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O Tea Party Brasileiro

Do BLOG DO ROVAI (Update devido ao Karl: Renato Rovai é editor da revista Fórum outro mundo em debate.):

A estudante de Direito Mayara Petruso atendendo ao chamado da campanha tucana que transformou a campanha numa guerra entre gente limpinha e a massa fedida, principalmente a que reside no Nordeste e vive do Bolsa Família, escreveu as mensagens reproduzidas acima na noite de domingo, logo após o anúncio da vitória de Dilma Roussef.

A estudante é uma típica paulistana de classe média alta. Um tipo que não gosta de estudar, adora consumir e que considera nordestino um ser inferior. Nada mais comum em almoços de domingo nos ambientes dessa elite branca paulistana do que ouvir gente falando coisas semelhantes ao que escreveu Mayara Petruso na sua conta no tuiter. Na cabeça da menina, ela não deve ter falado nada demais. Afinal, é isso que deve ouvir desde criança entre familiares e amigos.

Fui ao orkut de Mayara para checar minhas desconfianças. E confirmei tudo que imaginava. Ela deve morar na região Oeste de São Paulo, onde vive este blogueiro há muito tempo e onde este preconceito é ainda mais latente do que em outras bandas da cidade. Digo isto porque uma de suas comunidades é a do “Parque Villa Lobos”. Se morasse na Mooca provavelmente nem se lembraria de tal parque. Se vivesse nos Jardins, citaria o do Ibirapuera.

Mas há outras comunidades que revelam mais profundamente a alma da “artista” que escreveu o post mais famoso do pós-campanha. Um post que levou o debate sobre a questão do preconceito ao Nordeste ao TT mundial no tuiter.

A elas: “Perfume Hugo Boss, Eu acho sexy homens de terno, Rede Globo, CQC, MTV, Magoar te dá Tesão? e FMU Oficial”.

Não vou comentar suas comunidades “Eu acho sexy homens de terno” e nem “Magoar te dá tesão?” por considerar tais opções muito particulares. Mas em relação ao fato da moça estudar na FMU, a Faculdade Metropolitanas Unidas, queria fazer algumas considerações. Nada contra a instituição ou aos que nela estudam, mas pela situação social da garota, ela deve ter estudado em escola particular a vida inteira e se fosse um pouco mais esforçada teria entrado numa faculdade onde a relação candidato/vaga é um pouco mais dura.

Ou seja, como boa parte dessa classe média alta paulistana, Mayara é arrogante, mas não se garante. Muita garota da periferia, sem as mesmas condições econômicas que ela deve ter conseguido vôos mais altos, deve já ter obtido mais conquistas do que a de poder consumir o que bem entende por conta da boa situação financeira da família.

Ontem, Mayara pediu desculpas pelo “erro”. Disse que afinal de contas “errar é humano” e que “era algo pra atingir outro foco” e que “não tem problema com essas pessoas”. Não desceu do salto alto nem pra se penitenciar. Preferiu fazer de conta que era uma coisa menor, ao invés de pedir perdão, afirmar que era um erro injustificável e que entendia toda a revolta que seu post produzira.

“MINHAS SINCERAS DESCULPAS AO POST COLOCADO NO AR, O QUE ERA ALGO PRA ATINGIR OUTRO FOCO, ACABOU SAINDO FORA DE CONTROLE. NÃO TENHO PROBLEMAS COM ESSAS PESSOAS, PELO CONTRARIO, ERRAR É HUMANO, DESCULPA MAIS UMA VEZ.”

Ela foi criada para isso. Para dispensar esse tipo de tratamento a nordestinos e pobres e por isso a dificuldade de ser mais humilde. É difícil para esse grupo social entender que preconceito é crime por ensejar um tipo de xenofobia que coloca quem o pratica no mesmo patamar de um tipo como Hitler. Ela odeia nordestinos. Ele odiava judeus. A diferença é que ela não pode afogar de fato aqueles que vivem na parte de cima do mapa. Já o alemão pôde fazer o que bem entendia com aqueles que julgava ser um estorvo na sociedade que governava.

Mas Mayara é o produto de um tipo de discurso. Ela não merece ser responsabilizada sozinha por isso. Talvez seja o caso de alguma entidade vinculada à cultura nordestina mover um processo contra a estudante. Menos pra tirar dinheiro ou coisa do gênero, mais para utilizar o caso como exemplo. E fazer com que ela atue em espaços vinculados à cultura da região para aprender a ter mais respeito com a história e com o povo dessa parte do Brasil.

