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Marina é criacionista?

Marina Silva declara na Folha de hoje que não é criacionista, mas apenas que “acredita em Deus”:
“Um jovem me perguntou o que eu achava de as escolas adventistas ensinarem o criacionismo [a atual legislação brasileira permite que escolas confessionais façam isso]. Respondi que, desde que se ensine também a teoria da evolução, não vejo problema.

A partir daí, as pessoas começaram a dizer que eu estava defendendo o criacionismo. Sou professora, nunca defendi essa tese e nem me considero criacionista. Porque o criacionismo é uma tentativa de explicação como se fosse científica para responder a questão da criação em oposição ao evolucionismo.

Apenas acredito em Deus, é uma questão de fé. Nunca tive dificuldade em respeitar e me relacionar com os ateus, com as pessoas que professam outras crenças ou outra forma de pensamento diferente da minha.”
Não sou a favor de se votar em religioso apenas por que se é religioso, ou votar em ateu apenas porque se é ateu. Ao longo da história tivemos péssimos líderes políticos religiosos ou ateus, e ótimos líderes dos dois lados também. Não conheço nenhum estudo estatístico mostrando correlação entre bom desempenho político e falta de religiosidade (ou vice-versa). Mas é uma idéia que poderia ser realizada, da seguinte forma:
Pegue uma lista dos 100 ditadores mais conhecidos do século XX. Verifique sua biografia e divida em três classes: Ateu ou agnóstico (A), religioso não praticante (RN) e religioso praticante (RP). Determine os percentuais. Daí divida pela proporção da população em cada categoria, a fim de evitar a falácia da probabilidade de base (base rate fallacy).
Não que essa estatística fosse muito científica (um estudo sociológico-estatístico sério levaria anos de pesquisa). Mas de repente o Roberto Takata faz a pesquisa na Wikipédia, quem sabe?
Os blogueiros de ciência precisam se inteirar da diferença entre Criacionismo e Religião. Criacionismo é uma teoria pseudocientífica (pois equivale à teoria da Matrix de que nossa realidade é uma ilusão criada recentemente). Desígnio inteligente é um modismo político-científico, não existe de verdade fora dos EUA. Evolucionismo Teísta, a là Francis Collins, é apenas uma teoria filosófica, nenhum evolucionista teísta defende que isso seja ensinado em aulas de ciência.
E existem religiões não-teístas, que são mais parecidas com filosofias de vida. Pode-se desejar que filosofias de vida sejam compatíveis com a ciência, mas não se pode derivar – no sentido lógico – filosofias de vida a partir da ciência. Assim, toda filosofia de vida, por mais ateísta que seja, por definição não é científica.
Desconfio que a maior parte das pessoas religiosas valorizam suas religiões principalmente pelo aspecto de filosofia de vida, não pelo aspecto de cognição de verdades naturais. O teísmo filosófico, para essas pessoas, é um tópico menor em suas preocupações. Elas se agarram mesmo são aos valores e à vida comunitária das quais as religiões são apenas o arcabouço.
São esses valores e as atitudes políticas dessas comunidades que podem e devem ser criticados, duramente se necessário. Já “acreditar em Deus” ou em uma “força maior” por que isso daria sentido e beleza ao universo não é pecado maior que acreditar em supercordas porque isso daria sentido e beleza matemática ao universo. É uma crença inócua. OK, talvez não tanto, como diz Smolin em The Trouble with Physics
E eu, que acredito, como os físicos Alan Guth, Edward Harrison e Brian Greene, que as leis da física permitem a criação de universos artificiais, como fico? Será que isso me faz ser um criacionista?
PS: É claro que não sou ingênuo a ponto de acreditar que o auê na mídia levantando a bola da Marina seja sincero. Isso só está ocorrendo por que ela é vista como uma maneira de se tirar votos de Dilma, e caso ela ficasse para o segundo turno, seria bombardeada pela mídia até a morte. Mas nunca se sabe.
O partido verde é um problema. Mas um vaga de ex-petistas desiludidos pode ingressar em suas fileiras, promovendo uma refundação do partido.
Se Marina ficar para o segundo turno, creio que Lula a apóia. Pesquisa Datafolha diz que 42% dos eleitores votariam em qualquer candidato que Lula apoiasse. Marina tem muito mais carisma do que Dilma. Além disso, o que podemos dizer da saúde de Dilma durante a campanha?Imponderáveis…
Marina pode sofrer um efeito Obama, e ser adotada pelos jovens como candidata. Vai agregar também os 12% de votos da Heloísa Helena. O Twitter, os torpedos por celular, os blogs, as redes sociais têm feito coisas incríveis para campanhas políticas nos últimos tempos… Quem sabe?
Assim, prevejo que Serra só ganha se ganhar no primeiro turno. Se ficar para o segundo, aposto um Kit Colorado de que Marina leva. Alguém topa? (Caution aos desavisados: lembrem-se que já ganhei, praticamente, a aposta sobre a gripe suína: devemos atingir 500 óbitos hoje e dobrar esse número até o final do ano é simples consequência estatística).

Só ateus podem ser presidentes?

Recebi isso do Igor Zolnerkevic, blog Universo Físico, depois que o convidei para o Movimento de Apoio à Marina Silva Presidente:

Mas Osame, a Marina é criacionista… Bem, pelo menos participou de um encontro criacionista um pouco antes de deixar o cargo de ministra…

Isso é um bom gancho para a discussão sobre prioridades filosóficas e sobre o que é importante em uma votação política. Vamos supor que você é ateu ou agnóstico. Em quem você votaria se houvessem apenas as seguintes opções?

1. Um canditato ateu que defende posições políticas opostas à sua, por exemplo, um candidato ateu de extrema direita ou extrema esquerda.
2. Um candidato religioso que é próximo de suas posições políticas.

Se a resposta é 2, então a posição política da pessoa é mais importante que sua religião. Se não, a questão do ateísmo é mais importante que a questão política.

Dado que Serra, Ciro e Marina se declaram religiosos, para os ateus só sobra Dilma (parece que Heloisa Helena desistiu da campanha).

Agora só me falta alguém dizer que todo cientista deveria votar em Dilma, por ser atéia, por coerência lógica…

Segundo Dawkins, os religiosos light são mais perniciosos que os religiosos fundamentalistas (acho que ele tirou isso do manifesto Lei contra o Cristianismo, de Nietzsche):

Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.

Isso significa que, segundo Nietszche e Dawkins, devemos ser mais ríspidos com Serra e Ciro do que com Marina.

Portanto sobrou Marina e Dilma. Façam a escolha…

O Acaso e a Necessidade

O Acaso e a Necessidade de interpretá-lo parece ser inerente ao ser humano…

  • “Aquilo a que chamamos acaso não é, não pode deixar de ser, senão a causa ignorada de um efeito conhecido”.
Voltaire

“O acaso é uma palavra sem sentido. Nada pode existir sem causa.”

Voltaire
  • “O acaso é a lógica de Deus.”
Otto Friedrich Walter
  • “O acaso só favorece a mente preparada”
Louis Pasteur
  • “o acaso é lógico”
Johan Cruijff
  • “O acaso é o instrumento escolhido pelo destino para que seus mais importantes planos para conosco sejam relizados.”
Charles Tschopp
  • “Aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, mas fará pouquíssimas coisas”.
George Halifax
  • “Primeiramente: nada fazer ao acaso e sem finalidade. Depois: nada aceitar que não sirva para toda a humanidade.”
Marco Aurélio
  • “A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem”.
Simone Weil
  • “Geralmente são os bens que provêm do acaso que provocam inveja.”
Aristóteles
  • “O acaso é o maior romancista do mundo. Para se ser fecundo, basta estudá-lo.”
Honoré de Balzac

07/07/2009 – 10h22

Britânica que teve câncer e foi atacada por cães ganha na loteria

da BBC

Uma britânica que foi atacada por cães em janeiro e dois meses depois teve câncer de mama, acabou conhecendo também o outro lado da moeda ‘no pior ano’ de sua vida, ao ganhar na loteria.

Nicky Cusack, 43, uma mãe solteira de Swindon, em Wiltshire, no sudoeste da Inglaterra, faturou nada menos que 2,5 milhões de libras –cerca de na R$ 8 milhões.

Ela disse, entretanto, que continuará a trabalhar normalmente no supermercado onde é empregada.

“Ainda não caiu a ficha, é surreal”, disse Nicky, que foi diagnosticada com câncer de mama em abril, mas há apenas duas semanas teve alta com sessões de quimioterapia e radioterapia.

Em janeiro, ela foi ferozmente atacada por uma matilha de seis cães quando tentava proteger suas filhas.

“Desde janeiro, minha sorte tem sido horrível, foram seis meses horríveis. Finalmente veio algo de bom para mim”, disse ela.

Nicky contou que não acreditou quando viu que tinha acertado os números da sorte. “Eu li os primeiros números em voz alta para minha filha Jade, e ela disse: ‘você ganhou 10 libras [cerca de R$ 32]’.”

