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Design Inteligente e ficção científica

Design Inteligente e ficção científica

POR REINALDO JOSÉ LOPES

Recebi do físico e divulgador científico Osame Kinouchi Filho, professor da USP de Ribeirão Preto, um texto muito interessante, meio sério, meio jocoso, abordando o debate em torno da ideia de DI (Design Inteligente (criacionismo repaginado antievolução, como sabemos) e a criação de um centro sobre o tema na Universidade Presbiteriana Mackenzie. O prisma adotado por Kinouchi é inusitado: o da ficção científica. Confiram o que ele diz abaixo e divirtam-se!

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Quero propor quatro idéias que podem tornar o debate bem mais divertido:

1)O DI é uma ideia de Ficção Científica (FC);
2)A clivagem que o DI promove não é entre teístas e ateus, pois podemos ter ateus que acreditam em DI e teístas que não acreditam em DI;
3)O DI é compartilhado por espíritas, ufólogos místicos e crentes da New Age, não é exclusividade de cristão e muito menos de protestantes;
4)O DI é apenas uma variante de um conjunto enorme de outras teorias de evolução, e não há indicação de que seja melhor do que o Teísmo Evolucionário do evangélico Francis Collins, pelo contrário.

Vejamos ponto por ponto:

O DI é uma ideia de Ficção Científica (FC): O DI é agnóstico sobre a natureza da inteligência que fez intervenções ao longo da evolução. Ora, quem não se lembra da evolução acelerada (DI) produzida pelo monólito negro em “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke? Ou aquele que é tido como o conto mais conhecido de Isaac Asimov, “A Última Questão”, no qual uma mente surgida pela fusão de computadores com os humanos (a Singularidade?) encontra uma solução para reverter a segunda lei da Termodinâmica e cria um novo universo dizendo “Fiat Lux”?

Ou o Desígnio Inteligente de Golfinhos, Chimpanzés, Gorilas e Cachorros que atingem o nível humano feito por criadores humanos na série “Elevação”, de David Brin? Lembro também a obra-prima de Stanislaw Lem, “A Voz do Mestre” (bom título!), na qual o autor brinca com a possibilidade de que uma inteligência tecnológica preexistente ao nosso universo o tenha criado permeando-o com um feixe de neutrinos que facilita a emergência da vida. Ou seja, vamos dar o crédito a quem merece: o DI não é ideia de Behe e outros, mas originalmente de Asimov, Clark, Lem, Brin e inúmero escritores FC.

Lem chama esse tipo de ideia de Teologia dos Deuses falíveis (ou finitos). Que a inteligência do DI poderia ser um ET físico, falível e finito e não um ser sobrenatural como Deus é um fato reconhecido pelos proponentes do DI. A clivagem que o DI promove não é entre teístas e ateus, pois podemos ter ateus que acreditam em DI e teístas que não acreditam em DI: Como dito antes, a Inteligência do DI poderia ser um ET. Mais que isso, é mais provável que seja, pois isso a colocaria dentro de um um universo natural, não sobrenatural.

Ou seja, Marcos Eberlin [químico da Unicamp e defensor do DI] errou ao afirmar que “o problema é que a academia fechou a questão e não abre brecha para nenhum debate: só existe matéria, energia e espaço no Universo e acabou”. Primeiro, porque esse tipo de raciocínio paranoico e conspiratório sobre a academia é próprio de defensores dos Alienígenas do Passado (que também é DI) mas não de cientístas.

Segundo, porque poderíamos ter apenas matéria, energia e espaço (eu não esqueceria Informação, que é o conceito físico mais próximo de Espírito, e não energia como gosta o pessoal da New Age), e mesmo assim ter DI feito pela Inteligência de 2001 ou pelo Multivac de Asimov. Curiosamente, Clark, Asimov, Brin e Lem são todos ateus ou agnósticos, logo o DI não favorece uma visão de fé sobre a realidade mas sim uma visão cética e especulativa da realidade (é mais provável que Deus seja um ET!), não compatível com o Cristianismo.

O DI é compartilhado por espíritas, ufólogos místicos e crentes da New Age, não é exclusividade de cristão e muito menos de protestantes: o DI é vendido à comunidade protestante e evangélica como um conjunto de ideias vinculadas à ideias cristãs, ou que poderiam ser adotadas com proveito pelos cristãos (e judeus, e islâmicos?). Ao mesmo tempo, tais comunidades não se identificam com espíritas, ufólogos místicos, New Age e outras crenças.

Ora, ao tentar transpor uma visão religiosa e filosófica para o campo da ciência, o protestantismo do DI se identifica com o Espiritismo: quer ser não apenas uma religião, mas também uma ciência. Pois uma coisa é “acreditar que Deus fez o mundo”, de forma genérica e não especificada, dizendo que é um sentimento ou uma intuição (uma forma não cognitiva de fé), crença sem bases racionais, como faz por exemplo Marina Silva ou John Wesley, fundador do Metodismo, em seu memorável sermão “O Caso da Razão Imparcialmente Considerada“. Outra coisa é ser criacionista científico (de Terra jovem ou velha, de DI etc.), ou seja, afirmar que é capaz de fazer hipóteses capazes de passar por testes rigorosos, a ponto de que tais hipóteses um dia sejam aceites acima de qualquer dúvida razoável.

É o pecado de querer provar que Deus existe usando apenas a Razão. Tentar transformar religião, teologia e filosofia (que são campos válidos da academia, financiados pelo CNPq inclusive) em ciência, que se distingue dessas áreas assim como a Arte e a Política se distingue das mesmas e da Ciência, é confusão de domínios: é a definição de Pseudociência, cujo principal sintoma são as teorias conspiratórias que citei (os cientistas não concordam comigo porque ou estão me perseguindo ou não querem ver a verdade – que apenas eu fui capaz de ver com minha brilhante e superior mente intuitiva).

O DI é apenas uma variante de um conjunto enorme de outras teorias de evolução, e não há indicação de que seja melhor do que o Teísmo Evolucionário do evangélico Francis Collins, pelo contrário: quando se discute DI usualmente cai-se na falácia dualista: ou isso, ou aquilo. Mas na verdade existem inúmeras outras teorias possíveis de evolução com ou sem DI.

A mais importante é o Teísmo Evolucionário (TE) elaborado por cristãos dos mais diversos matizes, onde podemos citar o evangélico Francis Collins diretor do NHI americano. Uma versão um pouco mais suave pode ser encontrada nos escritos do físico cristão Freeman Dyson. A ideia é que os mecanismos de evolução puramente naturais, aceitos pelos biólogos agnósticos, devem ser vistos como os meios de Deus para criar (elaborar) o mundo ao longo de bilhões de anos.

