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Resenha: Farei meu destino, de Miguel Carqueija

Miguel Carqueija é o primeiro a esquerda, nessa foto de 2006 onde acontece uma reunião do CLFC. Nasceu e mora no Rio de Janeiro onde escreve “desde tempos imemoriais”, mas participa do fandom desde 1983 – isto é, quase desde o seu início – e vem publicando desde então. Afora centenas de textos em fanzines, revistas, jornais e páginas virtuais, contabiliza 14 livros individuais, sendo 9 em papel, 1 em papel e com versão digital, e 4 “e-books”. Desses 14, o livro virtual As portas do magma (scarium.com.br) é de coautoria com Jorge Luiz Calife. Menciona-se ainda A âncora dos Argonautas (1999), A Rainha Secreta (2001), A Esfinge Negra (2003), O fantasma do apito (2007, reeditado em 2010), Farei meu destino (versões em papel e virtual, 2008 -gizeditorial.com.br) e “Tempo das caçadoras” (2009). Também participou de mais de duas dezenas de antologias, umas amadoras, outras profissionais, destacando Poe 200 anos, organizada por Maurício Montenegro e Ademir Pascale e lançada em 2010, onde além de um dos contos também assina o prefácio. Seu conto O tesouro de Dona Mirtes foi filmado em 2004 e o curta resultante pode ser assistido pelo youtube (http://www.youtube.com/watch?v=CYn_11sQEQI).

Resenha: Farei meu destino, de Miguel Carqueija, GIZ Editorial (2008)
Osame Kinouchi

A biblioteca do CLFC, atualmente sediada no Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria da FFCLRP-USP, adotou recentemente uma política para doações para seu acervo. Se um autor enviar dois exemplares de algum de seus títulos, um ficará no acervo e o outro será vendido em prol da tesouraria do CLFC. Ao fazer isso, o Prof. Dr. Osame Kinouchi, mantenedor da biblioteca, se compromete a avaliar com cuidado a obra e escrever uma resenha, a ser colocada no site oficial do CLFC. Outros resenhadores do CLFC também podem ajudar nesse compromisso. Miguel Carqueija foi o primeiro autor a fazer essa doação para o CLFC.
Miguel Carqueija não necessita apresentação, por ser autor prolífico e membro atuante do CLFC desde a década de 80. Uma das vertentes de sua obra é a literatura infanto-juvenil de fantasia e ficção-científica. Esse aspecto o distingue da grande maioria de autores do fandom, que preferem escrever para adultos ou pelo menos young adults. Essa escolha tem um grande mérito, pois contribui para a formação de novas gerações de leitores, e ao mesmo tempo cria uma enorme dificuldade: escrever para adultos é fácil, escrever para juvenis não é.

