo totalmente aleatório, eu posso fitar esse conjunto usando um modelo mais simples (perceptron de única camada com N entradas, capaz de implementar apenas classificações linearmente separáveis) e ficarei muito satisfeito até o limiar crítico alfa = 2N pois estarei, com meu modelo simples, explicando tudo o que é conhecido. Mas disso não decorre logicamente que o processo que eu esteja modelando seja linearmente separável. Muito provavelmente (no sentido a priori Bayesiano) o sistema a ser modelado não será tão simples assim, e isso só será revelado após ultrapassarmos o alfa crítico.
    Será que as crenças básicas, político ou religiosas, seriam equivalentes a probabilidades P(A) a priori da hipótese A? Bom, se isso for o caso, então sabemos por um teorema que a probabilidade a posteriori da hipótese A ser valida dado o conhecimento acumulado B, P(A/B) = P(B/A)P(A)/P(B), pode ser mudada por novos dados empíricos dentro do conjunto B de conhecimento acumulado desde que P(A) esteja entre zero e 1. Precisamos apenas evitar os casos extremos P(A) = 0 (Dawkins) e P(A) = 1 (fundamentalistas religiosos). Mas, se você quiser ter um a priori de 0.01 ou 0.99, tudo bem, no problem.
    Agora, isso nada tem a ver com a tese de Dawkins de que a religiosidade é um instinto geneticamente determinado, que era adaptativo no mundo pré-moderno mas não adaptativo no mundo moderno (na verdade, essa é uma tese de Jacques Monod exposta no livro Acaso e Necessidade). Pois precisamos lembrar que náo importa se um mem é verdadeiro ou falso, mas sim se ele se propaga com facilidade, tem poder de propagação, e se ele colabora para o aumento da prole fertil de seus hospedeiros.
    Exemplo: Eu acho que os mórmons e o pessoal do Bible Belt têm mais filhos que os liberais da costa leste, e que talvez isso explique a história política recente do USA. Outro exemplo: se a percentagem de ateus continuar a diminuir na população mundial como vem ocorrendo desde a década de 60, enquanto que a percentagem de religiosos aumentar, então o meme anti-religioso pode ser eventualmente “verdadeiro” de um ponto de vista cognitivo, mas patológico ou pelo menos não adaptativo do ponto de vista biológico-social para aqueles que o adotam.
    Quanto a estatísticas de crescimento populacional, parece que cristãos estão com população estável, budistas e religiões étnicas estão em declínio e islâmicos estão em crescimento, ver isso no interessante artigo sobre a Física Estatística das religiões:
    Physics, abstractphysics/0612032
    From: Filippo Petroni [view email]
    Date: Mon, 4 Dec 2006 16:56:25 GMT (35kb)
    Statistical Dynamics of Religions and Adherents
    Authors: Marcel Ausloos, Filippo PetroniComments: submitted to EPL
    Subj-class: Physics and Society; Adaptation and Self-Organizing Systems
    Religiosity is one of the most important sociological aspects of populations. All religions may evolve in their beliefs and adapt to the society developments. A religion is a social variable, like a language or wealth, to be studied like any other organizational parameter. Several questions can be raised, as considered in this study: e.g. (i) from a “macroscopic” point of view : How many religions exist at a given time? (ii) from a “microscopic” view point: How many adherents belong to one religion? Does the number of adherents increase or not, and how? No need to say that if quantitative answers and mathematical laws are found, agent based models can be imagined to describe such non-equilibrium processes. It is found that empirical laws can be deduced and related to preferential attachment processes, like on evolving network; we propose two different algorithmic models reproducing as well the data. Moreover, a population growth-death equation is shown to be a plausible modeling of evolution dynamics in a continuous time framework. Differences with language dynamic competition is emphasized.
    Full-text: PostScript, PDF, or Other formats
    Ainda do Blog da Nature:

    Two Jews are having a passionate discussion about the existence of God. In mid-sentence, one looks at his watch and says “irrespective of the existence of God, it’s time for prayers”. There is another story, which may or may not be apocryphal, of Jews in a concentration camp who put God on trial, find him guilty — and then break for prayers.


    Legenda: Praying. In Nigeria, 95% of respondents said they prayed regularly. A quarter of those polled in the UK, and 29% in Israel said they never prayed. Nearly 30% of atheists questioned admitted that they prayed sometimes.

    Roda de Ciência

    Ok, ok, voltando e pedindo mil desculpas pelos links quebrados. Vou colocando aqui minhas colaborações para a Roda de Ciência. Depois escrevo um texto meu, por enquanto vai aqui uma notícia da USP online para quem não viu:

    Paulo Gama / USP
    Online
    Até pouco tempo atrás, quando um pesquisador decidia expor suas idéias em algum meio diferente das tradicionais publicações científicas, esbarrava em limitações técnicas, como por exemplo a dificuldade para construir um site pessoal ou criar um grupo de discussão.
    Blog no qual a professora Elizabeth Saad Correa, da ECA, é colaboradora Recentemente, com a popularização dos blogs, esses pesquisadores viram aberta uma nova porta, que impulsionou um tipo diferente de debate. Nessas páginas virtuais, surge uma discussão um pouco menos acadêmica e mais ligada a temas cotidianos, que consegue atingir um público diferente, menos ligado às universidades, mas maior em quantidade. “Com um blog você tem a coisa na mão. A ferramenta é pronta, é só chegar e escrever! Essa questão técnica foi um ponto a favor dessa popularização, que foi muito legal e deu um grande avanço na área”, explica a professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA), Elizabeth Saad Correa.
    A professora ressalta que os blogs não têm a função de fomentar, especificamente, discussões acadêmicas profundas, mas se tornam essenciais na difusão do conhecimento gerado por pesquisas. “O blog serve pra você difundir as idéias que foram trabalhadas por um tempo maior e por um grupo menor. A discussão em profundidade não se dá no blog. Ela se dá, em geral, em listas fechadas de discussão, nas quais você conhece quem participa”, afirma.
    Isso faz com que os assuntos tratados precisem se aproximar mais do cotidiano do usuário, possibilitando uma integração maior do mundo acadêmico com o público geral. “Você só consegue essa interação, essa troca de opiniões mais coletivas, se for um assunto de interesse desse freqüentador”, explica.

    Outro fator importante é o tipo de linguagem usada pelo pesquisador: “Um blog com palavras mais técnicas vai ter poucos freqüentadores. Mas à medida que o site vai simplificando a linguagem, ele vai ampliando a possibilidade de usuários e comentadores. Quanto mais próxima a linguagem do público, mais o blog agrega”. Essa linguagem, afirma a professora, acaba tornando o próprio blog mais atraente: “Ele deixa de ser técnico e passa a conversar num nível de entendimento mais amplo.

    Para continuar a ler, clique aqui.

    Proposta da Mesa Redonda

    Motivado por uma recente lista de discussão na USP sobre o tema do Vestibular, propomos discutir nesta mesa redonda virtual o tema em seus diversos aspectos, convidando palestrantes que tem participado de experiências inovadoras e/ou que tenham reflexões produtivas sobre o tema.

    O formato da mesa redonda será o seguinte:
    – Até dia 10 de julho será postada a primeira rodada de colocações, junto com um resumo biográfico de cada palestrante.
    – Durante duas semanas os palestrantes, na medida do possível, responderão aos comentários colocados nas janelas de seus posts e poderão fazer críticas e comentários dos posts dos outros participantes.
    – Após este prazo os palestrantes farão uma réplica contendo suas considerações finais.

    Finalmente, lembramos que em princípio o blog é público, de modo que sugerimos cautela e reflexão no modo de expressão dos posts e comentários em janelas. Em particular, não serão admitidas comentários desrespeitosos aos palestrantes, de modo que, se necessário, as janelas serão sujeitas a moderação.

    Endereço do blog na Folha de São Paulo

    Daniel Tausk nos informou que o endereço deste blog foi publicado no caderno Cotidiano em 12/07, na edição em papel da cidade de São Paulo, em uma notícia sobre vestibular. Estamos contactando a Folha, para que ela coloque na versão online também.

    Mesa Redonda “Vestibular: problemas atuais e propostas alternativas”

    A fim de facilitar acesso aos textos, listamos abaixo os participantes da mesa redonda. Para ler os posts e fazer questionamentos ou comentários, clique em cima do nome do palestrante.

    Vestibular como ferramenta insuficiente de seleção para o Ensino Superior.

    Prof. Dr. Marcelo Henrique Romano Tragtenberg
    Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina
    Grupos de Trabalho de Etnia, Gênero e Classe da APUFSC e ANDES-SN
    Membro da Comissão da UFSC que discute ações afirmativas para acesso e permanência de índios, negros e estudantes de escolas públicas.
    Na grande maioria dos cursos das Universidades Públicas é preciso selecionar os alunos, pois há vagas insuficientes. É preciso no entanto que haja objetivos claros nesse processo seletivo.Se os objetivos na seleção dos alunos forem:
    (a) ter alunos com capacidade de realizar com mérito seus estudos;
    (b) corpo discente com diversidade socioeconômica e étnico-racial;
    (c) formar profissionais com várias origem socioeconômicas (permitindo maior igualdade de oportunidades) e vários perfis étnico-raciais, o vestibular tomado isoladamente isoladamente é uma ferramenta ineficaz.
    Nos cursos mais concorridos principalmente há poucos alunos de baixa renda, negros e indígenas. Nos outros cursos é comum baixa proporção de alunos negros e indígenas. Vários estudos já mostraram que as notas do vestibular não correspondem ao desempenho dos alunos
    ao longo do curso.
    A comissão de vestibular da UNICAMP mostrou que os alunos da rede pública tem notas melhores que os da rede privada e por isso implantou um programa de ação afirmativa com pontos extras para egressos do ensino médio público que seriam em quantidade 1/3 maior no caso de serem negros ou indígenas. O relatório do primeiro ano dessa experiência mostrou que em 31 dos 56 cursos, já no primeiro semestre, os alunos tiveram nota média superior aos alunos do vestibular tradicional.
    Estudo da UFRJ publicado na Ciência Hoje de janeiro de 2005 mostrou que a nota no vestibular não tem relação determinante na nota dos alunos nos cursos de graduação. Além disso, mostrou que a redução da nota de corte no caso de reserva de 20% das vagas para alunos de escolas públicas em cursos concorridos seria de cerca de 2 a 3%! Este estudo da UFRJ não pode ser realizado noaspecto étnico-racial pois a UFRJ não possuia o quesito cor-raça no formulário do vestibular!
    Lamentavelmente a diversidade étnico-racial e socioeconômica não são ainda objetivos de várias universidades brasileiras. Por outro lado, não para de crescer o número de universidades públicas com cotas ou pontuação extra para estudantes oriundos de escolas públicas, negros e indígenas, hoje já na casa das trinta.
    Estudo aceito para publicação nos Cadernos de Pesquisa de março/agôsto e realizado por nós em colaboração com João Luiz D. Bastos, Lincon Nomura e Marco A. Peres concluiu que duplicar vagas na UFSC não modifica o perfil socioeconômico e étnico-racial da instituição. E que se for instituída reserva de 50% das vagas para egressos do ensino médio público o percentual de estudantes negros não mudaria! Isso é coerente com a idéia que o racismo e a exclusão de negros se dá tanto na escola básica pública como a privada.
    Se se pretende uma formação com diversidade para egressos que atuarão numa sociedade diversa, é preciso promover essa diversidade com medidas de ação afirmativa no ingresso de estudantes de baixa renda, negros e indígenas às Universidades públicas, sejam elas cotas ou pontuação extra. Por outro lado, qualquer programa de combate ao racismo e suas consequências no Brasil precisa assumir essa luta no interior da Universidade Pública não só no acesso e permanência de negros e indígenas, como na reformulação do conteúdo de forte conotação eurocêntrica.
    Para que a sociedade seja mais diversa é fundamental a formação superior de mais pessoas negras e indígenas. Nosso percentual de negros formados é semelhante ao da África do Sul da época do apartheid e dos EUA segregacionista, além de ser cerca de 1/4 da população branca brasileria. Somos herdeiros desta herança terrível. Vamos ser conivente com ela? Recentemente o país viu a manifestação de parcela da comunidade acadêmica e alguns representantes negros contra o Projeto de Lei de Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial. Outra parcela da comunidade acadêmica e grande parte do Movimento Negro se colocaram a favor destes projetos de lei.
    Gostaria de mencionar apenas um aspecto curioso e para mim bastante revelador do manifesto dos contra cotas e Estatuto da Igualdade racial: ele só foi organizado para impedir as cotas nas Universidades Públicas. Quanto da aprovação do PROUNI não houve tal manifesto. Quando se tratava de abrir vagas em Universidades Particulares em geral com menor qualidade que as públicas, houve silêncio. Mas no momento de abrir as oportunidades melhores da sociedade brasileira no Ensino Superior, há um protesto veemente. Neste momento, questiona-se a idéia de raça, e que essas medidas podem gerar racismo.
    Curiosa hipocrisia: silêncio quando as piores vagas vão para negros e indígenas, e protesto quando pequena parte das melhores vão para esses grupos. Não seria esta uma marca de um neo-racismo, que só evoca o fim da noção de raça na hora de combater os efeitos da discriminação racial?