“Só então eu parei e me dei conta de que eu também tinha todos os outros números. Nós não conseguíamos crer. Liguei para minha filha mais velha, Kelly, e pedi que ela checasse. No começo, ela pensou que eu estivesse brincando, mas depois disse: ‘mãe, você ganhou na loteria!’.”

Nicky afirmou que o sorteio representa para ela a descoberta de “uma luz no fim do túnel”.

“Por muito tempo eu estava no fundo do poço e achei que [a luz] não existisse”, disse. “Será muito bom pagar minhas dívidas, mas também quero retribuir algo para a [instituição de caridade] Macmillan Cancer.”

Misticismo Ocidental

‘Intensivão’ ajuda monges do budismo tibetano a entender a ciência moderna

Universidade americana leva aulas de várias disciplinas para monastérios.

Iniciativa de entender conceitos científicos partiu do próprio Dalai Lama.
Monges e monjas tibetanos passam suas vidas estudando o mundo interno da mente, em vez do mundo físico da matéria. Porém, por mais de um mês nesta primavera, um grupo de 91 monásticos se dedicou ao reino corpóreo da ciência. Em vez de explorar amplamente textos budistas sobre karma e vazio, eles aprenderam sobre a lei de Galileu do movimento acelerado, cromossomos, neurônios e o Big Bang, entre outros tópicos diversos.

Desígnio Inteligente: filosofia e ficção científica

Continuando o debate:

Marco,

Deixa eu estender a discussão através do conto (Demiurgo, ver aqui) que estou submetendo a um concurso de ficção científica. Gostaria que você desse um forward para o Jeferson.

Nele eu mostro que é possível ser ateu e mesmo assim acreditar em desígnio inteligente, bastando ter um pouquinho de imaginação.

Ou seja, o ateísmo não é equivalente à afirmação de que o Universo surgiu por acaso. São duas posições filosóficas distintas. Arthur C. Clark era ateu mas o filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço é uma tese de desígnio inteligente, que Clark concebeu como possibilidade lógica compatível com a ciência.

Isaac Asimov, cético e ateu, tem um conto muito famoso no mesmo sentido: “A última pergunta”.

Então, o argumento contra o ensino de desígnio inteligente nas escolas não é que ele é religioso per si ou incompatível com a ciência (o conto mostra que não é!).

O argumento deve ser: DI (ou mesmo evolução teísta) não devem ser ensinados nas aulas de ciência porque não são teorias bem fundamentadas mas sim especulação científica (ou seja, idéias que poderiam eventualmente ser compatíveis com a ciência mas cujas evidências a favor são fracas, questionáveis, prematuras ou inexistentes).

Agora, se os defensores da DI ou evolução teísta proporem que as mesmas sejam ensinadas em aulas de filosofia, acho que não tem problema. Afinal, os estudantes aprendem em aulas de filosofia sobre o Ceticismo de Hume, o Solipcismo e o Idealismo de Berkeley, que são bem mais radicais (e não científicos) que a DI…

Abraços, e esperando uma nova rodada de comentários…

Osame

PS: Não adianta dizer que os proponentes do DI tem uma agenda religiosa secreta (ou não tão secreta) . Em termos de análise lógica isso tanto faz e afirmá-lo é cair em uma falácia ad hominen bem conhecida. Popper diz que mesmo se uma teoria for concebida devido a uma viagem de LSD, ela deve ser criticada por seus méritos (ou falta de) e nunca por sua origem.

Secularmente Correto

Foto: Buda Amithaba, com vestes e cabelos ocidentais. As primeiras estátuas de Buda foram feitas apenas no século II E.C. por escultores gregos em reinos orientais helenizados.

Um novo blog de Ceticismo e Filosofia Neo-Ateísta está no ar: o Coletivo Ácido Cético.

Marco Idiart e Jeferson Arenzon são meus amigos e não vou querer discutir com eles. Compartilho 100% a preocupação do blog sobre a infiltração de religiões pseudocientíficas na universidade. O problema primário não são as religiões, é claro, mas sim aquelas que se dizem científicas, pois aí o choque com a ciência é frontal.

Entretanto me preocupa também o surgimento de uma espécie de radicalismo ou puritanismo secularista, similar ao movimento de linguagem politicamente correta. Como vocês sabem, este blog não é politicamente correto, é pós-politicamente correto, e não é positivista, mas pós-positivista (ou seja, pós-pós-moderno).

Acho que meus amigos novo-ateístas deveriam ler um pouco mais de antropologia da religião, sociologia da religião , psicologia da religião e história das religiões, com o objetivo de fazerem críticas mais científica e historicamente corretas. Nem que seja no nível Wikipédia. Não deveríamos ter um novo-ateísmo que seja inferior ao Hegelianismo de esquerda do século XIX. Bom, é só um conselho, mas se conselho fosse bom…

Do blog Coletivo Ácido Cético:

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Pelo fim dos feriados…


…religiosos, que fique bem claro. Nosso país têm
74% de católicos (a maior população de católicos do mundo) embora nem todos praticantes. Para piorar, nem todos seguem uma única religião. Há, por exemplo, os católicos-espíritas, os judeus-espíritas, apesar de todas as contradições. Mesmo assim, temos um grande número de feriados nacionais religiosos. E todos eles correspondem a uma única religião, o catolicismo. Não seria mais justo então ter 1/4 dos feriados religiosos distribuídos entre as outras religiões? Yom Kippur? Feriado nacional. Nascimento de Allan Kardec? Feriado nacional. E assim por diante.

Ou, num estado realmente laico, não ter nenhum feriado religioso? Poderíamos trocar todos esses feriados por outros, sem fazer referência a motivos religiosos. Por exemplo, o Natal poderia voltar às origens e ser o Dia do Solstício. A sexta-feira santa poderia se tornar um dia de reflexão e homenagem a todas as pessoas que morrem em acidentes de trânsito (não é irônico, e triste, que morram mais pessoas em acidentes num feriado religioso do que num dia normal?). Essa troca dos feriados religiosos por feriados laicos (ou sua simples extinção) evitaria algumas polêmicas envolvendo o sensato e informado bispo de Porto Alegre e os comerciantes locais, pelo menos.

Meu comentário no blog:

Osame Kinouchi disse…

Me parece que cada municipio pode escolher 5 dias por ano para serem feriado municipal, alem dos estaduais ou federais.Tentem emplacar o dia de Darwin como feriado (ou o dia de Pi). Aposto várias cervejas que isso nao passa na camara de vereadores.

Assim, se nem no nivel municipal é possivel mudança, me parece combater moinhos de vento tentar no nivel federal.

Agora, se é pra secularizar, então sejamos radicais (como os iluministas da revolução francesa).

1. Domingo é o dia do Senhor (Dominus). Deveriamos mudar o nome do dia para Primeira-feira e cancelar o dia de descanso (que tal transferir para segunda feira?)Ah, sim, o nome dos dias da semana em Ingles e nas linguas latinas fora o português também deveriam ser modificados, por se referirem a deuses romanos.

2. O dia do solstício é 21 de Dezembro, e não é um feriado científico mas sim religioso (no paganismo romano e no atual movimento New Age).

3. Os nomes dos meses Janeiro (deus Janus), Fevereiro (de Februus, deus da morte etrusco), Março (deus Marte), Abril (deus Aprus = etrusco para Venus), Junho (deusa Juno). E dado que Julho (Júlio Cesar) e Agosto (César Augustus) foram nomeados em função de esses dois imperadores serem considerados deuses, com direito a templos, sacrifícios etc, acho que a homenagem deveria ser retirada também.

4. Talvez fosse bom mudar todos os nomes astronômicos (constelações, planetas, satélites) de deuses greco-romanos também. Eu proponho que chamem Júpiter de planeta Kinouchi…

Deveriamos sugerir este programa de ação para o Dawkins?

Engraçado, foi a Inquisição Portuguesa que secularizou os nomes dos dias da semana… Cuidado para não inventarem outras inquisições… Pessoal, sou simpático à causa de vocês, mas talvez fosse melhor eleger uma lista de prioridades. Acho que combater a infiltração da pseudociência dentro das universidades é uma tarefa Hercúlea, já está de bom tamanho.

Ops, acho que não fui secularmente correto, usei a palavra Hercúleo… :´)

oOo

Complementando, existe um artigo interessante de Reinaldo Lopes do Visões da Vida no G1 argumentando que Jesus era considerado “senhor” e “deus” (ou “filho de deus”) por seus primeiros seguidores no mesmo sentido que Júlio César ou Augusto eram senhores e deuses. Isso servia como contestação política ao definir quem deveria ser a autoridade suprema.

