Home // Archive by category "Educação"

Comentários no blog Mensageiro Sideral de Salvador Nogueira

As letrinhas ficaram tão pequena que não dá mais para ler, assim continuo aqui.
Salvador, eu sou solidário à sua estupenda ação de divulgação científica da Astronomia (e de Star Trek, by the way). E vejo como é irritante e desgastaste a interação com comentaristas pseudo-religiosos aqui (tipo Apolinário etc.). Eu nem sei porque você se dá ao luxo de responder a eles (eu ficaria quieto), bom talvez você tenha a mesma filosofia de interação com o leitor do jornalista cristão e mui paciente Reinaldo Lopes. O que eu queria dizer é que assisto essa sua batalha há muitos anos e nunca manifestei muito minha opinião. Mas como estou trabalhando com divulgação cientifica também, gostaria de fazer colocações sobre jornalismo cientifico que poderão gerar algumas reflexões suas talvez. Sei que você é uma pessoa racional e Bayesiana (ou seja, muda de opinião conforme a evidência ou os argumentos lógicos), então quem sabe isso poderia gerar uma interação mais proveitosa com o pessoal religioso que fica comentando aqui no seu blog.
Osame Kinouchi – 10/11/2017 6:06 pm Responder
Vou dar um exemplo anedótico: há seis anos me apaixonei por uma mulher (Rita) basicamente porque ela decorava o celular com um app que mostrava fotos do Hubble. Ela também quis me conhecer pelo fato de eu ser físico e a primeira conversa num café foi iniciada por ela, sobre um novo tipo de buraco negro que ela tinha lido na Folha (teria sido você o reporter?). Ela tinha aquela comportamento usual (social), no sentido: Dorme com Deus, Deus te proteja, Vá com Deus etc. Citou uma vez um versículo (“Os Céus manifestam a Gória de Deus”) como uma das motivações que ela tinha para ler o seu blog na Folha.
Bom, depois de eu falar que as fotos do Hubble eram de cores falsas, e que o tamanho do universo era apenas a prova de nossa insignificância, num Universo sem sentido, ela perdeu a fé. Junto com essa perda, ela deletou o app do Hubble no celular, não lê mais reportagens de Astronomia, não lê mais o seu blog.
Osame Kinouchi – 10/11/2017 6:12 pm
Bom, eu apenas gostaria de sugerir a você que ficar enfatizando que a Astronomia mostra como somos poeira de estrelas (ou seja, lixo espacial), infinitamente pequenos, desprezíveis, com uma curta vida sem sentido, em um Universo também sem sentido e fruto do puro acaso não é a melhor maneira de entusiasmar as pessoas pela ciência. Exigir que as pessoas que gostam da beleza da Astronomia precisem tirar uma carteirinha de ateu para continuar gostando do assunto, senão seriam desonestos intelectuais, com cérebros contaminados por memes religiosos destrutivos, me parece totalmente fora de propósito. Nosso objetivo como divulgadores da ciência é fazer com que as pessoas vejam a beleza da mesma, se interessem, se disponham a apoia-la (mesmo continuando religiosas, como é o caso do Reinaldo Lopes). Ou seja, o objetivo mínimo seria transformar fundamentalistas religiosos em religiosos moderados e esclarecidos como Reinaldo, que gostam de ciência e a apoiam. Não tenho certeza se afirmar que o mundo seria bem melhor sem as religiões (como foi feito – ou quase – no post sobre Star Trek Discovery) vai atrair mais gente para o campo científico. Na verdade, pode ser um poderoso instrumento para alienar ainda mais as pessoas da ciência. Bom, é isto o que penso, mas imagino que você também tenha uma opinião bem pensada sobre isso…
Osame Kinouchi – 10/11/2017 6:21 pm
Osame, eu não disse jamais que somos infinitamente pequenos e desprezíveis, com uma curta vida sem sentido. Jamais. Nem acho que esta seja a mensagem da ciência. Pelo contrário. No “Conversa com Bial” de que participei, foi evocada essa noção do “pequenos e desprezíveis”, e eu rebati veementemente. Disse que, ao mesmo tempo em que somos pequenos comparados ao Universo, somos grandes porque podemos compreender o Universo. O Universo é muito maior que o ser humano, mas, ao mesmo tempo, cabe no interior de nossa mente, o que é notável e nos impõe uma sublime responsabilidade: sermos os biógrafos do Universo, ou pelo menos os biógrafos do Universo, segundo nosso ponto de vista particular. Esta é uma ideia que já planejo desenvolver com mais vagar há alguns anos e, salvo alguma bola de efeito na minha direção, deve ser tema do meu próximo livro.
Quem cria a falsa dicotomia entre “ser religioso” ou “ser desprezível segundo a visão fria da ciência” é você. Ela não existe.
No mais, sempre defendi aqui não o ateísmo, mas a separação rigorosa entre a religião e a ciência. A religião fala de verdades subjetivas, a ciência fala de verdades objetivas. O tema do blog é ciência, e não acho salutar misturar com religião. Sigo a linha dos “magistérios não interferentes” de Stephen J. Gould. Acho o jeito certo de fazer divulgação científica. Não é pregação; é ciência.
Aliás, interessante você mencionar o Reinaldo José Lopes. É meu amigão de longa data, e admiro de fato como ele é capaz de separar uma coisa da outra na cabeça dele, mas acho temerário — e não é segredo para ninguém, inclusive ele — misturar ciência e religião no mesmo balaio, no mesmo espaço de comunicação. Quando eu fui editor de Ciência e Saúde do G1, o Reinaldo tinha dois espaços separados: o Visões da Vida, sobre biologia evolutiva, e o Ciência da Fé, para falar de temas religiosos. Eu fiz questão que assim o fosse porque é minha convicção que os temas são como água e óleo, não se misturam. Não deveriam se misturar.
De volta à Folha, o Reinaldo conseguiu costurar as duas coisas numa só, na forma do atual Darwin e Deus. Continuo achando inadequado. Seria como se eu decidisse fazer deste blog um espaço sobre astronomia e futebol. Nada contra futebol. Adoro futebol. Mas não faria jamais. Porque não me parece adequado misturar dois temas completamente diferentes. Para isso, criaria dois blogs, permitindo que quem goste de futebol leia sobre futebol, e quem goste de astronomia leia sobre astronomia. Faz sentido para mim.
Resumo da ópera: não tenho nada contra religião. Tenho restrições ao fundamentalismo religioso, que julgo socialmente nocivo. Mas a religiões? De jeito nenhum. Cada um no seu quadrado, com toda liberdade.
Mas, não, não vou misturar ciência com religião como uma “isca” para atrair mais leitores para o lado da ciência. Acho, na melhor das hipóteses, inefetivo, e na pior, desonesto. O desafio que me imponho é justamente mostrar que o mundo natural — e nossa compreensão dele — já é razão suficiente para nos animarmos e acharmos que nossa vida tem sentido, um belo propósito auto-imposto, sem precisar recorrer a noções sobrenaturais. A julgar pelo fato de que este blog tem uma boa audiência regular, acho que a coisa está caminhando bem. 😉
Salvador Nogueira – 
Concordo com você, Salvador… Ciência e Religião não se misturam. Seu amigo Reinaldo José Lopes tenta misturar os dois e seu blog ficou muito esquisito. Li o livro do Reinaldo “Deus, como ele nasceu” e minha avaliação é a de que ele começou bem, tratando da questão historicamente, mas o terço final do livro me pareceu mais uma tentativa de evangelização do que de esclarecimento histórico. Decepcionante, a meu ver.