    Biografia acadêmica: Bacharel e Licenciado, Mestre e Doutor em Física pelo Instituto de Física da USP, com estágio de pós-doutorado no Departamento de Física da Universidade de Oxford/Inglaterra. Professor do Departamento de Física da UFSC. Membro dos Grupos de Trabalho de Etnia, Gênero e Classe da Associação dos Professores da UFSC e do ANDES-SN. E-mail: [email protected]

    Vestibular em Três Etapas: Uma experiência em andamento na UFPE


    Prof. Dr. Alfredo Mayall Simas

    Prof. Titular- Universidade Federal do Pernambuco
    Diretor do Centro de Ciências Exatas e da Natureza da UFPE
    Leciona, no período atual, a disciplina de formação pré-acadêmica “Introdução à Química” da Terceira Etapa do vestibular da UFPE para os candidatos ao curso de bacharelado em química.
    O concurso vestibular às universidades públicas brasileiras possui, além do peso da tradição de uma metodologia que vem sendo aplicada há décadas a milhares de candidatos, uma imagem de grande credibilidade junto à sociedade como um processo público, impessoal e transparente. Tudo isso passa uma percepção de que o vestibular é também um processo de reconhecimento do mérito intrinsecamente justo.
    Por outro lado, é de fundamental importância para a universidade pública sua produtividade, para a qual o número de alunos que se formam deveria ser igual ao número de alunos que ingressaram.
    O que seria, portanto, o vestibular ideal para uma universidade pública? Certamente aquele que apresentasse à mesma, um conjunto de candidatos selecionados em número igual ao número de vagas e que tivessem uma alta probabilidade de se formarem como profissionais de alta qualidade e no tempo previsto.
    O vestibular tradicional atende a essa necessidade da universidade pública?
    Diagnóstico
    No Centro de Ciências Exatas e da Natureza da Universidade Federal de Pernambuco, CCEN/UFPE, são oferecidos quatro bacharelados: em Estatística, Física, Matemática e Química. São todos cursos de alta qualidade acadêmica, que eram tradicionalmente avaliados como “A” no provão. Além disso, são oferecidas licenciaturas noturnas em Física, Matemática e Química.

    O ambiente acadêmico do CCEN/UFPE é bastante rico, com quatro departamentos: Estatística, Física, Matemática e Química Fundamental, oferecendo aos formandos muitas opções de cursos de pós-graduação: mestrado e doutorado em Estatística, Física, Matemática, Química, Ciência de Materiais e doutorado em Matemática Computacional. Muitos dos seus docentes possuem bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq. O Centro executa ainda um grande número de projetos institucionais, interinstitucionais, sedia redes de pesquisas, e é reconhecido como um centro de excelência e inserção internacional.

    Apesar disto, a produtividade de seus bacharelados é baixa: todo ano, em média, 210 calouros são admitidos, apenas 43 concluem o curso e 147 desistem – uma evasão média da ordem de 80%.

    Nossos sistemas de iniciação científica e pós-graduação que são de altíssima qualidade e nível internacional necessitam de um grande número de alunos que efetivamente venham a se formar em nossos vários cursos de graduação – o que, infelizmente, não vem ocorrendo a contento e nos deixa bastante preocupados.

    A Tabela 1, abaixo, revela a curiosa homogeneidade da evasão nos nossos cursos, tanto nos bacharelados quanto nas licenciaturas, mostrando que o fenômeno da evasão parece independer da área do conhecimento, seja estatística, física, matemática ou química. De fato, suas causas parecem ser comuns.
    Porém, longe de ser uma peculiaridade da UFPE, este fenômeno da evasão da ordem de 80% parece ser bem mais geral.
    No documento de 2001 da Sociedade Brasileira de Matemática intitulado Panorama dos Recursos Humanos em Matemática no Brasil: Premência de Crescer
    http://www.sbm.org.br/files/panmat.pdf pode-se ler:
    Estes números, se comparados com o número de ingressantes/ano, sugerem alta porcentagem de evasão dos cursos de graduação. É fato conhecido na comunidade matemática que esta taxa é próxima de 75%.
    Tal documento foi preparado em 2001 por especialistas da USP (São Carlos), Universidade do Ceará, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal Fluminense, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Laboratório Nacional de Computação Científica e Instituto de Matemática Pura e Aplicada.
    Longe de ser um problema pernambucano, o fenômeno da evasão da ordem de 75% parece ser, no mínimo, um problema brasileiro.

    A Primeira Tentativa de Intervenção: Disciplinas Introdutórias

    O Ministério da Educação divulgou em 2003 os resultados preliminares do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica http://www.inep.gov.br/download/saeb/2004/resultados/BRASIL.pdf
    (Saeb) realizado, em parceria com os Estados da Federação, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC). Os dados foram coletados em novembro de 2003 por meio da aplicação de testes e questionários a estudantes das 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio.
    Os resultados do SAEB são alarmantes: indicam que, em língua portuguesa, 39% dos concluintes do ensino médio não apresentam desempenho que possa ser considerado adequado. Já em matemática, 69% dos estudantes brasileiros concluintes do ensino médio apresentam níveis de aprendizagem em matemática absolutamente inaceitáveis.
    Comparativamente, o ensino superior nas universidades públicas brasileiras é de alta qualidade, muitas vezes igualando ou até mesmo superando o de congêneres dos países desenvolvidos.

    Assim, parece lógico imaginar que a causa da retenção e evasão dos alunos nos ciclos básicos dos cursos de graduação da área de ciências exatas vem precisamente deste desnível.

    De fato, cerca de metade dos calouros do ciclo básico da área de exatas na UFPE, aprovados no vestibular de 2001 e 2002, apresentaram nota menor do que 2.0 em todas as disciplinas da segunda etapa do vestibular. Isto indica que a segunda etapa do vestibular provavelmente possui um poder discriminador de competências dos candidatos muito baixo, devido à estreita faixa da escala de notas onde os resultados das inúmeras centenas de candidatos se acumulam.
    Em decorrência, entre 2001 e 2004, foram introduzidas no ciclo básico das áreas de exatas da UFPE três disciplinas introdutórias, com conteúdo de transição entre o ensino médio e o universitário: Introdução à Matemática, Introdução à Física e Introdução à Química. Todos os candidatos aprovados no vestibular que estivessem no último quartil de notas da segunda fase, em cada uma das disciplinas do vestibular: física, matemática e química, foram instruídos a fazer as introdutórias correspondentes.
    Nas figuras 1 a 3, são apresentadas a evolução da média das notas dos alunos nas disciplinas subseqüentes às introdutórias, onde o quadrado em magenta representa a média final dos alunos que fizeram a introdutória correspondente no semestre anterior para o ano de 2001 – o primeiro em que as introdutórias foram aplicadas. O triângulo amarelo representa a média das notas dos alunos que não fizeram introdutórias e que foram direto do vestibular para Física 1, Cálculo 1 e Química 1.
    Figura 1
    Figura 2
    Figura 3
    Os resultados foram animadores no sentido de que os alunos que fizeram as introdutórias passaram a ter, na disciplina correspondente subseqüente, um desempenho acima da média dos outros alunos. Portanto, apesar de terem passado no vestibular no último quartil, seu desempenho foi bem superior à média dos alunos cujas notas se situavam nos quartis superiores – tornando-se alunos até mais atraentes para programas de iniciação científica do que os que não haviam feito as introdutórias.
    O grande valor das disciplinas introdutórias foi justamente o de constatar aquilo que se esperava: que ensinar o aluno que apresenta deficiência, faz com que o mesmo aprenda. Entretanto, no que respeita os índices de evasão e retenção, não foram percebidas mudanças significativas.
    Foi ficando cada vez mais claro que os reais motivos que levavam à retenção e à evasão eram bem mais complexos do que se imaginava: claramente transcendiam o mero desnível entre o ensino médio e o superior.
    É fato que uma nota bem mais alta no vestibular geralmente significa maior probabilidade de sucesso nas primeiras disciplinas do curso universitário do que uma nota bem mais baixa.
    Entretanto, isto não é verdadeiro para notas próximas que são as típicas dos candidatos aprovados para um determinado curso. Ou seja, notas um pouco maiores não necessariamente implicam em maior probabilidade de sucesso nas primeiras disciplinas do curso universitário quando comparadas a notas um pouco menores.
    Mais grave ainda: começou-se a suspeitar que a nota do vestibular de um dado aluno não parece ser de nenhuma forma um preditor confiável de que o aluno irá eventualmente terminar seu curso e se formar: uma percepção desconcertante para quem até então acreditava que a nota do vestibular era uma evidência de mérito, uma medida da probabilidade de sucesso acadêmico.
    Foi ficando cada vez mais evidente que o vestibular tradicional apresentava inadequações como instrumento de seleção para os objetivos de uma universidade pública.
    Causas Intangíveis da Evasão

