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Religião é política? E a ciência é ateia?

Texto obtido no Facebook do Eli Vieira:

Religião é política? E a ciência é ateia?

por Erick Fishuk, segunda, 19 de setembro de 2011 às 14:08

Duas perguntas essenciais devem ser respondidas pelos movimentos ateus, céticos e laicos no desenrolar de suas lutas se eles quiserem ir para frente e adquirir consistência visual, teórica e combativa. A primeira é se as religiões instituídas são uma forma de fazer política, ou, mais ainda, se elas mesmas são uma espécie de braço espiritual dos Estados modernos para que estes façam valer seus discursos morais e cívicos. A segunda é se a ciência, tomada como instrumento de análise e transformação racional e padronizada da realidade, deve definitivamente se assumir como partidária do ateísmo e, portanto, combater as religiões de modo militante, em concomitância com sua atividade profissional e objetiva obrigatória.

 

Não pretendo aqui esgotar a questão, que deve ser resolvida por todos aqueles racionalistas e fiéis que batalham pela não interferência de interesses privados nas esferas coletivas. Ainda assim, desejo dar minha contribuição, mesmo parcial e incompleta. Penso que, de acordo com um conceito mais amplo sobre o que é fazer política, não só as religiões instituídas, ao menos no Brasil e em alguns países em que elas exercem grande influência, são agentes poderosos de interesse e atuam conforme regras de conciliação e acomodação bastante terrenas, como também o Estado ainda lhes reserva uma grande dívida no sentido de mobilizar apoio para seus projetos de unidade patriótica e lhes tributa inúmeros privilégios patrimoniais e fiscais como retribuição ao preenchimento de lacunas, por vários séculos, que o poder público não quis ou não pôde suprir. Da mesma forma, segundo um conceito particular de religião, não julgo ser a ciência totalmente competente para intervir em assuntos de fé, a não ser que estes passem a concernir e a intervir no mundo real e na própria prática científica.

Vamos à questão do Estado, primeiramente. Hoje se defende que o Estado e os poderes públicos devem ser laicos, ou seja, separados de qualquer crença religiosa e de seus responsáveis. Parece-me que a pergunta deve ser não só reformulada, mas também especificada: será que, nos países em que as religiões ainda conservam enorme ou significativo poder, o Estado PODE ou TEM CONDIÇÕES DE ser laico? Antes de tudo, é preciso atentar ao fato de que, desde o início da história, os sacerdotes ou mágicos eram parte do poder coercitivo ou ordenativo, e isso tanto nas civilizações que chegaram a desenvolver comércio e escrita quanto nas pequenas tribos isoladas de todo o contato externo. Ou seja, nem se cogitava a separação entre autoridades temporais e espirituais tão corrente hoje. Tal característica passou intocada nos povos grego e romano (primeiro pagão e depois cristão) e nas monarquias feudais, sempre constituindo um crime o desvio ou a contestação do credo oficial.

 

Só com o Iluminismo do século XVIII passou-se a postular a cisão entre Igreja e Estado, embora Hobbes e Locke, um século antes, já tenham contestado a ideia do direito divino dos reis. Veio a Revolução Francesa, que levou a sugestão à prática, mas vieram também Napoleão, que fez a concordata com Roma, e a Santa Aliança, que, no século XIX, fez retrocederem todos os movimentos revolucionários. A salvação para o apartamento entre os assuntos eclesiásticos e governamentais na Europa e em países de desenvolvimento semelhante foi o progressivo avanço da ciência, da educação e da cultura, que laicizaram a sociedade – e continuam laicizando – e cujo processo não foi atrapalhado por alguns países que decidiram manter cultos oficiais.

 

Quanto aos povos de língua portuguesa – e espanhola, em algum grau –, embora pudessem ser citados outros casos semelhantes, as Luzes nunca chegaram com plenitude até aí. No caso do Brasil, a empreitada missionária aportou junto à colonizadora, e por séculos, mesmo após a proclamação da República laica, os jesuítas e outras ordens religiosas, ainda que com cortes pontuais, mantiveram o monopólio de nossa educação. O Império brasileiro foi oficialmente católico até o fim, quando nem mesmo os clérigos suportavam mais a ingerência estatal em seus assuntos. Em Portugal, a atrasada monarquia católica só acabou em 1911, e pouco depois o ditador Salazar ia tornar o clero novamente uma espécie de colaborador privilegiado do regime. Novamente na América, por volta dos anos 1930, mais de 90% de nossa população ainda era católica, e ações que vão desde a construção do Cristo Redentor e a cessão de seus direitos à Igreja até a instituição do feriado de 12 de outubro, em 1980, deixam claro quem ainda emocionava as mentes do povo. Paradoxalmente, desde a década de 1970, alguns setores católicos não desprezíveis se veriam embrenhados na oposição à tirania militar e às torturas e na defesa dos direitos das populações da floresta e dos pequenos agricultores contra a opressão latifundiária.