Essa crença em um Deus criador e intencional, porém, não é tida como científica, mas filosófica. Ninguém da TE vai querer provar que Deus existe usando a Mecânica Quântica, por exemplo, como quer a New Age. O TE é um competidor formidável ao DI, pois não requer nenhuma intervenção inteligente (natural ou sobrenatural) durante a evolução: é totalmente compatível com o conhecimento biológico aceito pela comunidade científica.

É também a visão oficial da Igreja Católica e é ensinado na maioria dos seminários teológicos protestantes do Primeiro Mundo. Então o debate se torna: por que o DI é melhor que o TE? Se não é, por que o Mackenzie criou um núcleo de DI em vez de um núcleo de TE? Por que uma colaboração com o Discovery Institute em vez da Fundação Bio-Logos de Francis Collins? O Mackenzie deveria responder…

Assim, Marcos Eberlin erra também ao falar em apenas duas possibilidades. Usando a Ficção Científica, eu posso elaborar inúmeras possibilidades, por exemplo: uma inteligência vinda do futuro (uma Singularidade Humana) volta no tempo e cria por engenharia genética as primeiras bactérias, bem como todos os exemplos (flagelos, etc.) de complexidade irredutível pelo DI. O interessante desta ideia é que o elo causal se fecha em um bonito loop [laço] temporal como o Ourobouros [figura da serpente que morde o próprio rabo].

Sem contar os deuses astronautas que criaram os sumérios…

Etc., etc., etc. OK, mas… como testar ou distinguir entre essas várias ideias?

A ufologia mística não é mais plausível e tem mais evidências, atuais inclusive, do que o DI? Deveria o Mackenzie criar um núcleo sobre Alienígenas do Passado e Deuses Astronautas? Afinal, “todo mundo sabe” que YHWH, os anjos e Jesus eram ETs, certo? As própria Bíblia “prova” isso…

COMENTÁRIOS 26

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Novo paper submetido para ENTROPY

Self-Organized Supercriticality and Oscillations in Networks of Stochastic Spiking Neurons

Networks of stochastic spiking neurons are interesting models in the area of Theoretical Neuroscience, presenting both continuous and discontinuous phase transitions. Here we study fully connected networks analytically, numerically and by computational simulations. The neurons have dynamic gains that enable the network to converge to a stationary slightly supercritical state (self-organized supercriticality or SOSC) in the presence of the continuous transition. We show that SOSC, which presents power laws for neuronal avalanches plus some large events, is robust as a function of the main parameter of the neuronal gain dynamics. We discuss the possible applications of the idea of SOSC to biological phenomena like epilepsy and dragon king avalanches. We also find that neuronal gains can produce collective oscillations that coexists with neuronal avalanches, with frequencies compatible with characteristic brain rhythms.

Comments: 16 pages, 16 figures divided into 7 figures in the article
Subjects: Adaptation and Self-Organizing Systems (nlin.AO)
Cite as: arXiv:1705.08549 [nlin.AO]
(or arXiv:1705.08549v1 [nlin.AO] for this version)

Engels e a Complexidade

Nova versão do paper, possivelmente a ser publicado na Revista da Tulha – USP

A precursor of the sciences of complexity in the XIX century

The sciences of complexity present some recurrent themes: the emergence of qualitatively new behaviors in dissipative systems out of equilibrium, the aparent tendency of complex system to lie at the border of phase transitions and bifurcation points, a historical dynamics which present punctuated equilibrium, a tentative of complementing Darwinian evolution with certain ideas of progress (understood as increase of computational power) etc. Such themes, indeed, belong to a long scientific and philosophical tradiction and, curiously, appear already in the work of Frederick Engels at the 70’s of the XIX century. So, the apparent novelity of the sciences of complexity seems to be not situated in its fundamental ideas, but in the use of mathematical and computational models for illustrate, test and develop such ideas. Since politicians as the candidate Al Gore recently declared that the sciences of complexity have influenced strongly their worldview, perhaps it could be interesting to know better the ideas and the ideology related to the notion of complex adaptive systems.

Comments: 29 pages, no figures, in Portuguese
Subjects: Popular Physics (physics.pop-ph); Physics and Society (physics.soc-ph)
Cite as: arXiv:physics/0110041 [physics.pop-ph]
(or arXiv:physics/0110041v2 [physics.pop-ph] for this version)

Meu seminário no Imperial College

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Autismo e toque (não TOC!)

Autism may stem—in part—from a disordered sense of touch

A disrupted sense of touch causes autismlike behaviors in mice.

ploughmann/iStock

Autism may stem—in part—from a disordered sense of touch

Sociability may be skin deep. The social impairments and high anxiety seen in people with autism or related disorders may be partly due to a disruption in the nerves of the skin that sense touch, a new study in mice suggests.

Autism spectrum disorders are primarily thought of as disorders of the brain, generally characterized by repetitive behaviors and deficits in communication skills and social interaction. But a majority of people with autism spectrum disorders also have an altered tactile sense; they are often hypersensitive to light touch and can be overwhelmed by certain textures. “They tend to be very wary of social touch [like a hug or handshake], or if they go outside and feel a gust of wind, it can be very unnerving,” says neuroscientist Lauren Orefice from Harvard Medical School in Boston.

An appreciation for this sensory aspect of autism has grown in recent years. The newest version of psychiatry’s bible, the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, includes the sensory abnormalities of autism as core features of the disease. “That was a big nod and a recognition that this is a really important aspect of autism,” says Kevin Pelphrey, a cognitive neuroscientist at The George Washington University in Washington, D.C., who was not involved in the work.
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Répteis que sonham

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Do sleeping dragons dream?

All animals—from humans to birds, worms, and crocodiles—sleep. Not all species sleep alike, however, and scientists have long puzzled over which aspects are truly fundamental. Now, a new study on lizards suggests that sleep states once thought to occur only in mammals and birds have much older evolutionary origins.

Scientists had long suspected that birds and mammals are the only vertebrates to experience rapid eye movement (REM), a sleep state in which the body is mostly immobile but the brain is in overdrive. During REM sleep, the brain generates high-frequency waves of electrical activity and the eyes flicker; in humans, REM is closely linked to dreaming. Punctuating REM are interludes of slow-wave sleep, a state in which brain activity ebbs and the waves become more synchronized. This slower state is widely thought to be important to memory formation and storage.

But scientists who looked for signs of REM and slow-wave sleep in reptiles have had “confusing” results, says Gilles Laurent, a neuroscientist at the Max Planck Institute for Brain Research in Frankfurt, Germany. So when he and colleagues picked up on similar sleep patterns in Australian dragons (Pogona vitticeps) while recording their brain activity for a separate study, it came as a shock.

The team had planned to examine how the lizards—a common pet in Germany—use visual information to chase treats. They continuously recorded the lizards’ brain activity with electrodes over several weeks. At night, the sleeping reptiles’ brains produced rhythms that could be separated into two different patterns—one at very low frequency, about 4HZ, and another, higher frequency about 20HZ, the team reports today in Science. The two frequencies alternated every 40 seconds, reminding Laurent of the regular oscillations between high-frequency REM and slow-wave sleep found in mammals and birds. “The more we looked, the more it appeared as though we were looking at bona fide REM sleep,” he says.