Os verdadeiros culpados são outros. São aqueles que com seus discursos preconceituosos têm alimentado esse separatismo brasileiro. E em boa medida isso se dá pela nossa “linda e bela” mídia comercial e mesmo pela manifestação de um certo setor da política que sempre que pode busca justificar a vitória da aliança liderada pelo PT como produto do “dinheiro dado a essa gente ignara e preguiçosa que vive no Nordeste a partir do Bolsa Família”. Ou Bolsa 171, nas palavras de Mayara.

Mas esse comportamente também é produto de um tipo de preconceito velhaco que nunca foi combatido de forma educativa e que é alimentado diariamente nos ambientes familiares dessa elite branca. Cláudio Lembo sabia do que estava falando quando usou essa expressão. Ou começamos a discutir esse preconceito com seriedade, tentando combatê-lo com leis claras, educação e cultura ou corremos o risco de mesmo avançando em aspectos econômicos, retroceder do ponto de vista de outras conquistas democráticas.

Afinal, ainda há quem ache que pregar a morte daqueles que pensam diferente é apenas um problema de foco.

Atualizando: A Juliana Freitas me envia um vídeo feito por ela que demonstra como Mayara é muitos. É um vídeo triste, mas merece ser visto.

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11 Comments

  • “Nada mais comum em almoços de domingo nos ambientes dessa elite branca paulistana do que ouvir gente falando coisas semelhantes ao que escreveu Mayara Petruso na sua conta no tuiter.”

    “Ou seja, como boa parte dessa classe média alta paulistana, Mayara é arrogante, mas não se garante.”

    Osame, de forma alguma defenderei o que essa menina mal esclarecida fez na internet, assim como não posso defender o que você escreve aqui. As duas frases acima devem ser revistas sob a pena de um “racismo às avessas” o que toda discussão polarizada como às que trazem questões sobre o racismo, acabam por despertar. Suas conclusões são contudentes e concordo com elas. Divirjo nos meios da argumentação, não nos fins.

    PS. Godwin à parte (http://en.wikipedia.org/wiki/Godwin%27s_law), Hitler era austríaco (http://en.wikipedia.org/wiki/Adolph_Hitler).

    • Karl,

      O texto não é meu, mas do jornalista Rovai da Forum. Acho que você deveria reclamar com ele, risos.

      Mas as frases que você cita não são exemplo de “racismo às avessas”. Talvez o autor devesse trocar o elite branca paulistana por elite paulistana, embora eu não sei se a elite negra paulistana (isso existe?) também seja anti-nordestina.

      O adjetivo “paulistana” seria xenofóbico sim, afinal deve ter uns 10% da elite paulistana que não seja racista, aristocrática e anti-nordestina (espero!). Seria o caso de fazer uma pesquisa estatística. Na sua opiniao, em termos estatísticos, você acha que deve ser mais de 10%?

      Além disso, a elite nordestina é mais racista e aristocrática que a elite paulistana. Muitos dos tuites devem ter vindo dessa elite nordestina.

      Ou seja, o problema são nossas elites e principalmente os jovens de nossas elites. Não são elites intelectuais. São novos ricos com a cabecinha dessa menina.

      Agora, o único meio efetivo contra o racismo, a discriminação por classe social e a xenofobia não é apenas a lei, mas submeter esses filhinhos(as) de papai à pressao social, a rejeição social, a reprovação social, o ridiculo social. Só assim aprendem, dado que não aprenderam em casa (na verdade, provavelmente refletem a educação racista recebida em casa). O post pretende contribuir para isso. Mas eu aposto um kit de cervejas Colorado que essa menina não vai sofrer condenação na justiça, e vai virar a martir dos bad boys e bad girls da elite brasileira (nordestina ou não, branca ou não). Você topa a aposta?

  • O artigo da Godwin law na Wikipedia diz que em algumas circunstancias a comparação com Hitler é válida e não se deve aplicar a censura da Godwin Law. Por exemplo, em termos de ciencias politicas, seria verdade que a posição da menina é de extrema direita? É invalido relembrar Hitler quando se critica a extrema direita? Não tenho certeza.
    Acho que a Godwin law deveria ser aplicada quando os Serristas fizeram comparação entre Lula e Hitler. Neste caso a comparação é, em termos de ciências políticas, extremamente forçada. Acho que Lula é bem menos autoritário do que Vargas (e tão popular quanto Vargas na época) e, embora Vargas fosse um ditador, acho que o Integralismo Brasileiro de Plinio Salgado seria mais próximo de Hitler.

