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Reflexões cientopolíticas (II)

Meus amigos ateus precisam acordar para a realidade. Frente a inesperada (inesperada para quem?) importância que o dito voto religioso assumiu na presente eleição, sua única reação é a de fazer rantings (qual a tradução de ranting? resmungos?) sobre a mistura entre política e religião, como se isso não fosse novidade desde Moisés e o Faraó…

Hélio Schwartsman, a quem muito prezo, tem renunciado a alguns conhecimentos básicos de sociologia em prol de surfar no modismo do neoateísmo (que é uma reação ao fundamentalismo, que por sua vez é uma reação à teologia liberal do século XIX).  Explico.

Acho que desde Marx e a decadência dos Hegelianos de Esquerda (que eram os neoateus do século XIX) sabemos que a religião dominante (mas não as religiões marginais) é fruto ideologia econômica dominante, e não vice-versa. Ou seja, o neopentecostalismo da Teologia da Prosperidade, com sua ênfase no empreendedorismo dos fiés, é apenas fruto do neoliberalismo dominante da década de 1990 até a crise mundial.  É falso dizer que essas neoigrejas “exploram seus fiéis”, é mais acertado dizer que os fiés são sócios que pagam 10% de suas rendas, e que portanto o que interessa a essas neoigrejas é que a renda deles aumente, e é por isso que apóiam o Lula (Edir Macedo e a Renascer) e dão cursos do SEBRAE para seus fiéis.., etc.

O problema do neoateísmo é que ele é muito pobre em seus argumentos quando comparado com o ateísmo clássico, esse sim intelectualmente respeitável e não panfletário. Se você quer defender uma boa causa (por exemplo, combater a péssima influência política da direita religiosa ou defender os direitos civis dos ateus), o ponto de partida é não usar argumentos falaciosos facilmente refutáveis. Exemplo: ficar falando que as religiões e os religiosos EM GERAL (ou seja, todos, incluindo Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa, Leonardo Boff, Frei Betto e Marina Silva!) SEMPRE levam à Inquisição (que foi um fenômeno social historicamente particular de uma religião em particular. Mais que isso, se o neoateu é cientificista (nem todos os ateus são, muitos são anticientíficos, como Nietszche), o argumento fica pior ainda porque a Ciência e a Tecnologia nela inspirada têm telhado de vidro. No mesmo exemplo, as bombas de Hiroshima e Nagasaki mataram mais pessoas (especialmente inocentes como crianças, mulheres, idosos) em um dia do que a Inquisição  matou em 300 anos de história (ou seja, cerca de 100 mil pessoas).

Além do mais, não se deveria imputar aos católicos atuais (por exemplo, ao intelectual católico Reinaldo José Lopes, editor de ciências da Folha e colega do Hélio, e talvez o melhor blogueiro de ciências da blogosfera científica brasileira!) as faltas dos católicos ibéricos e italianos da Renascença e Alta Idade Média. Seria como imputar aos neoateus as faltas dos ateus Stalin e Mao Tse Tung, isso seria uma falácia grave.

O pessoal realmente precisa acordar para a realidade histórica, em vez de ficar imaginando em sua torre de marfim de que vivemos na Era das Luzes da Ciência – nós não vivemos mais na era tecnocrática pelo menos desde a década de 60, com a Contracultura! E lembrar que a Era das Luzes não foi tão iluminada assim (lembram do Terror da Revolução Francesa?) e a Era das Trevas não foi tão tenebrosa assim (afinal, foi a Era das Catedrais, as quais prezamos e preservamos até hoje).

Precisamos parar de wishful thinking: a Religião não vai desaparecer, vai apenas mudar de forma, se adaptar. O ateísmo não vai vencer, vai apenas sobreviver (como sempre o fez na história mundial), o número de ateus não está crescendo (em termos proporcionais), o futuro pertence a quem tiver mais filhos, ou seja, aos muçulmanos, aos  evangélicos e católicos conservadores que não fazem controle de natalidade. Isso se chama, em Biologia, fitness: ter o maior número de filhos férteis!

Assim, Hélio comete uma grande falácia ao sugerir em sua coluna (e ele sabe que a está comentendo, pois avisa o leitor disso) que a correlação inversa entre PIB per capita e religiosidade implica que a religião produz pobreza ou impede a riqueza (que raio de manchete é essa, Hélio?).

Oras, será que Hélio esqueceu do maior livros do século XX, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Weber? E esqueceu que Marx diria que Religião é um reflexo, um epifenômeno sem força causal, e que as verdadeiras forças são sócio-econômicas? Ou seja, para que sugerir uma falácia se sabemos de antemão que ela é falsa? Precisamos de uma argumentação neoatéia de melhor qualidade, não do panfletismo de Dawkins e Cia, que não sabe distinguir um protestante histórico de um evangélico, e muito menos um neopentecostal neoliberal como Edir Macedo (que é a favor do aborto!) e um pentecostal conservador, ou um pentecostal de esquerda como Marina de um católico de extrema direita como Alckmin.

Pessoal, acordem! Desde a década de 80 os sociólogos da religião estão falando que o processo de secularização iniciado no século XIX cessou e se inverteu, que a revolução iraniana explicitou isso, que as utopias seculares morreram (tanto a Nova Cidade da Ciência liberal quanto o Socialismo Laico).

Acordem! Usem o conhecimento acumulado sobre a Religião pela Antropologia, Sociologia, etc. Leiam Marx (melhor ainda, Engels!), Durkhein e Weber, não Dawkins! Leiam Peter Berger! Leiam um pouco de Teologia Liberal, Teologia Feminista e Teologia da Libertação, antes de atacar a Teologia! Pelo amor de Deus!