    Descobrimos que estava faltando avaliar variáveis subjetivas que o vestibular tradicional não tem nenhuma condição de fazer, como por exemplo:

    A capacidade de freqüência do aluno às aulas por todo um semestre;
    A vocação e o talento do aluno para a estatística, matemática ou química;
    A motivação do aluno para o estudo de nível superior;
    A autonomia do aluno enquanto estudante universitário.
    Muitas vezes o aluno tirava uma boa nota no vestibular, mas depois abandonava o curso pelos mais variados motivos. E detectamos que em sua grande maioria, esses motivos eram perfeitamente legítimos. Por exemplo, o aluno também tinha passado no vestibular de outra universidade e preferiu cursar esta outra; a família do aluno foi transferida para outro estado; o aluno não havia tido informação suficiente sobre a profissão e havia escolhido o curso baseado numa fantasia desconectada com a realidade; no decorrer do primeiro período o aluno havia se desencantado com o curso, por não ter se revelado o que esperava; o aluno mora em uma cidade distante sem condições de viabilizar sua estadia em Recife; o aluno fez o vestibular por pressões externas, mas não valoriza o curso a nível pessoal; o aluno precisa trabalhar muitas horas por dia para ajudar sua família; etc, etc.
    Realmente, são inúmeras as justificativas legítimas para abandonar o curso, justificativas estas que nada têm a ver com a nota do vestibular.
    Causas intangíveis de evasão que não poderiam ser de forma alguma detectadas pelo vestibular tradicional.
    Resultado: vagas públicas ociosas.
    O Desempenho no Primeiro Período

    Detectamos ainda que grande parte da retenção e da evasão ocorria justamente no primeiro período.

    O próprio aluno não sabia ao certo, logo nas primeiras semanas de aula, se o curso era realmente aquele com que sonhava, se seria o curso para o qual tinha aptidão, se iria se adaptar ao tipo de aula, ou à realidade universitária.
    A verdade é que as respostas a estas perguntas não estão disponíveis nos primeiros dias de aula. Só a vivência dentro da universidade tem condições de oferecer respostas a estas perguntas.
    De fato, não há como esclarecer de forma eficiente o aluno, antes de sua inscrição no vestibular para um de nossos cursos, todos os aspectos da experiência que terá ao entrar na universidade. E isto apesar das open houses que promovemos todos os anos no CCEN/UFPE, recebendo mais de mil alunos de escolas da Grande Recife em nossas instalações, oferecendo cursos, palestras, workshops, etc.
    Verificamos que os calouros que são reprovados em três ou mais disciplinas, logo no primeiro período, têm muito menor probabilidade de seguir adiante completando o curso. Já os reprovados em apenas uma disciplina apresentam excelentes chances de recuperação.
    Confirmamos que aquele aluno de nossos cursos que passa em todas as disciplinas no primeiro período tem uma altíssima probabilidade de se formar. Praticamente todos eventualmente se formam. Seu sucesso inicial parece gerar uma satisfação que reforça seu sentimento de escolha correta de curso e sua determinação de ir até o final.
    Nos perguntamos: – não seria então maravilhoso preencher todas as nossas vagas apenas com alunos que tivessem cursado e passado em todas as disciplinas do primeiro período?
    A concretização deste ideal aparece então límpida e cristalina: fazer do vestibular uma simulação do primeiro período com conteúdo de nivelamento e preparação para o mesmo.
    Neste vestibular – simulação do primeiro período – daríamos o conteúdo formativo de segundo grau com uma abordagem de nível universitário: matemática com demonstrações rigorosas; e química também chegando à fronteira da ciência contemporânea para reforçar a motivação. Mais ainda, as aulas e as avaliações seriam semelhantes àquelas das disciplinas subseqüentes do curso, sempre num contexto universitário.
    Mas como resolver o problema de que apenas uma fração dos alunos terá sucesso nesta simulação do primeiro período, devido às mais variadas causas, como anteriormente exposto?
    Este problema foi resolvido adotando a brilhante solução proposta pelo Prof. Ademir Sartim, coordenador do curso de matemática da Universidade Federal do Espírito Santo: receber para esta simulação do primeiro período três vezes mais candidatos do que vagas e selecionar apenas aqueles que tiverem pleno sucesso.
    O Vestibular em Três Etapas
    Como mencionamos anteriormente, um estudo havia mostrado que cerca da metade dos calouros do ciclo básico aprovados no vestibular de 2001 e 2002 da área de exatas da UFPE apresentavam notas menores do que 2,0 em todas as disciplinas da segunda etapa do vestibular.
    Conseqüentemente, estava claro que a segunda etapa do vestibular não apresentava um poder de resolução (de discriminação de competências) suficiente para decidir quais candidatos devem ou não ser aprovados.
    A primeira etapa do vestibular, entretanto, apresentava um bom poder de discriminação de competências. Decidimos, portanto, abandonar por completo as provas específicas da segunda etapa: matemática, física e química – por serem pouco úteis.
    Criamos, por conseguinte, um vestibular em três etapas, num primeiro momento apenas para os bacharelados em estatística, matemática e química, a saber:
    Primeira etapa: igual aos demais.
    Segunda etapa: apenas redação, com nota mínima 2,5 em caráter eliminatório.
    Terceira etapa: dentre os não eliminados na segunda etapa, três vezes mais candidatos do que vagas são selecionados, exclusivamente pela nota da primeira etapa, para cursarem duas disciplinas de formação pré-acadêmica de 90 horas cada, nas dependências do CCEN/UFPE, ministradas por professores doutores do quadro permanente.
    Na terceira etapa todos os candidatos cursam Introdução à Matemática I. Além desta, os candidatos ao Bacharelado em Química cursam Introdução à Química; os candidatos ao bacharelado em Matemática cursam Introdução à Matemática II; e os candidatos ao Bacharelado em Estatística cursam Introdução à Matemática para Estatística.
    As ementas das disciplinas estão disponíveis em:
    http://www.covest.com.br/vestibular2005/programas_pre.html
    São considerados aprovados no vestibular os candidatos com freqüência mínima de 75% em todas as aulas, obrigatoriamente aprovados em ambas as disciplinas (com nota igual ou superior a 5,0 em cada uma) e classificados pela média aritmética das duas disciplinas até o número disponível de vagas.
    Durante o período em que o candidato está cursando as disciplinas da terceira etapa, ele não é aluno regular da Universidade, passando a sê-lo apenas caso consiga sua classificação final dentro do número de vagas oferecidas pelo Curso.
    O manual de nosso primeiro vestibular 2005 com detalhes das regras e ementas das disciplinas pode ser consultado on-line em: http://www.covest.com.br/vestibular2005/manual.html
    O manual do vestibular 2006, com algumas pequenas mas importantes alterações e avanços em relação ao de 2005, pode ser encontrado em http://www.covest.com.br clicando em “Concursos anteriores” no menu superior esquerdo; depois em “Vestibular 2006”; depois ampliando a janelinha que se abre e clicando em “Manual do Candidato”.
    Os três cursos envolvidos (Bacharelados em Estatística, Matemática e Química) passaram a ser exclusivamente cursos de segunda entrada, visto que no equivalente ao primeiro período ocorre a terceira etapa com as duas disciplinas de 90 horas cada.
    O vestibular em três etapas foi aplicado pela primeira vez no CCEN/UFPE no vestibular para entrada em 2005. Os alunos aprovados em 2005 já cursaram e completaram seu primeiro período de nosso ciclo básico e estão neste momento cursando o seu segundo período.
    Neste momento, também está ocorrendo a terceira etapa dos candidatos para entrada em 2006. E em breve serão iniciadas as inscrições para o vestibular 2007 neste mesmo formato.
    Objetivos do Vestibular em Três Etapas

    O objetivo do vestibular em três etapas é selecionar candidatos com alta probabilidade de se formarem, o que é muito mais completo e complexo do que meramente selecionar candidatos que possam vir a acompanhar o ciclo básico da área de exatas.

    Com a implantação do vestibular em três etapas, percebemos que também estamos democratizando a forma de acesso aos bacharelados do CCEN/UFPE:
    Estamos selecionando, não pelo conhecimento prévio, mas pela capacidade de aprender justamente o conteúdo que achamos importante ensinar e que será de fundamental importância para o sucesso nos seus estudos universitários;
    Estamos dando oportunidade a todos que tenham interesse e talento, independentemente de sua formação.
    Não estamos privilegiando apenas aqueles que tiveram acesso a boas escolas nos ensinos fundamental e médio.
    Diplomando mais alunos, teremos como formar recursos humanos mais numerosos e melhor preparados pelo nosso sofisticado sistema de pós-graduação.
    Também estamos aumentando a percepção da relevância de nossos cursos de graduação por parte, tanto da sociedade como um todo, quanto da UFPE, em particular.
    E aqueles que não passam na terceira etapa? O conhecimento lá adquirido também será de grande valia em outros concursos que estes candidatos porventura venham a fazer. Por isso, todos são beneficiados, inclusive os alunos que não se adaptam por qualquer motivo e abandonam a terceira etapa. Como aliás teriam igualmente abandonado se tivessem sido aprovados no vestibular, com a diferença de que agora abandonam o vestibular e não a universidade – não gerando nenhuma ociosidade no sistema público de ensino superior.
    A Percepção do Vestibular em Três Etapas pela Sociedade

    Também aumentou a procura pelos três cursos envolvidos. Em 2005, quando a terceira fase aconteceu pela primeira vez, o curso de bacharelado em química foi o curso mais procurado de todos os cursos do ciclo básico da área de exatas da UFPE: mais de sete candidatos por vaga. Por isso podemos afirmar que a idéia da terceira etapa foi muita bem recebida pelos candidatos.
    O Vestibular Tradicional (Primeira Etapa) Prediz o Sucesso do Aluno na Terceira Etapa?

    Como mencionamos, normalmente se associa a aprovação no vestibular como resultado de uma avaliação de mérito.
    Mas qual mérito é esse? Descobrimos com a experiência que este mérito parece ser tão somente o mérito de passar no vestibular. Um mérito não muito útil para a universidade pública. Por que?
    Porque passar no vestibular não implica em se formar. Mais ainda, a nota no vestibular não parece ser um preditor do desempenho na universidade, nem muito menos de sucesso profissional posterior. Ora, supondo que a terceira etapa foi projetada para ser um bom preditor de desempenho no curso universitário, então o sucesso na primeira etapa não deveria correlacionar com o sucesso na terceira etapa. E isto ficou claramente evidenciado nos resultados das terceiras etapas para todos os três cursos do CCEN.
    Abaixo, apresento figuras com a correlação entre as notas da primeira etapa e as notas da terceira etapa para os nossos três cursos. Como se pode verificar, a correlação é simplesmente nula em todos os casos, mostrando que isto não é um fenômeno isolado de um curso em particular ou de determinados professores. O fato de a correlação ser nula implica em que o vestibular tradicional parece apresentar um defeito de concepção.