Using an infrared camera, the team found that the sleeping lizards’ eyelids twitched during the REM-like stage, just like other animals. They also found a tantalizingly familiar pattern within the slower phase of the lizards’ brain waves. During this slow phase, electrodes picked up sharp waves of voltage, followed by ripples of electricity that closely resembled patterns seen in humans and rodents. Some scientists believe these waves and ripples help convert new information into memories by replaying past events in fast-forward. Although more studies are still needed to determine whether the function of these brain wave patterns is the same across species, the results suggest that these REM and slow-wave, sleeplike patterns could date all the way back to the common ancestor of reptiles, birds, and mammals, Laurent says.

The “provocative” findings also suggest that “there is something that goes on during sleep that is important to the function of all animals,” says Matt Wilson, a neuroscientist at the Massachusetts Institute of Technology in Cambridge. The lizards could be rehearsing the day’s events as they sleep, forming new memories of all the places they found a snack. Or maybe they’re simply dragons dreaming.

(Video credit: AAAS/Science)

Sobre a seleção sexual em favor dos machos beta (e gama?)

 

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Mais uma teoria de barzinho que poderia ser verdadeira:

A pergunta é: se os machos alfa são favorecidos pela evolução, porque não somos todos machos alfa (na verdade eles são uma minoria da população masculina).

Tenho duas hipóteses complementares sobre isso, todas baseadas no poder de escolha das mulheres.

Primeiro, parece ser muito mais provável que um macho alfa seja violento com sua mulher (porque eles são mais violentos em geral). Assim, mesmo que as mulheres possam sentir desejo por um macho alfa, se forem um pouco mais racionais irão preferir um macho beta (ou gama) que cuide bem delas e dos  filhotes, seja gentil, etc (hoje é o “Dia da Gentileza”, 13/novembro).

Segundo, isso tem a ver com o processo de neotenia que as mulheres impuseram aos homens (neotenia é o que aconteceu durante a domesticação do cão a partir do lobo – favorecimento de caracteres infantis).

Ou seja, se a mulher escolher um macho mais infantil (que não é macho alfa, claro!) , ela terá mais domínio sobre ele, ao fazer o papel de mãe dele e não apenas de parceira sexual. Mulheres maternais são atraentes para os homens (eles gostam de carinho e serem cuidados, comidinha na boca etc) e essa é a mesma raiz do Complexo de Édipo. Na verdade é uma simbiose mutualística, a mulher domina o esposo=filho e o macho é melhor tratado pela esposa=mãe. Essa teoria explica porque os homens (em geral) são bem menos maduros que as mulheres (especialmente na adolescência) e os marmanjos parecem apenas mudar de brinquedos quando crescem:  carrinho vira carrão, jogo de bola vira futebol, brincadeiras de luta e guerra vira filmes de ação e Star Wars.

É claro que, como toda hipótese de psicologia evolucionária, esta sempre tem suas exceções.

Vale notar que o machismo e o patriarcalismo visam primeiramente retirar esse poder de seleção sexual das mulheres (via casamentos arranjados) , a fim de favorecer os machos alfa. Com o fim do patriarcalismo me parece que os machos beta e gama serão cada vez mais favorecidos (embora algumas mulheres reclamem que já não se fazem homens como antigamente, tipo Aragorn e Legolas da Sociedade do Anel). Mas vale lembrar que eles tiveram poucos filhos em comparação com os machos gama Hobbits.

 

 

Podem os ateus tornarem os religiosos mais racionais?

Ao contrário de muitos de meus amigos ateus, tenho muitos amigos tanto ateus quanto religiosos. Isso significa que tenho acesso a uma experiência mais ampla em termos de troca de ideias e relações interpessoais. Recentemente, Nestor Caticha, Renato Vicente e colegas, em um trabalho de sociologia computacional baseado na teoria moral de Haidt, mostrou que a interação social diversificada evita que nos fechemos em um gueto cultural e facilita o surgimento de uma mente liberal (ao contrário de mentes conservadoras) que privilegia os valores de cuidado, justiça e liberdade mais do que valores de lealdade ao grupo, autoridade e pureza.

Meus amigos religiosos (como Reinaldo José Lopes), porém, são mais racionais que a média de sua população. Meus amigos ateus também, embora um ou outro as vezes cai num ateísmo militante que enfatiza a lealdade ao grupo (de ateus), autoridade (de Dawkins) e pureza (um ateu puro não deve apreciar objetos – musica, arte, arquitetura – de origem religiosa). Ou seja, alguns de meus amigos ateus são, mentalmente, conservadores na classificação de Haidt (por causa de seu isolamento social?), e não é a toa que muitos votam no PSDB e mesmo têm a posição ultraliberal em economia defendida pelo pastor Everaldo e Ayn Rand.

Dado que minha tarefa principal como cientista é a divulgação da ciência (e não do ateísmo, que é uma filosofia particular – uma outra é o neo-Deísmo),  visando que seja valorizada e apreciada pelo maior número de pessoas, tenho tentado pensar soluções racionais e realísticas para esse problema. Segundo alguns amigos meus, apenas ateus podem realmente aceitar e apreciar a ciência: religiosos que gostam e divulgam ciência, como Reinaldo Lopes (que considero o melhor blogueiro de ciências brasileiro em termos de adequação da linguagem para o público leigo), seriam ou esquizofrênicos ou portadores de dissonância cognitiva. Sim, não apenas Reinaldo, mas também os inúmeros cientistas religiosos espalhados pelo mundo: todos esquizofrênicos!

Ora, o problema da agenda ateísta para melhoria do mundo é que ela não é sensata, racional ou científica, e não se baseia em estudos sociológicos e demográficos sérios. Por exemplo, Richard Dawkins afirma que seu objetivo de vida é a destruição de todas as religiões (e nisso o Estado Islâmico é seu aliado ao destruir templos e estátuas budistas). Só que destruir todas as religiões é uma Utopia não realizável: os comunistas tinham mais recursos, energia e mesmo o monopólio estatal da violência (comparado com o ateísmo atual) para combater a religião, mas não conseguiram. Basta ver o exemplo da China comunista que, mesmo depois da  Revolução cultural Maoista, possui o maior contingente cristão do mundo atualmente. O processo de secularização do mundo moderno teve os seus vai-e-vens, avanços e reações, e não está claro se atualmente estamos em um período de secularização ou em um período de contra-reação religiosa estimulada pelo neo-ateísmo militante.

Além disso, em termos demográficos, os religiosos aumentam sua população (“crescei e multiplicai-vois”)  enquanto que os ateus na Europa desenvolvida e no Japão ficam trocando filhos por cachorro e gato: afinal, não é racional ter filhos, pois isso envolve risco no parto para a mãe e inúmeras despesas, perda de liberdade, perda de nível econômico etc. Mulheres estritamente racionais não tem filhos, ponto! Se tiverem, isso é devido a instintos gerados por genes egoístas não racionais e pressão social irracional.