A mudança do conceito de Jesus como deus (minúsculo) para o Deus infinito Aristotélico (maiúsculo) parece só ter ocorrido séculos depois, em um processo de deificação similar ao que ocorreu ao Buda Amitabha, conhecido como o Buda da Luz, do Caminho e da Vida. Outra coisa curiosa é que este tipo de budismo surge na mesma época do cristianismo (século II), em uma região de cultura helenizada conectada com o império romano através da rota da seda, pregando uma doutrina de “salvação pela graça” do Buda de Luz:

In the versions of the sutra widely known in China, Vietnam, Korea and Japan, Dharmakāra’s eighteenth vow was that any being in any universe desiring to be born into Amitābha’s Pure Land and calling upon his name even as few as ten times will be guaranteed rebirth there. His nineteenth vow promises that he, together with his bodhisattvas and other blessed Buddhists, will appear before those who call upon him at the moment of death. This openness and acceptance of all kinds of people has made the Pure Land belief one of the major influences in Mahāyāna Buddhism. Pure Land Buddhism seems to have first become popular in northwest India/Pakistan and Afghanistan, from where it spread to Central Asia and China.

Fico pensando se isto não corresponderia a um movimento coletivo comum que atingiu de Roma até a Índia, refletindo necessidades sócio-históricas ligadas à uma contestação da sociedade de castas. Lembremos que Roma, na época, também é quase uma sociedade de castas.

Uma curiosidade histórica é que os cristãos eram chamados de “ateus” por não aceitarem os deuses romanos nem os imperadores-deuses. Aparentemente foram os primeiros “ateus” a serem perseguidos politicamente.

Quem tem medo de Francis Collins?


Um post interessante no Effect Measure, que reproduzo abaixo apenas uns pedaços pois não conheço a política de copyright do Science Blogs.

In the view of New Scientist journalist Amanda Gefter, The Discovery Institute, high priests of Creationism as an allegedly rational enterprise, aren’t really worried about Richard Dawkins. Presumably he’s just a great fund raising device for them. The one who really scares the BeJesus out of them is biologist Francis Collins, the evangelical Christian rumored to be Obama’s choice as next Director of NIH:
The Discovery Institute – the Seattle-based headquarters of the intelligent design movement – has just launched a new website, Faith and Evolution, which asks, can one be a Christian and accept evolution? The answer, as far as the Discovery Institute is concerned, is a resounding: No.
The new website appears to be a response to the recent launch of the BioLogos Foundation, the brainchild of geneticist Francis Collins, former head of the Human Genome Project and rumoured Obama appointee-to-be for head of the National Institutes of Health. Along with “a team of scientists who believe in God” and some cash from the Templeton Foundation, Collins, an evangelical Christian who is also a staunch proponent of evolution, is on a crusade to convince believers that faith and science need not be at odds. He is promoting “theistic evolution” – the belief that God (the prayer-listening, proactive, personal God of Christianity) chose to create life by way of evolution. (Amanda Gefter,New Scientist)
Gefter believes the Collins alternative has forced The Discovery Institute to admit their real motive is religious, not scientific. And she may be right. She’s followed this closely for some time and interviewed many of the main figures, including last year’s winner of The Templeton Prize, given for “Progress toward Research or Discoveries about Spiritual Realities.”
O resto do post você pode ler aqui. O autor nota que a possível indicação do evangélico Collins para a chefia do NIH fez  alguns blogueiros de ciência ficaram meio arrepiados. Mas observa que Collins é uma pessoa razoável e não merece este tipo de patrulhamento.

Acho que esta é uma distinção interessante: existem pessoas religiosas (r) e pessoas não religiosas (~r), e existem pessoas razoáveis (R) e pessoas não razoáveis (~R), e as duas linhas divisórias não coincidem. Muita gente não percebeu que todas as religiões estão fraturadas e que a grande disputa por poder é entre os religiosos R e os ~R dentro de uma mesma religião. Um exemplo é a disputa entre a BioLogos Fundation de Collins e os think tanks fundamentalistas.

Eu conheço um monte de pessoas rR e ~rR, mas todos sabemos que a maioria dos leitores que comentam raivosamente em blogs científicos jornalísticos são pessoas r~R (o que é uma contradição, pois imagino que elas deveriam amar seu inimigos…).  Marcelo Coelho escreveu hoje uma importante coluna no Caderno Mais da Folha sobre isso, que discutirei aqui se a mesma for liberada para não assinantes.

Agora, o que eu não entendo são os ~r~R, ou seja, pessoas que usam argumentos falaciosos e inverdades históricas para criticar a religião. Afinal, não é necessário apelar para isso para se fazer uma boa crítica da religião. As pessoas ~r~R acabam tirando toda a luz do iluminismo (desculpem o trocadilho) e dando enorme munição para os r~R. Daí para serem retratadas como illuminatti potencialmente terroristas, como no estereótipo sobre cientistas que sem querer (?) o livro do Dan Brown (e o filme) cria, é um passo. Acho que todos precisamos lembrar que somos apenas humanos, nem anjos nem demônios…
PS: OK, OK, eu sei que no filme os cientistas terroristas illuminati não existem. Mas o filme acaba sugerindo na mente do espectador médio que se as culture wars entre ciência e religião continuarem,  um dia cientistas anti-religiosos poderiam se tornar terroristas. 
Talvez isso seja um reflexo da campanha do Dawkins: se vemos uma pessoa verbalmente violenta, inferimos que ela poderia se tornar fisicamente violenta, embora essa inferência não seja correta. Não podemos afirmar que o ateísmo de Marx e Engels “gerou” perseguições religiosas na URSS…   

Exerça seu livre arbítrio agora!


Um post muito interessante de Ed Yong do Science Blog Not Exactly Rocket Science.

Ed Yong is an award-winning science writer based in London. Not Exactly Rocket Science is his attempt to make the latest scientific discoveries interesting to everyone by beating jargon, confusion and elitism with the stick of good writing. He finds writing about himself in the third person strange and unsettling.

When it comes to the human brain, even the simplest of acts can be counter-intuitive and deceptively complicated. For example, try stretching your arm.

Nerves in the limb send messages back to your brain, but the subjective experience you have of stretching isn’t due to these signals. The feeling that you willed your arm into motion, and the realisation that you moved it at all, are both the result of an area at the back of your brain called the posterior parietal cortex. This region helped to produce the intention to move, and predicted what the movement would feel like, all before you twitched a single muscle.

Michel Desmurget and a team of French neuroscientists arrived at this conclusion by stimulating the brains of seven people with electrodes, while they underwent brain surgery under local anaesthetic. When Desmurget stimulated the parietal cortex, the patients felt a strong desire to move their arms, hands, feet or lips, although they never actually did. Stronger currents cast a powerful illusion, convincing the patients that they had actually moved, even though recordings of electrical activity in their muscles said otherwise.

But when Desmurget stimulated a different region – the premotor cortex – he found the opposite effect. The patients moved their hands, arms or mouths without realising it. One of them flexed his left wrist, fingers and elbow and rotated his forearm, but was completely unaware of it. When his surgeons asked if he felt anything, he said no. Higher currents evoked stronger movements, but still the patients remained blissfully unaware that their limbs and lips were budging.

These contrasting responses tell us two important things. Firstly, they tell us that our feelings of free will originate (at least partially) in the parietal cortex. It’s the activity of these neurons that creates a sense that we initiate actions of our own accord. Secondly, they show that the sense of moving doesn’t depend very much on actually doing so – it depends on calculations that are made in the parietal cortex, long before the action itself begins.

(…)

Dualist philosophers like Descartes believed that the mind and consciousness exist outside the physical world, producing our actions by interacting with the physical meat of our brains. The idea has become commonplace, but it’s challenged by neuroscientific studies like this one, which show that the conscious intention to move emerges from electrical activity in neurons, tangible objects that are all too real.

Continue a ler no blog do Ed Yong.

Complexo de Cassandra II

Em 04 de janeiro de 1999 eu escrevi o texto abaixo no livro “O Beijo de Juliana”, disponível aqui.