    Estudo de Caso: Bacharelado em Química
    Considerando que o resultado da Primeira Etapa equivale ao vestibular tradicional, onde se lê Primeira Etapa pode-se entender, para efeito de argumentação, vestibular tradicional.
    Como estudo de caso, vejamos o que aconteceu com o vestibular em três etapas para o bacharelado em química em 2005. Haviam 20 vagas, 60 candidatos foram selecionados para a Terceira Etapa, dos quais 20 foram aprovados.
    O 1° e o 2° lugar da Terceira Etapa foram o 38° e 30° lugar da Primeira Etapa – teriam sido reprovados pelo vestibular tradicional caso não tivesse havido a Terceira Etapa. Oito candidatos que teriam sido aprovados na Primeira Etapa foram reprovados na Terceira Etapa.
    O 2°, 3°, 7º e outros – num total de 9 alunos, quase a metade dos aprovados – vieram da escola pública (normalmente vêm apenas 30%). O 54° colocado na Primeira Etapa foi o 20° na Terceira Etapa.
    14 candidatos não fizeram pelo menos uma das duas primeiras provas, destes 6 teriam teriam sido aprovados pela primeira etapa.
    20 candidatos abandonaram a Terceira Etapa, destes, 5 teriam vindo da Primeira Etapa.
    Para todos os três cursos (estatística, matemática e química), o mesmo padrão aconteceu:
    em média, apenas metade dos candidatos aprovados pela Primeira Etapa têm sucesso na Terceira Etapa; muitos dos candidatos que abandonaram a Terceira Etapa teriam sido aprovados pela Primeira Etapa; um número alto de candidatos muito mal classificados na Primeira Etapa se recupera de forma surpreendente na Terceira Etapa; alguns candidatos muito bem colocados na Primeira Etapa, com notas altas e acima de 7.0, são surpreendentemente reprovados na Terceira Etapa; não há qualquer correlação entre notas na Primeira Etapa e notas na Terceira Etapa.
    Neste momento já temos dados preliminares com respeito ao desempenho dos aprovados na Terceira Etapa para o curso de Bacharelado em Química nas disciplinas do primeiro período.
    No primeiro período, os alunos do curso de Bacharelado em Química devem fazer as seguintes quatro disciplinas: Cálculo 1, Geometria Analítica, Física 1 e Química Geral 11.
    Os resultados do primeiro período encontram-se na Tabela 2 abaixo. Claramente houve um enorme e significativo progresso em termos de alunos aprovados nas disciplinas no ano 2005, com o vestibular em três etapas, quando comparado à média dos anos anteriores.
    À percentagem de alunos que não conseguiram ser aprovados em pelo menos três das quatro disciplinas denominamos “ineficiência do processo seletivo”. Observe como a ineficiência antes da introdução do vestibular em três etapas, em média 74%, é comparável ao percentual médio de evasão do curso apresentado na Tabela 1 que é 80%. Com a introdução do vestibular em três etapas, a ineficiência caiu para 33%. Caso esta correlação venha a se comprovar como verdadeira, podemos imaginar que ocorrerá um drástico aumento no número de alunos que irão se formar daqui a quatro anos.
    Estes resultados ainda são preliminares. Apesar dos indícios animadores apresentados na Tab. 2, precisamos efetivamente aguardar ainda quatro anos para uma verdadeira avaliação do valor do vestibular em três etapas na UFPE.

    Tabela 2 – Os dados referem-se ao número de alunos aprovados no vestibular cursando o primeiro período. A ineficiência do processo seletivo é definida como a porcentagem dos alunos que não conseguiram ser aprovados em pelo menos três das quatro disciplinas do primeiro período. *O número de aprovados em três disciplinas inclui o número de aprovados em quatro disciplinas.
    Acima, havíamos mencionado que o vestibular tradicional não apresentava correlação com o desempenho dos candidatos na terceira etapa, a qual foi projetada para ser uma simulação da realidade dentro da universidade.
    Cabe, portanto, a pergunta: o resultado do vestibular em três etapas é um preditor confiável do desempenho dos alunos no primeiro período da universidade?
    Ou seja, o resultado da terceira etapa apresenta uma boa correlação com o coeficiente de rendimento dos alunos no primeiro período?
    Uma correlação muito melhor foi encontrada, com R2 = 0.50, como mostra o gráfico abaixo.
    Esta correlação, caso seja confirmada de forma mais geral, inclusive poderá eventualmente vir a autorizar o uso do vestibular em três etapas como uma forma de dimensionar corretamente o número de vagas que devem ser oferecidas ao público anualmente para um determinado curso, face à sua demanda qualificada.

    A Nova Forma de Ingresso da UFES

    Em 17 de julho de 2003, em Recife, durante a 55ª Reunião Anual da SBPC, o coordenador do curso de matemática da Universidade Federal do Espírito Santo, Prof. Ademir Sartim ([email protected]), participou de uma mesa redonda sobre formas de ingresso na universidade, onde relatou uma experiência bem sucedida, testada e reproduzida por mais de cinco anos seguidos pelos cursos de matemática (bacharelado e licenciatura) e estatística (bacharelado) de sua universidade.
    Em 10 de outubro do mesmo ano, o Prof. Sartim voltou à UFPE, quando apresentou no auditório do CCEN uma palestra sobre esta nova forma de ingresso para nossos professores. Seu relato encontra-se publicado na forma de um artigo na revista Matemática Universitária, 32, 49-59 (2002), cuja leitura recomendamos fortemente.
    Suas idéias serviram de forte inspiração e motivação para que viéssemos a adotar este processo seletivo de vestibular em três etapas em nossa universidade e que é essencialmente o mesmo que o adotado para os cursos de bacharelado e licenciatura em matemática da UFES.
    Biografia acadêmica: Bacharel em Química (PUC/RJ, 1975), Mestre em Química (Unicamp, 1977), Ph.D. (Queen’s University, Canada, 1982). Desde 1985 é professor do Departamento de Química Fundamental da UFPE, onde atualmente é professor titular. Realiza pesquisas na área de química teórica, mais especificamente em arquitetura molecular no desenvolvimento e aplicação de modelos semi-empíricos em química quântica, tendo publicado mais de 90 artigos em periódicos internacionais. Desde 2000 é diretor do Centro de Ciências Exatas e da Natureza da UFPE e leciona, no período atual, a disciplina de formação pré-acadêmica “Introdução à Química” da Terceira Etapa do vestibular da UFPE para os candidatos ao curso de bacharelado em química.

    O Vestibular Nacional da Unicamp

    Prof. Dr. Leandro R. Tessler
    Prof. Associado – IFGW – UNICAMP

    Coordenador Executivo – Comvest – Unicamp

    O Vestibular Nacional da Unicamp tem suas origens em 1985 quando o prof. Rubem Alves, então Assessor especial do reitor para assuntos de ensino enviou uma série de ofícios ao reitor da Unicamp sugerindo a formação de “uma comissão que se dedique a fazer estudos e apresentar sugestões de alternativas aos atuais exames vestibulares”. Nesse ofício foi feito um diagnóstico cruel (e infelizmente ainda atual) do efeito nocivo que o vestibular vinha tendo sobre o ensino fundamental e médio. Vale a pena citar “a deformação do espírito científico, que depende da capacidade de fazer perguntas, mais que da habilidade de dar respostas, que convive com a dúvida” e também “A sua evidente injustiça social” e “A sua inutilidade”.

    Em 1986 foi criada a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (COMVEST) e desde 1987 a Unicamp elabora e aplica seu próprio vestibular. Como peculiaridades, esse vestibular tem entre seus objetivos selecionar “estudantes capazes de expressar-se com clareza, organizar suas idéias, estabelecer relações, demonstrar capacidade para interpretar dados e fatos, elaborar hipóteses e dominar os conteúdos das disciplinas do núcleo comum do ensino médio”. Note que o domínio dos conteúdos é a última das características desse perfil. Outro dos objetivos explícitos é “Interagir com os sistemas de ensino fundamental e médio e contribuir para o redirecionamento do ensino”. Para conseguir alcançar esses objetivos foi preciso criar uma nova cultura que passou pelo estabelecimento de um novo modelo de vestibular.
    Esse vestibular ocorre em duas fases, ambas puramente discursivas. A primeira fase consiste em uma redação elaborada a partir de uma coletânea de textos (que vale metade da prova) e questões muito elementares, em geral com formulação interdisciplinar. Desde 1999 a primeira fase é toda articulada em torno de um tema único. Passam para a segunda fase os candidatos que obtém pelo menos 50% da pontuação. Todos os aprovados fazem todas as 8 provas da segunda fase. As provas buscam privilegiar a leitura, a articulação de idéias e a expressão em lugar de conhecimento memorizado. Além disso o vestibular é aplicado em várias cidades do estado de São Paulo e em capitais de outros estados para atrair os melhores talentos do país para a Unicamp.
    Com essa proposta, e com a contínua discussão interna dos resultados, há 20 anos o vestibular nacional vem mantendo a mesma proporção de egressos de escolas públicas entre os candidatos e entre os matriculados, em torno de 30 a 34%. Desde 2005 a Unicamp instituiu o PAAIS, o primeiro programa de ação afirmativa sem cotas em uma universidade pública do país. A face mais visível do PAAIS consiste na possibilidade de bonificação de estudantes que cursaram todo o ensino médio na rede pública com 30 pontos (na Unicamp as provas são padronizadas com a média valendo 500 pontos e um desvio padrão valendo 100 pontos) e entre esses os que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas com mais 10 pontos. Esse programa foi motivado por um estudo feito pela própria Comvest que mostrou que se dois candidatos empataram no vestibular, um deles egresso de uma escola pública e o outro de uma escola privada, aquele que veio da escola pública em média melhora mais seu desempenho do que o outro uma vez na Unicamp. Ou seja, no nosso entendimento, mesmo com os resultados positivos que já vinham ocorrendo, o vestibular não é o único elemento preditivo do desempenho dos estudantes de graduação na Unicamp e poderíamos melhorar em média o quadro discente incluindo outras variáveis e estimulando a diversidade.
    Os resultados aferidos pelo PAAIS foram acima do esperado. Por um lado aumentamos de forma espetacular a participação de egressos de escolas públicas e de negros especialmente nos cursos mais concorridos. Por outro, após um ano de Unicamp, em 95% dos cursos a hipótese do PAAIS se confirmou, ou seja, os beneficiados melhoraram mais seu desempenho do que os demais. Mais que isso, em 55% dos cursos a média dos beneficiados foi superior à dos demais estudantes. Isso não ocorreu com nenhum programa de cotas adotado por algumas universidades brasileiras.
    O PAAIS mostrou que é possível termos programas de inclusão social sem perdermos a qualidade dos estudantes (na verdade melhoramos a qualidade) e preservando a autonomia universitária. O PAAIS nasceu na Unicamp e foi aprovado pelo Conselho Universitário, órgão máximo da universidade. Parece-me que no atual debate nacional sobre inclusão social, o maior erro é buscar uma solução única decidida na câmara federal para todas as IES brasileiras. É preciso entender e respeitar as especificidades regionais e deixar que as universidades façam o que elas sabem fazer melhor: pensar.