Pior ainda, vai que o filho vira crente! Nos anos de adolescência rebelde isso geralmente acontece com os filhos de ateus (um exemplo seria o filho monge budista de Changeaux, autor do Neuronal Man), assim como os filhos de crentes viram ateus na adolescência: tudo facilmente explicado por uma psicodinâmica familiar que nada tem a ver com a Razão. Ou seja, demograficamente, os muçulmanos, os mórmons e o pessoal do Bible Belt entendem bem melhor sobre o que significa fitness biológico que os ateus com apenas zero, um ou dois filhos.

Mas vamos voltar ao assunto: como fazer com que uma porcentagem cada vez maior da sociedade brasileira aprecie e valorize a ciência (e não apenas a tecnologia)? A proposta de “se aumentarmos o número de ateus então o número de apreciadores de ciência crescerá” pode até estar correta (isto não é óbvio, pois existem inúmeros ateus adeptos das pseudociências e outros que tem ojeriza filosófica pela ciência, como Nietzsche), mas é sociologicamente inviável: precisamos divulgar a ciência aqui e agora (e essa divulgação científica inclusive pode até formar novos ateus, mas não o inverso), sem esperar por uma Utopia ateísta onde todas as religiões foram destruídas, Utopia que pode muito bem nunca acontecer.

Como fazer isso? Bom, eu tenho uma proposta concreta: os ateus divulgadores de ciência não devem tentar converter os crentes, uma atividade com minúsculo e demorado resultado, basta fazer a estatística de quantos neoateus da ATEA eram, anteriormente, crentes fervorosos… 0,001%?. E quantos bons ateus se tornaram religiosos depois da juventude? Na verdade muitos, por exemplo meu falecido pai, que me deu o “Por que não sou cristão? ” do Russell quando eu tinha 15 anos. E essa conversão ateu -> crente está cada vez mais facilitada pelas drogas enteogênicas tais como maconha e chá de Ayahuasca…

O que os ateus precisam entender é que existe um espectro de racionalidade entre os religiosos: dos mais fanáticos e intolerantes, passando pelos místicos, depois pelo crente comum sem formação filosófica (mas que pode ser muito racional no seu dia a dia), depois os religiosos que gostam de Ciência e até mesmo de Fiçcão Científica (caso do escritor Orson Scott Card, que morou aqui em Ribeirão Preto enquanto missionário mórmon) culminando com os cientistas religiosos.

Então, a tarefa realista para os ateus divulgadores de ciência é tentar converter, usando a própria divulgação cientifica, histórica e filosófica (por exemplo, a critica bíblica e a arqueologia, como bem faz Reinaldo Lopes)  um crente fanatizado em um crente moderado racional (no sentido de um agente racional em economia), e ajudar a fazer a transição de um crente moderado para um crente apreciador de ciência e cultura. Isso pode ser feito, é viável sociologicamente e deve ser feito.

Mas para isso, o ateu militante precisa ser ser mais cordial, ter um mínimo de urbanidade e renunciar à propaganda de ódio contra os religiosos que apenas leva o ateu ao ridículo, como fica claro nesta página da Desciclopédia. Idealmente, precisa fazer, senão uma certa amizade com os mesmos (a sociologia mostra que adquirimos ideias principalmente de nossos amigos e não de nossos adversários) pelo menos abrir um canal de comunicação que não fique entupido por emocionalismos,  frases de efeito e piadinhas meméticas. Afinal, é papel do ateu ser mais racional e civilizado do que os religiosos, não o contrário.

Nesse sentido, o blogueiro Reinaldo Lopes tem feito mais para trazer os cristãos para uma atitude mais racional, histórica e cientifica do que o resto da blogosfera atéia inteira. Considero isso um verdadeiro fracasso dessa blogosfera: ficar pregando para os já convertidos (ao ateísmo) e mandar a mensagem para a maioria religiosa da população que “se você soubesse mais ciência sua fé ficaria abalada”. Essa frase até pode ser verdadeira (ou pelo menos tal fé seria reformulada em outro patamar), mas é a ideia errada na divulgação cientifica, pois as pessoas não vão renunciar à sua fé por causa da ciência.

De novo, o motivo é puramente sociológico: o que os ateus militantes precisam entender é que a religião não é primordialmente um sistema de crenças cognitivas para as pessoas em geral. A comunidade religiosa é basicamente um espaço de desenvolvimento pessoal e interpessoal, de efeito terapêutico (por exemplo contra a anomia depressiva da falta de sentido existencial, falta de sentido enfatizada pelo ateísmo!) e de formação de redes sociais. Toda comunidade religiosa funciona como uma espécie de maçonaria light (por isso as pessoas se chamam de irmãos, a fim de criar uma base memética para o altruísmo sociobiológico de parentesco). Essas relações tipo maçônicas, onde um irmão compra na loja do outro porque tem ali uma faixa “Deus é fiel (em suas promessas de prosperidade)” são de fundo econômico, e a infra-estrutura  econômica explica a consciência religiosa superestrutural, como já diagnosticava com acerto tanto Marx como Dawkins, caso ele tomasse realmente a sério sua Memética em sociologia, em vez de perder tempo com a analogia fácil religião = vírus mental. Afinal, só as ideias dos outros são vírus mentais? E as nossas?

Estou já advinhando o comentário de alguns amigos ateus mais radicais: “Ah, mas esse religioso moderado que gosta e apoia a ciência nunca poderá se tornar um verdadeiro cientista (pois afinal, todos os verdadeiros cientistas são ateus, os que não são ateus não são verdadeiros cientistas mas sofrem de dissonância cognitiva)”. Bom, o que eu posso dizer é que é muito melhor se mover na direção correta rumo a uma maior racionalidade e menor fanatismo do que ficar dando murro em ponta de faca. Aparece aqui a valorização da pureza conservadora: ou a pessoa é 100% atéia ou ela não é um ser humano (parcialmente) racional. Tal tipo de purismo ou puritanismo, porém, cabe apenas aos fanáticos. E de fanáticos já estamos cheios, não?

PS: Acho que faltou aqui uma definição de fanático. Darei esta: um fanático é uma pessoa incapaz de rir de si mesma e usar este riso como forma de auto-crítica. O fanático se leva demasiadamente a sério e não sabe brincar com suas próprias contradições. Tenho muitos amigos religiosos, tanto católicos como evangélicos,  que apreciam muito as piadas sobre si mesmos (acho que a quantidade delas daria um livro). Por outro lado, não tenho visto ateus contando piadas sobre ateus, visando pelo menos uma leve autocrítica. Bom, se alguém conhecer um site de piadas sobre ateus feito por ateus, por favor me comunique aí nos comentários.