Bom, faz tempo que eu chamo atenção para esse tema de que a cultura mundial pode evoluir para um estado bastante refratário à perspectiva científica. Ou melhor, um mundo onde a ciência será usada apenas como suporte da tecnologia, mas não como fonte de uma visão de mundo (isto é proposto no Contracultura de Theodore Roszack). De certa forma, esse mundo já existe (especialmente na França, dizem…). O elemento novo talvez seja o de que a Universidade (que considero mais um gueto do que um bastião do racionalismo) talvez venha a se tornar um dia no bastião do Irracionalismo (pós-moderno)… Atualmente, só o Papa, com sua última encíclica, ainda acredita nos poderes da Razão…
Acho que está se formando um consenso entre diversos analistas de que o século XXI será marcado não apenas por guerras religiosas e culturais, mas principalmente pela guerra de todas as religiões contra a Ciência… Encaro tudo isso numa perspectiva bastante impessoal, de competição e acomodação de memes, todos lutando por espaço num mundo com um número finito de cérebros. A Ciência é muito incômoda, fica querendo usar inseticida nos memes dos outros. Mas agora vai ter que passar para a defensiva, pelo menos em termos políticos. Eu preferia a acomodação e cooperação, mas acho que vai ser guerra mesmo. Essa lógica Darwiniana cultural escapa aos nossos desejos, pelo menos por enquanto…
Mas agora ando mais tranqüilo com relação a isso. Primeiro, porque não vejo muito que se possa fazer, ou o que fazer sem que se cometa injustiças (como as de Bunge em relação a Bayes). Segundo, remar contra a maré é uma maneira besta de se desperdiçar a vida. É preciso usar estratégias mais inteligentes, estratégias que ainda não sei quais são. Além disso, desconfio que estamos numa situação em que todos os lados têm um pouco de razão.
Em todo caso, é curioso observar a passagem do tempo, as noticias dos jornais, e pensar se esses pequenos fatos que estamos observando têm um significado mais permanente, sinais de grandes tendências culturais, ou se são apenas uma simples flutuação de espuma que desaparecerá em breve no rio da história. Por exemplo, ontem deu no Fantástico uma reportagem sobre a grande campanha que alguns evangélicos estão promovendo pelo direito dos pais de retirar seus filhos das escolas públicas, transferindo-os para escolas confessionais ou para o aprendizado em casa. O argumento desses pregadores para os pais cristãos é de que eles não têm o direito de arriscar a alma de seus filhos colocando-os em contato com o ambiente secularista das escolas. E isso acontece mesmo com todo o “esforço” que as escolas públicas americanas tem feito em “adequar” seu ensino às “necessidades da comunidade”, reintroduzindo o ensino de religião, procurando não ofender as diversas opiniões religiosas e culturais envolvidas etc. etc…
De algum modo isso se parece com a quebra de algum principio bastante fundamental (originário do Iluminismo) sobre educação laica para todas as crianças. Como o Iluminismo é o grande vilão da história atualmente, a contestação desse principio é vista como um grande ato libertário…
Bom, mas talvez isso seja apenas uma espuma que se dissipe daqui a alguns anos. Ou então uma das pequenas nuvens negras (existem outras) que anunciam a tempestade. Quem pode dizer? Se tentarmos, talvez não façamos um trabalho muito melhor que os astrólogos durante a passagem do ano…
Passados 10 anos, a espuma não se dissipou, mas se tornou parte das culture wars americanas, que tanto alimentam os blogs, inclusive os de ciência. Na época, minha preocupação com essas coisas era vista com ceticismo por meus colegas pois afinal, segundo eles, “a pseudociência é algo marginal e sem importância e basta darmos uma educação melhor para o povo que o resto se resolve…” 

Esqueceram de falar isso para o pessoal que assiste Quem Somos Nós 2?

Foto: Minha filha Juliana, que me deu o beijo do título do livro.

Espírito de Porco

Entenda por que o porco tem simbologia negativa nas religiões

VANESSA TEODORO
da Folha Online

Evitando pandemias no futuro

Parece que o porco, além de ser um animal muito inteligente (mais inteligente que o cachorro!) e parecido com o ser humano (lembremos que são usados nas faculdades de Medicina para treinar cirugiões e nos experimentos do CSI), é também um incubador de vírus de gripe, interagindo com a gripe aviária.
Eu tenho uma proposta: que os vegetarianos de todo mundo centrassem seus esforços em uma lista de prioridades de eliminação mundial de consumo de carne começando pelo porco. Afinal, no mundo de Star Trek, não existe consumo de carne…
Vejam as vantagens:
1. Vegetarianismo ético: evitamos fazer sofrer os seres mais autoconscientes e parecidos com os seres humanos. Já conseguimos eliminar, em nível mundial, praticamente o consumo de chimpanzés, baleias e golfinhos. Os próximos alvos deveriam ser o porco e o polvo. E afinal, fora os franceses, alguém pode me explicar porque não consumimos cavalos?
2. Evitando pandemias: Interrompemos um elo essencial nas pandemias de gripe, as fazendas de porcos.
3. Gás metano: Eu tenho quase certeza que porcos produzem gases de efeito estufa.
4. Saúde: Eliminando-se a linguiça e o bacon da alimentação, acho que isso contribuiria para a questão da obesidade.
5. Poluição: Se evitariauma quantidade absurda de dejetos nos sistemas fluviais e poluição atmosférica (ver aqui).
6. Deve haver mais vantagens: coloque aí nos comentários…
Acho que a redução do consumo de porco  é bastante viável: me parece bem mais fácil do que a redução do consumo do tabaco em lugares públicos e consumo de álcool antes de dirigir, que envolvem substâncias que viciam (ou seja, afetam o sistema dopaminérgico).
E, culturalmente, não deve ser muito difícil: pelo menos no Brasil, o consumo de porco é baixo relativamente à outros animais e os lobbys não são fortes (embora o Brasil seja o terceiro produtor mundial). Em termos culturais, o apoio de certas religiões (judaismo, islamismo, budismo etc) pode ser útil nessa questão. Até hoje não entendo por que os cristãos consomem porco, dado que biblicamente ele é um símbolo de doença Lembram da historinha de Jesus expulsando demônios (vírus de computador mentais?) que alegoricamente escapam para uma manada de porcos?
Hipótese de psicologia evolucionária da religião: 1. Alguns tabus alimentares apenas foram criados para delimitar a comunidade religiosa (tags em jogos de cooperação); 2. Alguns foram sugeridos a partir de uma experiência coletiva com pandemias e pragas; 3. Os tabus que agregam os itens 1 e 2 são os mais presentes na população humana. O porco seria um deles?

Figura da Nature Reviews MicrobiologyTwo of the three pandemic influenza A virus strains during the past century, H2N2 in 1957 (which caused Asian flu) and H3N2 in 1968 (which caused Hong Kong flu), arose from genetic reassortment, in which gene segments from an avian virus were mixed with genetic material from a co-infecting human virus, probably through an intermediate host, such as a pig (the mixing vessel theory). The haemagglutinin (HA) of human influenza A viruses has a binding preference for cell receptors that contain 2-6-linked sialic-acid moieties, whereas avian viruses bind preferentially to 2-3-linked sialic acids moieties. The respiratory epithelial cells of pigs have receptors that express both 2-3- and 2-6-linked sialic-acid moieties, and can be infected by both human and avian viruses. The resulting viral progeny will either be intact avian or human virus, which can only infect their respective hosts or, if reassortment yields functional virus (usually swapped HA, PB2 and/or neuraminidase (NA)), a new pandemic strain might emerge with the ability to retain efficient human-to-human transfer, but be sufficiently different (for example, by a species change in HA) to reduce the ability of the host to mount an effective immune response. PB2, polymerase basic-2 protein.

Ciência e Religião 2.0

Ontem apresentei a versão bastante mudada da palestra “Ciência e Religião”, curso de difusão cultural aqui no DFM-FFCLRP-USP. A versão 2.0 em PDF pode ser encontrada aqui.

Está ficando cada vez mais claro que um grande problema para a Divulgação Científica, especialmente no caso dos blogs opinativos, é como se situar dentro da polarização ideológica entre neo-teístas (por exemplo os cientistas ganhadores do prêmio Templeton) e neo-ateístas (Dawkins, Dennet, Harris etc).

Uma coisa curiosa que noto é que a grande maioria dos novos teístas são físicos enquanto que a maioria dos novos ateístas são biólogos. Para provocar meus amigos biólogos, menciono uma frase de John D. Barrow em um debate com Richard Dawkins: “Richard, o problema com você é que você não é um cientista. Você é um biólogo.”

Eu tenho uma solução provisória que seria a de os jornalistas de ciência e blogueiros terem uma abordagem crítica e informativa, com maior profundidade histórica e filosófica, desmitificando argumentos dos dois campos.

Por exemplo, quando criticamos a Teoria da Terra Jovem (literalismo bíblico), acho que uma melhor idéia não é apenas apresentar as evidências que a contradizem (isso seria o nível básico da informação científica) mas também mostrar que a Teoria é irrefutável pois equivale à Teoria da Matrix = este mundo é uma ilusão criada por um Deus tecnológico, uma grande simulação que poderia ter se iniciado não apenas há 6.000 anos atrás, mas sim há 6 dias atrás… Este tipo de teoria meio solipsista é irrefutável e portanto não científica a priori.

Do mesmo modo, o mito de que cientistas teriam sido mortos ou torturados pela Inquisição precisa ser desmitificado. É um mito inventado pelos iluministas do século XVIII como propaganda mas não possui a menor base histórica. Por exemplo, Giordano Bruno não era um cientista, nem exatamente um livre-pensador, mas sim um mago renascentista que via no Heliocentrismo o sinal de uma Nova Era onde o culto ao deus Sol egípcio Aton iria derrubar o cristianismo. Foi condenado por suas opiniões teológicas (que configuravam opiniões político-ideológicas) e não exatamente por suas opiniões científicas.

Outro exemplo é o caso Galileu, ver aqui, que os historiadores modernos consideram uma anomalia nas relações Igreja e Ciência (porque na época a Igreja patrocinava fortemente as pesquisas científicas e as artes em geral). Galileu era bastante sarcástico e acabou granjeando muitos inimigos dentro e fora da Igreja, mesmo entre universitários seculares. Alguns desses inimigos formam um complô para prejudicá-lo, e o meio para isso na época é denunciá-lo por heresia.