  • Desculpe tomar por seus, os escritos de tal jornalista. Não. Não irei reclamar com ele porque não vejo nele possibilidades de discussão e nem teria escrito se não fosse esse meu estranhamento pela agressividade de um texto seu e a possibilidade de um malentendido meu.

    Porém, se mal não o entendi, acho que vc compartilha de algumas das opiniões dele, caso contrário, não as teria sequer postado, certo?

    “O adjetivo “paulistana” seria xenofóbico sim, afinal deve ter uns 10% da elite paulistana que não seja racista, aristocrática e anti-nordestina (espero!).”

    Osame, eu sou um anti-essencialista de carteirinha. Isso significa que não acredito em essências, seja de ideias, seja do “ser”, seja de um país ou povo. Não acredito na “Natureza” como forma divinizada (e frequentemente substituta da divindade e da verdade) como o fazem cientistas, padres e beatos de plantão.

    Todas as vezes que alguém tentou dar uma cara a São Paulo, falou bobagem. Há um artigo na Carta Capital (especial da eleição) exatamente sobre isso. Qual é a cara de São Paulo? Definir uma cara para São Paulo é o mesmo pedir para uma criança redesenhar um quadro de Picasso e dizer que a essência da cidade é isso.

    Há hipócritas. Há racistas da pior qualidade. Há bandidos. Sem dúvida! Entretanto, trocar acusações e rótulos só leva a polarização. Achar que “o único meio efetivo contra o racismo, a discriminação por classe social e a xenofobia não é apenas a lei, mas submeter esses filhinhos(as) de papai à pressão social, a rejeição social, a reprovação social, o ridiculo social “ é jogar fogo contra fogo. A tal da eterna guerra em busca da paz. Olho por olho. É, principal e fundamentalmente, desacreditar do papel libertador da educação.

    Desculpe, novamente. Mas eu tenho outro tipo de sonho.

  • Karl, eu ainda não entendi onde fui essencialista. Eu sou estatístico, probabilista, e portanto nao essencialista.

    Se digo que pode-se comprovar estatisticamente (usando-se uma amostragem aleatoria) que as pessoas que se auto-identificam como elite paulistana (eu diria paulista, e melhor ainda, apenas elite, pois de novo afirmo que a elite nordestina é, estatisticamente e não essencialisticamente falando, mais racista) apresentam 90% opinioes racistas se o questionario for anonimo, não entendo o essencialismo disso.

    Agora, se você discorda (por exemplo, se você acha que 50% dessa elite passaria no teste como não racista), então podemos apostar e procurar algum estudo estatistico sobre o mesmo.

    Eu concordo que a repressão, o fato de fazer leis contra o racismo, pode aumentar o mesmo (afinal, o que é proibido atrai como transgressao). Mas o mesmo poderia ser dito contra a lei Maria da Penha (que talvez aumente o machismo), contra a lei contra Pedofilia (que deiza a Pedofilia mais atraente) etc.

    Mas lei é para isso mesmo. Ninguem faz uma lei proibindo pessoas de martelarem sua própria cabeça. As leis são feitas para coibir os comportamentos que, numa dada altura da sociedade, são tidos como inaceitaveis.

    Ou seja, talvez as leis contra racismo e homofobia seja tidas hoje como repressoras e reinforçadoras das proprias atitudes que combatem. Mas talvez, depois que esta geração morrer, a nova geração nem note a presença dessas leis, elas se tornarão senso comum.

    Lembra quando implantaram o cinto de segurança via multas e leis? Minha geração se sentiu reprimida e ultrajada com isso, mas hoje ninguem reclama…

    A estratégia de repressao social, condenação social, é recomendada pelos novos estudos computacionais de emergencia da cooperação entre agentes egoistas. A coisa funciona mesmo sem leis patrocinadas por organismos centrais. É um resultado da Fisica Estatistica aplicada a Sociologia (Sociologia Computacional ou SocioPhysics). Posso te passar uns papers se estiver interessado!

  • Osame,

    Você, como excelente cientista que é, confunde seu *método* – e os modelos criados a partir dele – com a *verdade*. É simples. A linguagem é nosso medium e nos será sempre um obstáculo incontornável à verdade. Por isso, devemos usá-la para nos entendermos e não reprimir uns aos outros. “O Homem (thnetoshttp://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2009/11/homens.php) está no centro de tudo, não a Verdade” é uma máxima das ciências do espírito.

    “A estratégia de repressão social, condenação social, é recomendada pelos novos estudos computacionais de emergência da cooperação entre agentes egoistas.”