Aborto? Melhor nem falar…

7:37 | qua , 6/10/2010

Leandro Loyola

Eleições 2010 Tags:

O discurso de José Serra corria bem no encontro do PSDB, na tarde desta quarta-feira, em Brasília. Até Serra abordar a questão do aborto, para dizer que não era um candidato com “duas caras”. Serra se referia, obviamente, à sua concorrente Dilma Rousseff (PT). A impressão de que Dilma seria favorável à legalização total do aborto é apontada, pelo PT e por pesquisas, como uma das causas da sua perda de votos na reta final do primeiro turno.

Mas, ao tocar no assunto, Serra errou. “Todo mundo sabe que eu sou a favor do aborto… Eu já falei isso”. A platéia congelou. Serra percebeu o ato falho e corrigiu: “Quer dizer… Todo mundo sabe que eu sou contra o aborto. Eu já falei isso. Eu não tenho duas caras”. A platéia respirou aliviada. Mas ficou claro quão espinhoso e escorregadio é o tema nesta campanha eleitoral.

Berger’s influential sociological works include:

More recently he has written mainly on the sociology of religion and capitalism:

  • The Homeless Mind: Modernization and Consciousness (1973) with Brigitte Berger and Hansfried Kellner. Random House, ISBN 0394484223
  • Pyramids of Sacrifice: Political Ethics and Social Change (1974)
  • The Heretical Imperative: Contemporary Possibilities of Religious Affirmation (1979)
  • The Other Side of God: A Polarity in World Religions (editor, 1981). ISBN 0-385-17424-1
  • The War Over the Family: Capturing the Middle Ground (1983) with Brigitte Berger
  • The Capitalist Spirit: Toward a Religious Ethic of Wealth Creation (editor, 1990)
  • A Far Glory: The Quest for Faith in an Age of Credulity (1992)
  • Redeeming Laughter: The Comic Dimension of Human Experience (1997), ISBN 3110155621
  • The Limits of Social Cohesion: Conflict and Mediation in Pluralist Societies: A Report of the Bertelsmann Foundation to the Club of Rome (1998)
  • The Desecularization of the World: Resurgent Religion and World Politics (editor, et al., 1999). Wm. B. Eerdmans Publishing, ISBN 0-8028-4691-2
  • Peter Berger and the Study of Religion (edited by Linda Woodhead et al., 2001; includes a Postscript by Berger)
  • Many Globalizations: Cultural Diversity in the Contemporary World (2002) with Samuel P. Huntington. Oxford University Press. ISBN 978-0195151466
  • Questions of Faith: A Skeptical Affirmation of Christianity (2003). Blackwell Publishing, ISBN 1-4051-0848-7
  • In Praise of Doubt: How to Have Convictions Without Becoming a Fanatic (2009) with Anton Zijderveld. HarperOne. ISBN 978-0061778162
  • “Four Faces of Global Culture” (The National Interest, Fall 1997).

Horóscopos, Homeopatia e Educação: uma refutação `a hipótese do deficit de educação científica

Durante o mestrado no Instituto de Física de São Carlos (USP), nos idos de 1988, eu fiz uma estatística entre colegas mestrandos e doutorandos em física sobre temas de Pseudociência, de Atlantida e Astrologia até Chupacabras e Homeopatia (a pesquisa tinha uns 30 itens). Mais da metade da amostra acreditava nessas coisas e uma pesquisa auxiliar demonstrou que os estudantes de ensino médio eram (muito!) mais céticos que os universitários.

Acho que essa minha pesquisa-piloto refuta a tese de que a falta de ciências no ensino médio é a origem das crenças paracientíficas e pseudocientíficas (afinal, a amostra era constituida por 25 alunos de pós-graduação de física da USP).

Minha tese a partir dessa pesquisa é que quanto mais culta uma pessoa, mais ela tem condições de laborar uma defesa de suas crenças pseudocientíficas (apelando, por exemplo, a Jung, Campbell, etc.) Afinal, analfabetos não conseguem entender o filme “Quem somos Nós”, ou o livro “O Ponto de Mutação”, mas apenas universitários.

Quem quiser replicar esse estudo (e defender uma tese), entre em contato comigo, acho que consigo bolsa do CNPq no meu Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria.

21/09/2010 – 08h19
Universitários acreditam que ET fez pirâmides, analfabetismo científico nos EUA preocupa

RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO

Após ouvir cerca de 10 mil alunos de graduação nos EUA, pesquisadores descobriram que só 35% discordavam da ideia de que ETs teriam visitado civilizações antigas da Terra e ajudado a construir monumentos como as pirâmides do Egito.

Sempre existirão horóscopos, dizem cientistas

Poucos se manifestaram contra outras teses sem base, como o suposto status de ciência da astrologia (não confundir com a astronomia) e a ideia de que existem números da sorte -22% e 40%, respectivamente.

Além disso, mais de 40% disseram que antibióticos matam tanto vírus quanto bactérias –na verdade, só as bactérias são vulneráveis a esse tipo de medicamento.

Editoria de Arte/Folhapress

Para o autor do estudo americano, o astrônomo Chris Impey, os números refletem um problema do país: os alunos de ensino médio não precisam fazer cursos de ciência. A maioria estuda biologia, mas menos de metade tem aulas de química e só um quarto estuda física.

“O ensino médio americano é forte em história, conhecimentos gerais, esportes, computação, mas bastante fraco mesmo em ciências”, diz Renato Sabbatini, biomédico e educador da Unicamp.

