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Deuses como Inteligências Coletivas


Do G1: Ao pensar em Deus, pessoas usam regiões ligadas à interação com outros. Resultados indicam que não há ‘órgão divino’ único na mente humana.

Ando ficando pagão, pelo menos em termos de neuroteologia, memética e sociofísica. Ou seja, acredito que nossos deuses habitam não apenas nossas mentes (algo que qualquer ateu defenderia), mas a rede social-mental-cerebral dos diversos grupos sociais (algo que Levi Strauss, Edgar Morin, Pierre Levy e outros defenderiam, acho). E, como escritor de FC, eu levantaria a hipótese que esses memes coletivos poderia ter atingido o estágio de autoconsciência, milênios atrás, antes mesmo da indivudualização do ego humano – na verdade a hipótese é de Jaynes (A Mente Bicameral), que me foi recentemente lembrada por Sidarta Ribeiro. 
Afinal, de um punhado de neurônios que não pensam (mas interagem) emerge a consciencia humana, então parece ser muito mais plausível que deuses enquanto consciências emergentes possam aparecer um um rede de unidades (cérebros) que já pensam. Como dizia Strauss, “não somos nós que criamos os mitos, as sim os mitos que vivem através de nós...”
Como eu disse em um post anterior, eu tenho muitos amigos com as mais variadas visões de mundo: ateus militantes, agnósticos, existencialistas, teístas, panteístas, panenteístas, religiosos liberais, cristãos de esquerda, judeus anti-sionistas simpatizantes da New Age e simpatizantes de cultos afro-brasileiros. É uma bagunça!
Eu tive a triste experiência de perder meu melhor amigo de adolescência (que era espírita) depois que escrevi um trabalho entitulado “O Programa Kardecista visto pela Teoria dos Programas de Pesquisa de (Inre) Lakatos” onde a conclusão era de que, na melhor das hipóteses, o programa Kardecista estava cjeio de hipóteses ad-hoc e era decadente. 
Como não ando muito animado em repetir a dose (quanto mais velho você fica mais raros ficam os amigos), eu ando contemporizando, como todos do blog percebem. É porque, em certo sentido, discutir religião é como discutir futebol e mulher… religião não é um problema empírico (embora os neoateus construam um argumento-espantalho caracterizando o problema assim). 
Religião, assim como poesia, é uma questão de gosto. E não dá para chegar a conclusão que, dado que poesia não é ciência, então não é uma fonte de conhecimento (do mundo humano, da psicologia humana etc). É uma fonte de conhecimento não científica do mundo, e há muitas outras, que são essenciais: culinária, cuidado infantil, jardinagem, sabedoria para viver epara morrer, valores, política, ideologia etc. 
Mesmo assim, correndo o risco de perder um (grande!) amigo, continuo aqui o debate com Nestor (que fez comentários em um post anterior, em vez de debater privadamente esses assuntos).

OK, Nestor, concordo que o fundamentalismo americano clássico (1900-? , que nasce numa luta contra o Darvinismo Social), o movimento carísmático (1960 – ?, movimento mistico dentro de igrejas liberais) e o neopentecostalismo (1980-?, avivamento religiosos com doutrina neocalvinista – Teologia da Prosperidade) sao mais importantes em PIB e socialmente que o movimento New Age, a Teologia da Libertação (com a qual tenho simpatias) e as religiões afro-brasileiras. Mas não dá para você discutir “religiao” em abstrato, botando tudo no mesmo saco. Prefiro uma sociedade com Martin Luther King e a missionária que foi assassinada pelos fazendeiros do Amazonas do que uma sociedade que contenha apenas ateus (bonzinhos e mauzinhos). Ou seja, eu ainda prefiro uma sociedade plural, não acho que os cientistas deveriam, por exemplo, trabalhar ativamente para “educar” e extinguir os valores e visões de mundo indigenas, afro-brasileiros e neopentecostais tipo Igreja Universal (que não é uma igreja aceita pelas igrejas tradicionais mas encarada como seita e que, sociologicamente, realmente é um sincretismo entre a umbanda e o neopentecostalismo). 

Para discutir com propriedade o tema religião, é necessário dar nomes aos bois… Eu ainda acho que um ateu liberal está mais próximo de um religioso liberal e que um ateu conservador está mais próximo da TFP. O eixo liberal-conservador é mais relevante que o eixo religioso-arreligioso!

Diálogos sobre o pensamento e a prática científica

Este curso de difusão (3a idade) será oferecido na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, USP. Será que vou dar conta de falar sobre Ciência e Religião de maneira não trivial? A verificar.
Diálogos sobre o pensamento e a prática científica

Curso de difusão cultural na forma de palestras, em que apresentamos visões sobre a Ciência e suas relações com diversos aspectos que fazem parte do cotidiano das pessoas. Por meio do curso pretende-se contribuir para a educação científica de uma parcela da população que reconhece a Universidade como um centro gerador de conhecimento científico, mas que não identifica uma correlação entre a atividade de pesquisa nela realizada e seus impactos no dia a dia. As palestras serão dadas por docentes do Departamento e colaboradores do DPE FFCLRP e DCM FMRP.

Título – Diálogos sobre o pensamento e a prática científica

Duração: 11 semanas

Período: entre 15 de março e final de maio.

18 de março: Amando Siuiti Ito – Física quântica: no que se aplica.

25 de março: Giulia Crippa – Divulgação científica, ontem e hoje.

01 de abril: Lucília Romão – Linguagem da Ciência e Ciência da linguagem

15 de abril: Rosa Garcia – Ciência na Alimentação

22 de abril: Osame Kinouchi Filho – Ciência e religião.

29 de abril: Luciano Bachmann – Luz ultra-violeta: heroína ou vilã?

06 de maio: Marco Antonio de Almeida – Ciência nos meios de comunicação.

13 de maio: Clarice Sumi Kawasaki – A Biologia que faz falta ao cidadão.

20 de maio: Antonio Carlos Roque da Silva Filho – Inteligência humana e inteligência artificial

27 de maio: Sílvia Maria do Espírito Santo – O conhecimento em uma comunidade indígena

03 de junho: Adelaide de Almeida – Radiações, diagnóstico e tratamento médico

Patrulhamento ateísta


Ainda sobre a discussão levantada pelo Reinaldo Lopes, o patrulhamento ateísta que certos cientistas ou divulgadores de ciência têm exercido, ou não, sobre seus colegas. Se você tiver dúvida sobre se é patrulhamento mesmo, basta verificar o grau de “seriedade” que o ateu assume, achando que tal coisa é um assunto decisivo, que 100% dos cientistas deveriam ser ateus (militantes?) e que é impossível ser bom cientista e ter visões religiosas (de qualquer tipo). Isso nao te lembra os chatolinos da LibeLu ou PC do B antes da queda do muro? OK, eu estou usando ad Hominen, mas num sentido humorístico… Mas em todo caso, precisamos avaliar se é patrulhamento mesmo (pressao social para conformidade de opinioes) ou críticas sérias a serem respondidas. Mas quantos ateus leram dois ou três livros de sociologia da religião (Durkhein, Peter Berger ou mesmo O que é religião, Colecao Primeiros Passsos!)? Então, como podem suas críticas desinformadas serem tomadas seriamente? é que nem conversar com New Ager sobre o significado da Mecânica Quântica, nao dá pé!

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Como o debate se ampliou, resolvi ampliar meu comentário sobre incompatibilidade entre ciência e religião.

1. A situação dos defensores do criacionismo/design inteligente/causa eficiente é no mínimo curiosa. Na literatura ocidental, Mefistófeles é “aquele que nega”, e nega especialmente a Divindade. A ironia do estado de negação é que justamente os criacionistas vivem negando os fatos, as teorias científicas que já foram experimentadas etc., assumindo rigorisamente a posição de Mefistófeles. De outro lado, contrariamente, nunca provam absolutamente nada do que afirmam.

2. A ciência está subordinada ao rigor experimental. À possibilidade de repetição e à veracidade dos fatos. Como se demonstra pela conduta dos religiosos, estes não se ocupam com a veracidade, nem mesmo com sinceridade de suas afirmações. Por isso, suas assertivas tendem a ser falsas, inverossímeis ou inverificáveis.

3. O discurso de Darwin é especialmente interessante na medida em que retira Deus e insere o acaso na seleção natural. A partir daí, a ciência evolui. Graças a isso, estuda-se a origem dos homens e dos demais animais. Calcula-se o tempo próximo da vida dos dinossauros etc. Em sentido totalmente oposto, a religião permanece estática e nega, por exemplo, a idade do planeta Terra e, também, a idade do Universo. E continua sustentando que o planeta Terra surgiu há 6.000 anos. Portanto, do meu ponto de vista, o acaso é muito mais relevante que Deus.

4. A Bíblia é só um livro. E minha biblioteca está cheia deles. Normalmente os religiosos nada sabem de literatura e vivem querendo nos dar aula de citação de textos que não conseguem compreender.

5. Os religiosos nunca colaboraram com a formação de sociedades produtivas, criativas e/ou democráticas.

6. Depois de queimar Giordano Bruno na fogueira, pelo que me lembro, o Papa não disse: ups … pisei no tomate!!!!

7. Os métodos mais bárbaros de coerção humana foram criados por religiosos. Por exemplo, a tortura foi inserida no processo medieval como forma de obter a verdade do indivíduo. Após a purificação de sua alma, o indivíduo era queimado para que pudesse subir aos céus. Isso é fato, não é ficção.