Exemplo de piada: O crente morreu e foi recebido por um anjo no Céu. O anjo lhe falou que iria apresentar os bairros celestes. O homem foi acompanhando o anjo, que primeiro lhe mostrou um bairro chique, tipo um Morumbi celeste. “Aqui moram os Presbiterianos”, disse o anjo, complementando: “A casa do Airton Sena é logo ali”. “Ah, sim, os Presbiterianos, reconheceu o homem”. Depois visitaram um bairro de classe média. “E aqui moram os Metodistas”, confirmou o anjo. “Ali do lado tem até um polo de EAD da UNIMEP”, informou o anjo.”Claro, os Metodistas”, disse o crente. Em seguida o anjo lhe apresentou uma espécie de BNH celeste, com casinhas humildes que se perdia de vista. “E aqui estão o pessoal das Assembleias de Deus”, comentou o anjo. “Claro, Assembleias de Deus”, observou o homem impressionado com a vastidão do lugar. Depois entraram em um grande galpão, que lembrava um clube, onde os crentes cantavam hinos fervorosamente. “E aqui moram os Batistas…” disse o anjo bem baixinho. “O quê?”, perguntou o homem. “Aqui moram os Batistas”, sussurrou o anjo, ainda mais baixo. “Sim, mas, seu anjo, por que o sr. está falando tão baixo assim?”, exclamou o crente. “Shiuuu”, fez o anjo. “Fale baixo, eles pensam que estão sozinhos!”.

OK, acho que apenas quem conhece as denominações protestantes, evangélicas e pentecostais – que são três coisas diferentes – entende a piada, mas ela é contada até pelos Batistas…

A Perturbadora Persistência do Determinismo Social

Apresentação1

 

Um texto de 2001 que não perdeu a atualidade. Preciso apenas dar um upgrade nas referências.

O dowload pode ser feito aqui.

Range dinâmico olfatório

Figure 1 Ca2+ imaging shows that each pheromone component activates a single glomerulus in the MGC.

RESEARCH ARTICLE

Heterogeneity and Convergence of Olfactory First-Order Neurons Account for the High Speed and Sensitivity of Second-Order Neurons

 

  • Jean-Pierre Rospars mail,
  • Alexandre Grémiaux,
  • David Jarriault,
  • Antoine Chaffiol,
  • Christelle Monsempes,
  • Nina Deisig,
  • Sylvia Anton,
  • Philippe Lucas,
  • Dominique Martinez
  • Published: December 04, 2014
  • DOI: 10.1371/journal.pcbi.1003975

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Nerds e esportes: uma pesquisa estatística

Nerds são classicamente descritos como incapazes de praticar esportes. Isso é verdade? Você poderia se manifestar?

1) Você se considera nerd?

2) Você se considera sedentário?

3) Você pratica algum esporte? Qual?

4) Você tem alguma religião?

5) Em quem você votou na eleição  de 2010?

Outra discussão é a questão da onipresença do futebol no Brasil e no mundo. Me defino como Afutebolista, ou seja, alguém que não acredita que o futebol seja benéfico para a Humanidade, sendo contra a idolatria do futebol, que é uma verdadeira religião secular. Proponho as seguintes teses:

1) O espaço dado na mídia para o futebol é exagerado e alienante. Outros esportes são prejudicados por pouca cobertura, fora a questão de que tal espaço de mídia poderia ser usado para se discutir ciência e cultura.

2) O Futebol é uma religião secular, com seus extases dominicais, seus ídolos, seu fanatismo, o incentivo a superstições (amuletos, simpatias para ganhar a partida), sua violência intrínseca que gera dezenas de mortes por ano no Brasil e provocou até mesmo uma Guerra entre Honduras e El Salvador. Ou seja, na America Latina, nunca tivemos uma guerra de cunho religioso (a menos que se conte Canudos) mas tivemos uma guerra de cunho futebolístico.

3) A FIFA tem mais países membros do que a ONU. Tem mais seguidores que a Igreja Católica. É  machista pois não admite juízas nos jogos principais. É mais rica que a Igreja Católica e faz muito menos ação social que a mesma. Está envolvida em casos de corrupção bem maiores que o Banco do Vaticano.

4) O dinheiro gasto por pessoas pobres para ir no estadio pode ultrapassar o dízimo de seu salario.

5) Existe uma grande discriminação quando te perguntam qual o seu time e você diz que não gosta de futebol. Te olham mais estranho do que se você fosse ateu, afinal existem mais ateus no Brasil do que afutebolistas.

6) Se uma pessoa declarar-se afutéia, ou seja, que detesta o futebol, ela será discriminada e ficaria em ultimo lugar numa eleição para presidente, atrás dos ateus (afinal, já tivemos vários presidentes ateus, mas nenhum que detestasse o futebol).

7) O futebol envolve um desperdício enorme de recursos (haja visto a atual copado mundo no Brasil). A Africa do Sul reconhece hoje que a Copa não trouxe nada de permanente para o país, apenas o enriquecimento de empresas e políticos corruptos.

8) Não existe separação entre Estado e Futebol. Por que o dinheiro do meu imposto deve ser gasto nessa religião secular se eu acho que o futebol é pernicioso para a sociedade? Que haja um estado verdadeiramente laico, separação total entre Estado e Estádios, Governo Laico e Futebol.

9) As crianças são educadas desde cedo, vestindo camisa, etc, sem lhe serem dadas a opção de escolha do time. Nesse sentido, pais que forçam goela abaixo o futebol para os filhos são análogos a estupradores mentais pedófilos.

10) Quanto maior o QI, menos a pessoa gosta de futebol (ver os nerds). Logo, o futebol emburrece, e deveria ser substituído pelo xadrez como esporte nacional.

UPDATE: Para quem não entendeu, o texto é uma paródia…

O Bonobo e o Ateu

Concordo com de Wall, mas o perigo no século XXI não é o comunismo mas sim o neofacismo.
27/04/2013 – 03h00

‘Religião não é fonte da moral, mas eliminá-la é temerário’, diz primatólogo

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Para alguém que tem se especializado em demonstrar que o ser humano e os demais primatas têm um lado pacífico e bondoso por natureza, Frans de Waal conseguiu comprar briga com muita gente diferente.

Autor de “The Bonobo and the Atheist” (“O Bonobo e o Ateu”), que acaba de sair nos Estados Unidos, o primatólogo holandês-americano provavelmente não agradará muitos religiosos ao argumentar que ninguém precisa de Deus para ser bom.

Seu modelo de virtude? O bonobo (Pan paniscus), um primo-irmão dos chimpanzés conhecido pela capacidade de empatia com membros de sua espécie e de outras, pela sociedade tolerante, sem “guerras”, e pelo uso do sexo para resolver conflitos.

Com base nos estudos com grandes macacos e outros mamíferos sociais, como cetáceos e elefantes, De Waal diz que a moralidade não surgiu por meio de argumentos racionais nem graças a leis ditadas por Deus, mas deriva de emoções que compartilhamos com essas espécies.