    Mais informações em www.comvest.unicamp.br

    Biografia acadêmica: Bacharel em Física (UFRGS, 1982), Mestre em Física (Unicamp, 1985), Ph.D. (Tel Aviv University, 1989). Desde 1991 trabalha no IFGW, Unicamp, onde atualmente é professor associado. Trabalhou como pos-doc no ISMRa (Caen, França) em 1990 e na École Polytechnique (Palaiseau, França) em 1993-1994. Publicou 49 artigos em periódicos indexados (Web of Science) em física de sólidos. Atualmente estuda semicondutores dopados com elementos das terras raras para aplicações em fotônica. Foi Coordenador de Graduação do curso de Física da Unicamp (2000-2001). É Coordenador Executivo da Comvest desde 2001.

    USP, vestibular e ensino

    Prof. Dr. Daniel Victor Tausk
    Professor Associado IME-USP.
    Introdução.

    Exporei nesse texto uma série de argumentos e considerações a respeito de questões ligadas ao processo seletivo para alunos ingressantes na USP. Devo mencionar que boa parte das afirmações feitas no texto não são embasadas por experimentos científicos, mas refletem apenas minhas opiniões e a visão sobre o assunto que adquiri através de minhas experiências pessoais. Considero, no entanto, que a forma sistemática como organizei as idéias no texto sejam úteis para a discussão e possam indicar idéias para a realização de experimentos que possam eventualmente vir a embasar de forma mais rigorosa muitas das afirmações feitas no texto.
    Proponho que nossas reflexões sobre o vestibular que seleciona os alunos ingressantes para a USP sejam divididas em duas partes:
    (1) a análise da eficiência com que o vestibular seleciona os alunos que queremos selecionar para os cursos da USP;
    (2) a forma como o vestibular influencia os ensinos fundamental e médio.
    Muitos dos docentes que ministram cursos de graduação na USP demonstram descontentamento (em grau maior ou menor) com algumas das características de seus alunos (tais como falta de pré-requisitos para assimilar o conteúdo das disciplinas de graduação, baixa capacidade de raciocínio, pouca vontade de aprender, pouca dedicação ao curso, etc); esclareço ao leitor que sou um dos descontentes com respeito a algumas dessas características dos nossos alunos ingressantes. Enquanto seria natural manifestar esse descontentamento apontando a culpa para o vestibular, observo que a questão deve ser analisada mais a fundo antes de se chegar a conclusões. Listo abaixo algumas daquelas que poderiam ser as causas do problema em questão:
    (a) alunos com as características que desejamos não existem em quantidades significativas (a ponto de, digamos, preencher as vagas de nossos cursos);
    (b) alunos com as características desejadas existem em quantidades significativas, mas os mesmos não estão interessados em estudar na USP;
    (c) alunos com as características desejadas existem em quantidades significativas e querem estudar na USP, mas nosso vestibular está deixando-os de fora (selecionando para nossos cursos aqueles que não possuem as características desejadas).
    Observo que não estou dizendo que uma e somente uma das alternativas (a), (b) e (c) corresponde à realidade; é bem possível que a realidade seja melhor refletida por alguma combinação das alternativas (a), (b) e (c). Passemos a uma análise de tais alternativas.
    Caso a alternativa (c) seja a mais próxima de refletir a realidade, então certamente a culpa deve ser apontada para nosso vestibular e a eficiência do mesmo mencionada no item (1) acima é muito pequena. Porém, caso a alternativa (c) não corresponda à realidade então devemos olhar para as alternativas (a) e (b), o que nos levaria a apontar a culpa para outras direções; além do mais, a busca de soluções para o problema não envolveria mudanças no vestibular. Por exemplo, caso a alternativa (b) seja verdadeira, então uma solução para o problema envolveria a criação de incentivos para que tais alunos adquiram interesse em estudar na USP. Caso a alternativa (a) seja verdadeira, então outro leque de opções é aberto:
    (a1) os ensinos fundamental e médio não estão formando alunos da forma que deveriam, de modo a criar alunos com as características que desejamos em quantidades significativas;
    (a2) as características que esperamos dos nossos alunos não são realistas.
    Pessoalmente, acredito que a alternativa (a) e a subalternativa (a1) são as mais próximas de refletirem a realidade. A USP é uma universidade de grande prestígio no Brasil. Embora devam existir alguns grandes jovens intelectos que não estão interessados em estudar na USP (prefiram estudar em outras boas universidades brasileiras ou no estrangeiro), duvido seriamente que esse efeito seja significativo. Excluo então a alternativa (b). Custo também a acreditar que a alternativa (c) seja correta, o que será melhor justificado mais adiante no texto, na seção 1.
    Foquemos então por um momento nossa discussão na alternativa (a). Embora eu admita que a subalternativa (a2) possa ser parcialmente verdadeira, tendo a duvidar que nossas expectativas sobre os alunos sejam tão irrealistas assim. Creio então que a subalternativa (a1) seja a principal causa do problema. Isso nos leva a apontar a culpa para os ensinos fundamental e médio. Voltaremos a essa questão mais adiante, na seção 2.
    =====================================================================================
    Seção 1. a análise da eficiência com que o vestibular seleciona os alunos que queremos selecionar para os cursos da USP
    Antes de começar tal análise, evidentemente devemos perguntar: “que alunos queremos selecionar para os cursos da USP?”. A resposta que me parece mais razoável é: “aqueles que terão melhor desempenho nos cursos da USP” (caberia aqui a questão sobre se mudanças nos cursos da USP seriam desejáveis; no entanto, para fixar as idéias, suporei um cenário em que tais mudanças não serão consideradas). Essa primeira questão que estou colocando poderia parecer um tanto trivial para alguns, mas é bom observar que imbutidas nela estão as discussões relativas a cotas, ações afirmativas e questões sobre inclusão social em geral.
    A idéia de admitir para a USP alunos que não tenham nenhuma condição de ter bom desempenho nos cursos da USP me parece insana e/ou irresponsável. Não sei se haveria alguém que gostaria de seriamente tentar defender uma idéia desse tipo. Por outro lado, se colocamos questões de inclusão social entre nossas metas, então faria sentido defender que devamos admitir alunos cujo desempenho na USP não será tão bom (deixando de fora então alunos que poderiam ter um desempenho melhor). Uma defesa racional desse tipo de política de ação afirmativa passaria por uma análise do tipo “preço a pagar”/”vantagens correspondentes”. O “preço a pagar” por uma política desse tipo seria a de não termos na USP alunos tão bons quanto poderíamos ter sem essa política; a “vantagem correspondente” seria algum efeito positivo para a sociedade causado pela inclusão social. Eu acredito que tais políticas de ação afirmativa sejam inadequadas na seleção dos alunos para a USP pelas seguintes razões:
    (i) o efeito positivo de inclusão social causado por uma política responsável de ação afirmativa (responsável no sentido que não permite alunos muito fracos na USP) seria ínfimo para a sociedade;
    (ii) é possível obter as vantagens sem pagar o preço. A USP é uma universidade de pesquisa e tem como papel formar a elite intelectual do país. Diversas outras estratégias para promover inclusão social podem ser elaboradas que nos permitam continuar selecionando apenas os mais preparados para a USP. Entre essas estratégias, incluem-se: (ii.1) criação de outros tipos de curso superior que possam abrigar alunos que não são tão bem preparados; (ii.2) melhorar a qualidade do ensino fundamental e médio público; (ii.3) selecionar os melhores alunos das escolas públicas e dar a eles bolsas para estudar em boas escolas.
    Para quem gosta de analogias futebolísticas: se fossem propostos critérios de escolha para os jogadores que participam da seleção brasileira de futebol que não fossem estritamente ligados ao possível desempenho nos jogos, nossa população ficaria tão descontente que teríamos algo próximo de uma guerra civil. Mas na hora de escolher os estudantes que formarão a “seleção brasileira” do mundo acadêmico, aparentemente não gera tanto descontentamento o fato de critérios não ligados ao mérito acadêmico serem usados para seleção. Isso me parece uma grande distorção.
    No que segue, assumirei como premissa que os alunos que desejamos selecionar para a USP são aqueles que terão o melhor desempenho possível nos cursos da USP. Passemos então a analisar a eficiência com que o vestibular seleciona os alunos. Uma análise dessa questão poderia ser feita de forma completamente objetiva usando ferramentas estatísticas para analisar a correlação entre o desempenho dos alunos na FUVEST e o desempenho dos mesmos na USP. Não tenho posse no momento dos dados necessários para fazer uma análise nesse nível de profundidade. Farei então apenas uma análise mais superficial, baseada nas minhas experiências pessoais.
    Acredito que exista uma correlação positiva muito alta (porém não perfeita) entre o desempenho de alunos na FUVEST a nos cursos da USP. Observem que, no mínimo, uma negação radical dessa última afirmação implicaria em conclusões um tanto estranhas, a saber: muitos dos melhores alunos que completam o ensino médio na cidade de São Paulo não consegueriam passar na FUVEST e estariam portanto estudando em outras faculdades existentes na cidade de São Paulo. Ora, mantendo conversas com professores de algumas faculdades particulares existentes na cidade de São Paulo, descobre-se que em algumas dessas faculdades pode-se encontrar alunos tão fracos que deixariam os docentes acostumados aos alunos da USP de cabelo em pé. Se não é o vestibular que está sendo bem-sucedido nesse processo de seleção, o que explicaria o fato de alunos da USP serem tão mais bem preparados do que os alunos de tais faculdades? Duvido que seja o ar do nosso campus.
    Mas nosso vestibular não pode ser aperfeiçoado? Claro que pode. Proponho algumas direções em que tais aperfeiçoamentos podem ser feitos:
    (a) quando elaboramos uma prova para medir determinados tipos de conhecimento e de capacidade de um dado grupo de alunos, devemos levar em conta que muitos alunos podem decidir treinar especificamente para ter um bom desempenho na prova, em vez de se dedicar a adquirir o tipo de conhecimento e capacidade que a prova pretende medir. No caso específico do vestibular, muitos cursinhos pré-vestibular focam todo o esforço em treinar os alunos para o vestibular e não em ensinar o conteúdo que o vestibular pretende medir (não menciono isso como uma crítica aos cursinhos, afinal os alunos pagam os mesmos esperando obter exatamente esse tipo de serviço). É dever dos que elaboram as provas do vestibular tentar ao máximo driblar aqueles alunos que estão se preparando especificamente apenas para um dado tipo de prova e não se preocupam em realmente adquirir conhecimento.
    (b) Cursos diferentes podem demandar alunos com conhecimentos e capacidades diferentes. Deveria se olhar mais de perto para as necessidades específicas de cada curso, mantendo um diálogo constante com as unidades responsáveis pelos cursos. Já existem no momento diferenças nas provas da segunda fase da FUVEST e algumas provas de aptidação específicas na seleção para certos cursos. Talvez mais diferenças e mais provas de aptidão específica sejam necessárias nos processos seletivos para os diferentes cursos da USP.
    =====================================================================================
    Seção 2. os ensinos fundamental e médio e a forma como o vestibular os influencia.
    Atenção: está seção contém algumas afirmações fortes que podem gerar bastante descontentamento entre alguns leitores. No entanto, considero crucial para a melhora do nosso ensino que opiniões como as que exponho abaixo sejam tornadas públicas.
    Preocupa-me bastante a forma como os ensinos fundamental e médio tem sido conduzidos no nosso país. Não apenas em pequenas escolas públicas de periferia, que enfrentam problemas básicos de infra-estrutura, mas também nas escolas particulares freqüentadas pela elite. Felizmente, não sou o único a me preocupar, porém, infelizmente, a sociedade está longe de manifestar o nível de preocupação com o assunto que deveria. O desempenho desastroso do Brasil em exames como o Pisa deveria servir como sinal de alerta. O problema com a educação brasileira não está apenas na falta de investimento, mas também no fato de termos delegado a responsabilidade sobre os ensinos fundamental e médio a profissionais que muitas vezes determinam estratégias educacionais a partir de idéias dogmáticas, em vez de estratégias mais racionais e científicas. No mínimo, há algo estranho no fato de que não existe uma boa harmonia de trabalho entre os teóricos do ensino e da educação e os cientistas e pesquisadores que de fato detém o conhecimento sobre os assuntos que serão ensinados. Muito pelo contrário: alguns teóricos da educação chegam a insinuar que tais cientistas atrapalham a educação com suas visões “conteudistas” do ensino.
    Construtivismo é a última moda e não importa se não funcionar na prática. É o dogma do momento. Conteúdo está fora de moda. Avaliação é uma coisa careta. Cito aqui a título de exemplo um dogma popular entre alguns teóricos da educação que me parece completamente insano: “todos os seres humanos têm exatamente a mesma capacidade de aprendizado e para todos eles as mesmas técnicas de ensino devem ser aplicadas”. As pessoas têm alturas diferentes, pesos diferentes, metabolismos diferentes, resistências físicas diferentes, mas o intelecto é exatamente igual para todos. Brilhante. Qualquer pessoa que já deu aulas deve ter percebido que alguns alunos tem mais facilidade (ou dificuldade) de aprender do que os outros e que alguns alunos aprendem melhor quando se explica de um jeito e outros aprendem melhor quando se explica de outro. Mas, para alguns teóricos do ensino, todos tem exatamente a mesma capacidade de aprendizado e todos aprendem exatamente da mesma forma. Durma-se com um barulho desses.
    Parece-me que o vestibular da FUVEST é um dos poucos sistemas de avaliação no Brasil que resiste à influência das seitas pedagógicas. Vejam o ENEM, por exemplo: boa parte de suas questões são nada mais que trivialidades com uma roupagem politicamente correta. Pouca avaliação de conteúdo e conhecimento (e, ao contrário do que alguns diriam, essa redução na quantidade de conhecimento necessário para fazer a prova não está nem de longe sendo compensada por um aumento na quantidade de raciocínio necessário para fazê-la).
    A USP e seu vestibular devem funcionar como luzes na escuridão que se encontra o ensino fundamental e médio brasileiro, resistindo à influência negativa proporcionada pelas seitas pedagógicas anti-conteúdo. Infelizmente, existe uma possibilidade de ocorrer agora exatamente o oposto: as últimas luzes que iluminam a ciência brasileira podem ser apagadas, deixando-nos na total escuridão.
    Biografia Acadêmica: Ensino fundamental e médio no Colégio Dante Alighieri (completo em 1992); Bacharelado em Matemática no IME-USP (1996); Mestrado em Matemática no IME-USP (1998); Doutorado em Matemática no IME-USP (2000); Professor do Departamento de Matemática do IME-USP (2001); Livre-Docência (2005).

