Home // Cultura // Comentários como Peer Review

Comentários como Peer Review

Uma das coisas que nos debatemos na blogosfera científica é sobre como validar o conhecimento (ou as opiniões) expresso nos blogs científicos. Afinal, não basta se auto-intitular científico para que isso seja verdade, e blog, como papel, aceita tudo.

Vários mecanismos têm sido propostos: o aval de condomínios e portais como o Science Blogs Brasil, o Anel de Blogs Científicos e o HAAAN, o Research Blogging, os prêmios de popularidade (Top Blogs) e votados por pares (Prêmio ABC), a reputação obtida pelo blogueiro ao longo do tempo.

Entretanto, talvez tenhamos esquecido uma fonte de autoridade singular aos blogs: a janela de comentários. Basta que entendamos os comentários como indissociáveis dos posts, como um peer review (anônimo ou não). Isso é especialmente válido no caso dos blogs de ciência dado que a maior parte dos comentaristas são outros blogueiros de ciência ou pares.

Por exemplo, considere o post anterior. Ele foi amplamente criticado pelo Karl do Ecce Medicus (eu não sei se isso seria um review anônimo dado que Karl é um pseudônimo). Mas o importante é que, se eu falo besteira, sempre aparece alguém para contestar (revisar).

É claro que o autor do post tem direito à réplica, e isso pode dar lugar a uma replica do revisor (comentarista) e uma tréplica etc, até onde o nosso nível de teimosia trollística levar.

Eu me orgulho de que, desde a fundação do SEMCIÊNCIA em maio de 2006, eu nunca precisei bloquear nenhum comentário, apenas os spans. Parece que meus leitores são muito respeitosos.

Existe porém uma diferença no processo: no caso de peer review, como o parecer do revisor pode ser decisivo para a aceitação do paper, a tendência é você ser bastante cuidadoso e respeitoso na hora da réplica. OK, eu sei que às vezes ocorrem brigas homéricas nas revisões, eu sei que os revisores podem ser estúpidos e os autores podem ser irônicos, dizer “acredito que o revisor não entendeu (leu) o paper” e daí para cima.

Bom, a comparação com o peer review pode ser interessante para fornecer uma ética prática para os comentários e as réplicas. O comentarista, como revisor, deve tecer suas considerações com argumentação lógica e bem fundada, em vez de explosões emocionais. Por outro lado, a réplica deveria ser respeitosa também, evitando a ironia e o desprezo pelo leitor-parecerista.

Eu não sei se respeito sempre essas regras. Eu gosto de questionar incisivamente falhas de argumentação e falácias dos posts dos meus amigos blogueiros. Eles ficam chateados comigo por que pensam que é algo pessoal (claro que não é!) e esquecem que eu apenas estou agindo como parecerista e revisor, como se fosse numa revista científica.

Por outro lado, talvez eu devesse ser mais gentil com meus comentaristas em vez de ficar fazendo o parecer do parecer deles. Acho que isso é uma falha minha.

Promessa de final de ano: tratar os comentaristas como eu gostaria de ser tratado (a regra de ouro dos blogs!) e respeitosamente fazer a réplica como se eles fossem revisores das revistas onde publico (sim, eles são o equivalente a isso!).

PS: A resposta ao Karl deveria ser mais suave e gentil do que foi, mas acho que fiz isso por que a discussão é opinativa, não envolve fatos mais objetivos. Por outro lado, tive que dar o braço a torcer no puxão de orelha que a Baleia Literal me fêz, ao relembrar que a ficção imaginária, mesmo se recheada de chavões new age, tem dimensões educativas e filosóficas. Eu devia saber disso, afinal eu sempre achei burrice alguns amigos meus não gostarem de histórias bíblicas, de literatura de fantasia e de ficção científica por serem “ficções imaginárias sem correspondente na realidade”. Que pobreza mental!

Posted in Cultura and tagged as , , ,

1 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.