Bonobos e chimpanzés sabem que é seu dever cuidar de um amigo doente, retribuir um favor ou pedir desculpas.

Por outro lado, o livro é uma crítica aos Novos Ateus, grupo capitaneado pelo britânico Richard Dawkins que tem dado novo impulso ao conflito entre ateísmo e religião desde a última década.

“Eu não consigo entender por que um ateu deveria agir de modo messiânico como eles”, diz De Waal, ateu e ex-católico. “O inimigo não é a religião, é o dogmatismo.”

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Folha – Quem está mais bravo com o sr. depois da publicação do livro?
Frans de Waal – Bem, no caso dos ateus, recebi muitas mensagens de gente que me apoia. É claro que, em certo sentido, estou do lado deles, tanto por também ser ateu quanto por acreditar que a fonte da moralidade não é a religião. O que eu digo no livro é que os Novos Ateus estavam gritando alto demais e que precisam se acalmar um pouco, porque a estratégia deles não é a melhor.

Em seu livro, o sr. faz uma referência ao romance “O Senhor das Moscas”, de William Golding, história na qual garotos perdidos numa ilha reinventam vários aspectos da sociedade, inclusive a religião. Mas a religião que eles criam é brutal, com sacrifícios humanos. O sr. acha que a religião nasceu brutal e foi ficando mais humanizada?
Acho que não. Quando olhamos para as sociedades tradicionais de pequena escala, que foram a regra na pré-história, vemos que esse tipo de coisa não está presente entre elas.
É claro que elas tinham crenças sobre o mundo sobrenatural e podiam sacrificar um ou outro animal aos deuses, mas, no geral, eram relativamente benignas.
É só quando as sociedades aumentam de escala que elas começam a se tornar mais agressivas e dogmáticas.

Quando se enfatiza o lado pacífico e ético das sociedades de primatas não humanos e do próprio homem, não há um perigo de fechar os olhos para a faceta violenta dela?
Concordo que, nos meus livros mais recentes, essa ênfase existe. Por outro lado, meu primeiro livro, “Chimpanzee Politics” [“Política Chimpanzé”, sem tradução no Brasil], era totalmente focado na violência, na manipulação maquiavélica e em outros aspectos pouco agradáveis da sociedade primata. Mas a questão é que surgiu uma ênfase exagerada nesses aspectos negativos, e as pessoas não estavam ouvindo o outro lado da história.

O sr. acha que encontrar um chimpanzé ou bonobo cara a cara pela primeira vez pode funcionar como uma experiência religiosa ou espiritual?
Eu não chamaria de experiência religiosa (risos), mas é uma experiência que muda a sua percepção da vida.
No livro, conto como a chegada dos primeiros grandes macacos vivos à Europa no final do século 19 despertou reações fortes, em vários casos deixando o público revoltado porque havia essa ideia confortável da separação entre seres humanos e animais. Por outro lado, gente como Darwin viu aquela experiência como algo positivo.

E o sr. sente que essa aversão aos grandes macacos diminuiu hoje?
Sim, e isso é muito interessante. Eu costumo dar palestras em reuniões de sociedades zoológicas de grandes cidades aqui nos Estados Unidos. Tenho certeza de que muitas pessoas ali são religiosas. E esse público é fascinado pelos paralelos e pelas semelhanças entre seres humanos e grandes macacos ou outros animais.
Isso não significa que queiram saber mais sobre a teoria da evolução, mas elas acolhem a conexão entre pessoas e animais.

Na sua nova obra, o sr. defende a ideia de que não se pode simplesmente eliminar a religião da vida humana sem colocar outra coisa no lugar dela. Que outra coisa seria essa?
É preciso reconhecer que os seres humanos têm forte tendência a acreditar em entidades sobrenaturais e a seguir líderes. E o que nós vimos, em especial no caso do comunismo, no qual houve um esforço para eliminar a religião, é que essa tendência acaba sendo preenchida por outro tipo de fé, que se torna tão dogmática quanto a fé religiosa.
Então, o temor que eu tenho é que, se a religião for eliminada, ela seja substituída por algo muito pior. Acho preferível que as religiões sejam adaptadas à sociedade moderna.

Outro argumento do livro é que o menos importante nas religiões é a base factual delas. O mais relevante seria o papel social e emocional dos rituais. Para quem é religioso e se importa com a verdade do que acredita, não é uma visão que pode soar como condescendente ou desonesta?
Pode ser que, para quem é religioso, essa visão trivialize suas crenças. Mas, como biólogo, quando vejo alguma coisa que parece existir em quase todos os grupos de uma espécie, a minha pergunta é: para que serve? Que benefício as pessoas obtêm com isso? Não tenho a intenção de insultar ninguém com esse enfoque.

The Bonobo and the Atheist
editora W.W. Norton & Company
preço R$ 29,35 (e-book na Amazon.com), 313 págs.

The São Paulo Advanced School of Astrobiology

 

 

Research Articles

Claudia A.S. Lage, Gabriel Z.L. Dalmaso, Lia C.R.S. Teixeira, Amanda G. Bendia, Ivan G. Paulino-Lima, Douglas Galante,Eduardo Janot-Pacheco, Ximena C. Abrevaya, Armando Azúa-Bustos, Vivian H. Pelizzari and Alexandre S. Rosado

Editorial

Altruísmo Egoísta ou Egoísmo Altruísta?

O altruísmo egoísta

14/08/12 – 09:15
POR RAFAEL GARCIA

Chimpanzés contemplam sua existência no refúgio de macacos Chimp Haven, na Louisiana (Foto: Mike Souza/CC)

UM DOS GRANDES ENIGMAS no estudo da evolução humana é a tendência que temos de nos indignar com abuso de poder. Por que consideramos correto ajudar os indefesos que sofrem assédio e extorsão por parte dos mais fortes? Por que às vezes alternamos nosso instinto egoísta de sobrevivência por essa índole altruísta? Essa discussão, que ainda está longe de ter consenso entre biólogos e antropólogos, acaba de ganhar uma teoria matemática mostrando como o altruísmo pode surgir de puro egoísmo. Read more [+]

Cientistas dizem que aves e até polvos têm alguma consciência

23/07/2012 – 05h10

Na onda dos manifestos assinados por cientistas defendendo posições sobre temas polêmicos, como o aquecimento global e a evolução, o tema da consciência animal é a bola da vez.

A mensagem dos pesquisadores é clara: dado o peso das evidências atuais, não dá mais para dizer que mamíferos, aves e até polvos não tenham alguma consciência.

Foi o que um grupo de neurocientistas afirmou no Manifesto Cambridge sobre a Consciência em Animais Não Humanos, lançado neste mês em uma conferência sobre as bases neurais da consciência na prestigiosa Universidade de Cambridge (Reino Unido).