 

Hoje em dia, a Igreja controla grande quantidade de dinheiro, pessoas e instituições e não deve ser totalmente marginalizada das polêmicas que envolvam direitos humanos, políticas familiares e projetos de inclusão social, até porque ela já tomou parte em muitas delas com inegável sucesso. No caso das religiões evangélicas pentecostais e neopentecostais, vários dados novos se incluem: a formação de bancadas legislativas fortes, o vertiginoso crescimento do eleitorado, o domínio de gigantescos montantes financeiros e midiáticos e um extremo conservadorismo moral e religioso. Os movimentos secularistas devem ser mais duros com eles, mas isso não impede que o diálogo deva ser paciente, longo e não dogmático, até porque agora também o pentecostalismo penetrou em muitas iniciativas beneficentes, sociais e educacionais. Política é isto: todos cedem algo e todos ganham alguma coisa, em nome de um equilíbrio frágil que só terá fim quando os modelos atuais de Estado e sociedade também tiverem passado. Mas aí os problemas já serão outros…

 

E a ciência, onde entra nisso? Ela deve tomar parte em assuntos políticos e religiosos? O primeiro traço visível de sua história é que por muito tempo ela não foi separada nem da técnica, nem do poder dominante e nem, portanto, da magia. Os próprios filósofos gregos e romanos não se consideravam cientistas, e suas reflexões, quando não imbricadas ao poder, não se separavam das soluções práticas cotidianas. Na Idade Média, os ofícios profissionais não costumavam teorizar sobre seus procedimentos, e apenas com a Renascença a redescoberta do conhecimento da Antiguidade Clássica, somada às próprias inovações da época, inclusive espirituais (Reforma, heresias etc.), deu margem à autonomia do planejamento intelectual face à execução grosseira da produção material. Muitos cientistas dos séculos XVII e XVIII se diziam religiosos, até que no século XIX doutrinas aparentadas em maior ou menor grau ao positivismo cismaram que a ciência deveria suplantar a religião. Marx, Engels e Lênin bem lembraram que os delírios místicos só desapareceriam por si sós quando o mundo alcançasse um alto progresso material, mas vieram lá o nazismo e o stalinismo e, com uma caricatura da superioridade da ciência e da razão, quase exterminaram a humanidade. Pouco depois, parece ter surgindo naturalmente uma tácita separação amigável, mas atualmente a questão voltou à tona com o acirramento dos fundamentalismos religiosos anticientíficos em diversos pontos do planeta. Afinal, a ciência é intrinsecamente ateia e antirreligiosa?

 

Algumas categorias devem ser postas em pratos limpos. Antes de mais nada, ao contrário dos animais, o ser humano sempre foi um ser de transcendência, quer dizer, constantemente tentou enxergar, e conseguiu, além da realidade que se lhe apresentava em estado bruto e, com isso, não só a transformou segundo suas necessidades como também, com suas elucubrações mentais, erigiu civilizações. Esse processo de reorganização do real na própria mente é extremamente subjetivo, e por isso os conflitos pessoais sempre hão de surgir; ainda está para se verificar, contudo, se existem também “subjetividades grupais” que condicionam uma mesma transcendência a certos grupos de pessoas (países, etnias, religiões, clubes etc.). Essa subjetividade particular não deixa de ser influenciada pelo próprio meio objetivo, comum a todas as pessoas, mas, por causa das diferenças individuais, enxergado de modos diferentes. Essas discrepâncias é que tornaram a raça humana tão multifacetada, mas não impediram que a referida capacidade de transcendência a fizesse evoluir. (Talvez seja esse o sentido da frase de Einstein segundo a qual a religião sem a ciência é cega, e a ciência sem a religião é capenga.)