8. A religião é dogmática. Ou seja, não permite discussão sobre seus termos. Daí porque se adequa a teocracias. A ciência é dialética. Daí porque se adequa a democracias.


Entao aqui vai meu comentário:

Paulo é um ateu razoavelmente culto. Mas se arvorou como paladino nao apenas do ateismo filosofico, mas sim da ciencia e da modernidade. Entretanto, algumas de suas afirmativas sao primárias, precarias ou, caridosamente falando, inverdades. Outras sao apenas manifestacoes retoricas e falácias (tipo Straw Man ou Ad Hominen).

Cientistas, em principio, nao deveriam se expressar desta forma. Assim, fui dar uma olhada no curriculo Lattes do Paulo, apenas para prevenir (vai que o cara se torne meu proximo parecerista no CNPq!).

Nao encontrei o nome lá. Acho que Paulo nao é cientista, e portanto nao deveria se colocar como porta-voz dos cientistas praticantes (eu sou um deles). O Google apena me informa que Paulo parece ser um (ótimo) advogado, e isso explicaria sua capacidade de argumentacao e articulacao. Explicaria tambem sua tendencia em usar retorica e falacias (desde que passem despercebidas) pois imagino que para um advogado o importante é ganhar a discussao (advogados sao sofistas) e nao ganha-la usando apenas raciocinios logicos com pouca retórica (como no ideal cientificio).

Espero que Paulo me entenda: nao estou querendo desqualifica-lo, seus argumentos devem ser respondidos pelo que sao, nao estou apelando a argumento de autoridade. Mas estou questionando sua aparente autoproclamacao como defensor da pratica cientifica, pratica da qual ele nao é praticante, nao tem experiencia nem é perito. Paulo nunca seria chamado em um tribunal para emitir pareceres sobre filosofia da ciencia, metodo cientifico ou história da ciência.

Assim, gostaria de arrolar aqui quatro afirmacoes de Paulo que sao historicamente ou logicamente falsas, o que suscita a dúvida sobre se outras de suas colocacoes, tao taxativas, tambem poderiam sê-lo:

0. Paulo expressa nos itens 1 e 2 a filosofia da ciencia chamada de Verificacionismo ou Positivismo Lógico, que foi totalmente derrubada e superada pelo Falseonismo de Popper, Lakatos e seguidores. E mesmo o Popperianismo foi parcialmente refutado por Thomas Kuhn, Feyrabend e outros filósofos e sociologos da ciência (gente como Bruno Latour que realmente estudaram a prática da ciância in vivo. Conclusão: Paulo nao tem a menor idéia sobre o método científico como realmente praticado pelos cientistas…

1. Giordano Bruno nao era cientista nem pode ser considerado martir da ciencia. Era um mago renascentista que acreditava que a religiao egipcia de Aton (o Deus Sol) iria renascer na Europa e superar o Cristianismo. Era por isso que defendia Copérnico (O deus SOL-Aton deveria estar no centro do Universo!). Hoje, Giordano seria considerado um New Ager, um Erick von Daniken ou coisa pior (sua frase sobre muitos mundos habitados é mais do tipo de um ufólogo do que de um cientista). Foi queimado em uma era de intolerancia contra opinioes radicais, especialmente politicas como as dele. Mas nao creio que Paulo, com seu racionalismo cientifico, apoiaria ou defenderia Giordano hoje. Talvez pudesse ser o advogado de acusacao, dadas suas antipatias com a pseudociência (da qual Giordano era e ainda é um expoente).

2. – ”Os religiosos nunca colaboraram com a formação de sociedades produtivas, criativas e/ou democráticas.”

Acho que o livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber refuta a tese de Paulo. Mas se Paulo for anti-capitalista, podemos lembrar que Nietzsche afirma que foi o judeo-cristianismo que constituiu no Ocidente a raiz ideológica de todos os males (para Nietzsche, claro!), ou seja, do iluminismo, socialismo, do feminismo, do anarquismo e da idéia de que todos os seres humanos são irmãos, filhos do mesmo Pai, e que divisões em sociedades de castas ou fortes classes (como na Índia, Japão, Inglaterra, ou no código de Manu que Nietszche adorava) são contrárias a uma autoridade que está acima de qualquer autoridade ou poder terreno.

3. “O discurso de Darwin é especialmente interessante na medida em que retira Deus e insere o acaso na seleção natural. A partir daí, a ciência evolui. Graças a isso, estuda-se a origem dos homens e dos demais animais. Calcula-se o tempo próximo da vida dos dinossauros etc. Em sentido totalmente oposto, a religião permanece estática e nega, por exemplo, a idade do planeta Terra e, também, a idade do Universo. E continua sustentando que o planeta Terra surgiu há 6.000 anos. Portanto, do meu ponto de vista, o acaso é muito mais relevante que Deus.”

Atualmente, com excessao de uma minoria (dentro do próprio criacionismo), nenhum teólogo defende a Teoria da Young Earth (6000 anos). Entao, a afirmativa é falsa. (Importante, sou um físico que nao acredita nem em criacionismo nem em Inteligente Design, mas sim no Darwinismo Cosmológico de Lee Smolin).

Outro problema com esse tipo de afirmativa de colocar Darwin com divisor de aguas é que fica a pergunta: antes de Darwin os ateus eram irracionais ou pseudocientíficos por defenderem o ateismo, já que não havia resposta para os argumentos de desígnio de Thomas Paley na evolucão?

E talvez toda a discussão entre religiosos e ateus seja apenas que os religiosos personificam o acaso (por exemplo afirmando que ele não é totalmente desfavorável aos humanos mas é uma forca criativa, todo-poderosa (em princípio qualquer coisa pode ocorrer por acaso, tipo o Big-Bang), importante na história do universo e em nossas pequenas histórias individuais – o espírito mágico e mesmo a ciência se originam desse desejo de se proteger ou controlar o deus-acaso).

4. “A religião é dogmática. Ou seja, não permite discussão sobre seus termos.” eu nao sei nao, atá nas Escolas Dominicais existe muita discussao… e certamente nas faculdades de Teologia a coisa pega fogo (basta ver a diferenca entre Tradicionalismo, Teologia da Libertacao e Movimento Carismático).

Segundo o físico e filósofo da ciência Thomas Kunh, existe mais liberdade de debate em uma aula de Teologia do que em uma aula de Física (ver A Estrutura das Revolucoes Científicas). E o debate dentro da própria comunidade é muito lento, é preciso um grande acúmulo de anomalias antes que uma visão estabelecida (um paradigma) seja superado. É por isso que a evolucão das idéias cientéficas é bastante lenta, especialmente na Biologia, menos na Física onde se cultiva certa liberdade especulativa, não é qualquer experimento ou evidência que derruba teorias estabelecidas.

E não podemos dizer que tais teorias foram estabelecidas apenas por fatores cognitivos, pois fatores sociais modulam a velocidade de aceitacão das mesmas (sem o interesse de Bohr pelo Orientalismo e de Heisenbeg pelo Positivismo Lógico, talvez a visão de Copenhagen nao teria se estabelecido como “dogma” entre as interpreacões da mecânica quântica (e o livro de MQ do Cohen Tanoudji teria outro formato).

Mentes dogmáticas aparecem em todos os lugares, seja na ciência, seja na religião. Para quem tem experiencia prática no convívio do dia a dia com cientistas, eu não saberia dizer se eles são realmente não-dogmáticos (cada um se aferra a suas idéias preferidas!). A comunidade como um todo, por ser grande e feita de pessoas inteligentes, tende a ser menos dogmática (e olha que nem artigo em Science e Nature na década de 60 conseguiram convencer os neurocientistas   de que gap junctios eram importantes (isso foi feito 40 anos depois).

Ou seja, filosofia não pode ser reduzida a ciência. Muito do que existe nas religiões é filosofia (filosofia de vida, filosofia política, ética, auto-terapia e terapia de grupo etc). Da mesma forma, existe muita filosofia na ciência (na Epistemologia, na filosofia da física, biologia, matemática, lógica), e muitas posicões são filosóficas, nao podem ser decididas empiricamente (por exemplo, o longo debate entre Probabilistas Bayesianos e Probabilistas tradicionais, ou a discussão se a base do universo é feita por grandezas contínuas ou discretas… As pessoas podem tomar posicão, sem ter argumentos ou evidências científicas decisivas, apenas por gosto estético ou filosófico, e isso não as prejudica como cientistas (até ajuda!).

Eu acho que foi isso que o Reinaldo quis dizer: cientistas religiosos tem argumentos filosóficos para se manterem religiosos, mas não tem argumentos científicos decisivos e portanto preferem manter suas crencas em foro privado (ao contrário de certos neo-ateus…)

Perturbando a Blogosfera II

Reinaldo Lopes continua sua campanha heróica e mesopotâmica, como diria o Zé Simão, contra os Dom Quixotes do Ateísmo Radical (se sua luta contra os moinhos de vento da religião fosse baseada em análises antropológicas e sociológicas sérias, eu as respeitaria, mas como são apenas baseadas em “medinhos” de intelectual em torre de marfim, não posso respeitá-las). Neste sábado publicou no seu blog Visões da Vida:

Imagine que você é um cientista de renome, autor de um dos melhores livros didáticos de biologia do mundo. Você dedicou boa parte da carreira a explicar a teoria da evolução para um público amplo, com grande sucesso. Seu testemunho no tribunal foi decisivo para impedir que a chamada hipótese do Design Inteligente, uma forma de criacionismo com roupagem disfarçada, ganhasse a chance de ser ensinada como ciência nas escolas públicas. Diante desse currículo quase impecável, o que os seus colegas fazem? Condecoram você? Pedem que o governo o agracie com uma bolsa vitalícia por serviços prestados à ciência? Nada disso. Ultimamente, eles têm preferido dizer que você é igualzinho aos criacionistas.

Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência, nobre leitor. A historinha do parágrafo acima espelha à perfeição o que tem acontecido com o biólogo americano Kenneth Miller, da Universidade Brown. Sob quase todos os aspectos, Ken Miller é um paladino da compreensão pública da teoria da evolução e um inimigo feroz da pseudociência. Mas, para alguns biólogos evolutivos proeminentes, como Jerry Coyne, da Universidade de Chicago, e P.Z. Myers, um dos cientistas-blogueiros mais populares do mundo, Miller tem o defeito imperdoável de ser católico e acreditar que não existe incompatibilidade essencial entre a teoria da evolução e a fé em Deus.

Enfatizo aqui: tenho ótimos amigos ateus e religiosos, e não quero perder nenhum deles. Mas, em termos de estratégia nessa Guerra Cultural, eu acredito firmemente que Dawkins e amigos estão equivocados e irão produzir em breve uma grande rejeição cultural (ainda mais?) da Ciência. 
Afinal, como dizem quase todo mundo, a Tecnologia destruiu o Ambiente e armou a arapuca do Terrorismo Nuclear (terrorista religioso armado de estilingue não faz mal a ninguém – com excessão de Davi contra Golias). 
Agora a Ciência (desde o Acaso e a Necessidade de Monod, na verdade) escancara a quatro ventos que o valores (por exemplo os Direitos Humanos) não tem fundamentos – OK, já sabiamos disso – e que um Hitler bem sucedido é o objetivo da evolução (pois seu grupo-comunidade teria maior fitness  – maior espaço vital e mais descendentes) enquanto que os judeus, sorry, tinham menos fitness (pois se tivessem mais fitness, teriam adotado a filosofia da Vontade de Nietzsche e teriam sobrevivido melhor aos campos de concentração…).

Assim, fico aqui de artilheiro ao lado de Reinaldo Lopes, nessa estúpida Guerra cultural onde as pessoas que deveriam estar juntas não estão, e o fogo amigo está matando muita gente boa…
Lembremos também que nossas posições (Reinaldo e eu) são bastante diferentes: ele é um católico progressista com teologia liberal, eu sou um autor de ficção-científica que acha que Teologia fornece ótimos roteiros para a FC (vide VALIS (1981), The Divine Invasion (1981), The Transmigration of Timothy Archer (1982) de Philip K. Dick). Ou seja, eu apenas acho que cientista quando fica rigorista e pede o bom humor e a autocrítica filosófica, é porque está precisando de uma dose de Freeman Dyson e talvez umas cervejas da Cervejaria Colorado de Ribeirão Preto.

PS: Reinaldo, acho que o conceito de “fé” está mais relacionado ao conceito jurídico de “confiança” (“dou fé”, etc) e no sentido do relacionamento familiar (os amantes tem fé um no outro, se entregam um ao outro sem reservas – Amar a Deus de todo coração, de toda alma etc parece ser um ato erótico – e isso pode ser observado tanto na poesia mística como na moderna música Gospel).

Assim, discordo do seu conceito cognitivo (ou melhor, gnóstico) de fé como intuição de uma verdade profunda. Sei que os cientistas possuem esse tipo de fé quando perseguem uma linha de pesquisa mesmo quando ela ainda não deu resultados – é uma “aposta de fé” em que a idéia é promissora, mas não me parece ser o uso mais adequado quando você cita a Bíblia: o Jesus histórico lembra mais um budista anarquista Mahayana, não um budista gnóstico Theravada.  

Liberdade, Igualdade e Fraternidade I

Usamos uma Falácia Naturalista quando, estudando cientificamente como as coisas são na sociedade ou biologia humanas, concluímos que a “descrição” desse estado de coisas implica em como as coisas deveriam ser (em algum sentido filosófico, moral ou político). Em outros termos, a Biologia, as Neurociencias e a Teoria de Jogos Evolucionários determinaria (em vez de apenas constranger ou limitar) as possibilidades (r)evolucionárias das sociedades humanas. Por exemplo, podemos usar o status biológico do homo sapiens como mamífero altamente social para construir um argumento de psicologia evolucionária contra o libertarianismo americano ou a favor de uma sociedade mais igualitária. Podemos também construir falácias naturalistas no outro sentido, o que ficou conhecido como Darwinismo Social.
A contraparte da Falácia Naturalista é a sugestão razoável (base do Conservantism político exposta pelos anti-iluministas clássicos, mas atualmente defendida, de forma travestida, pela esquerda política e conservacionismo ambientalista) de que, dado que a evolução e a tradição (evolução cultural memética) produziu um certo status quo sócio-ambiental, tal estado não deveria ser mudado ou negado sem as devidas precauções. Mudanças deveriam ser introduzidas somente após um estudo cuidadoso de análise de riscos: a introdução de nova tecnolgia e novos conhecimentos deveria ser gradual para dar tempo à sociedade se adaptar à ela…

Resumindo, o conservadorismo pessimista (seja reacionário, esquerdista ou verde) se baseia no medo, e progressimismo otimista (neoliberal, marxista ou anarquista) se baseia na esperança.

Eu não sei onde fica a esperança no cérebro humano (em áreas vizinhas às areas ligadas à religiosidade?) mas sei que o medo é um sentimento forte, que leva à ação – nem que seja à reação – controlado pelo sistema límbico, e que basicamente está fora do controle racional. E muitas vezes, na história da Humanidade, especialmente em épocas de crise como a nossa, parece que o medo acaba vencendo é contagioso: desde o medo dos “terroristas” que tudo justificou no governo Bush até o medo do Apocalipse Nova Era em 2012.
Infelizmente, parece que todos somos filhos daqueles que tiveram medo (e escaparam de predadores e adversários)… É por isso que, em vez de sermos racionais, somos todos um pouco paranóicos, um pouco (ou muito) desconfiados, predispostos a acreditar em boatos e teorias conspiratórias.
Os que tiveram esperança talvez tenham sido grandes líderes e espalharam seus memes, mas filhos mesmo… Estavam muito ocupados para isso.

Provavelmente ateus fundamentalistas não existem

OK, OK, eu sabia que isso ia dar discussão. Vitor e Luciana, não me entendam mal…
Eu me considero um cientista agnóstico fã de ficção científica (ou seja, alguém com muita imaginação) que não tem medo nem trauma de religião. Mas eu acho importante defender os agnósticos e ateus pois eles são uma minoria oprimida na sociedade atual: nenhum ateu declarado vai chegar a presidente do Brasil e os teólogos ateus são muito discriminados dentro da Igreja. Eu até defendo cotas para eles em partidos políticos e sites de relacionamentos (dado que 99% das mulheres quer um companheiro com pelo menos “um lado espiritual”).
Mas não é sobre os agnósticos que o Reinaldo reclamou no seu recente post no G1. Afinal, ele também é um agnóstico, ou seja, ele sabe que não sabe, que não tem certezas e por isso precisa de fé e esperança. Reinaldo reclama é dos ateus mal humorados (não usarei a palavra fundamentalista porque fundamentalista sempre é o outro…) com tendências autoritárias, tipo o Richard Dawkins que quer botar na cadeia, usando leis de proteção ao consumidor, qualquer um que faça promessas mas não cumpra, ou apenas minta para as criancinhas (em particular os astrólogos, os pastores e o próprio Deus, caso a probabilidade dele exitir aumente). Mas daí teríamos que por na cadeia todos os políticos, 99% dos cientístas que escrevem projetos de pesquisa para agências de financiamento, todos os pais que se vestem de papai noel e 90% dos conjuges que fazem votos matrimoniais… É muita gente prá pouco Gulag, sir Dawkins!

Ou seja, Reinaldo se dá bem com agnósticos e ateus não (verbalmente) violentos, livre-pensadores que pensam em vez de repetir slogans. Agora, é preciso ter paciência de Jó para aguentar salsinhas em sua caixa de comentários sem um mínimo de cultura histórica e que fazem declarações peremptórias absurdas tipo “a religião é a origem de todas as guerras” (mesmo da I e II Guerras Mundiais?) ou “centenas de ateus foram mortos pela Inquisição” (faça uma lista de três que eu dou um livro de presente prá você! Não adianta citar o mago New Age adorador de do deus-sol Aton chamado Giordano Bruno). Ou ainda “os religiosos sempre defendem o status quo” (ué, Gandhi, Martin Luter King e a Teologia da Libertação não contam mais?). Eu acho que quem defende o status quo é o PSDB!