Salvador, falando em Darwin, você acredita que A Origem das Espécies ainda sobrevive sem precisar de alguns adendos? Tipo Einstein?
Não. Mas nem Einstein resiste sem adendos. De qual Einstein você está falando? Do proponente da mecânica quântica ou do crítico da mecânica quântica? Do cara que inventou a constante cosmológica ou do cara que repudiou a constante cosmológica?
A teoria de Darwin resiste ao teste do tempo como a relatividade geral de Einstein. Ambas continuam a nossa melhor palavra sobre seus respectivos domínios. Mas, claro, todas elas já justificaram adendos e têm limitações. A seleção natural não contempla fenômenos como a epigenética, que tem aspectos lamarckistas e fala de características adquiridas e então passadas adiante. A relatividade geral também não se presta à quantização, o que parece ser incompatível com o que sabemos sobre a natureza do mundo atualmente.
A Origem das Espécies é uma obra-prima da ciência, figurando facilmente ao lado de obras como os Principia de Newton e a relatividade geral de Einstein. Ela deu sentido à biologia, do mesmo jeito que os Principia deram sentido ao movimento, e Einstein deu sentido ao espaço-tempo e à gravidade.
A maravilha da ciência é que ela não precisa ser perfeita. Basta ser efetiva. Com efetividade, ela vai se aperfeiçoando. Não sei se algum cientista algum dia terá a palavra final sobre qualquer coisa. Mas é fato que o poder explicativo vai aumentando. A teoria de Darwin tem enorme poder explicativo e preditivo. A relatividade de Einstein também. São pilares sólidos, sobre os quais outros cientistas se apoiam para explorar as fronteiras do conhecimento.
Li com atenção o trecho em que você diz ” O Universo é muito maior que o ser humano, mas, ao mesmo tempo, cabe no interior de nossa mente, o que é notável e nos impõe uma sublime responsabilidade: sermos os biógrafos do Universo, ou pelo menos os biógrafos do Universo, segundo nosso ponto de vista particular”.
Na década de 80, li um livro pouco difundido, chamado “Sexta-Feira ou Os Limbos do Pacífico”. Eu o carreguei durante algumas décadas, até que ele se perdesse em uma de minhas incontáveis mudanças de endereço. O autor, Michael Tournier, faz o que alguns chamariam de releitura do Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Não penso assim: é antes uma busca do “entorno”, uma tentativa de entender o Universo. Não no sentido astronômico, mas no sentido existencial. Mas é interessantíssimo, e se, como você disse acima, pretende escrever uma “biografia humana sobre o Universo”, recomendo que você o leia (caso já não o tenha lido). Vou tomar a liberdade de citar uma parte de “Notas Críticas do Romance Sexta-Feira ou Limbos do Pacífico, de Michael Tournier (1967)”.
http://www.revistaacademicaonline.com/products/notas-criticas-do-romance-sexta-feira-ou-limbos-do-pacifico-de-michael-tournier-1967/ ):
“outrem pode ser um objeto (qualquer objeto no campo perceptivo) ou sujeito (ainda que fosse outro sujeito para um campo perceptivo), mas sua teoria ainda repousa nas categorias de sujeito e objeto, em que outrem é aquilo que me constitui como objeto quando me olha e, se converte em objeto quando o olho.
Esse clássico dualismo esboroa aqui, pois o problema não é mais colocado entre sujeito e objeto, mas numa estrutura diferente – um mundo com outrem (outrem não é o outro, ele é uma condição que estabelece um possível envolvido, e um mundo na ausência de outrem (sem a estrutura que torna os mundos possíveis)”.
Acho que seria quase impossível você abordar o tema que se propõe para o próximo livro, “salvo alguma bola de efeito”, sem uma “pega” filosófica. Fica a dica do livro do Tournier.
Um grande abraço
No meu comentário acima, falei de filosofia e existencialismo. Poderia parecer fora de contexto, num blog de Astronomia e Astrofísica.