 

Por um acaso do destino, alguns desses projetos subjetivos se erigiram em visões de mundo políticas e religiosas consolidadas, e passaram a ser impostos aos outros cidadãos, e o que era apenas uma peculiaridade privada tornou-se lei obrigatória a conjuntos maiores. É um longevo fruto da maldade humana com o qual os cientistas devem lidar. Ainda que os sacerdotes em geral não reconheçam, cada um cria seus deuses – eis a essência original da religião –, e é nisso que a ciência, transformadora do objetivo, não deve se meter, mesmo sendo ela um conflito de subjetividades. Nesse caso, nem classificação ela tem: ateia, agnóstica, antiteísta, nada disso. Todavia, quando o sujeito se metamorfoseia em dado concreto do mundo real, a postura deve ser dialógica: convivência pacífica e negociada com instituições que respeitam a pluralidade do espaço público, crítica e combate daquelas subjetividades que desejam tiranizar suas semelhantes ou a própria dimensão objetiva do entendimento. O tratamento para com as religiões fica aí subentendido, embora só cada ocasião decidirá pela neutralidade ou pelo anticlericalismo.

 

Ciência, religião e política como filhas de uma mesma matriz, apartadas pelos azares do tempo e agora, numa dissertação marginal e despretensiosa, colocadas no mesmo saco para complicar ainda mais a análise laicista da sociedade? Se a leitora ou o leitor quiser, sim, uma tese incômoda e complexa. Entretanto, o caso é que a realidade é assim mesmo, um todo orgânico e contraditório de partes aparentemente conflitantes, mas muito interdependentes. Quando parece que encontramos a chave da compreensão do mundo, ela nos escapa como água pega com as mãos. Mas a militância ateia, secularista ou libertária, se quer fazer jus à importância que lhe espera no futuro coletivo, deve abandonar os esquemas simplificadores e abraçar a dialética que nos faz mudarmos a nós mesmos e ao nosso meio. Adaptações, flexibilidades e transigências necessárias para evitarmos nossa própria fossilização histórica e a passagem incólume, sem rastros, pelo cruel rio do progresso humano.

 

(Bragança Paulista, 7 de setembro de 2011.)

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  • Você e Edward Montenegro curtiram isso.
    • Osame Kinouchi Texto muito lucido. Eu complementaria que, do ponto de vista historico e sociologico, o Iluminismo é visto como uma secularizacao do Cristianismo que manteve os mesmos valores judaicos (em contraste com os gregos) de igualdade de direitos humanos (que veio da ideia de que todos sao irmaos e filhos de um mesmo deus pai, em vez de serem seres de natureza diferente, seja devido a castas sociais – defendidas pelos gregos e romanos, seja devido ao Darvinismo Social (nacional socialismo e filosofia de Nietszche) . Ver especialmente a analise que Nietszche faz das relacoes entre Cristianismo como originador do Iluminismo, Feminismo, Anarquismo e Socialismo. Nietszche, um conservador politico, quer destruir o Socialismo, o Feminismo e o Anarquismo pela raiz, e é por isso que, ao considerar que tal raiz é cristã, se concentra em atacar Paulo de Tarso, o criador do Cristianismo Gentio.

      há 50 minutos · 
    • Osame Kinouchi Ou seja, é possivel mais dialogo entre um ateu iluminista e um cristao, do que entre um ateu iluminista e um ateu Nietszcheniano!

      há 50 minutos · 
    • Osame Kinouchi Tambem acho que religioes sao ideologias (de vida e de como fazer politica), ou seja, nao apenas sao ideologias politicas conservadoras (a maior parte das rfeligioes oficiais legitima a organizacao social hegemonica – exemplo, o neopentecostalismo da Teologia da Prosperidade legitima e sacraliza o liberalismo economigo de Reagan e Tatcher, e é por isso que surgiu de forma concomitante) mas tambem existem religioes libertarias, tipo a Teologia da Libertacao.

      há 47 minutos · 
    • Osame Kinouchi Como podemos situar a origem da Teologia da Libertacao na ideologia anarquista de Moises (o deus YHVH foi criado justamente para ser um deus diferente do deus do Faraó, ser um deus do povo escravo, nao um deus dos nobres e aristocratas etc), acho que sociologicamente é mais acertado dizer que, de origem, a religiao é uma ideologia politica, e só mais recentemente, com a modernidade, é que adquiriu o carater de crença privada com livre escolha de consciencia individual: a ideia de liberdade religiosa individual surge recentemente, depois da Reforma.