Pior ainda é usar como título de um documentário “The Root of all Evil“. Acho que o apóstolo Paulo era mais sensato ao afirmar que a origem de todos os males (ou pelo menos de todas as crises econômicas) era o amor ao dinheiro… É o Capital, meu filho, o Capital!
Eu também ando meio cansado desses pseudo-ateus (pois acho que um verdadeiro ateu deveria ser racional e não usar falácias) que são também pseudo-cientístas: nunca leram um livrinho de sociologia da religião (prá começar, que tal o “O que é Religião?” da coleção Primeiros Passos?), esquecem que existe mesmo a disciplina de ciências da religião, e ficam emitindo opiniões bombásticas na base do achismo, do anedótico, da filosofia de barzinho. São como os pseudocientístas New Age que acham que sabem tudo de Mecânica Quântica sem nunca ter aberto um livrinho que não seja um livro New Age sobre Mecânica Quântica…

Preciso comprovar isso? Bom, no próximo post listarei todas as falácias anti-religiosas usadas nos 160 comentários que o Reinaldo recebeu até agora. Não adianta listar as falácias religiosas, porque por definição o raciocínio religioso é falacioso (Ops, isso também é uma falácia, sorry!).

Ou seja, o problema dos ateus não esclarecidos é que nada no seu ateísmo difere do ateísmo dos marxistas ingênuos (e olha que eu sou fã de Engels!). E se esse ateísmo ingênuo gerou no passado perseguições e violências contra os religiosos, então seria importante que cada neo-ateu esclarecesse quais são as garantias e salvaguardas que ele dá para que a perseguição religiosa não se repita. Agora, se ele acha que a religião é a raiz de todos os males, então a conclusão lógica e racional é que se queremos extirpar os males da humanidade pela raiz, devemos eliminar a religião. Daí para uma política de queima de livros religiosos, atentados terroristas contra igrejas e Gulags religiosos é apenas um passo. Como evitar este passo?

PS: O último parágrafo é um claro exemplo de raciocínio falacioso, o assim chamado argumento da rampa deslizante. Evite usá-lo em suas discussões, OK?

Comprando a briga de Reinaldo Lopes

OK, OK, todo munda sabe que para elevar o taxa de comments no seu blog, basta discutir ciência e religião (e talvez política, quem sabe mulher e futebol). Se não fosse isso, Pharingula não seria o top blog de ciências.

Assim, não é reprovável que de vêz em quando Reinaldo Lopes do G1 coloque um post mais provocativo nesta direção: ao contrário de simples agências de notícias, a função de um blog de ciências (ou qualquer coluna de jornal) é ser opinativo, levantar a discussão.

Um exemplo é este post recente  aqui.

Mas dá um desânimo ler os comentários! Eu divido as pessoas na questão ateísmo/teísmo em quatro setores, ou seja, uma primeira aproximação bidimensional de um espectro multidimensional: ateus esclarecidos, ateus não-esclarecidos, religiosos esclarecidos e religiosos não-esclarecidos.

Um das discussões mais surpreendentes é a negação por parte dos ateus de que não existem ateus não-esclarecidos (ateus fundamentalistas). A definição do Reinaldo, com a qual concordo, é a de que um ateu fundamentalista é o que defende os seguintes sete fundamentos:

1. A religião é a origem de todos os males da humanidade (The root of all evil).

2. Todas as religiões deveriam ser eliminadas da face da terra.

3. Todos os religiosos são insinceros, corruptos, intelectualmente desonestos ou retardados mentais.

4. Ficariamos muito melhor se todos os livros religiosos fossem queimados: afinal, se eles contradizem a ciência, estão errados, e se eles estão de acordo com a ciência, são supérfluos.

5. Pais que criam filhos em uma cultura religiosa cometem um crime pior que pedofilia.

6. A Inquisição matou mais gente que as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Assim, se você não subscreve essas afirmações, você não é um ateu fundamentalista, e simplesmente não está sendo criticado pelo Reinaldo.

Agora, a afirmativa “Não existem ateus fundamentalistas” (segundo a definição dada acima) é, por todas as evidência empíricas refutada. Afinal, basta eu achar um ateu fundamentalista para refutar a afirmação.
Assim, embora eu fique exasperado com as falácias lógicas e históricas dos religiosos que fizeram comentários no blog do Reinaldo, o que realmente me perturba é a onipresença de falácias dos ateus, porque eu tinha esperança que eles fossem mais racionais… Darei exemplo no próximo post…

PS: Vocês notaram como o Reinaldo se parece fisicamente com o jovem Darwin?

Como medir a probabilidade de Deus existir?

O slogan Probably God doesn´t exist foi muito bem bolado, ele stick in the mind. Em português, a palavra provável é meio ambígua: uma coisa é provável se sua probabilidade é alta, mas pode também significar que uma coisa é capaz de ser provada. Como ninguém está discutindo provas matemáticas ou legais (o conceito de “prova” em ciências naturais é problemático), o primeiro significado probabilistico é o correto no caso do slogan.

Então, fiquei pensando em como medir essa probabilidade, circunscrevendo o conceito de Deus àpenas a de deus criador do universo (embora existam outros conceitos de deuses). Existem duas opções atualmente:

1. Medida frequentista: você examina o multiverso e verifica quantos dos 100^500 universos do string landscape foram criados por algum tipo de deus. Se der menos que 5%, você pode concluir que provavelmente Deus não existe no nosso universo.

2. Medida Bayesiana: aparentemente o prior das pessoas sobre a existência de Deus é zero ou 1. Desse modo, nenhuma quantidade de evidência a favor ou contra faz qualquer diferença, o update Bayesiano não consegue mudar um prior desse tipo. Algo parecido com o Teorema de Quine onde qualquer hipótese pode ser salva dado tempo e imaginação suficientes…

Provavelmente é improvável que algum tipo de deus não exista

Auguste Comte reconheceu que a única maneira do ateísmo sobreviver em nossa sociedade é usando as mesmas armas (evangelismo, propaganda, institucionalização, arrecadação de recursos etc.) que os religiosos usam. Foi por isso que fundou sua Igreja Positivista. Era um “visionário”!
A teoria de Dawkins-Engels de que as idéias que sobrevivem não são as melhores idéias ou as mais racionais mas sim as mais bem adaptadas a seu meio (memes) vai no mesmo sentido.
Assim, a conclusão lógica é que é necessário iniciar uma campanha urgente de viral mind marketing a fim de revitalizar o ateísmo, que não anda bem das pernas desde o renascimento religioso da década de 60 (hippies, New Age, movimento carismático, neopentecostalismo etc.) de um lado e o anarquismo epistemológico de Feyrabend e amiguinhos de outro.
Agora, se você é fã de Ficção Científica, achará que provavelmente é improvável que algum tipo de deus (com d minúsculo) não exista. Afinal, o conceito (grego) de deus é simplesmente um ser inteligente (um sistema auto-organizado processador de informação) com capacidades supra-humanas. Ele poderia ser desde o Mar de Solaris (ou o Golem XIV) de Stanislaw Lem até um demiurgo que cria universos-bebês em um super LHC. Ou, mais próximo de nós, o deus Mercado, com sua perfeita oniciência de preços e alocações de recursos, sua onipotência no controle da vida humana e, mais recentemente, sua ira punitiva sobre crentes e ateus…
Uma curiosidade: Muita gente anda criticando o “provavelmente” do slogan mas, segundo sua autora, ele é uma cópia de um anúncio da cerveja Calsberg, “Provavelmente a melhor cerveja do mundo”, o que provavelmente é verdadeiro…

PS: Pensando bem, até que a Clotilde de Vaux, musa de Comte e ícone da Humanidade Racional, era bonitinha…

Blessed be the atheists

The bus ads launched today might not be as bad for God as their backers are hoping. A bit of competition is just what’s needed.
Nick Spencer, The Guardian, Tuesday 6 January 2009 15.30 GMT
Market domination is hugely overrated. When you have a long-established, well-known, even well-loved, but somewhat generic product it is difficult to maintain serious consumer engagement. Lack of competition breeds lack of interest breeds apathy breeds market stagnation breeds sales decline. People just don’t care enough about your product to spend money on it.
When competition arrives, it forces a re-evaluation of attitudes and creates an opportunity for the product to connect again with a market suddenly forced to the point of choice. Consumers are faced with the need to make a conscious decision about whether and what to buy. In such circumstances, growth in the overall market is not uncommon.

Thanks be, then, to the atheists, who have this week launched their much-anticipated bus campaign. Religion in Britain has long been essentially a one-product market, “consumers” able to dodge the God question by scribbling “C of E” on various administrative forms and then forgetting all about it. The emergence of confident Islam over recent decades has helped challenge that, but Islam feels too foreign and too frightening to too many Britons to be evaluated coolly. Atheist buses advertise an altogether different brand. And they present a terrific opportunity for the market leader.

Let’s leave aside the adverts’ basic proposition, “There’s probably no God”. Where did that “probably” come from? It doesn’t suggest the sales staff is overly confident about its product. If my pilot told me “This flight to Paris probably won’t crash,” I’d think about taking the train.

And let’s leave aside the advice, “Now stop worrying and enjoy your life”. You would have to go a long way to find a slogan less suited to our New Year, recession-looming, mass-unemployment gloom.

The truly wonderful thing about the campaign is that it does that most un-English thing. It mentions God in public. Research has shown that most Christians are willing to talk about their faith if the subject comes up. Reluctant to introduce it themselves (presumably for fear of being labelled a “fundamentalist”), they are quite happy to “do God” if a friend mentions him, provoked, say, by a passing bendy bus.