“Mas as perguntas que fizeram são hiperelementares, um adolescente minimamente informado que assista televisão saberia responder.”

Preocupante, diz Impey, é que o pior desempenho foi justamente o dos alunos de cursos na área da educação.

Não há números parecidos que indiquem qual a realidade brasileira. Embora aulas de ciência sejam obrigatórias no ensino médio por aqui, a baixa qualidade do ensino não garante muita coisa.

Conspirando contra a compreensão científica no país, diz Sabbatini, há o fato de que cerca de 70% dos brasileiros só conseguem ler textos curtos e tirar informações esparsas deles. “Têm letramento insuficiente. É impossível serem bem informados sobre a ciência moderna.”

Tal analfabetismo, diz Impey, não deixa de ser um problema político: “Esses conhecimentos são importantes para avaliar posições políticas sobre mudança climática ou células-tronco.”

PS: Parece que pelo gráfico também fica refutada minha tese de que as mulheres seriam mais crédulas que os homens, por serem menos autistas…

Obama, Martin Luther King e Marina Silva: três evangélicos negros

19/08/2010 – 20h50
Casa Branca diz que Obama é cristão e reza todos os dias

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, é um “devoto cristão” que reza “todos os dias”, disse nesta quinta-feira a Casa Branca, tentando pôr panos quentes sobre crescentes dúvidas dos americanos sobre a religião do presidente.

Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada hoje mostra que 18% dos americanos acreditam que Obama é muçulmano, enquanto só um terço, 34%, sabe que ele é cristão. Em março de 2009, 11% disseram que ele era muçulmano e 48% afirmaram que Obama era cristão. A maioria das pessoas (43%) disse não saber a religião do líder americano.

“O presidente é obviamente cristão. Ele reza todos os dias”, disse o porta-voz oficial da residência, Bill Burton, a bordo do Air Force One. Burton afirmou que os americanos se preocupam mais com a economia e as guerras no Iraque e Afeganistão e “não estão lendo muitas notícias sobre a religião do presidente”.

“Sua fé é muito importante para ele, mas não é algo de que fale todos os dias”, disse o porta-voz, que acompanhou o presidente hoje à ilha de Martha’s Vineyard, onde Obama passará dez dias de férias com sua família.

Um Jantar Memorável (II)

Hoje sobrou um tempinho para continuar o relato sobre aquele memorável jantar de 30 de julho na casa de Bruno Lobão e Michelle em Natal. Como eu havia dito, Ricardo Mioto e eu gastamos algum tempo conversando sobre autismo e ateísmo. Eu lhe havia explicado que a aplicação da neurociência e da psicologia evolucionária ao comportamento humano precisa ser radical: ela precisa se aplicar, inclusive, ao próprio cientista que faz a análise. Ou seja, um cientista ateu pode explicar a origem da fé usando neurociência e psicologia evolucionária mas também precisa admitir que seu ateísmo pode ter origem em explicações neurocientíficas (a Síndrome dos Geeks ou Asperger, por exemplo) e precisa, pelo menos, explicar por que o ateismo não é um comportamento universal: se a racionalidade e uma atitude refratárias a fé são coisas boas e importantes para a sobrevivência da humanidade, então por que ela não foi selecionada evolucionariamente, ou seja, porque a incapacidade para ter fé não foi implantada como comportamento default no cérebro humano?

Proceder de outro modo, disse Mioto, seria adotar uma teoria self-serving, que pode agradar o ego do cientista (“os outros tem fé porque têm problemas mentais, baixo QI ou estão sendo manipulados por memes-genes egoístas, mas eu não tenho fé porque estou liberto de memes e genes egoístas, afinal sou muito inteligente e tenho altissimo QI!”). Mioto chamou essa hipótese GSST (Geek Self-Serving Theory).

Em particular, fica claro que o ateísmo é um meme egoísta, ou seja, um comportamento cultural que afeta negativamente o fitness biológico de um indivíduo: é estatisticamente documentado que ateus e pessoas racionais têm menos filhos, afinal ter filhos tem um custo enorme e é sempre um risco para a saúde (da mãe), de modo que uma mulher racional não deveria desejar ter filhos. Isso, é claro, implica que a disposição genética para a racionalidade pode ter sido evolucionariamente modulada ao longo da evolução: as grandes mulheres racionais, usando sua racionalidade, preferiram não ter filhos e portanto não passaram suas características genéticas a seus descendentes. Essa hipótese é totalmente compatível com as idéias de Trivers sobre o auto-engano enquanto predisposição genética da humanidade.

Isso explicaria a constatação de que todo homem (ou melhor, toda pessoa com características tradicionais masculinas, não importando o sexo biológico) é um pequeno autista, segundo Mioto, ou seja, apresenta traços do espectro autista, e explicaria a desproporção entre homens e mulheres ateus. É claro que um ateu poderia sugerir que as mulheres são predispostas à religião, espiritualidade e supertições (qual a proporção de homens que fazem simpatias?) por serem mais irracionais, mas isso de novo é uma teoria self-serving.

Ricardo e eu ficamos pensando em como testar essa idéia. Um possível teste seria tomar dois grupos, um grupo com Síndrome Geek e um grupo normal de alto QI (comparável aos geeks) e fazer um questionário sobre opção religiosa e sexual, nível de ceticismo etc. Eu não fiz a pesquisa, mas a estou propondo aqui. Em todo caso, eu tenho fé (ironia aqui!) de que o grupo geek é mais cético e ateu que o grupo normal, e essa fé me leva a apostar um kit de cervejas Colorado  de Ribeirão Preto (R$ 37,50) de que os geeks são mais ateus que as pessoas de alto QI neurotípicas.