SEMELHANÇA

Philip Low, neurocientista da Universidade Stanford e do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e proponente do manifesto, disse à Folha que “nas últimas duas décadas, houve um grande progresso na neurobiologia, graças às novas tecnologias que permitem testar velhas hipóteses”.

Rodrigo Damati/Editoria de Arte

Um conjunto de evidências convergentes indica que animais não humanos, como mamíferos, aves e polvos, possuem as bases anatômicas, químicas e fisiológicas dos estados conscientes, juntamente com a capacidade de exibir comportamentos intencionais e emocionais.

A ausência de um neocórtex (área cerebral mais recente e desenvolvida em humanos) não parece impedir um organismo de experimentar estados afetivos.

O peso da evidência, portanto, indica que os seres humanos não são únicos no que diz respeito à posse das bases neurológicas que geram consciência.

“Enquanto cientistas, nós sentimos que tínhamos um dever profissional e moral de relatar essas observações para o público”, disse Low.

O manifesto foi assinado por 25 pesquisadores de peso, como Irene Pepperberg, da Universidade Harvard, que estudou as avançadas capacidades cognitivas (como o reconhecimento de cores e palavras) do famoso papagaio Alex.

Mateus Paranhos da Costa, pesquisador do comportamento e bem-estar animal da Unesp de Jaboticabal, achou a declaração bem fundamentada.

“Ela tem um componente político importante: um grupo de pesquisadores oficializa sua posição frente à sociedade, assumindo diante dela o que a ciência já tem evidenciado há algum tempo”, diz ele.

ESPELHO DA MENTE

A capacidade de alguns animais de se reconhecerem no espelho foi mencionada no manifesto.

Parece trivial se reconhecer ao escovar os dentes todas as manhãs, mas muitos bichos têm reações agressivas quando colocados cara a cara com seu reflexo.

No teste do espelho, um animal que nunca viu um objeto desses na vida é anestesiado até dormir. Os pesquisadores pintam, então, uma marca no rosto do animal e esperam que ele acorde e ache o espelho colocado em seu recinto. Se ele tentar brigar com o “intruso” ou tocar a mancha no espelho, fracassou no teste. Contudo, se tocar a marca nele mesmo, é um forte indício de que tenha noção de si próprio.

Já passaram no teste chimpanzés, bonobos, gorilas, orangotangos, golfinhos-nariz-de-garrafa, orcas, elefantes e pegas-europeias (parentes do corvo). Crianças só passam no teste após 18 meses de vida.

Marlene Zuk, especialista em seleção sexual e comunicação animal da Universidade de Minnesota, afirma que é preciso ter cuidado com a atribuição da experiência humana a outros animais.

“Temos a tendência de fazer um ranking dos animais com base em quão semelhantes a nós eles são. Entendemos muito pouco sobre como funciona a consciência. Os animais podem apresentar um comportamento complexo sem ter sistema nervoso complexo.”

LACUNAS

Devido ao foco da conferência nas bases neurais da consciência, estudos relevantes para o bem-estar animal faltaram no manifesto.

A palavra “dor” não foi mencionada. Pesquisas já mostraram a existência da capacidade de sentir dor em peixes e invertebrados, excluídos da lista. A capacidade de sofrer com a morte de um parente também já foi descrita em chimpanzés, gorilas, elefantes, leões-marinhos, lobos, lhamas, pegas e gansos.

“Se vivemos em uma sociedade que considera dados científicos ao pensar suas atitudes morais em relação aos animais, então o manifesto poderá iniciar mudanças”, ressalta Philip Low.

Para Paranhos da Costa, ao se gerar e divulgar evidências de que os animais de criação (como o gado) “não diferem dos demais quanto a capacidades de sentir, aprender, formar laços sociais”, transformações sociais ocorrerão.

O Meme do Meme do Meme

Quando eu li o Gene Egoísta de Richard Dawkins na década de 80, eu não imaginava que um dia o Meme estaria na Globo…

Sobre cientistas atuantes e cientistas divulgadores de ciência

Barrow e Dawkins

Artigos publicados de John D. Barrow

Artigos publicados de Richard Dawkins

Tentando interpretar melhor a fala de John D. Barrow:
When Selfish Gene author Richard Dawkins challenged physicist John Barrow on his formulation of the constants of nature at last summer’s Templeton-Cambridge Journalism Fellowship lectures, Barrow laughed and said, “You have a problem with these ideas, Richard, because you’re not really a scientist. You’re a biologist.”
Talvez Barrow quisesse dizer que Dawkins já não era um cientista ativo, não estava mais publicando com regularidade em revistas com peer review. Ou seja, Dawkins seria atualmente mais um divulgador de ciência, um escritor, não um cientista profissional. Ora, em termos de publicação científica, acho que Barrow tem razão, como pode ser comprovado pelos gráficos acima da Web of Science.
Fiquei sabendo que Dawkins perdeu recentemente a cátedra de Oxford em “Public Understanding of Science”. Algém sabe por que?
Em termos de publicação científica, temos:
Dawkins:
Número de papers: N = 20 (por favor, se eu estiver errado, corrijam! Mas cuidado, existem outros R. Dawkins no ISI Web of Science que não são o Richard Dawkins)
Índice de Hirsch: h = 15
Comparando com John D. Barrow:
N = 324
h = 52
Bom, minha conclusão é que Barrow tem credenciais para falar sobre o que é ciência e ser cientista. Alguém discorda?

Re: Outrageous personal attack on RD by physicist John Barrow

Postby Richard Dawkins » Mon Jul 28, 2008 6:40 pm

Actually, I think we should take Barrow’s remark as nothing more than good-natured banter — of the kind people indulge in when they play up to an alleged rivalry between Oxford and Cambridge. I wouldn’t get too worked up about it. I didn’t at the time.Richard Dawkins
PS: Na Wikipedia, constam 30 artigos de Dawkins, mas ainda não tive tempo de verificar se todos estão na ISI Web of Science. Não acredito que os números vão mudar muito. Em particular, o h e o K são muito robustos…
Postado por Osame Kinouchi às Segunda-feira, Outubro 05, 2009 

5 comentários:

Charles Morphy disse…
Caro Osame,
Não discuto a qualidade científica de John Barrow!
Mas não acho que o fato dele ter X trabalhos publicados e Y citações faz a afirmação dele “… você não é um cientista. Você é um biólogo” correta!
Se ele realmente pensa isso, acredito que sua concepção de ciência é tacanha e míope.
Abraço
2:23 PM, Outubro 05, 2009
Charles disse…
Quando digo a “sua”, falo a do Barrow, não a “sua” (Osame”…
Abraço
2:25 PM, Outubro 05, 2009
Osame Kinouchi disse…
Charles, você leu o comentario de Dawkins sobre isso?Se Dawkins não ligou, e disse que foi apenas uma piada e não uma observação séria, porque os biólogos deveriam ligar? Por que você deveria ligar?
4:43 PM, Outubro 05, 2009
Charles Morphy disse…
Osame,
Você tem razão.
7:12 PM, Outubro 05, 2009

Vida microbiana em Marte

  • Imagem da Nasa gerada por computador mostra parte de Marte

    Imagem da Nasa gerada por computador mostra parte de Marte

Vastas regiões nas profundidades do subsolo de Marte são suscetíveis para abrigar uma vida microbiana, anunciaram cientistas australianos que compararam as condições de vida no Planeta Vermelho com as da vida na Terra.

