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Cientificismo

Seis Sinais de Cientificismo – Introdução

Autora: Susan Haack*

Tradução de Eli Vieira, para as atividades de mídia da Liga Humanista Secular do Brasil.

Peter Paul Rubens – A queda de Ícaro (1636)

Um homem deve ser definitivamente maluco para negar que a ciência fez muitas descobertas verdadeiras.  – C. S. Peirce (1903)

O cientificismo… emprega o prestígio da ciência para o disfarce e a proteção. – A. H. Hobbs (1953)

A ciência é uma coisa boa. Como Francis Bacon previu séculos atrás, quando o que agora chamamos de “ciência moderna” estava em sua infância, o trabalho das ciências trouxe tanto luz, um corpo de conhecimento em permanente crescimento sobre o mundo e como ele funciona, quanto frutos, a capacidade de predizer e controlar o mundo de formas que tanto estenderam quanto melhoraram nossas vidas. Mas, como William Harvey reclamou, Bacon realmente escreveu sobre ciência “como um Lorde Chanceler” – ou, como poderíamos dizer hoje, “como um publicitário”, ou “como um marqueteiro”. Certamente ele parece ter sido muito mais ciente das virtudes da ciência do que de suas limitações e perigos em potencial.

Mas a ciência não é de modo algum algo perfeitamente bom. Ao contrário, como todos os empreendimentos humanos, a ciência é inexoravelmente falível e imperfeita. No máximo, seu progresso é irregular, desproporcional e imprevisível; além disso, muitos trabalhos científicos são pouco criativos ou banais, alguns são fracos ou sem cuidado, e alguns são completamente corruptos; e as descobertas científicas muitas vezes têm potencial para ferir tanto quanto para fazer o bem – pois conhecimento é poder, como viu Bacon, e o poder é passível de abuso. E, obviamente, a ciência não é de modo algum a única coisa boa, nem mesmo – apenas um pouco menos obviamente – a única forma boa de investigação. Há muitos outros tipos valiosos de atividade humana além da investigação – música, dança, arte, contar histórias, culinária, jardinagem, arquitetura, para mencionar algumas; e muitos outros tipos valiosos de investigação – histórica, legal, literária, filosófica etc.

Como indiquei ao dar o subtítulo de Defending Science – Within Reason: Between Scientism and Cynicism [“Defendendo a Ciência – No domínio da Razão: Entre o Cientificismo e o Cinismo”, em tradução livre], precisamos evitar tanto subestimar o valor da ciência, quanto superestimá-lo. O que quis dizer com “cinismo” nesse contexto foi um tipo de atitude invejosa e acriticamente crítica para com a ciência, uma incapacidade de ver ou uma falta de vontade de perceber seus notáveis feitos intelectuais, ou de reconhecer os benefícios reais que ela tornou possíveis. O que quis dizer com “cientificismo” é a falha oposta: um tipo de atitude excessivamente entusiástica e acriticamente reverente para com a ciência, uma incapacidade de ver ou falta de vontade de perceber sua falibilidade, suas limitações e seus potenciais perigos. Um lado descarta a ciência de forma demasiado apressada; o outro muito apressadamente a reverencia. Minha preocupação aqui é, é claro, com esse último erro.

É bom notar que a palavra “cientificismo”** não foi sempre pejorativa, como é agora. Por volta da metade do século XIX – não muito depois do uso mais antigo e mais generalizado da palavra “ciência”, que podia se referir a qualquer corpo sistematizado de conhecimento, qualquer que fosse seu objeto de estudo, tivesse dado lugar ao uso moderno e mais restrito, que se refere à física, química, biologia etc., mas não a jurisprudência, história, teologia, etc. – o termo “cientificismo” era neutro: significava, simplesmente, “o hábito e modo de expressão de um homem da ciência”. Mas por volta das primeiras décadas do século XX “cientificismo” começou a ganhar um tom negativo – inicialmente, parece, primariamente em resposta às ideias excessivamente ambiciosas sobre quão profundamente nossa compreensão do comportamento humano seria transformada se ao menos aplicássemos os métodos que se provaram tão bem-sucedidos nas ciências físicas. E por volta da metade do século XX, o cientificismo passou a ser visto como um “preconceito”, uma “superstição”, uma “aberração” da ciência. Hoje em dia esse tom negativo é predominante; na verdade, as conotações pejorativas do “cientificismo” estão agora tão profundamente entranhadas que os defensores da autonomia da ética, ou da legitimidade do conhecimento religioso etc.; às vezes pensam que, em vez de se engajarem de fato em refutar os argumentos de seus críticos, seja suficiente descartá-los com uma palavra: “cientificistas”.

Então, como o termo “cientificismo” é usado atualmente, e como eu o usarei, é uma verdade verbal trivial que o cientificismo deveria ser evitado. É, entretanto, uma questão substancial [saber] exatamente o que deve ser evitado – quando, e por que, a deferência às ciências é apropriada e quando, e por que, é inapropriada ou exagerada. Meu principal propósito aqui é sugerir alguns modos de reconhecer quando esta linha foi cruzada, quando o respeito pelas façanhas das ciências se transmutou no tipo de deferência exagerada característica do cientificismo. Esses são os “seis sinais de cientificismo” aos quais meu título faz alusão.

Breve e grosseiramente resumidos, eles são:

  1. Usar as palavras “ciência”, “científico”, “cientificamente”, “cientista” etc. honorificamente, como termos genéricos de elogio epistêmico.
  2. Adotar os maneirismos, os ardis, a terminologia técnica etc. das ciências, independente de sua real utilidade.
  3. Uma preocupação com a demarcação, isto é, com desenhar uma linha  nítida entre ciência genuína, a coisa real, e impostores “pseudocientíficos”.
  4. Uma preocupação correspondente com a identificação do “método científico”, que se presume explicar como as ciências foram tão bem-sucedidas.
  5. Procurar nas ciências por respostas a perguntas que estão além de seu escopo.
  6. Negar ou denegrir a legitimidade ou o valor de outros tipos de investigação além da científica, ou o valor de atividades humanas outras além da investigação, como a poesia e a arte.

Tomarei esses seis sinais um a um – sempre tentando, entretanto, manter suas inter-relações em vista, para sinalizar as ideias equivocadas sobre as ciências das quais eles dependem, e para guiar pela frequentemente muito tênue linha entre repudiar francamente o cientificismo e sub-repticiamente repudiar a ciência. E então – tomando a oportunidade fornecida pelo último desses sinais de cientificismo – comentarei brevemente sobre algumas das tensões entre a cultura científica contemporânea e tradições mais antigas que, em grande parte do mundo, ela hoje substituiu ao menos parcialmente.


* As exposições alongadas de Susan Haack para cada um dos seis sinais de cientificismo serão postadas periodicamente aqui no Bule Voador, idealmente às segundas-feiras. Ao final, lançaremos a tradução completa em formato PDF.

** N. do T.: um sinônimo de cientificismo é “cientismo”, que pode ser encontrado em outros textos em português. Enquanto “cientismo” é mais próximo do termo original em inglês, “scientism”, preferi “cientificismo” por corresponder melhor ao adjetivo “cientificista” e se afastar do termo “cientista”.

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