Trivers, Sidarta, Bruno e Wilfredo estavam conversando na garagem, deitados em redes ou balanços de crianças, e fomos nos juntar a eles. Acho que as Natália, Débora, Michelle e Sibele estavam discutindo coisas mais importantes e interessantes, mas não acompanhei a conversa. Um dos tópicos discutidos foi a questão dos canabinóides, endocanabinóides e neuroteologia. A noite terminou com muitas conversas e muito vinho, foi muito produtiva cientificamente. Eu me lembrei do Sidarta me contando sobre uma prática existente em um grupo de pesquisa que ele participou nos EUA: havia um seminário de grupo que era feito num bar, e o palestrante era obrigado a se embebedar antes de dar a palestra. Imagino que isso era importante para o brainstorming, afinal as melhores e mais criativas músicas de Tom Jobim e Vinícius foram feitas ao redor de um copo de Whisky (acrônimo de WHo Is in the SKY?).

Acho que conversei com o Sidarta também, não sei se naquela noite ou em um dia anterior, sobre funções do sonho e sonhos criativos, ou seja, o fato do estado onírico favorecer associações de idéias antes tidas como separadas. E não é que, na manhã do dia seguinte, tive um sonho desses, onde as diversas idéias discutidas naquele jantar se encaixaram em um quadro maior, que previa fortes testes da hipótese de ateísmo ser um traço autista e sugeria um novo tratamento farmacológico para o autismo? (Sim, se essas idéias se confirmarem, ficarei famoso!). O sonho foi tão impressionante, a sensação de Eureka foi tão forte, que contei imediatamente o mesmo para minha filha Juliana, a fim de não esquecê-lo.  Este sonho será o tema do próximo post desta série, OK?  Aguardem.

Um jantar memorável (I)

Acho que é importante registrar na minha memória (vulgo este blog, dado que meu hipocampo está danificado) os detalhes daquele jantar do dia 30 de julho de 2010. Eu havia comentado com o Sidarta, após meu seminário no IINN-ELS, que queria conhecer o seu bebê e dar um alô para a Natalia. Comentei também que tinha combinado com o Bruno e a Michelle, que estavam me hospedando, preparar um jantar com comida indiana (o Dahl, acho que uma das poucas comidas que faço bem). Ele falou que gostaria de ir e que poderia levar o Robert Trivers (que tinha assistido o seminário).

Perguntei para a Michelle se eu podia fazer um jantar grande assim (eu estava pensando em convidar o Wilfredo Blanco, doutorando do Sidarta,  e sua esposa Débora – especialista em autismo da UFRN) e ela me disse que eu tinha toda liberdade, que a sua casa sempre estava cheia com o pessoal do IINN.

Bom, na sexta eu reencontrei o Ricardo Mioto da Folha na SBPC (ele tinha assistido o meu seminário na quinta por acaso), quando fui levar a Juliana para ela fazer a comunicação oral do Metáforas Científicas no Discurso Jornalístico. Achei que o Mioto podia se interessar pelo artigo, ele me pediu uma cópia etc. Daí achei que seria adequado convidá-lo para o jantar, ele poderia fazer uma entrevista com o Trivers (acho que ele já estava fazendo). Comentei com ele sobre a página da Wikipedia do Trivers, que era muito estranha por que continha informações bastante pessoais e um certo tom mítico (o Trivers me disse que não têm a menor idéia de quem pode ter escrito essa página). Read more [+]

O gene do cristianismo

Video postado no Blog do Sakamoto.

Osame Kinouchi disse:

Sakamoto,

Pelo que entendo, grande parte dos gays gosta da idéia de que a predisposicao ao homosexualismo é genética em vez de ser uma pura opção cultural. Se é uma pura opção e escolha livre, então os gays podem culturalmente escolher o contrário, e os evangélicos conservadores estariam corretos em dizer que, para um gay se tornar cristão, basta se arrepender de sua opção cultural…

Mas se existem tendencias geneticas (nao deterministas, mas acho que os estudos com gemeos univitelinos mostram essa heriditariedade, embora nao exista um “gene gay” – pode ser por exemplo, um gene do sistema olfatorio que afeta o reconhecimento de feromonios, imagino que devem ser dezenas de genes afetando o sistema dopaminergico (sistema de recompensa), sistema hormonal, lateralizacao cerebral etc…

Entao, acho que se vc insistir que a opcao sexual é uma opcao e construcao cultural, vc estará apenas dando municao para os intolerantes: se é opção, então o gay pode “desoptar” livremente, basta querer…

O Monoteísmo tem mais fitness que o politeísmo?

Exibição no Museu de Israel mapeia a história dos monoteísmos
Semelhanças entre igrejas antigas e sinagogas são algumas das atrações
06 de agosto de 2010 | 15h 07 Ari Rabinovitch – REUTERS

Uma nova exposição apresentando milhares de anos de história da Terra Santa dá a fãs da Bíblia e céticos a oportunidade de dizer: “Eu sabia!”.

Estátua do imperador Adriano, uma das peças da coleção
O Museu de Israel, renovado após uma reforma de três anos e US$ 100 milhões, oferece um olhar sem paralelos para o desenvolvimento das religiões monoteístas, deixando amplo espaço para a ciência e a fé.