Mas tive uma razão para isso. Você fala de uma biografia humana sobre o Universo. Você fala de uma responsabilidade que temos para escrevê-la. Entendo perfeitamente: somos inteligentes, somos tecnológicos, e conseguimos fazer o universo caber em nossa mente. E ainda: não conhecemos ninguém mais (que não o Homo sapiens) capaz de tomar essa tarefa para si.

Proponho uma hipótese, que está longe de ser impossível: um dia, a vida na Terra se extingue, por acidente natural ou não. Associo a essa hipótese, outra, mais improvável na minha (humilde, mas sem modéstia alguma) opinião: não existe outra inteligência tecnológica no Universo. Repito: improvável, não acredito nisso. Por uma mera questão estatística: o Universo é grande demais e tem tempo demais para ter gerado vida inteligente apenas aqui.

Mas prosseguindo com a soma das duas hipóteses: vida (um dia) extinta na Terra, e nenhuma outra inteligência no Universo. Então tudo perde o sentido.

Antes: e a incerteza da mecânica quântica, como ficaria sem um Observador? Indefinida e sem relação causa-efeito para todo o sempre? E mais arrasador ainda: para que um Universo sem um Observador? Que diferença faria existir ou não o Universo sem um Observador?

Você gosta do termo “questão metafísica”, e podemos usá-la aqui. Mas também é uma questão existencial, “sartreana” ou “pós-sartreana”. E foi por isso que me lembrei do livro do Michael Tournier.

Na primeira parte do livro ele está só, em uma ilha, que poderíamos chamar de Terra. Ele entra numa caverna, onde fica provido de som e luz. E se pergunta: será que o que torna o mundo possível, o que faz o mundo existir, é a minha percepção dele? Será que ele deixa de existir quando não posso testemunhá-lo e não tenho um outro testemunho de sua existência?

Estou sendo grosseiro, e apelando em excesso para minha memória. Li o livro pela última vez há bem mais de uma década. Mas me recordo que essa era a essência da primeira parte do livro, antes que um “outro” chegasse à ilha.

Enfim, foi o que me levou à audácia de te recomendar a leitura do livro. Porque mais que pertinente, é assustadoramente atual, embora escrito em 1967. E repito: podemos chamar de questão metafísica, mais a seu gosto, ou questão existencial…não importa. Importa é que uma biografia humana do Universo terá que contemplar essa questão, concorda?

De longe, será, se “nenhuma bola de efeito” te desviar desse projeto, seu livro mais completo e desafiador. E querendo ou não, você estará criando uma “Escola”. Merecerá meu mais profundo respeito, sem demagogia.