Deve-se lembrar que o Tribunal da Inquisição só tinha autoridade sobre católicos confessos (como era o caso de Galileu) e a discussão sobre o Heliocentrismo no caso Galileu era se ele tinha o direito de ensiná-lo como teoria comprovada ou como teoria especulativa. O cardeal Belarmino tinha uma visão instrumentalista da ciência (como a maior parte dos cientistas hoje) onde uma teoria científica é um modelo da realidade, mas não uma visão com acesso direto à realidade. Já Galileu era um realista convicto, pré-Kantiano.

Galileu afirmava que o Heliocentrismo estava comprovado (mas naquele momento realmente ainda não estava, pois não havia eliminado explicações e teorias alternativas). Sua versão do Heliocentrismo era empiricamente deficiente: órbitas circulares em vez de Keplerianas, que produziam previsões empíricas piores do que o sistema Ptolomaico. E a falta de efeitos de paralaxe nas estrelas (uma previsão do Heliocentrismo) parecia constituir uma forte evidência contra o modelo.

A natureza dos fenômenos astronômicos observados pelo telescópio também não era clara, pois ele não tinha uma teoria de como o telescópio funcionava (tópico bastante discutido por Thomas Kuhn): ou seja, para os céticos da época (o pessoal das universidades) o telescópio seria como uma máquina Kirlian cujas fotos “provariam” a existência da aura (o que não é o caso…). Também os céticos hoje não ficam perdendo seu tempo com máquinas Kirlian. A presença de efeitos de distorção cromática não ajudava muito seu caso: como distinguir os fenômenos reais das ilusões de ótica?

Uma coisa que aprendi esses dias foi que, na verdade, o principal fator que impediu a aceitação do Heliocentrismo foi a reputação de Ticho Brahe como astrônomo e sua defesa do seu modelo híbrido geocêntrico. Foi Ticho que também chamou a atenção da falta de paralaxe estelar como argumento contra o Helicentrismo. Esse fator, pelo que conheço do meio universitário, parece bastante plausível…

O esclarecimento de certos mitos e inverdades históricas seria um tema interessante para a Divulgação Científica. Lembro como achei um absurdo Marcelo Gleiser afirmar em seu primeiro livro que o Aristotelismo dominou o Ocidente por mil anos, dado que Aristóteles só foi redescoberto no Ocidente através da tradução dos trabalhos do filósofo árabe Averroes no século XIII.

E assim vai… Que tal este desafio, amigos blogueiros? Em nossos posts, nunca mostrasmos um conhecimento de história da ciência inferior ao que pode ser encontrado facilmente na Wikipedia? Acho que esse é o nível mínimo que podemos estabelecer para nós mesmos…

Ciência e Religião

Me pediram para colocar um link para o powerpoint da palestra Ciência e Religião. Ela pode ser encontrada aqui na STOA.
A palestra será reapresentada no dia 22 de abril (semana que vem) na sala 23 do Departamento de Física e Matemática da FFCLRP-USP. Faz parte curso de difusão cultural “Diálogos sobre o Pensamento e Prática Científica”.

O primeiro genocídio patrocinado pela Nova Era?

Isto é um extrato do livro BAD SCIENCE por Ben Goldacre

Publicado por Harper Perennial 2009.

Você tem a liberdade de copiar, colar, cozinhar, reimprimir, ler em voz alta, contanto que não modifique o conteúdo – inclusive esta parte – de forma que as pessoas saibam onde podem encontrar mais idéias de graça emhttp://www.badscience.net/

Sanção Penal Apropriada


Tendo em vista a escala e a gravidade do crime de Achmat e sua responsabilidade criminal direta pelas “mortes de milhares de pessoas”, para usar suas próprias palavras, respeitosamente propomos à Corte Criminal Internacional que deve ser imposta ao réu a pior sentença prevista no Artigo 77.1 (b) do
Estatuto de Roma, especificamente, o confinamento permanente em uma pequena jaula de concreto e aço, pintada de branco, com uma brilhante luz fluorescente ligada permanentemente para mantê-lo sob vigilância, com seus carcereiros pondo-o a trabalhar todos os dias na prisão para cultivar verduras ricas em nutrientes, inclusive quando estiver chovendo. Para que ele pague seu débito com a sociedade, que lhe sejam administradas diariamente as drogas ARV que ele alega tomar, sob supervisão médica, na totalidade da dosagem prescrita, pela manhã, tarde e noite, sem interrupção, para impedí-lo de fingir que está seguindo o tratamento, enfiadas, caso necessário, por sua goela abaixo com os dedos, ou, se ele morder, chutar e gritar demais, injetadas em seu braço, depois que ele tenha sido amarrado em uma padiola pelos tornozelos, pulsos e pescoço, até que ele entregue sua alma, de forma a erradicar este veneno, o mais desprezível, inescrupuloso e malevolente que já infestou e envenenou o povo da África do Sul, em sua maioria negros, em sua maioria pobres, por quase uma década atualmente, desde que sua TAC entrou em cena.
Assinado na Cidade do Cabo, África do Sul, em 1 de janeiro de 2007
a) Anthony Brink

Este documento foi descrito pela Fundação Rath como “inteiramente válido e já devido há muito tempo”.

Esta história não é sobre Matthias Rath, ou Anthony Brink, ou Zackie Achmat, ou mesmo sobre a África do Sul. Ela é sobre a noção cultural sobre como as idéias funcionam e como ela pode deixar de funcionar. Doutores criticam outros doutores, acadêmicos criticam acadêmicos, políticos criticam políticos: isso é normal e saudável, é como as idéias melhoram. Matthias Rath é um terapeuta alternativo, feito na Europa. Ele é semelhante em cada pedacinho aos operadores britânicos que vimos neste livro. Ele pertence ao mundo deles.

Apesar dos extremos deste caso, nem um único terapeuta ou nutricionista alternativo, em qualquer parte do mundo, se levantou para criticar um único aspecto das atividades de Matthias Rath e seus colegas. Na verdade, longe disso: ele continua sendo festejado até hoje. Eu fiquei perplexo em ver figuras eminentes no movimento de terapia alternativa no Reino Unido aplaudirem Matthias Rath em uma conferência pública (eu tenho ela em vídeo, só para o caso de alguém duvidar). Organizações de saúde natural continuam defendendo Rath. A propaganda dos homeopatas continua a promover o trabalho dele. A Associação Britânica de Terapeutas Nutricionais tem sido convidada por blogueiros a comentar, mas declina. A maior parte, quando interpelada, responde evasivamente: “Oh!… Eu não sei realmente muito sobre isso”. Nenhuma pessoa dá um passo à frente e discorda.

O movimento pela terapia alternativa, como um todo, se demonstrou ser tão perigosamente, sistematicamente incapaz de auto-crítica que não consegue fazer frente nem a um caso como o de Rath: nesta conta eu incluo dezenas de milhares de praticantes, escritores, administradores e outros. É assim que as idéias vão de mal a pior. Na conclusão deste livro, eu argumento que os piores perigos colocados pelo material abordado são de natureza cultural e intelectual.
Eu posso estar errado.

/.

Por favor divulguem

Este trabalho está licenciado sob uma Creative Commons Attribution-Non-Commercial-No Derivative Works License descrita aqui. Você é livre para copiar ele quando quiser, contanto que mantenha sua integridade e, por favor, aponte de volta aqui para badscience.net para que, quem gostar, saiba onde encontrar mais de graça.

O texto todo em português está no Chi Vó Non Pó, aqui.

Ciência e Religião: a palestra

Não sei quem redigiu esse anúncio, mas acho que chamar o SEMCIÊNCIA de importante blog brasileiro é um exagero (70 visitas dia apenas…). Isto não é falsa modéstia, os importantes blogs de ciência são aqueles escritos com profissionalismo, como os blogs que concorreram ao BlogBlogsBrazil. A importância do SEMCIÊNCIA se deve apenas ao fato de que ele originou o Anel de Blogs Científicos (que por falar nisso, está de volta sem códigos que eram detetados como vírus pelos sistemas anti-vírus). Visitem o ABC!