Os visitantes mais devotos podem se sentir justificados por uma coleção de armas de três mil anos, que indica que as batalhas da época ocorriam como descritas na Bíblia.

Os de espírito mais científico podem apontar para chifres de 1,5 milhão de anos, uma data muito anterior à calculada para a criação da Terra segundo os primeiros livros da Bíblia.

Uma funcionária do museu disse que um casal judeus ultraortodoxo ficou confuso com as discrepâncias.

“Elas perguntaram por que datamos os objetos como sendo tão antigos já que, de acordo com a Bíblia, o mundo foi criado há apenas 6.000 anos”, disse ela.

A principal curadora de arqueologia do museu, ciente da relação precária entre arqueologia e religião, disse que alguns artefatos podem ser vistos como conformações da Escritura, mas muitos achados não batem com o que diz o texto.

“Apresentamos como uma peça de teatro. Do mais antigo possível até o presente”, disse Michal Dayagi-Mendels. “Mas dá para ver claramente a influência e a inspiração que as coisas tiveram umas nas outras”.

Ela estava se referindo a uma nova exibição que mostra a reconstituição de uma igreja construída originalmente cerca de 400 anos após o tempo de Jesus. Ela é muito parecida com uma sinagoga da mesma época. A influência também é clara em relíquias islâmicas.

Em exibição pela primeira vez, um fragmento de um dos poucos afrescos sobreviventes da era das cruzadas mostrando Jesus, João Batista e Maria. A pintura do século 12 foi encontrada na Abadia da Virgem Maria, no Vale de Jeosafá, em Jerusalém.

Visitantes também podem ver uma casa de banhos usada pelo rei Herodes. Ela foi reconstruída com os pilares originais, ladrilhos e mosaicos.

Statistical dynamics of religion evolutions

Authors: Marcel Ausloos, Filippo Petroni
(Submitted on 14 Dec 2008)

Abstract: A religion affiliation can be considered as a “degree of freedom” of an agent on the human genre network. A brief review is given on the state of the art in data analysis and modelization of religious “questions” in order to suggest and if possible initiate further research, … after using a “statistical physics filter”. We present a discussion of the evolution of 18 so called religions, as measured through their number of adherents between 1900 and 2000. Some emphasis is made on a few cases presenting a minimum or a maximum in the investigated time range, – thereby suggesting a competitive ingredient to be considered, beside the well accepted “at birth” attachement effect. The importance of the “external field” is still stressed through an Avrami late stage crystal growth-like parameter. The observed features and some intuitive interpretations point to opinion based models with vector, rather than scalar, like agents.

Subjects: Physics and Society (physics.soc-ph); Data Analysis, Statistics and Probability (physics.data-an)
Journal reference: Physica A 388 (2009) 4438-4444.
Cite as: arXiv:0812.2617v1 [physics.soc-ph]

SEMCIÊNCIA: Ciência, Cultura, Política e Religião


Natalie Portman faz viagem à África para conhecer como vivem os gorilas

Respondendo a alguns amigos blogueiros:
none disse…
Mas digamos que haja um blogue de um religioso militante favorável às ciências – e que, sendo um tipo de anti-Dawkins, argumente que não é que a ciência é compatível com a religião, nem mesmo apenas que a ciência seja incompatível com o ateísmo e a falta de religião, mas sim que o conhecimento científico determina que os indivíduos sigam uma dada religião (uma tradicional ou uma nova). (Estou pensando em um exemplo bem específico e real – mas que não está na forma de blogue ainda.)

Esse blogue tem lugar no ABC?

“que o conhecimento científico determina que os indivíduos sigam uma dada religião (uma tradicional ou uma nova”)

Takata, é difícil acreditar que alguém razoável faça este tipo de afirmação. Por exemplo, não conheço nenhum teólogo que a faça, nem mesmo os criacionistas mais radicais a fazem. Assim, se você não citar o seu exemplo específico, fica difícil julgar.

Se um blog fizer tal afirmativa, ou seja, identificar uma religião como sendo científica (isso pode ocorrer no caso do Espiritismo, no caso da New Age tipo “Quem Somos Nós”, da Cientologia e no caso do Criacionismo Bíblico Científico), então tal blog será considerado pseudo-científico, pela definição adotada por nós: crença pseudo-científica é uma crença que afirma ser científica quando ainda não levou em conta de forma razoável as objeções da comunidade científica internacional.

Exemplo: Um blog sobre Supercordas ou sobre a Teoria do Multiverso é elegível para o ABC, pois embora não satisfaça alguns critérios de cientificidade (por exemplo, o critério de Popper de testabilidade para ciências naturais), satisfaz outros como:

1. Riqueza de resultados matemáticos (ou seja, é uma ciência formal),

2. Tentativa honesta de, em algum limite, compatibilizar os resultados com o conhecimento vigente, e responder aos argumentos contrários sem apelar a soluções ad hoc.

3. Esforço consistente para responder aos cientistas céticos em relação à esta abordagem.

4. Não “fugir da raia” apelando a teorias conspiratórias para explicar porque os cientistas não reconhecem aquele campo como ciência.

5. Minimização de uso de argumentos logicamente falaciosos e estatística mal trabalhada.

Creio que os blogs espíritas, New Age, de Criacionismo Bíblico apresentam problemas nos itens 2, 3, 4, 5 (eles não têm obrigação de satisfazer o item 1, claro!).

Os blogs de Desígnio Inteligente apresentam problemas nos itens 4 e 5.

Os blogs de Ufologia apresentam problemas nos itens 2, 3 e 4.