Mais um abraço, desta sua testemunha desde os tempos das “Pensatas”

Eduardo de Castro – 
Opa, legal saber que você está por aí desde os velhos tempos das Pensatas! Foi uma longa estrada! 🙂
Então, essa coisa de perder o sentido é, com o perdão do trocadilho, relativa. Se, como Einstein já disse, o tempo é uma “ilusão persistente”, tanto faz se deixarmos de existir e com ele nossa explicação do Universo. No espaço-tempo, ela sempre existe, porque o tempo é tão somente mais uma dimensão. O espaço-tempo torna tudo atemporal, em certo sentido.
Outro aspecto interessante é que, de novo, pensando no tempo, a história que podemos recontar sobre o Universo hoje não se escora somente em nossa capacidade de narrá-la, mas no fato de que ainda vivemos numa época cósmica em que as pistas do passado estão por aí. Mas podemos perfeitamente imaginar uma civilização emergindo um gigalhão de anos no futuro que veria sua galáxia isolada em meio a um fundo completamente escuro, e nenhuma radiação cósmica de fundo detectável para lhes contar que o Universo nasceu num Big Bang.
Por fim, lembremos que somos capazes, hoje, de construir monumentos que podem sobreviver a nós por bilhões de anos. As Voyagers estão aí, vagando pela Via Láctea, e não me deixam mentir. Quase certamente sobreviverão mais tempo que nossa civilização. E espero que lancemos outras “Voyagers” ainda, maiores e melhores, antes de decretarmos o nosso fim — tornando nossa “pegada” muito mais longeva que nossa própria existência.
Abraço!