75 ANOS DA USP
14/04 (3ª feira)
17h30

Ciência e Religião

Prof. Dr. Osame Kinouchi Filho (FFCLRP)
Osame Kinouchi Filho é físico, com graduação pela USP de São Carlos, doutorado pela USP de São Paulo e pós-doutorados pelas duas instituições. Atualmente é professor do Departamento de Física e Matemática da FFCLRP-USP. Sua especialidade é a modelagem de fenômenos físicos, biológicos e sócio-culturais usando ferramentas da física teórica. Ele possui um forte interesse pela divulgação científica, sendo o coordenador do Laboratório de Divulgação Científica do DFM-FFCLRP-USP e o responsável por um dos blogs científicos mais importantes do país, o SEMCIÊNCIA (www.comciencias.blogspot.com).
19h
Orquestra de Câmara Cultura e Extensão
USP – Ribeirão Preto
Anderson Lacerda, César Monteiro, David Barbosa (violino I) / Carolina Duarte, Ângela Masetto (violino II) / Lucas Eduardo (viola), Rosângela Masetto, Thieres Brandini (violoncelo) / Danilo Paziani (contrabaixo) / Sergio Alberto-de-Oliveira (regência e contínuo) Hélcio Baroni (monitoria)
PROGRAMA
Música para Sonhos de Uma Noite de Verão II
Henry PURCELL (ca. 1659 – 1695)
Concerto Grosso “La Folia”
Francesco GEMINIANI (ca. 1680 – 1762)
Divertimento nº 1 K 136
W. A. MOZART (1756 – 1791)
The Entertainer
Scott JOPLIN (1868 – 1917) – arranjo para cordas: Fabrizio Ferrari
*****
15/04 (4ª feira)
17h30
Mulheres e Cultura: Uma Dialética Complexa
Profª. Drª. Giulia Crippa (FFCLRP)
Giulia Crippa é graduada em letras modernas pela Universidade de Bolonha, Itália, e doutora em história social pela USP de São Paulo. Atualmente é professora do Curso de Ciências da Informação e Documentação da FFCLRP-USP. Seus trabalhos concentram-se nas áreas de estudos culturais, estudos medievais e estudos sobre mulheres e o feminismo, com ênfase em arte, cultura, comunicação, coleções e memória.
Entrada franca

Local: ECEU/FMRP – Espaço Cultural de Extensão Universitária Av. 9 de julho, 980 – Ribeirão Preto – SP

Informações: (16) 3602.0695

Realização: Grupo Coordenador das Atividades de Cultura e Extensão Universitária / USP Ribeirão Preto.

Alguns pensamentos soltos sobre Ciência e Pseudociência

Maria Guimarães do Ciência e Idéias sugeriu no Roda de Ciência (do qual este post faz parte) que eu transformasse meus comentários em um post. Favor deixar os comentários lá! Aqui vai, mas ainda sem muita ponderação, pois estou fazendo meu relatório bianual (o último!) da Comissão de Regime de Trabalho da USP, o relatório trianual de bolsa de pesquisa do CNPq (que será quase o mesmo…), trabalhando no novo artigo sobre medidas de centralidade na rede de ingredientes culinários com Adriano, Roque e Rosa (lembrar de contatar o Peter Riegler) e preparando o seminário Ciência e Religião a ser dado no Espaço de Cultura e Extensão (rua 9 de Julho em ribeirão) no dia 14 de abril, às 17 horas. Ufa!

Vamos definir pseudociência primeiro? Proponho a seguinte definição mínima: uma afirmação ou teoria é pseudocientífica se ela contradiz teorias científicas bem estabelecidas, não dá conta de forma honesta das evidências contrárias (por exemplo, só o faz apelando a teorias conspiratórias) e AO MESMO TEMPO afirma de modo forte que continua a “ser científica”.

Assim, se uma corrente filosófica ou escola (ou religião) não afirmam ser científicas, então não são pseudocientíficias por esta definição: ou seja, elas nao tentaram passar por científicas (dai o adjetivo pseudo) quando não o eram.

Neste esquema, a Psicanálise, o Camdomblé e a Teologia da Libertação não são pseudocientíficas, mas a o Criacionismo científico, a Cientologia e o Espiritismo seriam (apenas na medida que afirmam que possuem bases científicas sólidas que na verdade não possuem).

Achei o tom do post do Igor meio rigoroso, ele elimina a Economia e a Meteorologia como campos cientificos (para nao falar das ciencias sociais) pois em tais áreas nao é possivel fazer previsoes. Ou alguém previu (cientificamente) a crise mundial?

E eu aprendi em “Contra o Método” de Feyrabend e “A Estrutura das Revoluções Científicas” de Kuhn que o processo cientifico nao é tão certinho, progressivo e linear assim. Acho que existem práticas metodológicas (usar bons metodos estatísticos, evitar falácias lógicas, argmentar usando evidências etc), mas fica dificil acreditar no Método com M maiúsculo.

Talvez isso ocorra por eu ser um físico teórico que nunca obteve nenhum resultado usando algum “método científico” (afinal, eu sou um cara muito desorganizado!). O meu “método” é ler muito, conversar muito com colegas, ficar antenado com a literatura, perseguir certas idéias fixas com muiiiiiiita persistência – por exemplo que criticalidade é um conceito importante no processamento neural, por anos a fio (mais de 12 anos) – sem que haja evidência ou motivação empírica, mas apenas pela curiosidade de verificar se realmente seria possível obter tais resultados e pela intuição de que seria bonito e intrigante se realmente tal fosse o caso.

Ou seja, os físicos estatísticos computacionais como eu fazem modelos baseados em idéias e programas de pesquisas anteriores, que têm sua própria história e seus próprios problemas, tal como Inre Lakatos descreveu. Fazemos modelos para desenvolver idéias e questões já colocadas na área, ou novas questões que aparecem naturalmente, ou então alguma idéia criativa de algum colega que precisa ser melhor examinada. A motivação certamente não é o empirismo puro de cartilha, ou mesmo o método Popperiano: fenômeno – hipótese – teste – refutação – nova hipótese etc.

O método na física teórico-computacional é mais ou menos assim: idéias e modelos cujo comportamento precisam ser melhor conhecidos – uso de simulações (“experimentos”) para:

1. Ver se tudo vai de acordo com nossos preconceitos (expectativas teóricas);
2. Se tudo bater, ficou um trabalho fraco, pois não tem novidade;
3. Mas se surgir algum comportamento inesperado ou curioso, existe a possibilidade de publicá-lo (a ciência é uma atividade pública, conhecimento privado existe mas não é ciência, chama-se patente ou copyright);
4. No paper é necessário discutir e tentar explicar o comportamento observado: OK, neste estágio faz-se hipóteses e as testamos, não de forma exaustiva mas apenas o suficiente para convencer os referees – afinal o tempo e a vida são finitos, o tamanho dos papers são finitos e a paciência nossa e dos referees também!
5. Não têm problema se esta falta de rigor signifique que o paper se mostrará errado ou obsoleto no futuro. No futuro, quase todos estarão! O importante é transmitir novas idéias, criticar antigas, servir de andaime (e não de ponto final) na caminhada da área de pesquisa. Um paper com erros pode ser seminal, um paper perfeito pode ser perfeitamente inútil também!

Uma melhor descrição do processo científico é a idéia de que cientistas seguem “programas de pesquisa” (Inre Lakatos). E nesses programas existe um núcleo duro de afirmações que não serão submetidas a refutações (o que equivaleria a dogmas, sim), ou talvez a uma “formulação mínima teológica, tipo Concílio de Nicéia). O tal cinturão protetor de hipóteses (ad hoc ou não) de Lakatos visa proteger, defender e estender o núcleo. Se você mudar o núcleo duro, você muda o programa de pesquisa , o que seria análogo a mutações religiosas (aparecimento de novas seitas, etc).

Ou seja, a ciência evolui através da morte de antigas idéias (e seus defensores, segundo Plank) e o surgimento de novas “seitas” na nova geração de pesquisadores. O mesmo ocorre dentro da Religião, de modo que não é nesse carater sociológico de mutação e substituição que Religião e Ciência diferem. Elas diferem mais sobre no que conta no processo de seleção, na função de fitness da “seita”: compatibilidade com outras teorias teológicas, características sociológicas, econômicas, mercadológicas e psicoterapêuticas no caso das religiões e características argumentativas, compatibilidade com outras teorias, características sociológicas , econômicas e maior peso para evidências (nem sempre decisivo, porém essencial!) no caso das ciências.

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Achei também a igualdade natureza = ciência que o Igor propôs meio esquisita, porque os dois lados da equação deveriam ser da mesma natureza, mas de um lado temos ontologia e do outro lado temos epistemologia…

Dêem uma olhada em:
http://paginasdefilosofia.blogspot.com/2009/03/onde-esta-verdade.html

Eu acho que se queremos combater a pseudociência de forma eficaz, como querem os céticos, precisamos ter uma epistemologia e uma filosofia da ciência mais sofisticadas. Não adianta argumentar que os filósofos da ciência não eram cientistas (o que não é verdade no caso de Kuhn (físico) e Poincaré (matemático)).

Murray Gell-Mann (inventor da teoria dos quarks) critica o movimento cético em seu livro O Quark e o Jaguar pois acha que o movimento pode degringolar em patrulhamento cientifico. Dado que Gell-Mann é um WASP conservador (meu herói ficaria mais para o anarquista Feynman), essa crítica me parece muito séria!

Finalmente, pelo que me lembro, o Ceticismo filosófico (Hume e cia) é um movimento que lança dúvidas sobre o conhecimento científico. Céticos (filosóficos), desde os gregos antigos, não “acreditam” na Ciência, vamos dizer assim. Será que o movimento cético precisa mudar de nome ou é a corrente filosófica (antiga!) que precisaria revisar o seu?