Of course, merely coming up in conversation is no guarantee that God will win the argument. New competition does not guarantee the market leader’s reinvigoration. If new products are evidently superior, old ones can simply die. When did you buy your last VHS player?

If belief in God is indeed as transparently nonsensical as (some) atheists make out, if the faithful are such idiots, their churches and synagogues so dehumanising, and religion such a grotesque and malign virus, that is precisely what will happen.

If bendy buses can help effect that demise, Richard Dawkins will have spent his money wisely and Theos foolishly. But somehow I doubt they will.

Onde nenhum ser humano jamais esteve


Isis Nóbile Diniz, do blog Xis-Xis, agora escreve para o Portal G1. Aqui vai um link para uma de suas primeiras reportagens (a primeira?):
Portal G1: esquisadores captaram pela primeira vez a imagem de três planetas em torno de uma estrela diferente do Sol. E, em outro estudo, conseguiram a imagem ótica do possível objeto mais frio e de menor massa corporal já “fotografado” fora do Sistema Solar. As “fotos” foram feitas com telescópios terrestres e com o espacial Hubble. Com essas fotografias, os cientistas poderão observar os planetas diretamente. Tornando o estudo mais prático do que supor, por meio da matemática e outros instrumentos, que os planetas estão lá. Os trabalhos foram publicados na revista “Science” desta semana [na forma de Science Express, ou seja, publicação on-line antecipada]. Ver mais aqui.

É interessante verificar como (certo tipo) de pessoas religiosas se sentem incomodadas por (certo tipo) de notícias científicas – um exemplo claro é uma notícia sobre o LHC no Portal G1 que gerou 167 comentários, a maior parte negativos, e que Isis, Angélica e eu estamos estudando, visando entender justamente o que são esses “certos tipos”: que tipos de temas científicos não são palatáveis por uma população medianamente educada (que lê jornais na Internet!) por afrontarem sua visão de mundo? Será que a divulgação científica faz com que essas pessoas se aproximem ou se afastem de vez da cultura científica?


Cosmologia e Ficção Científica

Certa vez eu comentei com o Prof. Roland Kobërle se ele gostava de ficção científica. Ele me respondeu que na verdade “fazia ficção científica” (naquela época ele trabalhava com termodinâmica de buracos negros). Uma ótima e irônica resposta, me parece…
Don Page is a Professor of Physics at the University of Alberta in Edmonton. Growing up in Alaskan villages, he completed his high school education by correspondence through the University of Nebraska Extension Division. He received his B.A. in Physics and Mathematics, summa cum laude, from William Jewell College in Missouri, and his M.S. and Ph.D. in Physics from the California Institute of Technology. His Ph.D. thesis, “Accretion into and Emission from Black Holes”, was supervised by Kip S. Thorne and Stephen Hawking. Dr. Page then moved to the University of Cambridge, England, where he held a NATO Postdoctoral Fellowship in Science, worked as a research assistant under Prof. Hawking, and received an M.A.
From 1979 to 1990, Dr. Page was a member of the Physics Department of the Pennsylvania State University. During this period, he held visiting positions at the University of Texas at Austin, the California Institute of Technology, the University of California at Santa Barbara, and the University of Alberta. In 1990, he moved to the University of Alberta. Dr. Page has been a member of CIAR’s Cosmology and Gravity Program since 1987, and was a CIAR Fellow from 1991-2002.
Research Interests:
The goal of quantum cosmology is to try to understand the universe as a whole within the current fundamental framework of physics, quantum theory. Quantum theory normally differs significantly from classical theory only for small systems, so one may question its application to the entire universe. However, the universe was apparently once so small that a quantum description would have been essential. The present universe may be viewed as a relict of processes that occurred in its very early evolution. Thus a quantum understanding of these processes may help explain certain basic features observed today. For example, the observed cosmos is large, old, nearly flat, fairly homogeneous and isotropic at the largest observable distances, lumpy and complex on smaller scales, and out of thermal equilibrium, exhibiting a pervasive arrow of time. 
These basic features are mysterious, in the sense that it would apparently be consistent with our present theoretical understanding of physics for the universe not to have any of these properties. Can we enlarge our understanding to include fundamental principles that would explain these observed features of the cosmos? In particular, we need principles for the boundary conditions of the universe, to select the actual universe from the apparently infinite set of possible universes obeying the same complete set of dynamical laws. There have recently been proposals for this that would specify the quantum state of the universe, such as the Hartle-Hawking no-boundary proposal and the Vilenkin tunneling proposal. Research is being done on the implications of these and other proposals to see whether or not they can explain the observed features of our mysterious universe.
Dr. Page’s most recent papers include:

Don N. Page, “The Lifetime of the Universe,” Journal of the Korean Physical Society 49, 711-714 (2006).


M. Cvetic, H. Lu, Don N. Page, and C. N. Pope, “New Einstein-Sasaki Spaces in Five and Higher Dimensions,” Physical Review Letters 95, 071101 (2005).


Don N. Page, “Hawking Radiation and Black Hole Thermodynamics,” New Journal of Physics 7, 203 (2005).


G. W. Gibbons, H. Lu, Don N. Page, and C. N. Pope, “Rotating Black Holes in Higher Dimensions with a Cosmological Constant,” Physical Review Letters 93, 171102 (2004).


Don N. Page, “Anthropic Estimates of the Charge and Mass of the Proton,” <http://arxiv.org/abs/hep-th/0302051>.

A força relativa da Ciência e da Religião

 Comte não era bobo por ter dado vestimenta religiosa ao seu secularismo, chamando-o de Religião da Humanidade. Como bom sociólogo,  ele sabia que a religião possui grande força para fomentar o compromisso individual, a vida comunitária e a ação política. Acho que o Humanismo Secular vai enveredar pelo mesmo caminho, se quiser sobreviver. Engraçado que Isaac Asimov, na trilogia Fundação, coloca isso (uma religião chamada “Cientismo”) como uma estratégia possível para a comunidade científica sobreviver em uma nova Idade Média.

Na sociologia, Pareto contribuiu para a elevação desta disciplina ao estatuto de ciência. Sua recusa em atribuir um caráter utilitário à ciência, mas antes apontar para sua busca pela verdade independentemente de sua utilidade, o faz distinguir como objeto da sociologia as ações não-lógicas diferentemente do objeto da economia como sendo as ações lógicas.

A utilidade é o objeto das ações, enquanto que o da ciência é a verdade ao que Pareto se propõe a estudar de forma lógica ações não-lógicas, que, segundo ele, são as mais comuns entre os seres humanos. O homem para VilfredoPareto não é um ser racional, mas um ser que raciocina tão somente. Frequentemente este homem tenta atribuir justificativas pretensamente lógicas para suas ações ilógicas deixando-se levar pelos sentimentos.

A relação entre ciência e ação para Pareto se dá diretamente com as ações lógicas, uma vez que estas, ao se definirem pela coincidência entre a relação objetiva e subjetiva entre meios e fins (tal relação é verdadeira tanto objetivamente, constatada pelos fatos, quanto subjetivamente, presente na consciência humana, que conhece os fatos), está pautada pelo conhecimento das regularidades entre uma causa X e um efeito Y. No entanto, a ciência é limitada, ela conhece parte dos fatos e está em constante desenvolvimento, por isso, as ações baseadas nos conhecimentos produzidos por ela serem raras sendo mais frequentes as ações não-lógicas, que não conhecem a verdade dos fatos, mas que são baseadas nas intuições e emoções dos indivíduos e grupos.

Há, mesmo assim, probabilidades de sucesso nestas ações: aqueles que agem motivados por um ideal podem produzir efeitos objetivos na realidade, ainda que no curso de sua ação tenham que modificá-la para adaptá-la às circunstâncias até então desconhecidas.

É preciso, no entanto, ressaltar que a ciência não pode resolver os problemas impostos pela ação. Aquela não pode indicar quais os melhores fins para esta, pode somente indicar os meios mais eficazes para atingí-los uma vez escolhidos. A ciência, portanto, não se propõe a efetuar juízos de valor a respeito das ações individuais ou da organização social, não poderá solucionar seus problemas. Poderá sim criticá-los enquanto não-lógicos, ou seja, pautados numa relação falsa, não objetiva, entre meios e fins.




Dawkins e a Tolerância

Richard Dawkins expressou frequentemente a opinião de que, no debate entre Ciência e Religião, os fundamentalistas religiosos seriam “sinceros” (pois reconhecem que a Religião faz afirmativas ontológicas), enquanto que os religiosos moderados, por sua ênfase no conteúdo político e ético das religiões, seriam mais perniciosos e deveriam ser mais combatidos na sua “cruzada” pela Ciência. 

Eu sempre achei que atacar o meio termo é, no caso de Dawkins, uma estratégia perigosa. Me parece que nessas “culture wars”, seria muito melhor que todas as pessoas “razoáveis”, quer religiosas quer seculares, que aceitam o príncípio de um Estado laico estivessem do mesmo lado. 

Mas Dawkins, com suas visões extremistas tipo “qualquer pai de família que criar uma criança em uma dada religião é um estrupador mental, um criminoso pior que um pedófilo”, não deixou nenhuma porta aberta ao diálogo. Afinal, na sua concepção, qualquer pessoa que tiver sentimentos religiosos é, por definição, não racional, um ser inferior do qual devemos ter pena (ou medo?) mas que está por definição desqualificado para a conversação racional.