Respondendo ao Eduardo de Castro, que imaginou a possibilidade de um dia não haver nenhum ser inteligente no Universo,”vida (um dia) extinta na Terra, e nenhuma outra inteligência no Universo. Então tudo perde o sentido.”
Está correto, tudo perde o sentido, pois quem cria um sentido (objetivo) para as coisas somos nós, seres inteligentes. Na verdade, o Universo apenas existe, nós apenas existimos (por enquanto), não há um sentido exterior a nós, apesar do desejo de muitos, que ele exista.
Radoico – 
Discordo de você ao mesmo tempo que discordo dele. O fato de termos existido já criou um sentido. E apagar a nossa existência não apaga o sentido, do mesmo modo que a morte de um cientista ou um poeta não apaga a sua obra. Somos parte da história do Universo, e a história do Universo não vai mudar se sumirmos amanhã. O que acho encantador e surpreendente — e o verdadeiro sentido do Universo, por assim dizer — é que o Universo gera criaturas capazes de lhe dar um sentido. Nós somos meramente a bola da vez, e mesmo que sejamos a única bola de todo o jogo, ainda assim o feito não é menos impressionante. O Universo é tão rico que é capaz de gerar seu próprio sentido — através de criaturas como nós. Não é incrível?
Salvador Nogueira – 
O erro foi todo seu, ao tirar essa falsa conclusão de que o tamanho do Universo era apenas prova de nossa insignificância. 😛
Salvador Nogueira – 
Eu agradeço, Osame. É um assunto muito interessante, e tenho prazer em travar discussões como esta que estamos tendo.
Tenho essa preocupação de não gerar antagonismo entre ciência e religião. Até porque considero um falso antagonismo. Disse isso com todas as letras no post que fiz sobre evolução.
“Este é um assunto dos mais controversos: a origem das espécies, desde as bactérias mais simples até os orgulhosos seres humanos. A razão básica da confusão é que algumas pessoas querem fazer crer que existe um conflito intrínseco entre a teoria da evolução pela seleção natural e as religiões. É mentira.
“A ciência, aliás, não é inimiga da religião. As duas são naturalmente complementares, e existe beleza no equilíbrio — admirá-las igualmente pelo que são, tentativas de contextualizar a existência humana respectivamente nos níveis natural e espiritual.
“Uma diferença importante entre elas é que a ciência, por sua própria natureza, se propõe a estabelecer (tanto quanto possível) fatos objetivos. Já a religião fala de “verdades” pessoais. Por isso cada um de nós pode ter suas próprias crenças, mas temos todos em comum uma única ciência. E também é por isso que neste texto, daqui em diante, vamos discutir apenas ciência.”
(Aqui o post completo: http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br/2014/05/26/cinco-provas-da-evolucao-das-especies/)
Salvador Nogueira – 
Pois é, que pena que Rita não lê mais seu blog e deletou o app do Hubble. Mas só para confirmar: as fotos são de cores falsas ou não?
Osame Kinouchi – 
Essa é uma pergunta complicada. Podem ser ou não.
O Hubble, como todo telescópio profissional de ponta, tem diversos filtros. Ele tem filtros de cor real e amplo espectro, que se aproximam do azul, verde e vermelho que enxergamos, e ele tem filtros especiais, de espectro estreito, focados em detectar fenômenos específicos. Esses filtros vão do infravermelho até o ultravioleta, embora se concentrem na luz visível. Então a maior parte do que vemos nas imagens do Hubble é, em princípio, luz que enxergaríamos.
Contudo, dependendo da composição de filtros (e da intenção da composição), a imagem resultante pode estar mais próxima ou mais distante do que veríamos com os próprios olhos.
Veja o que diz um documento do STScI sobre isto:
“In some cases, the resulting images may be relatively close to a visually accurate rendering of the target, provided the filter/detector response matches the human visual system model, and taking into account the enhancement afforded by optics and detectors. In most cases, the rendering is a visualization of phenomena outside the limits of human perception of brightness and wavelength. Nevertheless, the goal in producing presentation images remains to stay honest to the data, and to avoid misleading the viewer, but also to produce an aesthetically pleasing image.”
Ou seja, as imagens são REAIS. Mostram coisas que estão lá. Não é arte de Photoshop. A única diferença é que o Hubble enxerga melhor que a gente, e em muitos casos a imagem traduz em cores que podemos ver algumas cores reais do Universo que não podemos ver. É interessante notar que existe todo um esforço de equilibrar estética, realidade e ciência. Por exemplo: se estamos vendo um filtro específico, de banda estreita, mas que está perto do azul, ele será representado em azul na imagem final, e não, digamos, em vermelho.
Da mesma maneira, se as imagens incorporam ultravioleta e infravermelho, o ultravioleta vai ser violeta, e o infravermelho vai ser vermelho. E por isso vemos estrelas azuis azuis e estrelas vermelhas vermelhas nas imagens do Hubble.
A “realidade” das cores fica mais evidente ainda quando o Hubble é usado para ciência planetária. Quando você vê uma foto de Marte feita pelo Hubble, pode constatar que a cor é bem aproximada daquela que você veria com os próprios olhos.
De novo, como no outro caso, o grande lance da ciência é que você precisa explicar. Claro, se você resume a ópera com “é tudo cor falsa, é tudo de mentira”, você não está fazendo um favor à ciência. Mas se você resume a ópera como “é tudo verdade, as cores aproximam o que veríamos com os próprios olhos, mas ao mesmo tempo permitem aos astrônomos enxergar coisas que estão lá, mas nossos limitados sentidos não podem ver”, a coisa fica muito mais bonita e poética.
Veja como, a exemplo do seus comentários anteriores, apresentar a ciência não significa diminuir o ser humano. Você pode ver o copo meio vazio e pensar, “poxa, o Hubble me mostra que meus olhos, longe de ser aquela maravilha divina, são uma porcaria bem limitada, comparada ao espectro eletromagnético total”. Ou você pode ver o copo meio cheio e pensar, “poxa, a ciência, uma invenção humana, criada pelo cérebro humano, permite que a gente construa olhos melhores que o nosso, como o Hubble, e enxergue em sua plenitude a beleza do Universo, e isso é uma coisa incrível, algo que já justifica a existência humana como algo que vale a pena no Universo”.

Piloto de Podcast

Ainda não temos nome. Ainda não temos formato. Nem assunto temos. Mas no último domingo, Antônio Carlos Roque, Luciano Bachmann, George Cardoso e eu fizemos um piloto, regado a muita comida e vinhos na casa do Roque.
Conversamos das 11h às 21h, Ufa! Mas só gravamos duas horas e meia. Vou colocar alguns pedaços para degustação. Se alguém tiver ideia para o nome do Podcast, deixe no comentário por favor!

CineCiência

Uma entrevista sobre divulgação científica

cropped-osame-2.jpg

    Entrevista concedida à Juliana Oliveira, do curso de Licenciatura em Química da FFCLRP – USP
  1. Quando começou seu interesse por ciências?

Como muitos de minha geração, creio que foi com o pouso da Apolo XI na Lua em 1969. Eu tinha apenas seis anos, mas ainda me lembro das imagens na TV. No ano seguinte, apareceu o cometa Benett, muito visível nos céus brasileiros, despertando meu interesse por astronomia. Acho que minha primeira mesada, com dez anos de idade, foi gasta com um livro de Astronomia (e outro de OVNIs…). Na mesma época, meu pai começou a comprar a coleção Os Cientistas, que vinha com experimentos a serem feitos. Acho que com doze anos eu já tinha meu telescópio, e fazia observações sistemáticas de manchas solares, fases de Vênus, anéis de Saturno, posição de Marte no céu e observação dos satélites de Júpiter. Aos treze anos, eu e um colega tentávamos fazer experimentos controlados de telepatia, clarividência e telecinesia. Aprendi a traçar gráficos e séries temporais plotando a frequência de relatos de OVNIs em função do tempo. Nunca deu em nada (claro!), mas aprendemos a fazer estatísticas e testes de significância. Nessa época acho que minha biblioteca já contava com cerca de cinquenta volumes, a maior parte de pseudociências (minha geração foi muito influenciada pelo livro O Despertar dos Mágicos, de Powels e Bergier e pela revista Planeta). Aprendíamos alguma coisa de ciência nesses meios, pois não havia muitos livros de divulgação científica propriamente dita. Ou seja, tudo se definiu antes dos treze anos de idade.