****************

Pois é, se um Astrólogo disser que o Horóscopo de jornal é apenas um método simbólico de introspecção ou auto-ajuda que usa um procedimento tradicional apenas gerar novos padrões de pensamentos e perspectivas para o dia, evitando pensamentos rotineiros – ou seja, um método de brain storming individual – não vejo como acusá-lo de pseudociência (pois ele não afirmou que horóscopo era ciência!). Eu conheço pesquisadores que usam I Ching ou drogas para terem novas idéias científicas – o grande matemático Paul Erdos, por exemplo, recomendava fortes doses de café com Ritalina. Esses métodos de aleatorização do pensamento são usados na fase criativa da ciência (mutação e crossover), não na fase de avaliação crítica (seleção), e nessa fase “vale tudo”.

Mas se o astrólogo afirmar que existem sim conexões fisicas entre os astros e o psiquismo humano (sejam campos físicos seja o emaranhamento quântico tao na moda depois de Quem Somos Nós 2), então ele será um pseudocientista (na minha definição).

Eu acho que a minha definição é uma definição mínima, que questiona as afirmativas ontológicas das religiões mas deixa de fora as afirmativas não ontológicas (ou pelo menos as afirmativas que se querem científicas), as diversas filosofias de vida, a arte, muito do senso comum, muito da medicina (não “baseada em evidências” mas em práticas que funcionam como tomar aspirina antes de descobrirem porque aspirina funciona), das engenharias, das técnicas, know hows, teoria de marketing, administração, economia, e mesmo das terapias com cheiro New Age ou não (psicoterapias ou terapias corporais). Basta que essas terapias não afirmem que são (ou já são) científicas, basta que elas não peçam selo ANVISA. Basta apenas reconhecer isso: que elas não são científicas e que talvez nem precisem ser…

Mesmo assim, a minha definição pega o Criacionismo, o Inteligent Design e muito da New Age tipo Quem Somos Nós como pseudocientíficas. E se o cara acredita que a reencarnação ou UFOs já foi “comprovada científicamente” mas tudo está escondino no ArXiv (digo, Arquivo X), então também ele será um pseudocientista, e não apenas um religioso…

Acho que essa delimitação é importante, porque embora a religião seja um grande concorrente da ciência em termos de ocupar memeticamente os corações e mentes da população, são as crenças pseudocientíficas tipo Homeopatia “científica”, Ufologia, Deuses Astronautas e Criacionismo “Científico” etc que concorrem com as práticas científicas em seu própio campo, e é aí que a coisa pega ou deveria pegar…

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The basic theorem of interdisciplinary research states: Physicists not only know everything;
they know everything better. This theorem is wrong; it is valid only for computational statistical physicists like me – Dietrich Stauffer.

A ciência é o melhor caminho para o conhecimento?

Uma primeira resposta para Luciana, do SERPSICO.

Sim, a ciência é o melhor caminho para o conhecimento científico. Para outros tipos de conhecimento (por exemplo, como viver melhor), nós temos a literatura, a poesia, a filosofia, os conselhos da vovó, o aprendizado através de seus erros, os provérbios de sabedoria etc.

E, mesmo sendo cético, você também pode aproveitar (alguns) livros de auto-ajuda, espiritualidade e religião. Basta lembrar que o bom senso e os insights sobre a vida humana estão em todo lugar, não precisam de teste duplo cego para estarem corretos (precisam disso apenas quando queremos transformá-los em conhecimento científico).

Agora, o problema surge quando se afirma que “a ciência prova que X é verdade”, seja X o emaranhamento das conciências humanas, a homeopatia ou a teoria da reencarnação. Sorry, essas coisas não passaram pelos testes científicos, não, e você estará cometendo inverdades se espalhar isso para as pessoas. Você pode acreditar nisso e, se quiser afirmar que são verdades científicas, deve pesquisar duro para obter evidências científicas a favor mas… jogando o jogo da ciência, em vez de trapacear intelectualmente, como se faz, por exemplo, nos filmes “Quem somos nós?”

Embora o esoterismo de direita tenha inspirado os nazistas, continua sendo fato de que uma mentira, mesmo repetida mil vezes (por antiquíssimos livros que sejam) até pode se tornar “verdade social “mas não “verdade científica”. Pose-se enganar alguns por muito tempo, e muitos por pouco tempo, mas não todos por todo tempo.

Porque o treinamento básico do cientista é detetar erros, seus próprios e dos outros. Mais cedo ou mais tarde, os (as) cientistas vão separar o joio do trigo no conhecimento científico. O princípio espiritual do cientista é evitar a todo custo o auto-engano e o engano dos outros, a menos que ele queira usar o efeito placebo em si próprio (o que pode ser bom às vezes…).

Exemplo de conhecimento não-científico válido:


Vida

“Não coma a vida com garfo e faca. Lambuze-se!

Muita gente guarda a vida para o futuro.

É por isso que tantas pessoas se sentem emboloradas na meia-idade.

Elas guardam a vida, não se entregam ao amor, ao trabalho, não ousam, não

vão em frente.

Não deixe sua vida ficar muito séria, saboreie tudo o que conseguir:

as derrotas e as vitórias, a força do amanhecer e a poesia do anoitecer.

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz

você precisa aprender a gostar de si, a cuidar de si e,

principalmente, a gostar de quem também gosta de você”.

Mário Quintana

Comemorando os 177 da publicação da Seleção Natural de Darwin?

Este post pertence à Roda da Ciência. Por favor, faça comentários apena lá.
Advinhe quem escreveu isso?

There is a law universal in nature, tending to render every reproductive being the best possible suited to its condition that its kind, or organized matter, is susceptible of, which appears intended to model the physical and mental or instinctive powers to their highest perfection and to continue them so. This law sustains the lion in his strength, the hare in her swiftness, and the fox in his wiles. As nature, in all her modifications of life, has a power of increase far beyond what is needed to supply the place of what falls by Time’s decay, those individuals who possess not the requisite strength, swiftness, hardihood, or cunning, fall prematurely without reproducing—either a prey to their natural devourers, or sinking under disease, generally induced by want of nourishment, their place being occupied by the more perfect of their own kind, who are pressing on the means of subsistence . . .

There is more beauty and unity of design in this continual balancing of life to circumstance, and greater conformity to those dispositions of nature which are manifest to us, than in total destruction and new creation . . . [The] progeny of the same parents, under great differences of circumstance, might, in several generations, even become distinct species, incapable of co-reproduction.

Se você falou Darwin, errou. Foi publicado em um livro (que recebeu resenhas importantes na época) por Patrick Matthew em 1831, ou seja, 27 anos antes de Darwin e Wallace.
Dizem que um precursor em ciência é o cara que publicou mas não “descobriu” uma idéia (no mesmo sentido que Cabral descobriu o Brasil depois de vários precursores). Sociólogos da ciência dizem que esse efeito Mateus (Ao que tem, lhe será acrescentado, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado) é muito forte na comunidade científica que, como todos sabemos, tem a mania de criar mitos sobre gênios científicos e esquece que a ciência é um trabalho coletivo. Por exemplo, será que Darwin teria tido a idéia da Seleção Natural se não tivesse lido Malthus?
Vou levantar uma hipótese sobre um dos fatores mais importantes para a minimização da contribuição científica de certos precursores: a religião do fulano. Ou seja, como cientistas temos que adotar o materialismo metodológico: não podemos ficar dizendo que nosso experimento deu tal resultado porque Deus (ou minha “Consciência Quântica”) atuou naquele momento, ou que uma nova espécie  de Drosophila surgiu porque Deus (ou minha “Consciência Quântica”)  assim quis. O cientista pode ter crenças religiosas privadas, mas isso não pode afetar (diretamente) sua pesquisa científica. Essas são as regras do jogo e apenas os caras do Inteligent Design e da New Age não aceitam isso.
Matthews tinha uma visão de Teologia Natural, ou seja, ele via a Seleção Natural como o algorítmo genético usado por Deus (afinal algoritmos genéticos são bem mais eficientes do que design puro). Wallace se tornou espiritualista (espiritismo inglês). Será que isso não afetou o julgamento histórico de Darwinistas ateus como Thomas Huxley? Como foi que surgiu a afirmação falsa, disseminada até hoje, de que o trecho acima passou despercebido dos evolucionistas porque estava no apêndice no livro de Mattews?
Da Wikipédia

Darwin then wrote a letter of his own to the Gardener’s Chronicle, stating: 

I freely acknowledge that Mr. Matthew has anticipated by many years the explanation which I have offered of the origin of species, under the name of natural selection. I think that no one will feel surprised that neither I, nor apparently any other naturalist, has heard of Mr. Matthew’s views, considering how briefly they are given, and that they appeared in the Appendix to a work on Naval Timber and Arboriculture. I can do no more than offer my apologies to Mr. Matthew for my entire ignorance of his publication.
Darwin here, as well as later commentators, erred by attributing Matthew’s discussions solely to the Appendix, as the main text of the work also presents in sufficiently recognizable detail “this natural process of selection among plants” (see pages 307 to 308).
Ou seja, o descobridor reconhecido de uma idéia não é quem teve a idéia (e publicou!) primeiro, mas quem adquiriu reputação científica suficiente, trabalhou de forma obsessiva-compulsiva para documentar e desenvolver a idéia e tinha uma rede social de amigos (discípulos, cientistas, jornalistas, políticos etc)  ampla, ou seja, um hub na rede científica. Darwin era esse hub, e é por isso que devemos reconhece-lo não como um precursor, mas como o descobridor da idéia de Seleção Natural como mecanismo evolutivo.