    Nesses estudos computacionais foi testada a hipótese de que se pudesse desenvolver uma razão prática (ética, moral, medo, julgamento clínico, etc) como alternativa nos tais “agentes egoístas”? Se sim, por favor, gostaria de ver a referência.

    Eu tendo a achar que a repressão só funciona onde a educação, no sentido primordial de paideia ou pensamento crítico, falhou. É por isso que ainda dou aulas: formar.

    É, Osame, eu sou um romântico. Obrigado pela paciência oriental.

    • Prezado Karl,

      Eu acho que repressão e educação não são excludentes. Você acha que as pessoas iam adotar o cinto de segurança ou parar de dirigir bebado apenas usando campanhas educativas, sem multas?

      Talvez você não goste do nome “repressão”. Então, podemos chamar de “educação cidadã monitorada”.

      Por outro lado, em lembro da ideologia romântica da década de 60 de que “educação” era apenas um nome eufemistico para “internalização da repressão social”. Um nome bastante feio…

      Eu acho que a soma de educação cidadã monitorada mais internalização da repressão social é mais eficiente que qualquer uma das duas isoladas…

      Você não é romântico, pois defende essa internalização da repressão social (educação). O bom selvagem não precisa ser educado, ele é puro e bom, naturalmente não egoísta.

      Não me lembro direito, mas acho que foi Arendt que disse que “educar é reprimir o pequeno facista que habita cada criança”… E olha que ela é uma humanista. A moça do twitter é uma pequena facista que não foi educada pelos pais e portanto sofreu condenação social.

      Você deu uma boa ideia para as simulações de agentes em sociophysics. Incorporar uma razão prática. Vou sugerir aos meus amigos que pensem nisso!

  • Caro Osame,

    Essa disseminação de preconceito via twitter é triste. Mas o preconceito a gente conhece e luta constantemente para vencer – via educação e diálogo (e não me oponho à repressão dentro da lei, por quem tem essa atribuição).

    O que mais me surpreendeu foi a inversão da seta: um jornalista (que suponho) adulto pereniza em vídeo essas manifestações deploráveis feitas num meio perigoso porque rápido e relativamente novo, em grande parte por _crianças_ (como se pode perceber pelas fotos) e piora o quadro com generalizações como “essa elite branca paulistana”, numa clara incitação ao ódio e ao preconceito, apenas que mudando o foco.

    Isso me pareceu uma evidente covardia do autor do vídeo (que não é o tal jornalista, mas ele o divulgou). O fenômeno é relevante e merece receber atenção, mas faltou ética. O mesmíssimo vídeo preservaria a informação e manteria a mesma possibilidade de discutir o problema se omitisse ou borrasse as fotos e nomes das crianças, se o objetivo não fosse atacar a “elite branca paulistana”.

    Mas estamos cercados de insensatez e o maniqueísmo é só um aspecto dela. Li ontem e decidi inicialmente não me manifestar, mas hoje achei por bem – teu blog é lido por muita gente e acho que faltou mostrar – “vejam, o jornalista não é melhor do que os infantes preconceituosos”. Espero não virar alvo.

    • Vinicius,

      Acho que entendo o que você e o Karl estão querendo dizer.
      Eu frequentei a elite Ribeirão Pretana um tempo, e não acho que o diagnóstico do jornalista (de que o twitter da moçada é um reflexo do pensamento dos pais deles) seja exagerado. Mas talvez a elite de Floripa seja diferente.
      PS: Lembro do Marcelo Tragtenberg comentando que estava difícil tornar o dia de Zumbi feriado em Floripa dado que Domingos Jorge Velho é um herói local, com praça e estátua. Quem fim levou isso?

      • Eu não sabia que há uma iniciativa para fazer feriado de Zumbi, mas os manezinhos que lerem teu comentário não conterão o riso em “talvez a elite de Floripa seja diferente”. Os problemas por aqui incluem o estupro de uma garota pelos filhos (todos na faixa de 13 anos) de um delegado e do virtual dono da mídia catarinense, tudo devidamente acobertado*. Veja que os paulista(no)s que hostilizam nordestinos ficam parecendo estudantes de catecismo frente a esse crime, mas não me animo a debitá-lo à “elite branca desterrense” nem ao dono da mídia catarinense, por mais que a existência de um dono da mídia seja barbárie em si. “Two wrongs don’t make a right”.

        * Hoje em dia já não se faz acobertamento como antigamente. Há alguns poucos registros on-line (nem sempre isentos): http://www.google.com.br/search?q=estupro+sirotsky

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