  1. Como começou seu interesse por divulgação científica?

Como leitor, como eu disse, primeiro foram os livros de pseudociências (que de um jeito ou outro nos estimulava como mistérios a serem solucionados cientificamente) e alguns livros de Astronomia. Mais tarde comecei a ler livros de Carl Sagan e outros. Não havia revistas de divulgação científica nem documentários, filmes ou museus de ciência. A revista Planeta, editada na época pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, mesmo com todo o seu pendor New Age e alternativo, trazia reportagens e notícias sobre ciência e tecnologia.

  1. Como você definiria divulgação científica e qual seria a importância da mesma para a sociedade atual?

Existem dois tipos de divulgação científica: o primeiro onde quem é mais favorecido são a ciência e os cientistas (divulgando seu trabalho, justificando os gastos públicos com a ciência, despertando novas vocações científicas, promovendo a educação e a cultura científica etc.) e o segundo em que o objetivo é empoderar o público leigo em ciências, fornecendo-lhes novos conceitos (e metáforas) para poder entender sistemas complexos como a sociedade, a economia, a história, a política etc. Dou um exemplo: se você procurar pela palavra pêndulo em um site de notícias como a FOLHA, Estadão ou G1, cerca da metade das vezes a palavra estará sendo usada como metáfora, tipo O pêndulo político oscilou do PT para o PSDB. Essa metáfora do pêndulo é pobre, reflete um conhecimento básico de física Newtoniana dado no ensino médio. Traduz uma ideologia mecanicista de como encarar a sociedade: outras metáforas Newtonianas aplicadas à sociedade são: forças sociais, equilíbrio de forças, tensão social, ruptura social, revolução, equilíbrio de poder etc. É uma mecânica estática, uma ideologia pobre, que constrange e limita o pensamento e a capacidade de pensar a sociedade de quem a está usando. Mas imagine que a divulgação científica familiarize o público com os conceitos de Caos, fractais, bacias de atração, pontos de bifurcação, transições de fase, auto-organização etc, temas hoje estudados pela Econofísica e Sociofísica. Um novo vocabulário, mais rico e poderoso, poderia ser usado para se pensar temas sociais, em vez de se usar a metáfora pobre e limitante do pêndulo, que envolve oscilações com período bem definido, é um sistema dinâmico de baixa dimensão etc.). Acho que o papel da cultura científica deveria ser empoderar as pessoas, e não apenas defender os interesses da ciência (uma tarefa válida também, mas não única). Tenho um artigo publicado sobre isso:

Metáforas científicas no discurso jornalístico

Rev. Bras. Ensino Fís. vol.34 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2012

  1. O jornalista brasileiro está preparado para fazer divulgação científica?

Os que se especializaram em jornalismo científico tem boa preparação. Podem aprender algo com os blogueiros de ciência (e os blogueiros de ciência tem algo a aprender com os jornalistas, por exemplo não confrontar e afastar seus leitores especialmente em temas delicados como Evolução). Dou como exemplo de ótimo jornalista científico o da FOLHA Reinaldo José Lopes, responsável pelo blog Darwin e Deus.

  1. Por que muitos pesquisadores não se interessam por essa atividade?

Muitos pesquisadores não leem livros e revistas de divulgação científica, e nem mesmo romances de ficção científica. Reclamam de falta de tempo, mas me parece ser mais uma característica pessoal (não leem livros de Literatura também, não são leitores). Daí não surge a aspiração para contribuir com essa atividade. Além disso, é muito mais fácil escrever um paper do que um artigo ou livro de divulgação científica, pois os mesmos têm que ter estilo agradável, despertar o interesse do leitor, usar uma linguagem especial, acessível e sem jargões. Isso não é fácil para o pesquisador típico.

  1. Segundo as últimas pesquisas, o youtube é a quarta mídia mais acessada pelos brasileiros. Qual o potencial dessa mídia social como você explicaria o aparecimento de um grande número de vlogs que abordam ciência e tecnologia como principal temática?