Lembremos também, que o Portal ABC é financiado pelo CNPq e visa criar uma interface entre blogueiros de ciência vinculados à comunidade científica (pesquisadores, professores, estudantes e cientistas amadores) e o público geral da internet. Nessa comunidade, os fenômenos paranormais, as religiões tradicionais e as novas religiões são discutidos basicamente enquanto fenômenos culturais, de um ponto de vista acadêmico, com bastante isenção jornalística, não de um ponto de vista de adeptos (crentes) religiosos, mesmo quando alguns blogueiros de ciência são religiosos assumidos. Este é o caso do editor de Ciências da Folha Reinaldo Lopes (católico) do blog Chapéu, Chicote e Carbono-14 e do blogueiro premiado pelo ABC João Carlos do Chi Vó Non Pó e alguns outros, e mesmo de alguns fãs de ficção científica teológica como eu – acredito que a Bíblia é um interessante livro de FC.

Quanto a ser anti-Dawkins, bom, eu conheço vários ateus e agnósticos anti-Dawkins, o nosso amigo ainda não foi canonizado nem o livro o Delírio de Deus se tornou palavra sagrada para os ateus (embora seu número de páginas dá quase igual ao do Novo Testamento). Assim, ser anti-Dawkins não inviabiliza um blog para o ABC. Lembremos de novo que o portal ABC corresponde à blogosfera científica, onde muitos cientistas são religiosos, e não à blogosfera ateísta (onde muitos nem são cientistas).

Se alguém quiser fazer um projeto do CNPq para financiamento de um portal de ateismo, secularismo, racionalismo e humanismo ou qualquer outro ismo, eu desejo boa sorte, mas duvido que o CNPq vai gastar dinheiro com isso… Nem o comitê de Ciências Humanas dar verba pública para isso seria admissível.

Creio que a resposta a essa pergunta ajude a pensar no destino de blogues do que você chama de ateísmo científico. (Não estava falando em política sentido geral, mas sim em política *partidária*. Mas estava só zoando tb.)

O meu blog é de Ciência, Cultura e Política, como também é (ou deveriam ser) os blogs do Science Blogs Brasil, pela definição usada pela SEED. A Política partidária entra quando se discute propostas concretas, temas ligados à educação, meio-ambiente, economia sustentável, relação entre ciência e religião, educação religiosa versus educação laica etc.

Pois o que nos afeta diretamente a nossa vida (na universidade, na ciência e tecnologia, na saúde, na educação) não são exatamente as politicas em geral mas as politicas com p minúsculo, partidárias sim: Pró-Uni, criação de universidades Federais, ENEN, cotas, próximo ministro de C&T (dizem que agora o Ministério vai se chamar de T&C ou T&I&C), política do etanol, do pré-sal, metas de redução de emissão de carbono etc…

Se for para dar minha opinião – que não vale nada – e se for para listar blogues de ateísmo, eu sou a favor de que se separem. E, tendo que se refira ao Gene Repórter (ou mesmo a outros blogues meus – que não estão no ABC), seria mesmo uma supresa se se encaixasse em um “ateísmo científico”: se não por outra coisa, pelo fato de (acho que já tive algumas oportunidades de esclarecer este ponto) eu *não* ser ateu.

[]s, Roberto Takata 9:40 PM, Outubro 29, 2009

Os blogs de ateísmo filosófico, como os blogs dedicados ao ateu Nietzsche, que é um ícone do movimento de anti-ciência, podem ser colocados na categoria de Humanidades – embora essa categoria esteja meio deslocada no Anel de Blogs Científicos e talvez venha ser eliminada no futuro: afinal, chamar um cara de Humanidades de “cientista” é tido como uma “ofensa positivista”.

Os blogs de ateísmo científico são mais problemáticos. Até agora, têm sido colocados na seção de blogs de “Ciência Geral”, mas na verdade, seus propósitos, comunidade, objetivos, tipo de argumentação, estilo de linguagem (por exemplo, uso de piadas anti-semitas), uso de teorias conspiratórias como fator explicativo tipo “o fato do Jesus Histórico não ter existido não é reconhecido por causa de uma conspiração dos religiosos” etc. parecem configurar uma blogosfera a parte (sociologicamente parecida com a blogosfera do movimento New Age).

No entanto, ao contrário da Blogosfera New Age, que é pseudocientífica pelos nossos critérios – de novo, por não aceitar o grosso da visão científica da comunidade internacional – os blogs de ateísmo científico aceitam e divulgam conhecimento científico. Sendo assim, são elegíveis para o ABC.

Nossa intenção em promover uma categoria própria (“Ceticismo Científico”) para os blogs ateus e céticos não é segregá-los, mas evitar uma confusão para o leitor em relação aos blogs da categoria de “Ciência Geral, ou seja, blogs que discutem ciência-cultura-política de maneira multidisciplinar”.

luisbr disse…
É um problema que surge quando queremos transformar um blog (semi-)pessoal em uma plataforma de divulgação da ciência. A mistura vai vazar em algum ponto. É o que está ocorrendo com o ´Semciencia´, toda hora aparece um post sobre a Marina Silva. Chato até o osso.
Sempre volto aqui para ler os textos sobre CIÊNCIA. 😉

Luis, você em parte está correto. Mas só em parte. A maior parte dos posts sobre a Marina Silva tem a ver com a questão da relação entre ciência, ateísmo científico, religião e política. Ou seja, a questão científica ficou importante politicamente quando as pessoas dizem que Marina não é boa candidata por ser religiosa ou até mesmo “criacionista” (o que é falso e foi desmentido por ela, a menos que você redefina “criacionismo”). Como ela é a minha candidata, essas inverdades e meias-verdades me incomodam, especialmente quando vindas de blogueiros científicos, que deveriam ser mais cultos, criteriosos e informados.