    Vestibular e inclusão social

    Prof. Dr. José Roberto Castilho Piqueira
    Professor titular – USP

    É uma questão recorrente na sociedade brasileira a associação que se faz entre grau de escolaridade e inclusão social, apesar de termos um Presidente de pouca cultura formal. Confunde-se, por falta de raciocínio científico mínimo, correlação com causalidade.
    Não freqüentar uma universidade, qualquer que seja ela, não causa exclusão social e freqüenta-la, não necessariamente inclui a pessoa na engrenagem em movimento do mundo globalizado. Lula, Ronaldinho, Roberto Carlos (ambos) são muito mais inseridos socialmente do que qualquer professor do ensino médio ou fundamental, da rede pública.

    E é justamente disso que quero falar. A Universidade pública brasileira possui recursos limitados e nosso país, sabidamente, é carente. Entretanto, a Universidade pública brasileira, com todos os percalços e com todas as atitudes no sentido de prejudica-la, amplamente conhecidas, resiste e é um dos orgulhos da sociedade brasileira, pelo patrimônio intelectual e científico que representa.

    Como usar esses recursos limitados? Da maneira menos dispendiosa possível. Com alunos preparados a freqüentar os cursos escolhidos, com pouca evasão e com pouca reprovação, não por baixa exigência, mas por alta qualidade de ensino e de aproveitamento. Como selecionar esses alunos, então? Pelas suas qualidades intelectuais e psicológicas, da maneira mais justa e democrática possível. Criar regras casuísticas e atalhos parece preguiçoso e irresponsável.

    O argumento de quem defende esse tipo de posição é que os pobres não têm boa escola, pois a escola pública é de má qualidade. Vejam a incoerência: os homens públicos, escolhidos pela sociedade para defende-la, admitem que a escola pública de ensino fundamental e médio é ruim e não se propõem a melhora-la. Melhor a demagogia de transmitir a impressão que isso é responsabilidade da Universidade pública.

    Sou de uma geração que estudou na escola pública desde os seis anos de idade. O bem público me é familiar desde o primeiro dia que fui ao Grupo Escolar. No primário, no ginásio e no científico tive colegas pobres, remediados e ricos, brancos, negros e amarelos. Filhos de operários, ferroviários, médicos, engenheiros e pastores protestantes. Tudo se mesclava em uma escola gratuita e o que valia era a competência.

    No ginásio, fui colega de gente morta pelo regime militar e de algumas pessoas cujo reacionarismo faria a extrema direita parecer comunista. Não tinha problema, estudávamos juntos, aprendíamos junto, jogávamos futebol juntos. Era a escola que incluía.
    A Lei das Diretrizes e Bases, o pedagogismo que tomou conta da escola pública de ensino fundamental/médio e, principalmente o desrespeito à condição de professor levaram a escola pública ao estágio em que está.

    Que estou propondo para a inclusão social? A recuperação das escolas públicas de ensino fundamental e médio. Não é recuperar prédios ou comprar computadores. É melhorar o salário dos professores e sua condição social. Assim, e só assim, serão atraídos bons e motivados profissionais para o exercício do ensino público.

    Acredito no compromisso de ensinar a cada garoto que vai à escola a importância do bem público e como ele, com auto-estima e vontade, pode aproveitar o que o Estado lhe proporciona, para seu progresso pessoal. Alguns entrarão na Universidade pública, outros na Universidade privada, outros no mercado de trabalho, após o ensino médio.

    Entretanto, resgatar-se-á a dignidade do ser humano e das crianças das camadas sociais mais baixas, que terão opções de inclusão sem passar pelo futebol ou pelo tráfico de drogas.
    Confundir essa questão tão ampla e tão importante com algo tão restrito como o vestibular da USP é ignorar, conscientemente ou não, que o Brasil, a partir de 1968 jogou a educação pública no lixo. Nenhuma sociedade faz isso impunemente.

    Se alguma coisa existe, ela existe em certa quantidade e pode ser mensurada: o valor preditivo dos Exames Vestibulares


    Prof. Dr. José Aparecido Da Silva

    Prof. Titular – Prefeito do Campus da USP – Ribeirão Preto USP

    Há dias, os docentes da USP viram os seus e-mails serem sobrecarregados por inúmeras mensagens, relacionadas a um hipotético “manifesto” que veiculava virtualmente, no qual pessoas se posicionavam contrariamente a duas afirmações proferidas pela Pró-reitora de Graduação, acerca dos Exames Vestibulares (EV). As polêmicas afirmações da Pró-reitora foram: “a forma como o vestibular era feito até agora não dá certo” (…) “vamos passar a cobrar raciocínio e uma postura crítica com relação ao conhecimento e não acúmulo de informações”.