Sim, parece que está é a grande onda do momento. Aqui no Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria estamos organizando, em nossa página, um portal que redirecione para todos os vlogs de ciência em português que pudermos encontrar. Já temos um portal parecido, o Anel de Blogs Científicos, para os blogs em português.

  1. Como a divulgação de ciência e tecnologia poderia contribuir para a educação formal?

É uma leitura (ou no caso dos vídeos) mais agradável e instigante que as aulas formais. Acho que ajuda na motivação dos alunos e no despertar de vocações científicas. No caso dos alunos que não se dedicarão à ciência, acho que ajuda muito na criação de um background mínimo de cultura científica (idealmente com aquele papel de empoderamento que citei). Acho também que os vídeos e em especial os livros (que se aprofundam mais) deveriam ser aproveitados pelo menos pelos professores de ensino fundamental e médio. A maior parte dos professores não conhece, por exemplo, as revistas Scientific American Brasil e Revista Mente e Cérebro, e nunca leu um livro de divulgação científica. Recomendo que, se o problema é falta de tempo, assistam os ótimos documentários de divulgação científica da BBC, NATGEO e NOVA, que podem ser encontrados no YOUTUBE, assim como os novos Vlogs de ciências tais como o Nerdologia.

Novos livros de divulgação científica

download (2).jpg

A página de livros de divulgação científica no Anel de Blogs Científicos começou a ser atualizada por Allana Cogo, bolsista de Cultura e Extensão do LDCC. Veja os novos títulos aqui.

Já temos 178 livros em nossa lista. Se você quer recomendar um livro, coloque nos comentários dos posts de livros ali no ABC.

Para ver Blogs de ciência, clique aqui.

Em breve colocaremos Vlogs (Video-logs) de Ciência.

Por que você acredita que a Terra é uma esfera?

A fantasy map of a flat earth

They may have been disproved by science or dismissed as ridiculous, but some foolish beliefs endure. In theory they should wither away – but it’s not that simple

by Steven Poole

In January 2016, the rapper BoB took to Twitter to tell his fans that theEarth is really flat. “A lot of people are turned off by the phrase ‘flat earth’,” he acknowledged, “but there’s no way u can see all the evidence and not know … grow up.” At length the astrophysicist Neil deGrasse Tyson joined in the conversation, offering friendly corrections to BoB’s zany proofs of non-globism, and finishing with a sarcastic compliment: “Being five centuries regressed in your reasoning doesn’t mean we all can’t still like your music.”

Actually, it’s a lot more than five centuries regressed. Contrary to what we often hear, people didn’t think the Earth was flat right up until Columbus sailed to the Americas. In ancient Greece, the philosophers Pythagoras and Parmenides had already recognised that the Earth was spherical. Aristotle pointed out that you could see some stars in Egypt and Cyprus that were not visible at more northerly latitudes, and also that the Earth casts a curved shadow on the moon during a lunar eclipse. The Earth, he concluded with impeccable logic, must be round.

The flat-Earth view was dismissed as simply ridiculous – until very recently, with the resurgence of apparently serious flat-Earthism on the internet. An American named Mark Sargent, formerly a professional videogamer and software consultant, has had millions of views on YouTube for his Flat Earth Clues video series. (“You are living inside a giant enclosed system,” his website warns.) The Flat Earth Society is alive and well, with a thriving website. What is going on?

Read more [+]

The Good Fight Part 1: The Fine Art of Talking to People Who Are Wrong

"Alu finds a friend"Para ler com calma…

De VIOLENT METAPHORS

The good fight is that special argument where you know you’re right, and just can’t imagine how anyone could possibly disagree. But they do, even when the disagreement is about something fundamental and irreconcilable. Did we evolve? Is the climate changing? Are vaccines safe? Do I really have to pay my taxes? The answers matter, but so do the arguments. Let’s try to improve them. Read more [+]

Blog com livros de divulgação científica

Uma das coisas que minha bolsista (Bolsa de Cultura e Extensão)  Rafaela Beatriz da Silva fez ano passado foi implementar um blog contendo livros de divulgação científica no site do Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria (LDCC). Neste site também existe uma aba para o ABC (Anel de Blogs Científicos).

Temos até agora 130 livros mas dia a dia vão ser acrescentados mais. Cada livro vem com a capa, um sumario com link para uma página de livraria onde você poderá encontrá-lo, e os dados bibliográficos (tirados da página da livraria ou da Biblioteca Nacional).

Você pode fazer, no campo de search, buscas por autor ou palavras chaves. A simples rolagem para baixo também é um meio útil para sugerir livros de divulgação científica que talvez você não conheça.

Dê uma olhada, eu acho que realmente isso pode ser útil, pois não conheço nenhum blog dedicado exclusivamente a livros de divulgação científica. O endereço é aqui.

livro ciencia

E Se? Usando Ficção Científica e Fantasia para ensinar Física

The New York Times

E se?