Jornalismo científico em baixa?

Foto: Isis Nóbile Diniz, raro exemplo de blogueira científica (XIS-XIS) e jornalista (Portal G1).

Acredito que a principal diferença entre jornalismo científico tradicional e os blogs de ciência é que os primeiros devem (deveriam) seguir os padrões jornalisticos de objetividade, isenção, ouvir as diferentes partes etc. No caso dos blogs isso é muito difícil (a menos que seja apenas um blog noticioso).
Blogs são, jornalisticamente falando, colunas de autores específicos, com opiniões editoriais fortes, muitas vezes partidárias. Nos blogs científicos as notícias são comentadas, contextualizadas, refletem a opinião do autor. E opinião, mesmo vinda de um cientista, não é ciência, continua sendo opinião.
Não acredito que isso seja um demérito, mas sim mérito dos blogs, pois é uma atividade complementar ao jornalismo noticioso de ciência. E, mesmo que você faça apenas cut and paste de notícias científicas em seu blog, isso não é neutro ou irrelevante: reflete sua seleção pessoal sobre o que julga importante levar ao conhecimento de seus leitores. Tem um efeito multiplicativo na propagação da informação, seja por mantê-la no ar por mais tempo, seja por levantar discussão nos comentários, seja pela seleção de certos tópicos em detrimento de outros.
Bom, em todo caso, parece que os blogs de ciência vieram para ficar. Basta ver este artigo que saiu na última Nature. Mas o problema da baixa audiência e aceeso aos blogs continua sem solução. Minha proposta é que portais jornalistísticos criem blogs de ciência (mesmo não pagos). Acho que isso acontece com o Portal G1 mas é incrível e vergonhoso que a Folha Online não possua blogs de ciência com excessão de Marcelo Leite, que reconhece que seu blog é sobre Biologia e Política, não sobre Biologia.

Para uma visão alternativa e uma discussão longa nos comentários, veja o post do Ítalo no Geófagos.

Science journalism: Supplanting the old media?

Science journalism is in decline; science blogging is growing fast. But can the one replace the other, asks Geoff Brumfiel.

Um trechinho, que acho que não viola copyright (afinal o texto é de livre acesso).
(…)
In part because of a generalized downturn, especially in newspaper revenues, the traditional media are shedding full-time science journalists along with various other specialist and indeed generalist reporters. A Nature survey of 493 science journalists shows that jobs are being lost and the workloads of those who remain are on the rise (for full results see http://tinyurl.com/c38kp6). At the same time, researcher-run blogs and websites are growing apace in both number and readership. Some are labours of love; others are subsidized philanthropically, or trying to run as businesses.

It’s a blog world

Traditional journalists are increasingly looking to such sites to find story ideas (see ‘Rise of the blogs‘). At the same time, they rely heavily on the public-relations departments of scientific organizations. As newspapers employ fewer people with science-writing backgrounds, these press offices are employing more. Whether directly or indirectly, scientists and the institutions at which they work are having more influence than ever over what the public reads about their work.

The amount of material being made available to the public by scientists and their institutions means that “from the pure standpoint of communicating science to the general public, we’re in a kind of golden age”, says Robert Lee Hotz, a science journalist for The Wall Street Journal. But that pure standpoint is not, or should not be, all that there is to media coverage of science. Hotz doubts that blogs can fulfil the additional roles of watchdog and critic that the traditional media at their best aim to fulfil. That sort of work seems to be on its way out. “Independent science coverage is not just endangered, it’s dying,” he says (see‘Vox media’).

(…)

While journalists such as Zimmer expand their mainstream work into their blogs, bloggers with roots in the lab are moving into print. Myers will soon contribute a regular column to the Guardian newspaper in the United Kingdom. Derek Lowe now writes regular columns for The Atlantic and the trade magazine Chemistry World (both have also written for Nature). This work, though, tends towards opinion and analysis, not reporting. “Bloggers don’t want to be journalists,” says Zivkovic. “I want to write on my blog whatever I want. I may write a post about a new circadian paper, but the next eighty posts are about politics or what I ate for breakfast.” Despite his distaste for how the trade is practised, he thinks that there will always be a need for professional journalists covering science. “Somebody has to actually be paid to write about things as they come out,” he says.

Vc pode conseguir o texto todo em PDF aqui.

Ciência da Fé

O Portal G1 mantém uma seção-blog interessante chamada Ciência da Fé, onde discute-se novas descobertas científicas que vêm questionar a visão tradicional de diversas religiões, em particular as religiões bíblicas. Conselho: antes de ler os comentários dos posts, tome um Engov a fim de aguentar o baixo nível intelectual dos leitores, tanto religiosos como arreligiosos.
Estou pensando em entrar de forma mais profissional nesse debate dos neo-ateístas (liberais) contra os evangélicos neocons (direita)  e neo pentecostais (neoliberais). Um debate curioso dado que tanto os neo-ateus como evangélicos brasileiros são fanáticos do mercado — e o mercado é o sistema econômico mais favorável à liberdade e proliferação religiosa, pois afinal as igrejas neopentecostais são regidas como empresas (as igrejas tradicionais são mais parecidas com ONGs). Mas alguém aí é contra empresas e empreendedorismo?
Já os ateus socialistas, que combatiam a religião usando legislação de Estado, parece que desapareceram de vista. E os católicos e evangélicos de esquerda, que não são poucos, infelizmente são ignorados e desprezados por todos… Bom, na verdade, eles ficaram abalados pelo fracasso do Sandinismo na Nicarágua, pela queda do Muro e pelo movimento carismático na década de 80, e foram finalmente massacrados pelo papa neocon e os neoliberais avivados nos últimos 15 anos…
Mas em vez de ficar colocando aqui achismos e preconceitos, vou fazer um estudo de primeira mão tentando entender as razões do sucesso de mercado das diversas igrejas. Acho que não dá mais pra ficar falando generalidades, é preciso saber o público que atendem, que necessidades satisfazem, e porque as religiões tradicionais, seja a Católica, sejam os protestantes históricos, os evangélicos e mesmo pentecostais tradicionais, e mesmo o Espiritismo Kardecista e os cultos afro-brasileiros não conseguem dar conta do recado. Até mesmo a New Age anda meio desunida e capenga!
Uma coisa que me impressionou muito ocorreu esta semana, quando entrei com minha namorada em uma loja New Age – esotérica e descobrimos que na verdade a dona era evangélica neopentecostal e o marido anglicano. Ela nos contou que embora tenha enfrentado críticas na Igreja, continua a manter a loja do mesmo jeito porque encara isso como seu ministério pessoal, ou seja, acha que as pessoas que vão comprar incenso, talismãs, cristais, decoração indiana etc, são pessoas psicologicamente necessitadas que podem ser aconselhadas e evangelizadas por ela. 
Quando ela falou isso, eu pensei duas coisas:
1. Meu Deus, os memes neopentecostais são tão mutáveis como o HIV.
2. Coitado do movimento New Age… está sendo invadido sem saber.
Um exemplo de notícia do Portal G1:
Crença no arrebatamento é colagem de textos bíblicos, dizem especialistas.
“Em caso de Arrebatamento, este veículo ficará desgovernado.” Adesivos com esses dizeres podem ser vistos nos carros de evangélicos do mundo inteiro, inclusive no Brasil. A ideia é que, no fim dos tempos, os cristãos realmente fervorosos serão arrebatados (daí o nome) de corpo e alma para o céu, enquanto uma série de catástrofes naturais e políticas afetarão a Terra durante sete anos. Ao fim desse período, Jesus voltará como conquistador ao nosso planeta, derrotando o Anticristo numa grande batalha em Israel. Esse cenário épico é inspirado em várias passagens da Bíblia — mas é preciso forçar consideravelmente a interpretação do texto sagrado para chegar a ele, de acordo com especialistas.

Em essência, a crença no Arrebatamento é uma colagem de trechos do Novo e do Antigo Testamento, cada um deles com perspectivas diferentes sobre o futuro da humanidade e o retorno glorioso de Jesus Cristo à Terra. “É uma tentativa de criar um mapa dos eventos futuros com base, por exemplo, no Apocalipse, no capítulo 13 do Evangelho de Marcos e na Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses”, diz Paulo Augusto Nogueira, professor da pós-graduação em ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo.

 

De acordo com o americano Thomas Sheehan, estudioso do cristianismo primitivo e professor da Universidade Stanford, a ideia do Arrebatamento é relativamente recente. “Ela foi criada pela primeira vez no começo do século XIX, graças ao trabalho do pregador evangélico John Nelson Darby, e foi se tornando cada vez mais codificada ao longo do século XX, até chegarmos aos cenários detalhados que cristãos conservadores de hoje defendem”, diz Sheehan. As chamadas igrejas cristãs históricas, como a Igreja Católica, a Igreja Anglicana e as várias igrejas luteranas, não adotam as mesmas crenças.