    Refletindo sobre tais afirmações, bem como sobre a polêmica por elas ocasionada, depreender dois aspectos que julgamos fundamentais. Primeiro: a prontidão das várias áreas do saber da Universidade de São Paulo em discutir o assunto e, em segundo lugar, a diversidade opinativa individual, tanto cognitiva quanto emocional, manifesta em resposta às diferentes mensagens recebidas. Ou seja, alguns se exaltaram contra a grande quantidade de e-mails recebida que, por sobrecarregar as caixas postais, provocou um pedido exasperado de exclusão de seus nomes na lista circulante; enquanto que outros analisaram detidamente o teor do manifesto e as colocações da Pró-reitora, entendendo, de antemão, que o tema da discussão não possui respostas corretas, dicotômicas, do tipo sim/não ou certo/errado, mas sim respostas que só podem ser geradas após intensos e contínuos debates acerca de sua natureza, modelo, forma e função.
    Assim esclarecido, entendo que ambas as colocações da Pró-reitora podem ser sumariadas por meio de duas questões que, usualmente, permeiam os processos de avaliação e/ou constructos de natureza psicológica. Primeira, quais são as dimensões e/ou fatores que devem compor os EV? Segunda, qual é o valor preditivo dos EV?
    A primeira questão trata da dimensionalidade dos EV. Quantas dimensões cognitivas podem ser capturadas pelos EV. Principiemos, portanto, da definição do que é uma dimensão. Pense uma dimensão como uma linha numérica. Se quisermos mensurar o constructo, temos que decidir se este pode ser adequadamente mensurado com uma única linha numérica ou se é necessário mais que uma linha. Como exemplo para tanto, tomemos a altura. Ela é um conceito que é unidimensional, ou seja, pode ser representado unicamente por uma dimensão. Assim como ela, o peso e a temperatura também são unidimensionais.
    Mas pense agora sobre o EV. Enquanto exame, prova, escala ou teste ele pode ter qualquer número de dimensões, embora a maioria tenha apenas poucas dimensões. Vá mais além e pense quais constructos cognitivos podem ser capturados pelos EV. À semelhança disso, pense sobre o conceito de inteligência, bem-estar subjetivo, qualidade de vida, personalidade, avaliação da excelência do ensino e/ou professor, da produtividade acadêmica e muitos outros similares. Se você achar que pode mensurar muito bem qualquer um desses atributos com uma simples régua, variando de baixo a alto ou de pouco a muito, então você, provavelmente, tem um constructo unidimensional.
    Por outro lado, o que seria um conceito multidimensional? Muitos modelos de exames de admissão, entre eles os EV, postulam que as provas, ou os itens e questões, devem ser compostos pela avaliação de, no mínimo, duas dimensões: o conhecimento cristalizado, ou seja, todo conteúdo que é processado e sistematizado pelo pensamento, e a capacidade fluída, ou seja, capacidade de resolver problemas. Um exemplo típico de exame multidimensional é o SAT (Scholastic Assessment Test), que mede uma mistura destes dois constructos, a saber, habilidade e realização, ambos comumente aferidos em estudantes norte-americanos. A propósito, as correlações entre o SAT e os testes de inteligência geral são usualmente superiores a 0,70. Este modelo traz uma forte analogia com o modelo da estrutura do intelecto humano, baseado na tradição psicométrica descrito pela teoria da inteligência fluída e inteligência cristalizada.
    A teoria da inteligência fluída e cristalizada distingue estas duas habilidades. A habilidade fluída é demonstrada pela solução de problemas para os quais experiência prévia e conhecimento aprendido são de pouco uso. Ela é mensurada por testes, provas e exames, tais como tarefas verbais, que repousam sobre relações entre palavras familiares, ou tarefas perceptuais ou figurativas, tendo pouco conteúdo escolástico ou cultural. Neste caso, o processamento cognitivo não está necessariamente associado com qualquer domínio de conteúdo específico. Ao contrário, a habilidade cristalizada reflete conhecimento consolidado ganho por meio da educação, acesso a informação cultural, bem como, através da experiência. É um processamento cognitivo que envolve conhecimento previamente adquirido e armazenado a longo prazo.
    Certamente a habilidade cristalizada de um indivíduo origina-se com a habilidade fluída, mas ela é desenvolvida por meio do acesso e seleção de experiências de aprendizagem. Consequentemente, entre pessoas de contextos educacional e cultural similares, as diferenças individuais na habilidade fluída são supostas influenciar as diferenças individuais na habilidade cristalizada. Contudo, pessoas de diferentes contextos culturais, com o mesmo nível de habilidade fluída, são preditas diferir em habilidade cristalizada. Mas é certo que as funções fluídas desempenham um papel determinante em decodificar e em recuperar o conhecimento cristalizado armazenado a longo prazo.

    Assim, entendo que a Pró-reitora, ao comentar rapidamente a necessidade de se cobrar raciocínio, certamente quis dizer que se torna necessário que os EV atuais, por melhor que eles sejam, passem a valorizar (talvez, mais do que o fazem) a habilidade fluída e não apenas a habilidade cristalizada como muitos, aparentemente, julgam que eles façam.

    A segunda questão trata de um grande problema que ataca todos os exames vestibulares, ou seja, qual o seu valor preditivo. Por definição, qualquer modelo de EV é cultural, social e ideologicamente enraizado. Como indicadores, os EV têm, supostamente, a intenção de predizer o sucesso acadêmico e mesmo profissional numa dada sociedade (isto é, num grande grupo social carregando o seu próprio conjunto de valores). Certamente os EV foram originalmente designados para especificamente predizerem o desempenho e/ou realizações educacionais. Na realidade, todos que os defendem têm adotado a concepção da causalidade recíproca entre desenvolvimento cognitivo e educação. Altos índices cognitivos são preditivos de mais realizações educacionais e mais educação torna-se preditivo de altos resultados intelectuais. O problema é: quais dimensões e/ou fatores dos EV (questões de física, de química, de matemática, de português, de redação, ou um total composto, etc.) são mais preditivos, ou se correlacionam, mais altamente, com o desempenho acadêmico, ou que permitam melhor predizer o sucesso na carreira profissional. Também, questiona se qual o valor preditivo do EV para o sucesso na carreira e a sua relação (correlação) com o bem-estar-subjetivo.
    Responder a estas questões constitui-se num grande desafio para aqueles interessados na mensuração de constructos psicológicos desta natureza e, principalmente, para aqueles envolvidos na elaboração do melhor processo seletivo para adentrar à academia. É óbvio que muitos outros fatores e habilidades contribuem para o desempenho e sucesso acadêmico e na carreira profissional. Mas, ainda assim, o problema é estatístico e resume-se em saber qual, dentre vários fatores, explica mais da variância encontrada. Nada mais. Para isso, deveríamos programar uma análise exaustiva do valor preditivo dos nossos exames vestibulares, procurando analisar suas correlações com vários critérios externos, sejam estes os desempenhos nas notas de diferentes disciplinas curriculares, bem como, com os indicadores de sucesso, valorizados em nossa sociedade e cultura.
    Não há razão para complacência. Devemos procurar sempre os melhores preditores e tentar mensurar todas as variedades de habilidades que podem contribuir para o sucesso acadêmico e profissional. O aprimoramento dos EV deve ser dinâmico, regular e contínuo, no presente e no futuro. Assim, entendo que tem razão a Pró-reitora de graduação ao afirmar que devemos buscar novos modelos de EV, visando encontrar melhores preditores para o sucesso pessoal, profissional e acadêmico. Estudos desta natureza devem ser realizados com freqüência nos moldes daqueles desenvolvidos pelo Educational Testing Service (ETS) da Universidade de Princeton (USA).
    Biografia acadêmica: José Aparecido Da Silva, nascido em 25 de setembro de 1952, é natural de Jaboticabal (SP). Mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP e Ph.D. pela Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, USA. Atualmente é Professor Titular do Departamento de Psicologia e Educação da FFCLRP-USP. Foi Chefe do Departamento de Psicologia e Educação, presidente da Comissão de Pós-graduação, e coordenador do Programa de Pós-graduação em Psicobiologia, programa este conceituado com nota 7 (máxima) pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Foi, também, vice-diretor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Além disso, foi coordenador científico da área de Psicologia, no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

    Comparativo de Desempenho Acadêmico de Alunos USP com Notas FUVEST

    Prof. Adilson Simonis e Profa. Eunice Durhan
    NUPPs – Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas
    – USP

    SãoPaulo, 11 – 7 – 2006.
    Propostas de alterações no processo vestibular devem, além de procurar mensurar consequências das medidas adotadas, considerar indicadores históricos para alguma comparação do que era e do que pode vir a ser o novo cenário. Em particular, o estudo do impacto nos indicadores do desempenho discente nos parece relevante.

    Tem aparecido com frequência, na grande imprensa, a idéia de que candidatos ao Ensino Superior com notas de ingresso similares no vestibular, poderiam ter desempenho diferenciado caso fossem egressos do ensino médio público ou do sistema privado, justificando ações afirmativas bem-intencionadas.

    Difícil sermos conclusivos sobre o tema. Nosso objetivo é o de fornecer subsídios para uma discussão que nos parece polêmica e que deve ser tratada com a seriedade que a sociedade brasileira exige. Apoiar ou não as iniciativas de quotas de ingresso e de projetos de inclusão social, tais como o favorecimento no processo seletivo das principais universidades do país, poderá ser um subproduto de um debate que por si só, trará certamente novas nuances e novas perspectivas, avançando políticas públicas para um ensino de qualidade a servico da sociedade.
    A Universidade de São Paulo, hoje, organiza o principal vestibular do país e é, segundo diversos indicadores, a principal universidade de pesquisa . Portanto é obrigada a pensar e repensar a polêmica que hoje ocorre em diversos setores da sociedade. Sabemos que a qualidade do ensino fundamental e médio deixa muito a desejar, como demonstram os estudos recentes do INEP. A exclusão sócio-econômica-geográfica-étnica, a concentração da riqueza nacional nas mãos de poucos, a falta de oportunidades de ascenção, a violência das grandes cidades, assim como as próprias escolas, tem papel decisivo na criação e manutenção das desigualdades. A possibilidade de alteração desse quadro lamentável, que poderia diminuir com a formação de cidadãos plenos, são problemas nacionais, e portanto também são da USP.
    Existem diversas metodologias, que podem ser aplicadas, para mensurar o desempenho acadêmico segundo a classificação no processo seletivo de entrada para a Universidade.
    Ainda não sabemos se o aluno que recebemos na USP é o que queremos. Não sabemos se o vestibular mede o que pedimos que faça, isto é, escolher quem tem maior potencial de usufruir aquilo que está em constante evolução e que depende das novas gerações para manter o patamar de qualidade e importância que, por mérito, alcançou. Queremos que o processo escolha o melhor preparado mas não necessariamente apenas o melhor treinado.
    Algum critério de favorecimento, como os atuais 3 % na primeira e segunda fase, válidos já para o próximo vestibular USP, irá excluir alguns que teriam entrado pelo processo antigo. Estamos bem-intencionados, não resta dúvida, mas a sociedade, que precisa ter retorno do investimento feito no ensino público de qualidade, não irá sair perdendo?
    Vejamos alguns fatos: Cursos na USP são diferentes. Desde a nota de corte para ingresso até a forma de avaliação em disciplinas, diferem entre carreiras. Também difere por carreira o nível sócio-econômico dos alunos e a proporção de egressos do ensino médio público. O próprio ensino médio público tem nuances: os egressos das escolas técnicas federais e estaduais são certamente mais bem preparados que muitas escolas particulares, nas quais os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Mas algumas observacõe estatísticas podem nos ajudar a entender o que vem ocorrendo sistematicamente.
    Tomemos inicialmente um dos cursos da USP mais disputados, a Medicina. Fixando como escopo de estudo os 514 alunos ingressantes no curso de Medicina USP entre 2003 e 2005, temos 487 alunos que declaram terem feito o ensino médio em colégios particulares e apenas 27 em colégios públicos. A nota média no primeiro semestre destes alunos foi de 6,86 e 6,85 para egressos do ensino médio privado e público respectivamente.
    Dado o pequeno percentual de alunos egressos do ensino médio público, criamos quatro faixas de classificação no vestibular (segundo os quartis de nota FUVEST para os egressos do ensino médio público) de forma a incluir alunos desse grupo em todas as faixas. Considerando as notas dos 514 alunos em todos os semestre até o segundo semestre de 2005 obtemos os seguintes resultados:
    Faixa A: Nota média na USP dos egressos do sistema privado: 7,3
    Nota média na USP dos egressos do sistema público: 7,4
    Faixa B: Nota média na USP dos egressos do sistema privado: 7,2
    Nota média na USP dos egressos do sistema público: 7,1
    Faixa C: Nota média na USP dos egressos do sistema privado: 7,3
    Nota média na USP dos egressos do sistema público: 7,2
    Faixa D: Nota média na USP dos egressos do sistema privado: 7,3
    Nota média na USP dos egressos do sistema público: 7,3

    Nota-se também que a média (que inclui as reprovações) dos alunos matriculados não aumenta conforme a faixa de classificação no vestibular (as faixas estão em ordem da maior nota -faixa A- para a pior nota -faixa D- obtidas no vestibular). Vamos, portanto, incluir outros cursos em nosso estudo: Direito, Letras, Matemática e Pedagogia.