Livro ensina física por meio do absurdo

KENNETH CHANG
DO “NEW YORK TIMES”

Cinco anos atrás, quando estava dando uma palestra sobre física a estudantes do Ensino Médio no Massachusetts Institute of Technology, Randall Munroe percebeu que a plateia não estava muito interessada.

Ele estava tentando explicar o que são energia potencial e potência -conceitos que não são complexos, mas difíceis de entender.

Assim, no meio da palestra de três horas, Munroe, mais conhecido por ser o criador da HQ on-line xkcd, resolveu apelar para “Star Wars”.

“Pensei na cena de ‘O Império Contra-ataca’ em que Yoda tira a asa-X do pântano”, comentou.

“A ideia me ocorreu quando eu estava dando a aula.”

No lugar de definições abstratas (um objeto erguido ganha energia potencial porque vai se acelerar quando cair; a potência é o índice de mudança na energia), Munroe fez uma pergunta: quanta energia da Força seria Yoda capaz de produzir?

“Fiz uma versão aproximada do cálculo ali mesmo, na sala de aula, procurando as dimensões da nave na internet e medindo as coisas na cena no projetor, diante dos alunos”, contou. “Todos começaram a prestar atenção.”

Para a maioria das pessoas, a física não é interessante por si só. “As ferramentas só são divertidas quando a coisa com a qual você as utiliza é interessante.”

Os alunos começaram a fazer outras perguntas. “E o final de ‘O Senhor dos Anéis’, quando o olho de Sauron explode, quanta energia há nisso?”

A experiência inspirou Munroe a começar a pedir perguntas semelhantes dos leitores do xkcd.

Ele reuniu esse trabalho, incluindo uma versão dos cálculos que fez sobre Yoda e outros materiais novos, no livro “E se?”, lançado em setembro e que desde então está na lista dos livros de não ficção mais vendidos.

Como afirma sua capa, “E se?” é repleto de “respostas científicas sérias a perguntas hipotéticas absurdas”.

“O livro exercita a imaginação do leitor, e o humor espirituoso de Munroe é encantador”, comentou William Sanford Nye, mais conhecido como “Billy Nye, the Science Guy”. “Ele cria cenários que, por falta de um termo melhor, precisamos descrever como absurdos, mas que são muito instrutivos.”

O que aconteceria se você tentasse rebater uma bola de beisebol lançada a 90% da velocidade da luz? “A resposta é ‘muitas coisas’, e todas acontecem muito rapidamente. Não termina bem para o batedor (nem para o lançador).”

Se todo o mundo mirasse a Lua ao mesmo tempo com um ponteiro de laser, a Lua mudaria de cor? “Não se usássemos ponteiros de laser normais.”

Por quanto tempo um submarino nuclear poderia permanecer em órbita? “O submarino ficaria ótimo, mas seus tripulantes teriam problemas.”

As explicações são acompanhadas pelos mesmos desenhos e o mesmo humor nerd que garantiram a popularidade do xkcd. (O que significa xkcd? “É simplesmente uma palavra para a qual não existe pronúncia fonética”, explica o site do seriado on-line.)

Na época em que era estudante de física na Universidade Christopher Newport, na Virginia, Munroe começou a trabalhar como técnico independente em um projeto de robótica no Centro Langley de Pesquisas, da Nasa, e continuou depois de se formar.

Foi nessa época que ele começou a scanear seus desenhos rabiscados e colocá-los na web.

O contrato com a Nasa terminou em 2006, por decisão mútua das duas partes.

Munroe tornou-se cartunista em tempo integral e se mudou para a região de Boston porque, explicou, queria viver numa cidade maior, com mais coisas de geek para fazer. Em 2012 ele incluiu a parte de “E se?” no site.

Hoje ele recebe milhares de perguntas por semana. Muitas são evidentemente de estudantes à procura de ajuda com sua lição de casa. Outras podem ser respondidas com uma só palavra: “Não”.

“Uma das perguntas que recebi foi: ‘Existe algum equipamento comercial de mergulho que permita a sobrevivência debaixo de lava incandescente?'”, Munroe contou. “Não. Não existe.”

Munroe também gostava de fazer perguntas quando era criança. Na introdução do livro, ele conta que se perguntava se havia mais coisas duras ou moles no mundo. Essa conversa causou impressão tão forte à sua mãe que ela a anotou e guardou.

“Dizem que não existem perguntas estúpidas”, escreve Munroe, 30. “Isso não é verdade, obviamente. Acho que minha pergunta sobre as coisas duras e moles foi bastante estúpida. Mas tentar responder uma pergunta estúpida de modo completo pode levar você a alguns lugares muito interessantes.”