Agora parece que Dawkins está se arrependendo do monstro (a nova vaga de intolerência científica) que criou…

Creationism row forces out UK educator

The director of education at Britain’s Royal Society has been forced to resign after a massive outcry in the wake of widespread misreporting of comments he made about creationism in the classroom.

Michael Reiss, a professor at London’s Institute of Education and an ordained minister in the Church of England, made the remarks at the British Association for the Advancement of Science’s annual Festival of Science on 11 September in Liverpool. Three Nobel-prizewinning society fellows wrote to the society’s president, Martin Rees, saying that they were “greatly concerned” at media reports of Reiss’s talk. They are Richard Roberts, chief scientific officer of New England BioLabs in Beverly, Massachusetts; Harold Kroto of Florida State University in Tallahassee; and John Sulston of the University of Manchester, UK.

The Royal Society initially insisted that Reiss had been misrepresented and that his views do not differ from the society’s position that “creationism has no scientific basis and should not be part of the science curriculum”. After the letter of complaint and with the reported statements continuing to receive press coverage, including hostile opinion pieces, the society announced Reiss’s departure on 16 September.

“To call for his resignation … comes a little too close to a witch-hunt for my squeamish taste.”

Richard Dawkins 
University of Oxford

Viva la Evolución

Sugerido por Leo Martins.
Só para provocar: Leo cita em um post o finado Roberto Campos:
Nas democracias, pequenos grupos de interesses especiais conseguem fazer barulhos desproporcionais e intimidar os representantes eleitos da maioria silenciosa. O fenômeno contemporâneo das ONGs ilustra bem as dificuldades.
As ONGs são meras organizações, associações ou clubes que se estabelecem por conta própria, dizem de si mesmas o que querem, e não estão sujeitas a eleições ou outro mecanismo formal de validação.
Roberto Campos era muito conhecido por suas falácias e raciocínio retórico. Acho que hoje a Econofísica o desmentiria fácil, fácil, por exemplo na questão do individualismo metodológico(postarei sobre isso semana que vem). Mas hoje eu gostaria de compartilhar com vocês um dos meus métodos para detetar de falácias.
Para isso, basta você copiar a afirmativa falaciosa e substituir termos chaves de modo que ela afirme agora algo contrário à ideologia do autor. Se a frase fizer sentido com um mínimo de mudanças, provavelmente é falaciosa. Exemplo:
Nas democracias, pequenos grupos de interesses especiais conseguem fazer barulhos desproporcionais e intimidar os representantes eleitos da maioria silenciosa. O fenômeno contemporâneo dos lobbies corporativos ilustra bem as dificuldades.
As empresas são meras organizações, associações ou clubes que se estabelecem por conta própria, dizem de si mesmas o que querem, e não estão sujeitas a eleições ou outro mecanismo formal de validação.

Sacaram?

Possessões e reencarnações tecnológicas

O blog Infoneuro, mantido por algum tempo por Antônio Roque e Gustavo Miranda Forte foi “possuído” por um novo usuário ou robot. Alguém poderia me esclarecer como isso acontece? Aparentemente, as pré-condições são deixar o blog com poucos posts e não fazer o claim dele em algum lugar, por exemplo no Technorati.

Já o meu celular “reencarnou” num novo corpo, bastando para isso transferir seu chip. Hum, mas neste caso o termo não é totalmente adequado, pois na verdade seria mais como um transplante de cérebro. Curiosamente, as memórias (de telefones) do novo chip se misturaram com as do celular anterior.

Mas prossigamos com a analogia: se cada chip de celular equivale a um espírito, e se cada espírito preexiste à sua encarnação em um corpo (o celular), então como explicar os bilhões de chips de celular hoje existentes?

Uma das teorias é que tais chips, na sua vida passada imediata, eram chips animais. Outra idéia é que eles viriam de outro planeta. Mas quando examinamos a memória de tais chips (usando as teclas apropriadas ou o “método de regressão de vidas passadas”) não encontramos tais relatos ou informações sobre isso. Pois, afinal de contas, para se ter um bom relato sobre uma vida em outro planeta você tem que ser um ótimo escritor de ficção científica. Mas esses, são raros…

Mythbuster I

É incrível a quantidade de mitos científicos que passamos aos alunos nas salas de aula e artigos de divulgação. Esta série de posts visa contribuir para enterrar alguns deles.

O mito de hoje é sobre a origem da ciência moderna (engraçado como mitos em geral se referem às origens): você encontrará em respeitados livros de divulgação científica uma visão de que a ciência moderna se origina na Renascença como uma redescoberta do pensamento greco-romano. E, afirmativa mais absurda ainda, de que a Igreja adotou o Aristotelismo por mais de mil anos (na verdade, a Igreja começa a aprovar Aristóteles apenas a partir do século XIII).

Phillip Ball escreve esta semana na Nature comentando que esta visão é não só inadequada como historicamente incorreta. Aparentemente, ao longo da história da humanidade, temos uma espécie de ciclo de Lotka-Volterra entre visões mais racionalistas e empirístas e visões mais mágico-religiosas. E tais ciclos ocorrem mesmo dentro de uma era como a Idade Média (ou deveríamos dizer Idades Médias?)

Nature 452, 816-818 (17 April 2008) doi:10.1038/452816a; Published online 16 April 2008

Triumph of the medieval mind

Philip Ball is a consultant editor for Nature. His new book Universe of Stone: Chartres Cathedral and the Triumph of the Medieval Mind is published next month by Bodley Head.

The popular caricature locates the origins of modern science in the natural philosophies of ancient Greece and the rediscovery of their spirit during the Renaissance and the Enlightenment. It passes decorously over the intervening period, deemed to be a hotbed of superstition. In fact, the notion of a Universe governed by laws accessible to human reason — the precondition for science — emerged in Western Europe largely during the twelfth century, several hundred years earlier than we have come to imagine.
(…)
A rationalist position was also nurtured at the cathedral school of Chartres (see ‘Rationality in stone’). From around the 1120s, this school acquired several chancellors with a deep interest in natural philosophy. These included Bernard of Chartres and his brother (or possibly pupil) Thierry, arguably one of the true founders of Western science. The Chartres scholars were platonists: they believed that the mundane world is underpinned by a transcendental realm governed by order and geometry. Thierry attempted to show how platonic ‘physics’ could be used to comprehend the world systematically, and even to interpret the biblical creation in Genesis.
Another Chartres scholar and teacher, William of Conches, got into trouble for pushing the rational agenda even harder. His Philosophia Mundi provided twelfth-century Europe with its first comprehensive treatise on the physical world. He argued that natural phenomena arise from forces that, although created by God, act under their own agency. William insisted, echoing Plato, that the divine system of nature is coherent and consistent, and therefore comprehensible: if we ask questions of nature, we can expect to get answers, and to be able to understand them.

(…)

The twelfth-century trust in reason and interest in nature for its own sake flourished in the following century. This was particularly so in the aristotelianism of Thomas Aquinas, Robert Grosseteste and Roger Bacon. Their emphasis on attention to detail and careful observation signals the beginnings of an experimental approach — something that was unlikely to emerge from the abstract platonism of Chartres. Crudely speaking, Plato focused on the generalities, Aristotle on the particulars.

The backlash begins
But the golden age of rationalism in the early thirteenth century instigated a theological backlash, a kind of medieval Counter-Reformation. This culminated in the papal declaration of 1277 condemning many propositions in Aristotle’s works. It was a metaphysical power struggle: was the world ruled by God’s whims or Aristotle’s laws? Could God contradict Aristotle? The battle was also more prosaic: did the universities’ theology faculties have more authority than the arts faculties?

Quem tem medo dos clones humanos I?

Quando der tempo, vou comentar as notícias recentes sobre uma equipe americana que teria obtido clones de embriões humanos. Por enquanto, vou esquentando os motores aqui.
A ética e os efeitos sociais da clonagem humana são discutidos há mais de 30 anos na literatura de ficção científica (Terra Imperial, de Arthur C. Clark sendo um clássico que merece ser lido). Mais recentemente, o filme A Ilha discutiu o tema com a premissa absurda de que só se poderiam obter orgãos para transplante de clones adultos plenamente desenvolvidos (sim, em FC, os livros sempre são melhores que os filmes, com excessão de Blade Runner, é claro!). Da Wikipedia:

Imperial Earth (ISBN 0-15-144233-9) is a novel written by Arthur C. Clarke, and published in time for the U.S. bicentennial in 1976 by Ballantine Books. It follows the protagonist (Duncan Makenzie) on a trip to Earth from his home on Titan, ostensibly for a diplomatic visit to the U.S. for its 500th birthday, but really in order to have a clone of himself produced.
The puzzle game Pentominos features in a prominent subplot of the novel.
The book offers socially liberal ideas about sexuality and racial attitudes. Duncan Makenzie is Black, which is not mentioned until approximately halfway through the book, because the fact is of no more importance to him than his hair color. At several points he also reminisces about sexual affairs with males, and that bisexuality is now considered the norm. Exclusive heterosexuality or homosexuality is not generally practiced.
It is common in science fiction to offer perspectives of social issues. Clarke addresses issues of racism, the spectre of cloning (which was a very new topic in the early 1970s), and the economics of energy production and control.
Clarke describes in great detail throughout the book a personal communications device called a ‘minisec’ combining mobile video phone and PDA with global data connectivity. He also describes a larger desk ‘comsole’ or communications console giving similar access to global information services.