    Considerando um universo de 5386 alunos e calculando a nota média de todas as disciplinas cursadas até o final do ano de 2005, incluindo eventuais reprovações, temos:
    Direito: 1330 alunos (nota média do egresso do ensino médio privado é de 7,4 e nota média do egresso do ensino médio público é de 7,4).
    Letras: 2222 alunos (nota média do egresso do ensino médio privado é de 5,7 e nota média do egresso do ensino médio público é de 6,0).
    Matemática: 836 alunos (nota média do egresso do ensino médio privado é de 5,1 e nota média do egresso do ensino médio público é de 5,4).
    Medicina: 514 alunos (nota média do egresso do ensino médio privado é de 7,3 e nota média do egresso do ensino médio público é de 7,2).
    Pedagogia: 484 alunos (nota média do egresso do ensino médio privado é de 6,9 e nota média do egresso do ensino médio público é de 7,0).

    Trabalhando apenas com a média global, as diferenças são pequenas. Para uma visão mais detalhada, reproduzimos a metodologia de classificar segundo a nota Fuvest o aluno em quatro faixas e estudamos a nota média dos alunos da mesma faixa. Temos portanto 40 subgrupos de alunos, divididos em cada grupo segundo a procedência do ensino médio cursado, e calculamos a média obtida nas disciplinas cursadas dentro da USP desde o ingresso até o final do ano de 2005.

    Entre os 40 grupos, em 39 não existem diferenças estatisticamente significativas entre o desempenho dos alunos egressos dos sistema público e privado. Apenas em um grupo, constituído por 171 alunos da matemática, existem fortes evidências estatísticas de que o desempenho do egresso do ensino público, com notas similares, supera em desempenho os colegas egressos do ensino médio privado. Um percentual de 97 % do universo estudado não permite afirmar que o desempenho difere.

    A partir destes dados, podemos concluir que o nível dos estudantes egressos do ensino médio público na USP, escolhidos por mérito, têm o mesmo desempenho que os egressos das escolas privadas. A diferença entre ambos reside no fato de que um menor percentual de egressos do ensino público alcança o padrão mínimo estabelecido pela FUVEST para a seleção dos alunos, que é dada pela nota de corte.
    Dentro destes limites, a variação da nota do vestibular influi pouco no desempenho dos estudantes. Um aumento na nota dos estudantes do ensino público significará uma variação na nota de corte entre esses candidatos e os do ensino privado, em favor dos primeiros, com o que é possível que se introduza uma diferença no desempenho desses dois grupos, que agora inexiste.
    Para maiores detalhes sobre as estatísticas utilizadas no presente texto veja as tabelas nos arquivos que seguem anexo:
    http://www.linux.ime.usp.br/~fdaher/desempenhousp

    Colaborou neste trabalho Flávio Daher, aluno do IME-USP.
    Biografia acadêmica: Primeiro ano no Colégio Santa Clara de Porto Alegre. Segundo e Terceiro ano no Colégio São João de Porto Alegre. Quarto Ano até a conclusão do ensino médio (antigo colegial) no Colégio Anchieta de Porto Alegre. Bacharel em Estatística pela UFRGS (1982). Mestrado e Doutorado em Probabilidade no IME-USP (1995). Pós-Doutorado no IMPA (RJ) e em Mecânica Estatística na Università de Roma II, Tor Vergata, (1998). Professor do IME-USP desde 1983 e Pesquisador do NUPPs desde 2005. Torcedor do Internacional de Porto Alegre desde julho de 1956.

    Pequeno atraso

    Começaremos nossa mesa redonda, com um pequeno atraso (dois participantes prometeram seu texto para amanhã). A equipe organizadora resolveu que os comentários não serão moderados de início, ou seja, você poderá ver o seu comentário postado imediatamente. Entretanto, seguiremos as regras da Folha de São Paulo para a qualidade dos comentários. Se for necessário, e principalmente se aparecerem spans, infelizmente precisaremos implementar a moderação prévia.
    Sugerimos também que você, ao comentar, assine seu nome. Imagine-se em uma platéia assistindo à mesa redonda. É usual que a pessoa que faz uma pergunta ou faça um comentário se identifique previamente. Nossa mesa redonda virtual, neste aspecto, não difere de uma mesa redonda real. Anonimato na Internet, infelizmente, dá mais lugar à incivilidade do que à liberdade.

    Infinito

    Coincidência de novo. Eu estava aqui procurando uma figura para fazer este post sobre o volume especial “As diferentes faces do infinito” quando recebi um e-mail da Ana Cláudia Ferrari me dizendo que, sim, eu havia ganho duas assinaturas de graça, da SciAm e da Viver Mente e Cérebro. Tão vendo? Quem disse que não ganho nada com este blog?

    É claro que isso não vai afetar minha atitude quanto à revista, pois a compro desde o primeiro número. Afinal basta eles manterem a qualidade e ocuparem o nicho da SUPERINTERESSANTE (pois esta está querendo substituir a PLANETA, que por sua vez trocou o esoterismo pela ecologia) já está ótimo! Todo apoio a você, SciAm!

    A Ana me perguntou se é verdade que meus alunos realmente lêem as revistas. Bom, alunos de Estatística I, respondam prá ela ai nos comentários. Em todo caso, conto aqui duas maneiras de usar a SciAm nas salas de aula que já testei.

    Bom, primeiro eu sou responsável por uma disciplina optativa do Departamento de Química aqui na FFCLRP chamada Tópicos de Ciência Contemporânea, cuja ementa está meio ambiciosa, concordo:

    Objetivos:

    Introduzir e incentivar o estudante a ter contato com a literatura científica e de divulgação científica, traçando um panorama da ciência contemporânea que permita uma visão contextualizada e crítica de diferentes áreas do conhecimento tais como a Cosmologia, a Física, a Química e a Biologia.
    Docente(s) Responsável(eis): Dráulio Barros de Araújo, Gláucia Maria da Silva e Osame Kinouchi Filho.
    Programa
    1. Introdução à Cosmologia: estrutura e história do Universo.
    2. Nascimento, vida e morte das estrelas e a origem dos elementos químicos.
    3. Propriedades emergentes e níveis de descrição científica.
    4. Evolução biológica.
    5. Cérebro e Mente: tópicos de neurociências.
    6. Relações contemporâneas entre Ciências Naturais e Humanas, Cultura e Tecnologia.
    Método: Aulas expositivas, debates sobre leituras programadas e material áudio-visual
    Critério de avaliação
    Média final: Média aritmética dos trabalhos realizados e do seminário apresentado.
    Norma de Recuperação: Apresentação de trabalho complementar pelos alunos regimentalmente habilitados, segundo prazos fixados pelo Calendário Escolar.
    Bibliografia:
    CHALMERS, Alan F. – O que é ciência afinal? 2. ed. Ed. Brasiliense (São Paulo, 1993).FEYNMAN, Richard P. – Física em seis lições. Ediouro (Rio de Janeiro, 1999).HAWKING, Stephen – O universo numa casca de noz. ARX (São Paulo, 2003).HERCULANO-HOUZEL, Suzana – O cérebro nosso de cada dia. Vieira & Lent (São Paulo, 2003).JONHSON, Stephen – Emergência: A dinâmica de redes em formigas, cérebros, cidades e softwares. Jorge Zahar Editor (Rio de Janeiro, 2003). MARGULIS, Lynn – O Planeta Simbiótico: uma nova perspectiva da evolução (Coleção Ciência Atual), Rocco (Rio de Janeiro, 2001). RIDLEY, Matt – As origens da virtude. Record (São Paulo, 2000). Artigos selecionados das revistas Nature, Science, Scientific American Brasil, Viver Mente & Cérebro, Pesquisa Fapesp, Química Nova.

    Dei apenas uma vez esse curso (tentarei dá-lo de novo nos próximos semestres) mas foi muito interessante. Notei que os estudantes não conheciam a SciAm mas depois que tinham contato pela primeira vez, ficavam apaixonados. O uso de livros de divulgação científica também é importante. Lembro-me de um aluno, já na faixa dos 35, dizendo que era professor secundário mas nunca tinha lido um livro de divulgação, mas que a partir das leituras do curso ficou fascinado e nunca mais pararia de lê-los e recomendá-los aos seus alunos.

    A segunda maneira que estou testando este ano é premiar trabalhos de classe, exercícios desafio etc, com exemplares da SciAm e Viver Mente e Cérebro, em vez de ficar dando ponto extra. Não gastei muito, na verdade a Mente e Cérebro, por engano, me enviou três exemplares do especial Sonhos (que tem o meu artigo sobre sonhos em redes neurais!) e três exemplares do especial Inteligência a mais, e não os cobrou de volta. Fiz isso com os alunos de Psicologia e parece que está funcionando. Ok, ok, eles dizem que eu os estou tratando como ratinhos Skinerianos, mas o reforço positivo funciona, mesmo assim.

    Minha conclusão é que a principal barreira para a divulgação científica é o primeiro contato, a perda de virgindade poderíamos dizer. Depois, os próprios estudantes criam um hábito e passam a ler. Descobrem que, além das baladas (que afinal são mais caras que livros e revistas), a ciência também pode ser fonte de prazer.

    Comments:

    Thyago F. Mangueira said…
    Tava passeando por aqui (afinal… férias enfim…) e achei esse comentário sobre a única edição especial que comprei. Muito interessante essas suas conclusões sobre os alunos… faz tempo que tenho a mesma opinião…Enfim sobre a edição nº 15 / Infinito, sempre achei que quantidades infinitesimais, o infinito, a divisão por zero e tudo mais retratam um grande furo na matemática coisa que essa edição meio que diz sem dizer.De resto só fiquei meio triste ao vê-los chamarem o físico Harold Puthoff de pseudocientista ou místico fervoroso apenas por pesquisar algo que eles acharam desconsiderável. Bem até onde eu sei foi assim que muitas boas idéias surgiram.Enfim… acho que este post jah tah quase um book. De qualquer forma ele vai servir pra ver se o prof. Osame responde realmente a todos que postam aqui… heheheheParabéns pelo Blogg… realmente muito bom… Parabéns pela atitude com alunos, mas cuidado, tijolos iguais em uma parede eh ruim mas a condição de ratos de laboratório também não eh boa…se bem q serve pra eles verem o outro lado…hehe… t+ 😉
    18 Julho, 2006 23:18