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Metáforas Cognitivas no Discurso Jornalístico

A nova versão do artigo Metáforas Científicas no Discurso Jornalístico já está no prelo da Revista Brasileira de Ensino de Física. Espero que esteja publicado antes do final do ano.

Você pode fazer um exercício para entender como as metáforas linguísticas (“a máquina econômica” etc.) revelam a presença de metáforas cognitivas (“a Economia é um tipo de máquina”). Para tanto, basta examinar um texto jornalístico ao acaso e grifar, com aquelas canetas coloridas, as metáforas linguísticas presentes.

Restringindo às metáforas científicas (ou seja, não dando atenção às onipresentes metáforas futebolísticas, esportivas ou guerreiras), eu sugiro usar as cores violeta para metáforas matemáticas, azul para metáforas físicas, verde para metáforas biológicas, amarelo para metáforas sociológicas e vermelho para outras metáforas coloquiais, não científicas.. Você vai ficar espantado ao verificar como o texto escolhido, se for relativamente grande, ficará pintado em diversas cores metafóricas.

Isso se dá porque as pessoas tanto pensam metaforicamente como se expressam usando metáforas, e estas são facilmente compreensíveis pelos leitores ou receptores. Em um nível mais profundo, Lakoff e Johnson afirmam que o próprio pensamento humano, a própria cognição, se baseia em metáforas fundamentais.

Como um exemplo, reproduzo aqui um trecho da entrevista de Armínio Fraga na Folha de São Paulo, publicado hoje:

O senhor poderia detalhar as desconfianças? Está se referindo à partilha dos royalties?

A tudo. A Petrobras está exposta desde a pressões ligadas a conjuntura, inflação, até política industrial do governo e do próprio modelo de royalties.

No setor elétrico, a presença do governo era imprescindível, inevitável nos projetos maiores, nas hidrelétricas, mas mais recentemente essa questão da revisão das concessões e das tarifas gerou um impacto negativo, não necessariamente pelo resultado final, mas pela falta de discussão.

No setor ferroviário, o governo apresentou em que o risco ficará em grande parte nas mãos do próprio governo. Ou totalmente. E isso é perigoso. É bom colocar o risco no setor privado. É um incentivo positivo para que as coisas sejam bem feitas, o capital seja bem alocado, não haja desperdício.

No próprio setor financeiro. É muito interessante a postura do governo de colocar os bancos federais na ponta de lança de redução dos spreads. É um experimento que tem que ser acompanhado.

É um experimento? Não tem precedente?

Que eu saiba, não tem. Até discutimos isso na minha época de governo, mas naquele momento fazíamos uma megarreforma de governança, procedimentos dos bancos, aumentando segurança, transparência, alçadas etc., e não queríamos misturar as bolas, chegar ao mesmo tempo e dizer “Vai atrás de uma fatia maior de mercado”. Tínhamos naquele momento que delegar para poder cobrar, e não o fizemos a pressão. Mas chegamos internamente a discutir o tema.

O setor financeiro, portanto, é mais um aspecto e com certeza existem outros.

Então isso chama a atenção. Até onde o governo realmente quer ir.

É preocupante?

Não vejo com muita preocupação, porque vem misturado com certo pragmatismo e uma cobrança muito grande de resultados a partir da própria presidente Dilma, e ela terá que ir revisando os procedimentos todos.

É fundamental que isso continue a fazer parte de um debate nacional. O governo tem que estimular isso, porque são mecanismos de agregar inteligência ao processo.
Mas de fato existe esse viés hoje. O governo foi eleito com essa plataforma e está fazendo o que disse que faria.

Esse aspecto pragmático da presidente dosa um pouco a insegurança?

É preciso discutir isso com muito cuidado, porque não vejo nenhum sinal de que, uma vez definidas as regras, elas mudem para quem já contratou. Isso, sim, seria grave. Mas, se o governo quer mudar as regras antes, tem todo o direito, desde que faça como tem feito, ou seja, respeitando contratos já existentes.

Não compartilho tanto dessa crítica, acho um pouco forte demais.

Houve críticas também de que, no modelo de concessões, o governo estava oferecendo uma remuneração de capital muito baixa.

Exatamente. Esse é um ponto muito, muito importante. O governo sempre tenta fazer tudo ao menor custo possível, e tenta forçar a concorrência no setor privado. Mas é preciso que isso seja muito bem desenhado.

Primeiro existe o risco de se afastar investidores. Um pouco desse risco é preciso correr sempre, é papel do governo cuidar das contas públicas.

Mas existe também um outro risco, de mudanças de comportamento, em que as concorrências são feitas e depois as obras não são como se esperava, há alterações, revisões e até perda de qualidade. É um desafio monitorar isso. Muito difícil.

Se algum dia o Brasil tiver um governo liberal… hoje não existe nem liberalismo aqui… até um governo liberal vai ter esse problema, porque mesmo um governo mais liberal terá que administrar um Estado de tamanho relevante no Brasil.

Como você classifica politicamente o governo hoje no Brasil?

Pouco liberal (risos)… Ou nada liberal… Não, nada liberal é exagero.

É um governo de esquerda, que está testando seus limites.

Eu acreditava, na época, que o governo Fernando Henrique tinha chegado próximo ao que, na minha leitura são limites razoáveis: um governo muito presente, com um papel importante, senão de produção, de regulação e fiscalização, que focou os escassos recursos públicos em educação, saúde e algumas outras áreas, e tomou a decisão estratégica de sair da produção em uma série de setores que foram privatizados.

Esse foi um movimento liberal.

Esse foi o movimento liberal de um governo de esquerda. Continua a ser de esquerda, progressista, não abre mão de ter um impacto relevante sobre distribuição de renda, pobreza, ter uma rede de proteção social, de regulação adequado e assim por diante.

Achava que esse era um limite razoável. Hoje estão testando um pouco esse limite, correndo o risco de fazer bobagem.

Está havendo mais presença do governo na produção ou no cerceamento?

Em ambos, mas menos ênfase na regulação, que, por definição tem a ver com a produção privada, e mais ênfase na participação direta, seja como produtor –Petrobras é um bom exemplo– seja como regulador.

Mas esse pêndulo vai e volta e tem a ver como que acontece no mundo.

Por exemplo, na área financeira, nunca caímos nessa armadilha de ir para um modelo hiperliberal, e acho que fizemos bem e tem sido bom.

Mas o fato é que essa crise financeira toda, começando nos Estados Unidos e depois na Europa trouxe um grau de descrença com relação a uma linha mais liberal. Que também nunca foi a nossa aqui no Brasil, vale registrar. Mas, no mundo, o pêndulo hoje está numa linha de mais regulação, mais governo, e o Brasil está indo nessa linha também. Isso volta.

A beleza de se ter um sistema aberto, onde as coisas são discutidas, monitoradas, mensuradas, é que com o tempo vão-se corrigindo os exageros.

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