(…)

Duncan Makenzie,is the latest generation of the ‘first family’ of Titan, a colonised moon of Saturn. Originally settled by Malcolm Makenzie in the early 23rd century, Titan’s economy has flourished based on the harvest and sale of hydrogen mined from the atmosphere, hydrogen that fuels the fusion engines of interplanetary spacecraft.
As the plot opens in 2276, a number of factors are combining to make a diplomatic visit to the ‘mother world’ of Earth a necessity. Firstly, the forthcoming 500th anniversary of US Independence which is bringing in colonists from the entire Solar System, obviously needs a suitable representative from Titan. Secondly, the Makenzie family carry a fatal damaged gene that means any normal continuation of the family line is impossible — so both Duncan and his father Colin are clones of his grandfather Malcolm. Human cloning is a mature technology, but is even at this time ethically controversial. And thirdly, technological advances in spacecraft drive systems — specifically the ‘asymptotic drive’ which improves the fuel efficiency by orders of magnitude — means that Titan’s whole economy is under threat as the demand for hydrogen is about to collapse.
A number of other sub-plots suggest some sort of greater mystery, but remain unexplored. The book ends with him returning home with his new “child” (who is a clone of brilliant but erratic former best friend Karl Helmer), leaving the other plot threads dangling.

O papa e a razão

Aparentemente ninguém ainda percebeu (ou quer reconhecer) que o discurso do Papa Ratzinger provém da mesma fonte que o discurso de Marcuse e Feyrabend, e de muito da filosofia francesa pós-guerra: o Romantismo Alemão, Nietzsche, o nazista Heidegger.
De um site biográfico: After finishing high school in 1942, he was drafted into the German army – an inconvenience according to Feyerabend, not a moral problem, because more than anything else he wanted to read. However, he also considered joining the SS, mainly for aesthetic reasons: “an SS man looked better and spoke better and walked better than ordinary mortals”. For his service on the eastern front Feyerabend was awarded an Iron Cross, second class, in 1944.
(…) Although Feyerabend’s agitative style did not even scratch the surface of academic etiquette, his anti-foundational mode of thought, arguments against rationality, and epistemological anarchism stimulated the postmodernist deconstruction of tradition. On the other hand, before becoming pope Cardinal Ratzinger mentioned in a talk Feyerabend in support of his views.
É interessante que, aqui no Brasil, Rubem Alves fez uma volta de 180 graus, da Teologia da Libertação para uma visão contracultural da ciência, ou seja, converteu-se essencialmente à mesma visão romântica do atual Papa…

Do Blog do Marcelo Coelho, Folha de São Paulo.

Continuo aqui os comentários sobre a nova encíclica do papa, que já foi assunto de posts anteriores.

Ratzinger afirma que a fé não se resume a uma questão de convicção individual. “Como é que se chegou”, pergunta, “a considerar o cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros”?

O erro, segundo Ratzinger, vem com a própria idade moderna. A descoberta da América e as novas conquistas da técnica inauguraram uma nova época na história humana. A encíclica elege como alvo as concepções de Francis Bacon (1561-1626), que confiava numa “vitória da arte sobre a natureza”, ou seja, numa nova correlação entre ciência e prática; a redenção não viria da fé, mas da possibilidade de se instaurar, neste mundo mesmo, “o reino do homem”.

Desse modo, diz Ratzinger, a fé passou a ser entendida como algo irrelevante para o mundo. “Esta visão programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a atual crise da fé que, concretamente, é sobretudo uma crise da esperança cristã.”

Progresso, razão, liberdade: são estes três conceitos que o papa considera necessário criticar, ou, pelo menos, reduzi-los a dimensões mais modestas. O leitor da encíclica pode ver com clareza que o estigma de “reacionário” e “conservador”, que se aplica freqüentemente ao papa, está longe de ser um mero clichê jornalístico.

Ratzinger combate a idéia de que razão e liberdade possam “garantir, por si mesmas, em virtude de sua intrínseca bondade, uma nova comunidade humana perfeita”. E recorre a dois exemplos fartamente conhecidos: a revolução francesa e a revolução russa, que visando a instituir uma comunidade perfeita produziram os assassinatos e os horrores que se conhece.

Sempre me pergunto, nessas ocasiões, por que sociedades desenvolvidas e livres, como Holanda ou Dinamarca, nunca são lembradas como experiências sociais bem-sucedidas dentro desse mesmo espírito de “modernidade” que o papa quer criticar… Dois países protestantes, aliás.

Para combater os ideais modernos de razão e liberdade, o papa utiliza um recurso bastante capcioso. O socialismo defendido por Marx não deu certo, diz Ratzinger, porque “o homem permanece sempre o homem”. Marx esqueceu “que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.”

Acho que há formas mais convincentes de explicar o fracasso do sistema soviético, ou os horrores de Robespierre, por um excesso de confiança na razão e na liberdade… Se foram terríveis os crimes cometidos nesses períodos, eles o foram exatamente porque atentaram contra a razão e a liberdade humanas. E todo historiador sabe perfeitamente que, na Rússia de 1917, as condições econômicas eram tudo, menos “favoráveis” ao projeto que se queria implantar.

Por outro lado, como fica a “esperança” quando alguém afirma que o “homem permanece sempre o homem”? Ao contrário, vejo que, em condições materiais favoráveis, não é que todo mundo se torne santo –mas as possibilidades de se transformar num genocida ao estilo de Darfur tendem a diminuir. Em determinada sociedade, a maioria da população se entrega a festins de violência, racismo e intolerância. Em outra sociedade, o número de psicopatas decresce a uma minoria estatística. O materialismo, embora não explique tudo, ajuda muito.

Quanto à razão, Ratzinger admite que seja um grande dom de Deus à humanidade. Mas, pergunta, “a razão inteira reduz-se à razão do poder e do fazer?” Certamente, não. Mas o argumento de Ratzinger leva a identificar o domínio da razão com o domínio da ciência. Ninguém ignora que a ciência, sozinha, pode ter efeitos tão benéficos quanto devastadores. Cria remédios e bombas atômicas. Por isso mesmo, podemos falar em usos “racionais” e “irracionais” da tecnologia. Não é preciso abandonar o conceito de razão quando se quer criticar, por exemplo, o uso de armas químicas… Mas, para Ratzinger, armas químicas seriam um exemplo de um excessivo domínio da razão… Claro que, com esse estratagema, só a Fé se apresenta como remédio para nossos males.

“Não é a ciência que redime o homem”, prossegue o papa. “O homem é redimido pelo amor.” Mas não é preciso, a meu ver, jogar com uma alternativa tão radical e desbalanceada. Que tal se disséssemos: “Não é a ciência que redime o homem; o homem é redimido pela razão”? Não sei de horrores na história humana que não tiveram a razão entre suas primeiras vítimas. Sei de muitos horrores, entretanto, que tiveram a fé do seu lado. Mais respeito, por favor, com a razão –essa velha senhora é acusada de crimes que não cometeu.

Mulheres que deixam religião têm mais risco de alcoolismo, diz pesquisa


01/01/2008 – 14h34

da BBC Brasil, via Folha Online:

Mulheres que abandonam suas atividades religiosas têm três vezes mais chances de sofrer de ansiedade, depressão e alcoolismo, segundo um estudo conduzido por pesquisadores norte-americanos.

Os especialistas, da Universidade de Temple, na Filadélfia, analisaram 718 adultos e concluíram que entre as mulheres que haviam deixado de freqüentar a igreja, 21% apresentaram sintomas de ansiedade, depressão e problemas relacionados ao excesso de bebidas alcoólicas.

O mesmo, no entanto, não foi observado entre os homens. O trabalho, publicado na revista especializada “Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology”, apontou que os homens que deixaram de praticar sua fé tinham menos chances de sofrer de depressão do que os que compareciam à igreja regularmente.

Para a coordenadora do estudo, Joanna Maselko, as mulheres sofrem mais ao se afastarem da religião porque também têm mais chances de perder amigos e se afastar da “rede social da igreja”.

“As mulheres são normalmente mais integradas às redes sociais de suas comunidades religiosas. Quando deixam de ir à igreja, perdem o acesso a esta rede e todos seus benefícios potenciais”, observa Maselko.

Já os homens, afirma Maselko, “não parecem ser tão integrados à comunidade religiosa, portanto não sofrem com as possíveis conseqüências se abandonam a igreja”.

Para a coordenadora do trabalho, é possível “ter um melhor entendimento da relação entre saúde e espiritualidade quando conhece a história religiosa de uma pessoa”.

Mais algumas pesquisas para as minhas turmas de Estatística:

Tequila diminui risco de câncer, dizem cientistas mexicanos

Medicamento para epiléptico ajuda no tratamento contra alcoolismo

Devemos contar para as crianças que Papai Noel não existe?