      há 44 minutos · 
    • Osame Kinouchi Quanto ao fato da ciencia ser ateia (metodologicamente), acho que precisamos reconhecer que isso nao implica o contrario, que o Ateismo seja Cientifico (se fosse, ele seria patrocinado pela FAPESP e pelo CNPq!). O ateismo tambem é uma ideologia (secular), compativel com a ciencia mas nao é cientifico stricto sensu (por exemplo, nao satisfaz o criterio de Popper de ser refutavel: mesmo que um deus YHVH descesse em uma coluna de nuvem e fogo em cima da Casa Branca, poderiamos argumentar que é um ET num charutao nave-mae voador, nao o Deus Criador ou o Deus dos Judeus, por exemplo. Mas se um conjunto de ideias nao pode ser refutado, mas apenas criticado sobre suas consequencias sociais e individuais boas ou más (mas boas ou más definidas por qual criterio? Nao podemos deduzir cientificamente o que é bom ou mau para a vida humana, sao valores aprioristicos nao fundamentados racionalmente!), logo, tanto as religioes como o Ateismo caem dentro da categoria sociologica de Ideologias (religiosas ou seculares).

      há 37 minutos · 
    • Osame Kinouchi O apoio do PSTU ao livro de Dawkins pode ser encontrado aqui, mas me pareceu exagerado dado que Dawkins seria um Hegeliano de Esquerda (na definicao do proprio texto), e Marx e Engels mostraram de forma conclusiva que o Hegelianismo de Esquerda inverte o papel da religiao na sociedade: ela é a maconha do povo, nao o fator que determina conservadorismo social, as guerras, a colonizacao etc, que seriam fatores economicos e sociais, apenas mascarados ideologicamente por capas religiosas:http://www.pstu.org.br/teoria_materia.asp?id=8859&ida=0

      www.pstu.org.br

      Página do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).
      há 29 minutos ·  · 
    • Osame Kinouchi Eli, desculpe pelo trollismo, mas achei que o texto merecia esse comentario longo… Abracos!

      há 28 minutos · 
    • Osame Kinouchi En passant, eu me lembro de meus amigos da Teologia da Libertacao da decada de 80 que criticavam os pentecostais e os carismaticos por serem “puxadores de fumo” misticos… que eram maconheiros do Espirito, por assim dizer… Sidarta Ribeiro, neurocientista famoso da UFRN e defensor da liberacao da maconha como droga enteogenica, e seguidor do candomblé, cita o dito de que “sem ervas, sem orixás” e que a hostia é o placebo de Deus (enquanto de o Santo Daime seria o remedio verdadeiro, nao o placebo!) Mas… e se o Bispo Macedo adotar o Santo Daime nos seus megacultos? Ai sim os ateus se extinguem da face da Terra, pois parece que basta uma dose do Santo Daime pro cara ficar acreditando em Deus… Deus nos proteja dessa possibilidade! ahahahahahh Amem!

      há 20 minutos · 
    • Osame Kinouchi Por falar nisso, a critica aos neopentecostais deve ser feita com cuidado para nao ser politicamente incorreta: os sociologos da religiao definem as correntes neopentecostais como uma fusao sincretica entre Umbanda e Pentecostalismo, ou seja, atingem o mesmo publico (é por isso que eles atacam tanto as religioes afro, é por que sao competidores pelo mesmo segmento social). Edir Macedo era Umbandista e sacou que uma nova religiao magica, com elementos de Umbanda (enfase em milagres, graças, amarração de espiritos, rituais para obtenção de dinheiro e prosperidade etc) estaria mais de acordo com o espirito brasileiro, seria um meme de maior penetração e propagacao, e pelo que parece, ele estava certo!

      há 16 minutos · 
    • Osame Kinouchi Por isso, criticar as Igrejas Neopentecostais pode ser visto como critica a religioes afins de religioes afro-brasileiras (a Umbanda já é um sincretismo de Catolicismo e Candomblé). Grande parte dos membros e pastores dessas igrejas sao negros, por exemplo o Apostolo Valdomiro. Logo, cuidado para o movimento secular nao ser tachado de racista, devemos ir com cuidado, por discriminação por raça é crime inafiançável!!! E cuidado para tais criticas não serem consideradas pelos sociólogos como apenas um preconceito de brancos universitários de classe média contra as religiões dos negros pobres…

      há 14 minutos · 
Posted in Ateísmo, Cultura, Marina Silva, Neuroteologia, Religião and tagged as , , , , , ,

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