Ou seja, tanto o ateísmo científico quanto a candidatura de Marina e sua repercussão para as questões da economia de baixo carbono, meio ambiente, e relações entre ciência e religião são temas relevantes atualmente – não para um blog exclusivamente de ciências como o Gluon Blog, talvez, mas certamente para um blog de colunismo científico opinativo como é o SEMCIÊNCIA.

Devemos lembrar também que o SEMCIÊNCIA segue o lema do SBB: ele trata de Ciência, Cultura e Política, e não apenas de Ciência!

Um blog mais comportado, e sem foto da Natalie Portman nua, é o SEMCIÊNCIA no HAAAN do WordPress.

Postado por Osame Kinouchi às Terça-feira, Novembro 03, 2009

Drogas Teogênicas e Neuroteologia

Um amigo meu neurocientista me disse que, quando ele não consome uma certa droga teogênica, sua crença e comunicação com os Orixás (memes auto-organizados que cohabitam seu cérebro, ver A Mente Bicameral de Jaynes)  fica enfraquecida.

Já um outro colega, autor de um capítulo de livro sobre Neuroteologia,  confessa que sofre de TDAH e que sua deficiência de Dopamina provavelmente é a causa básica de seu ateísmo: “Afinal, epilépticos, esquizofênicos e bipolares são predispostos à religiosidade, mas gente com TDAH e Sindrome de Asperger (“Geek Syndrome” ou autismo de alto QI)  são em geral ateus”.

Em uma conversa particular (ops, estou revelando a fonte!), Ricardo Mioto da Folha de São Paulo acaba por concordar com minha teoria de que a proporção 4/1 entre ateus/atéias pode ser explicada pela proporção 4/1 da razão de sexos entre autistas.

Assim como existe uma genética da propensão à religiosidade, existe uma genética de propensão ao ceticismo e ateísmo. Embora nossa química cerebral não determine as nossas crenças, ela determina nossa maior ou menor capacidade de ter crenças. Isso é explicado pela nova disciplina de Neuroteologia.

A Geek Syndrome explica, por exemplo, o fato de que existe uma proporção maior de ateus na Academia Nacional de Ciências americana do que entre a população (controle) de cientistas normais. Roberto Takata contra-argumentou que correlação não é causação, e que o verdadeiro fator é que os geeks são mais inteligentes e portanto concluem racionalmente que a religião é bobagem. Ricardo Mioto chamou essa teoria de “geek self-serving theory”…

A teoria do homem como pequeno autista (segundo Mioto), ou seja, que todo homem apresenta traços autistas tais como fascínio por máquinas em vez de gente (e é isso basicamente que nos difere das mulheres) é uma das explicações propostas para o menor número de mulheres entre os grandes matemáticos e jogadores de xadrez. É claro, porém, que existem outras pressões sociais: se mesmo Penny do TBBT está se tornando geek, podemos prever que no futuro as mulheres geeks serão selecionadas evolucionariamente e teremos uma ascenção da humanidade em um outro patamar, talvez um tipo de geek sexy com habilidades sociais. Por que não?

Ver Penny citando Star Wars aqui.

Bom, nas discussões que tivemos, regadas a muito vinho e com a presença de Robert Trivers, eu e Mioto chegamos à seguinte conclusão: para testar estas idéias basta aprofundar as pesquisas sobre opção sexual e opção religiosa, além de fazer uma pesquisa sobre o consumo de cannabis entre os autistas… Segundo nossa teoria, a cannabis (ou talvez, o canbidiol) poderiam constituir um novo tratamento para o autismo e a geek syndrome.

O efeito colateral desse tratamento, porém, seria uma diminuição da população de céticos e ateus mas… você prefere ser ateu ou namorar a Penny? Do ponto de vista do Gene Egoísta (que é uma idéia original de Trivers, não de Dawkins), é bem melhor namorar a Penny e ter uns filhinhos com ela…

PS: Por favor, não confundam as probabilidades condicionais. Eu não estou afirmando que, dado que você é ateu, você tem mais probabilidade de ser autista, mas sim de que, dado que você é autista, você terá maior probabilidade de ser ateu.

Você votaria em um vegetariano para presidente?

Maria Guimarães, do Ciência e Idéias, fez um ótimo post sobre por que irá votar em Marina Silva e por que a questão da religiosidade da candidata deveria ser pouco relevante para as análises feitas pela blogosfera científica.
Acho que esta eleição, por causa de Marina, vai ser a primeira onde as questões de religião do candidato e cientificidade de sua visão de mundo serão relevantes para o debate público. Entretanto, o debate sobre se as crenças privadas de Marina Silva irão influenciar seu futuro governo poderia ter um nível mais sofisticado. Por enquanto, está no nível de sofismas do tipo:
“Se o candidato vegetariano quiser passar por cima da constituição e impor seu vegetarianismo sobre nós, devemos nos unir para combatê-lo!”
“Todo vegetariano é um fundamentalista e mais cedo ou mais tarde torna-se um Vegano. Para um Vegano virar um terrorista e lançar bombas em açougues é um passo. Você é a favor dos terroristas?”
“Todo vegetariano é um nazi-facista em potencial. Hitler era vegetariano, obcecado pela saúde coletiva e foi o primeiro a impor leis em defesa da ecologia no século XX!”.
“O aborto é o método anticoncepcional mais garantido, não falha nunca. Todo vegetariano é contra o aborto, logo é contra as camisinhas também.”
“Se os vegetarianos tomarem o poder, os que gostam de um bom churrasco serão colocados em campos de concentração!”
“Não existe prova científica a favor do vegetarianismo. Na verdade, existem evidências científicas contra o vegetarianismo. Logo, todo vegetariano é anticientífico e irracional, e portanto incapaz para exercer cargo político!”
“Marina é vegetariana. Todo vegetariano é corrupto, vide Edir Macedo. Logo, Marina é corrupta!”
Acho que vocês me entenderam. Enquanto o debate ficar nesse nível, eu só posso abanar a cabeça e dar risada, tentando imaginar por que blogueiros de ciência pretensamente tão racionais não conseguem enxergar a natureza totalmente falaciosa de seus raciocínios…