Na verdade, Papai Noel existe sim, enquanto complexo memético (The Meme Machine) capaz de se encarnar em cérebros humanos (ver Milagre da Rua 34). O mesmo pode ser dito do Papai do Céu, claro. O debate sobre o Ateísmo Natalino pode então ser definido pela questão: cada argumento ateísta referente ao fato de ser justificável ou não o uso de mitos culturais na educação infantil (sejam eles religiosos, histórias de contos de fadas ou mitos científicos como a experiência da Torre de Pizza de Galileu) têm o seu análogo tanto na questão de Papai Noel quanto na de Papai do Céu. Ou seja, se não devemos ensinar as crianças sobre Papai do Céu (e depois permitir que, num rito de passagem, adquiram uma visão mais madura da vida), pelo simples fato de serem mentiras que pretensamente minam a confiança das crianças em seus pais, então também devemos banir outras mentiras que contamos a elas, por exemplo:

1. Que devem cuidar dos seus irmãozinhos – uma análise sociobiológica ou mesmo de teoria de jogos diria que a melhor estratégia seria que eles matassem seus irmãozinhos para ficar com toda a atenção dos pais;

2. Que os policiais são bonzinhos e devem ser procurados em caso de emergência;
3. Que comer cenoura faz bem para os olhos;

4. Que papai e mamãe as amam – afinal, somos apenas robôs, veículos de nossos genes, cujo único objetivo biológico é construir outros robozinhos, e o amor é uma miragem mental, sem correlato direto com propriedades atômicas ou eletrônicas…
Comece a pensar e você verá que existem zilhões de outras mentiras que contamos às crianças, e nem por isso elas perdem a fé em nós ou nas pessoas – na verdade, elas aprendem a detectar melhor as mentiras quando são expostas a elas! Ser exposto a mentiras nos deixa mais espertos, com nosso sistema imunológico memético mais desenvolvido. Que Papai Noel seja uma grande mentira cultural e social, nao apenas parental, o recomenda mais ainda. Ou será que queremos culturas humanas expurgadas de toda tradição e todo folclore? Não seria isto o cúmulo do politicamente correto (que expurga nossa linguagem, literatura etc apenas dos termos racistas, sexistas etc?).
Dawkins diz que a Bíblia não é um livro modelo nem de ciência nem de moralidade. Sim, os costumes judaicos antigos eram, pelos nossos padrões atuais eco-feministas-iluministas, realmente bárbaros – o mesmo pode ser dito de qualquer cultura antiga -, mas usar isso como crítica a uma cultura (no caso, a judaico-cristã) é simplesmente um caso claro de pensamento anacronístico, algo imperdoável em cientistas ou pelo menos alguém que conheça o mínimo de pensamento Histórico. A mesma crítica poderia ser feita em relação à obra de Shakespeare… Ciência errada, moralidade errada, cheia de preconceitos contra as minorias… Fazer o que? Proibir as pessoas de ler Sheakespeare (ou pelo menos as crianças?). Queimar o Hamlet ou o Mercador de Veneza?
O estudo psicológico mais recente sobre a crença em Papai Noel diz que, em vez das crianças mais velhas ficarem chateadas por descobrirem que os adultos mentiram para elas, na verdadem se sentem orgulhosas porque agora já não são “criancinhas” e sabem algo que os pequenos não sabem… Um rito de passagem rumo à consciência adulta. Apenas isso…
Da Wikipedia: Psychologist Tamar Murachver said in that it was a cultural, not parental, lie; thus, it does not undermine parental trust.[35] The New Zealand Skeptics also see no harm in parents telling their children that Santa is real. Spokesperson Vicki Hyde said, “It would be a hard-hearted parent indeed who frowned upon the innocent joys of our children’s cultural heritage. We save our bah humbugs for the things that exploit the vulnerable.”[35]
Dr. John Condry of Cornell University interviewed more than 500 children for a study of the issue and found that not a single child was angry at his or her parents for telling them Santa Claus was real. According to Dr. Condry, “The most common response to finding out the truth was that they felt older and more mature. They now knew something that the younger kids didn’t.”[36]

Mas Richard Dawkins diz que qualquer pessoa que conta a seus filhos mitos religiosos é um estuprador mental de criancinhas, um pedófilo cujo abuso mental é moralmente mais condenável que o abuso sexual físico, um transmissor de vírus meméticos similar a quem transmite AIDs intencionalmente. Como tenho quatro filhos, este argumento me deixa particularmente aflito, se for válido. Infelizmente este tipo de (falta de) lógica indispõe um grande número de pessoas contra Dawkins e, por tabela, contra a comunidade de cientistas das quais faço parte e que não reconhecem o extremismo de Dawkins (leia-se, prosa retórica cheia de falácias lógicas tipo straw man etc.) como representativo dos cientistas, nem mesmo dos cientistas ateus.

Acredito que o extremismo anti-religioso de Dawkins infelizmente não se deve a algum brio intelectual, mas sim ao medo, ou mesmo paranóia, que aqueles que pertencem a certas minorias discriminadas (como os ateus) acabam desenvolvendo sem perceber. Vejam este gráfico que saiu na última VEJA:

Um exemplo de reação contra o extremismo de Dawkins é esta página (coloco aqui, mesmo não sendo católico, por que acho que a lógica do autor está correta). Afinal, quero ter a liberdade de contar história do Papai Noel para o meus filhos no Natal, talvez assistir Expresso Polar, sem que Dawkins e outros chatos (chatos como as eco-feministas, todos criados no Puritanismo Inglês, suponho – Dawkins era Anglicano…) queiram me processar por pedofilia mental…
RICHARD DAWKINS WORLD
By Mike Gene

This page is not completely in character for this site. Nevertheless, Prof. Richard Dawkins is such a Big Player[1] in this overall debate that some aspects of his extremism beg for comment. As such, I will use the page to comment on some of Dawkins’ extremism and update it accordingly (so you might want to check back periodically).

4-15-05

Back in October of 2002, Richard Dawkins wrote a short essay for The Dubliner entitled, “The God Shaped Hole”. In this essay, Dawkins actually compares Catholicism to the sexual molestation of children, and argues the former is worse:

Regarding the accusations of sexual abuse of children by Catholic priests, deplorable and disgusting as those abuses are, they are not so harmful to the children as the grievous mental harm in bringing up the child Catholic in the first place. I had a letter from a woman in America in her forties, who said that when she was a child of about seven, brought up a Catholic, two things happened to her: one was that she was sexually abused by her parish priest. The second thing was that a great friend of hers at school died, and she had nightmares because she thought her friend was going to hell because she wasn’t Catholic. For her there was no question that the greatest child abuse of those two was the abuse of being taught about hell. Being fondled by the priest was negligible in comparison. And I think that’s a fairly common experience. I can’t speak about the really grave sexual abuse that obviously happens sometimes, which actually causes violent physical pain to the altar boy or whoever it is, but I suspect that most of the sexual abuse priests are accused of is comparatively mild – a little bit of fondling perhaps, and a young child might scarcely notice that. The damage, if there is damage, is going to be mental damage anyway, not physical damage. Being taught about hell – being taught that if you sin you will go to everlasting damnation, and really believing that – is going to be a harder piece of child abuse than the comparatively mild sexual abuse. [9]

I think it clear that this is raw anti-religious bigotry. We can ignore the letter from “a woman in America” as a) we have no idea whether her account is valid and b) even if valid, it is an anecdote. Since Dawkins is a drum-banger for science, surely he would recognize science would need much more than a vague anecdote to support this contention.

So let’s think through on Dawkins’ logic. First, where is the science? What scientific evidence does Dawkins offer to support the contention that believing in Hell is a worse form of abuse than being sexually molested? Where is the evidence of this “grievous mental harm” in bringing up the child Catholic? His biased opinion? His emotional approach? An anecdote?!

Secondly, it is ironic that Dawkins has the science backwards. There are plenty of studies to show that sexual molestation of a child can have long term, negative effects. Dismissing it as “a bit of fondling” and being “mental damage anyway” is insulting to the many victims of child molestation. And there are plenty of studies that also show that religious belief and convictions, if held seriously, provide a net positive benefit in terms of psychological and physical health. In other words, contrary to the views of Dawkins, being raised a Catholic is not worse than being sexually abused.

But let’s follow through with this example of Dawkins Think. As it stands, it is illegal to sexually molest a child. And, of course, it is not illegal to raise your child as a Catholic. But if it is really more harmful to raise your child as a Catholic than to sexually molest your child, as Dawkins believes, society needs to adjust its laws. According to Dawkins’ logic, we should a) either make it illegal to raise your child as a Catholic, as it is worse than pedophilia, or b) legalize pedophilia, since it is not as bad as the legal activity of teaching a child about Hell and Catholicism. Which option would Dawkins choose? It’s his logic, thus his choice to clarify.

Consider a simple analogy. The house next to your house goes up for sale. Two families are interested in buy it. The first family is a devout Catholic family. The father is hard working and has broken no laws. But he has taught his kids to believe in Catholic doctrine, including belief in Hell. The second family is not religious. The father is also hard working, but he also sexually molests his kids. In Dawkins World, you hope the child molester moves in next door, as he is not as bad as the Catholic man.

Speciesism and Vegetarianism
…what I am doing is going along with the fact that I live in a society where meat eating is accepted as the norm, and it requires a level of social courage which I haven’t yet produced to break out of that. It’s a little bit like the position which many people would have held a couple of hundred years ago over slavery. Where lots of people felt morally uneasy about slavery but went along with it because the whole economy of the South depended upon slavery.
In reply to a question from Peter Singer author of Animal Liberation during an interview on Point of Inquiry