Apesar de apenas 1% do volume total da Terra (do núcleo à alta atmosfera) abrigar alguma forma de organismo vivo, a proporção alcançaria em tese 3% do volume de Marte, em especial nas regiões subterrâneas, segundo Charley Lineweaver, da Universidade Nacional da Austrália.

“O que estamos tentando fazer é, simplesmente, pegar todas as informações de que dispomos, uní-las e perguntar: ‘este conjunto é coerente com a vida em Marte?'”, destacou o astrobiólogo Lineweaver.

“A resposta é sim. Vastas regiões de Marte são compatíveis com a vida terrestre na comparação das temperaturas e da pressão terrestre com as que se encontra no planeta Marte”, completou.

A escassa pressão e as temperaturas de 60 graus centígrados abaixo de zero não permitiriam, por exemplo, a formação de água líquida na superfície de Marte, mas nas profundidades do subsolo, porém, existem condições para a existência de vida microbiana.

A presença de água em Marte, na forma de argila hidratada, foi constatada por sondas americanas lançadas desde a década de 1970, mas nenhum rastro de vida orgânica presente foi detectado até hoje.

A Nasa lançou recentemente o robô explorador Curiosity, o mais sofisticado e mais pesado já enviado a outro planeta, para investigar precisamente se a vida já existiu em Marte.

O robô deve pousar em Marte em meados de 2012 ao pé de uma montanha de 5.000 metros de altura na região marciana de Gale.

Você é um homem ou um rato?

Ratos libertam companheiros em uma demonstração de empatia

REINALDO JOSÉ LOPES EDITOR DE “CIÊNCIA E SAÚDE”

Parece uma versão (menos sombria) do livro “A Revolução dos Bichos”, mas aconteceu de verdade, na Universidade de Chicago: ratos que aprenderam a libertar seus companheiros da prisão. Ou, ao menos, de gaiolinhas de acrílico onde tinham sido colocados, num experimento do Departamento de Psicologia, coordenado pela pesquisadora israelense Inbal Ben-Ami Bartal. A pesquisa foi descrita na revista “Science” desta semana. O espírito libertador dos ratinhos surpreende porque, para os cientistas, ele pressupõe uma forma de empatia –a capacidade de se colocar na posição de outro indivíduo e tentar ajudá-lo.

Os cientistas usaram cerca de 30 bichos no experimento. Cada par de “participantes” era colocado no mesmo recinto durante duas semanas. Depois, um dos bichos era colocado na gaiolinha, enquanto o outro podia interagir com a “cela”. Após cerca de uma semana, quase todos os bichos aprendiam que dava para abrir a portinhola e permitir que o parceiro escapasse. Ao que tudo indica, eles não fuçavam na gaiola por pura curiosidade, já que jaulas vazias ou com brinquedos dentro não despertavam o mesmo interesse nos bichos. O mais surpreendente veio quando a comparação entre uma gaiola com o companheiro e outra com uma barra de chocolate.

Nesse segundo caso, os roedores não só abriam ambas as gaiolas com igual rapidez como também comiam só parte da guloseima, deixando o resto para o ratinho recém-libertado. Os pesquisadores também verificaram que o rato prisioneiro “pedia socorro”, usando chamados ultrassônicos de alerta que são típicos da comunicação da espécie.

Astrobiologia perto de casa

24/11/2011 – 14h37

Estudo identifica astros com mais chances de abrigar vida extraterrestre

DA BBC BRASIL

A lua de Saturno Titã e o exoplaneta Gliese 581g estão entre os corpos celestes mais propensos à existência de vida extraterrestre, diz um artigo científico publicado por pesquisadores americanos.

O estudo da Universidade de Washington criou um ranking que ordena os planetas e satélites de acordo com a semelhança com a Terra e as condições para abrigar outras formas de vida.

Veja galeria de fotos

JPL/ STSI/Nasa
O exoplaneta Gliese 581g (em primeiro plano) foi considerado o mais parecido com a Terra; veja galeria de fotos
O exoplaneta Gliese 581g (em primeiro plano) foi considerado o mais parecido com a Terra; veja galeria de fotos

Segundo os resultados publicados na revista acadêmica “Astrobiology”, a maior semelhança com a Terra foi demonstrada por Gliese 581g, um exoplaneta –ou seja, localizado fora do Sistema Solar–, cuja existência muitos astrônomos duvidam.

Em seguida, no mesmo critério, vem o Gliese 581d, que é parte do mesmo sistema. O sistema Gliese 581 é formado por quatro –e possivelmente cinco– planetas orbitando a mesma estrela anã a mais de 20 anos-luz da Terra, na constelação de Libra.

CONDIÇÕES FAVORÁVEIS

Um dos autores do estudo, Dirk Schulze-Makuch explica que os rankings foram elaborados com base em dois indicadores.

O ESI (sigla em inglês de Índice de Similaridade com a Terra) ordenou os astros conforme a sua similaridade com o nosso planeta, levando em conta fatores como o tamanho, a densidade e a distância de sua estrela-mãe.

Já o PHI (sigla de Índice de Habitabilidade Planetária) analisou fatores como a existência de uma superfície rochosa ou congelada, de uma atmosfera ou de um campo magnético.

Também foi avaliada a energia à disposição de organismos, seja através da luz de uma estrela-mãe ou de um processo chamado de aceleração de maré, no qual um planeta ou lua é aquecido internamente ao interagir gravitacionalmente com um satélite.

Por fim, o PHI leva em consideração a química dos planetas, como a presença ou ausência de elementos orgânicos, e se solventes líquidos estão disponíveis para reações químicas.

HABITÁVEIS

No critério de habitabilidade, a lua Titã, que orbita ao redor de Saturno, ficou em primeiro lugar, seguida da lua Europa, que orbita Júpiter.

Os cientistas acreditam que Europa contenha um oceano aquático subterrâneo aquecido por aceleração de maré.

O estudo contribuirá para iniciativas que, nos últimos tempos, têm reforçado a busca por vida extraterrestre.

Desde que foi lançado em órbita em 2009, o telescópio espacial Kepler, da Nasa (agência espacial americana), já encontrou mais de mil planetas com potencial para abrigar formas de vida.

No futuro, os cientistas creem que os telescópios sejam capazes de identificar os chamados “bioindicadores” –indicadores da vida, como presença de clorofila, pigmento presente nas plantas– na luz emitida por planetas distantes.