Ateísmo Científico: um Manifesto


Vou lançar um manifesto aqui e ver se o Kentaro Mori e o Roberto Takata assinam (embora Takata me disse recentemente que não é ateu – virou agnóstico?).

Ateísmo Científico: Um Manifesto
Existem diversos tipos de ateísmo, sendo os mais proeminentes o ateísmo filosófico, o ateísmo metodológico e o ateísmo ideológico. O ateísmo filosófico é simplesmente a posição filosófica que afirma, com variados graus de probabilidade (no sentido de crença Bayesiana), que o Deus (deuses) das religiões tradicionais e o Deus dos filósofos não existe. Dessa afirmação não decorre necessáriamente nenhuma consequência em termos de filosofia de vida ou ação política: é apenas uma postura filosófica.
Já o ateísmo metodológico é uma regra epistemológica que prescreve que, não importando a posição filosófica do pesquisador ou cientista, ele não deve apelar para hipóteses que envolvem a ação de Deus ou deuses para explicar fenômenos naturais. Este princípio metodológico é aceito e usado mesmo por cientistas religiosos e acadêmicos que não são ateus filosóficos.
O ateísmo ideológico afirma que a crença em Deus (ou pelo menos as instituições religiosas) são, basicamente, prejudiciais ao ser humano. Por ideologia entendemos uma filosofia que prescreve ações políticas. Desta posição decorre que crenças religiosas devem ser combatidas intelectualmente e politicamente. Uma afirmação menos geral, a de que certas crenças e instituições religiosas são perniciosas e devem ser combatidas, pode ser adotada tanto por ateus ou religiosos.
Neste manifesto, propomos um novo tipo de ateísmo, o Ateísmo Científico, definido por sete pontos:
I. O Ateísmo Científico é racional: usa apenas argumentos de natureza científica, ou seja, tenta evitar metodologicamente as falácias lógicas, falácias estatísticas e afirmações empiricamente refutadas. O uso de argumentos puramente retóricos e emocionais é minimizado.
II. O Ateísmo Científico é acadêmico: defende a liberdade de expressão e opinião, o rigor e a honestidade intelectual.
III. O Ateísmo Científico usa a metodologia científica: sempre tentará embasar com evidências científicas o diagnóstico de que um dado aspecto da religião é pernicioso. Por exemplo, a afirmativa de que a religião inspira intolerância e violência deverá ser embasada a posteriori em estudos sociais, históricos e estatísticos academicamente respeitáveis em vez de ser afirmada de forma a priori.
IV. O Ateísmo Científico é falseável: assume o falsificacionismo Popperiano em relação a si mesmo, ou seja, define a priori as condições empíricas ou teóricas que implicariam em sua refutação.
V. O Ateísmo Científico é academicamente cordial: mantem-se dentro dos padrões de cordialidade acadêmica vingente na comunidade científica, sem o uso de ofensas pessoais e falácias ad hominem.
VI. O Ateísmo Científico não é conspiratório: ou seja, não usa argumentos que envolvam raciocínios conspiratórios e teorias de conspiração, uma vez que tais argumentos são a priori irrefutáveis.
VII. O Ateísmo Científico baseia-se no naturalismo biológico não-reducionista: ou seja, deixa espaço para a subjetividade humana desde que ela seja minimamente formalizável em termos básicamente locais (dentro do cérebro) de processos físicos.
Lista de assinaturas:
1. Osame Kinouchi Filho – OsameKinouchi (Físico, Prof. Livre Docente do DFM-FFCLRP-USP)
2. André Luiz Alves Rabelo – (André, mande seu nick de twitter!)
3. E. Helena Neviani – Be_neviani (Química e Tuiteira de Ciências)
4. Juliana Motta Kinouchi – julianakinouchi (Colégio Metodista)
5. Mônica Guimarães Campiteli (Bióloga e Física, pós-doc IFSC-USP)
6. Rodrigo Rota (doutorando DQ-FFCLRP-USP)
7. Francisco Boni Neto – boni_bo
8. Pedro Almeida
9. Bruno Lobao Soares (Prof. Dr. – UFRN  e pesquisador colaborador do IINN-ELS)
10. Ariadne de Andrade Costa (física, mestranda DFM-FFCLRP-USP)
Observação: Estamos abertos para mais sugestões de items para a definição do Ateísmo Científico. Os mesmos princípios poderiam ser usados para definir o Ceticismo Científico, o Agnosticismo Científico e o Darwinismo Cosmológico, embora as posições filosóficas e ideológicas dessas diversas correntes sejam diferentes.
Update: Quando esta lista atingir 20 assinaturas, irei sortear o livro Em nome de Deus – O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo – Karen Armstrong.