Na minha vida profissional estou acostumado a escrever pareceres sobre textos (artigos científicos) que ainda não foram publicados. Tais pareceres visam justamente ajudar os autores a melhorar seu texto e a articulação das ideias. Baseado nos pareceres, os autores reescrevem e melhoram seus escritos antes da publicação. Resenhas são diferentes. Elas operam sobre o produto final, acabado e publicado. Já não podem ajudar o autor a melhorar seu texto (a menos que pensássemos na possibilidade de se criar novas versões do mesmo E-book a partir das resenhas críticas). Sinceramente, para o livro Farei me destino de Miguel Carqueija, eu gostaria de escrever um parecer e não uma resenha, mas isso não é possível.
De novo quero parabenizar e incentivar Carqueija nesta escolha pela literatura juvenil e desafio outros autores a escrever para este público, pois perceberão que tal escrita é muito mais difícil do que parece. Isso decorre basicamente do seguinte: se os personagens são juvenis (13 a 15 anos como acontece no livro de Carqueija), os pensamentos e o vocabulário dos mesmos tem que refletir essa idade. Ou seja, um autor maduro tem que se colocar na posição de um adolescente, pensar como um adolescente, falar como um adolescente (dos dias atuais!). Se muitos autores homens tem dificuldade em retratar uma personagem feminina adulta (pelo simples fato de que mulheres e homens pensam diferente, sim), quão maior é a dificuldade de construir uma personagem na forma de uma menina de 13 anos (Diana) e suas amigas de mesma idade.
Infelizmente é isso o que acontece. Basicamente, cada capítulo é iniciado com um parágrafo sobre os pensamentos recentes dos personagens, em particular Diana. São abundantes também os diálogos entre as personagens adolescentes. Ora, o que acontece é que tais pensamentos e diálogos estão repletos de um vocabulário muito rico (e mesmo antiquado) que não é crível ser dominado por juvenis. De novo afirmo que escrever os pensamentos de adolescentes, na linguagem deles, é uma tarefa muito árdua para um adulto maduro e é compreensível os deslizes de Carqueija. Fico imaginando se o autor, como exercício de escrita, pudesse reescrever a mesma história com um outro linguajar. Uma nova edição do livro, seria possível? Tal coisa seria inédita em nosso meio, mas poderia ser muito interessante, especialmente com a facilidade de se criar novas versões em E-book.
Apenas para exemplificar o que estou dizendo, encontrei palavras na boca das adolescentes que eu mesmo tive que consultar um dicionário para entender o sentido exato. Entre as expressões que aparecem nos pensamentos de Diana estão: tripudiava, ciosamente, vil, integridade física, sismo, inusitado, pereceram, éter, intrigado, descendente, pundonor, óbices, audácia, astúcia, espevitada, irascível, tutela, dotes, algozes, gula, fatal, espicaçava, ressonavam, cogitaram, indizível, agastada, alamedas, impante, defrontar, acicatava-me, encalço, sublime.
Estas expressões foram retiradas apenas das passagens iniciais dos capítulos que refletem os pensamentos de Diana. O resto do texto está repleto de vocabulário similar. Acho que não preciso enfatizar meu ponto mas, como pai de quatro adolescentes, posso afirmar que essa faixa etária não fala e não pensa assim. Pobre de nós, escritores maduros, caso queiramos imitar sua fala.
Espero que Carqueija entenda como eu quero que esta resenha seja construtiva. Não estou “tripudiando” sobre seu esforço literário, muito pelo contrário: eu o acho válido e mesmo pioneiro. Mas, agora como parecerista, eu realmente recomendaria que, em seus próximos trabalhos para juvenis, desse redobrada atenção para essa questão da adequação do vocabulário às jovens personagens. Se isso não for feito, as histórias, por melhores que sejam os enredos, causarão estranheza ao leitor (especialmente ao jovem leitor).
A história segue num estilo mangá (acho que Carqueija reconhece a influência de Sailor Moon nesta obra) e está repleta de ação como gostariam os juvenis. Entretanto, outro ponto me causou estranheza (mas isso não é necessariamente uma falha do autor). Embora feito para o público infanto-juvenil, a história contém elementos apropriados para um mangá para maiores de dezoito anos: estupro, tortura, assassinato, violência e morte ocorrem ao longo de todo o texto. Essa atitude não politicamente correta destoa de Sailor Moon, pelo que entendo. Nada que não ocorra em Harry Potter, imagino. Mas é como se o livro fosse a versão GTA dos mangás femininos.
Espero que Miguel entenda a boa vontade com que li seu livro e escrevo essa resenha (não, não estou me vingando de uma resenha destrutiva de um conto meu que ele publicou no Recanto das Letras tempos atrás, juro!). Que venham novos textos para o público juvenil, especialmente de ficção científica! Espero que meus comentários possam ajudar nesta questão do vocabulário dos personagens. Dada a imaginação fértil de Carqueija, tenho certeza que nos aguardam ótimas histórias com ótimos personagens. Tenho certeza.

Posted in Ficção Científica, Livros, Religião

1 Comment

  • Miguel Carqueija

    21 de junho de 2017 at 14:24

    Osame, sobre a sua resenha gostaria de fazer algumas observações. Não ocorre estupro descrito no romance, mas uma tentativa que acaba pela morte do estuprador. Os outros, anteriores, são apenas referidos. Na verdade eu sou um adversário da ficção cientifica e fantasia “barra pesada” repleta de descrições sórdidas, como infelizmente tenho encontrado muito em autores brasileiros das últimas gerações, o chamado “brutalismo”. Quanto ao modo de falar de adolescentes, acredito eu que nós subestimamos essa faixa etária, já que, ainda mais em nossos tempos, esse pessoal já entende muita coisa e alguns possuem alto nível de leitura. Ora bem, o vocabulário que se supõe ser dos adolescentes de nossos dias seria o de um futuro hipotético? Além disso não se trata de falar difícil. É comum que heroínas adolescentes de mangás e animês possuem discurso exemplar, não é que falem difícil, mas falam bonito (como as Guerreiras Mágicas de Rayearth ou a Hojo Kuriko de “Shangri-La”). O nível cultura e intelectual de uma adolescente pode perfeitamente permitir isso. Colocar um linguajar desagradável e reles, repleto de gírias e palavrões, não me parece adequado. Mas todas as resenhas são úteis para um escritor, inclusive com as restrições que variam em cada crítico ou resenhador. Eu até apreciaria que você comentasse outros trabalhos meus, infelizmente quase tudo meu hoje em dia só sai pela internet. Um grande abraço.

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