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Papai Noel, um delírio

Preocupante a reportagem sobre a intolerância dos brasileiros em relação aos ateus mostrada na VEJA dessa semana, Vade Retro Ateus! A conclusão é de que os brasileiros são tolerantes quanto à religião, mas extremamente intolerantes frente à falta de religião.

Acho que a estatística da VEJA está com problemas. Afinal como é possivel que o estado mais sem religião seja a Bahia, e a capital mais descrente seja Salvador. Minha resposta para isso é a seguinte: as pessoas seguidoras de crenças New Age, OSHO etc se declaram “sem religião” para o IBGE, no sentido que não seguem nenhuma religião institucionalizada. Mas claro que esses seguidores de O Segredo não podem ser classificados no mesmo grupo dos ateus e agnósticos. A estatística está simplesmente errada. O que cresceu para 7% da populacao não foram os ateus, mas os New Agers!

Também preocupante a crescente antagonismo entre ciência e religião: no passado, sempre que tal antagonismo se exacerbou, a ciência saiu perdendo… Acho que existem duas estratégias que os cientistas podem adotar nesta difícil situação: o porraloquismo de Giordano Bruno – que, reparemos, não era cientista mas crente propagandista do culto solar de Akenaton que, segundo ele, viria substituir Cristianismo na Nova Era de 1600. Ou seja, Giordano era uma espécie de Madame Blavatsky ou OSHO da época… Bruno argumentava que o Heliocentrismo era a prova da falência do Cristianismo e do Papado, e sua superação pela antiga religião egípcia renascida se daria no século XVII, algo que os inquisidores tiveram alguma dificuldade em aceitar… e acho que a totalidade dos cientistas atuais também.
A segunda estratégia é a cautela inteligente de Galileu Galilei, que sabia que bater de frente com instituições idiotas é prova de igual idiotia (social, suponho). Pode-se ganhar a batalha, perde-se a guerra (pelos corações e mentes dos jovens candidatos a cientistas). Algo que muitos ateus, livres pensadores e céticos ainda não entenderam, talvez por excesso de testosterona.

O que eu acho mais chato, mesmo, é o cara que fica a vida toda se gabando que é livre pensador, ateu etc (conheci vários!), mas no final da vida vira espírita, ou seguidor da Igreja da Graça do J. Soares, ou leitor de Fritjov Capra, O Segredo, ou assistidor de Quem Somos Nós etc e tal. A estes ex-ateus e ex-céticos, meu Feliz Natal (sim, eu acredito em Papai Noel!) e… Ano Novo, Vida Nova, heim!
PS: O próximo projeto de Dawkins é escrever um catatau de mais de 1000 páginas mostrando científicamente que Papai Noel não existe… Alguns fatos a serem usados:

24/12/2007 – 14h11

Para entregar presentes, Papai Noel teria que se deslocar a 5.800 km/seg

Folha Online, da France Presse, em Estocolmo

O período das festas de fim de ano pode ser estressante, sobretudo para o Papai Noel. Para fazer o trajeto dele pelo mundo, ele teria que se deslocar a uma velocidade de 5.800 km por segundo para levar presentes às crianças do mundo inteiro, segundo um estudo sueco.
“Entre hoje e amanhã, 25 de dezembro, Papai Noel teria que parar em 2,5 bilhões de casas, considerando que as crianças de todas as religiões receberão um presente”, explicou Anders Larsson, da consultoria Sweco.
“Consideramos que há no planeta 48 habitantes por km², e que 20 metros separam cada casa. Logo, se Papai Noel parte do Quirguistão e viaja no sentido contrário ao da rotação da Terra, ele tem 48 horas para entregar todos os presentes”, explicou.
Segundo a tradição, Papai Noel mora no Pólo Norte. Entretanto, várias cidades nórdicas reivindicam o título de local de residência oficial do Papai Noel, entre as quais Rovaniemi, na Finlândia.
Porém, segundo o estudo realizado pela Sweco, a moradia ideal para Papai Noel seria mesmo o Quirguistão. É este país da Ásia Central que proporciona a ele, objetivamente, o melhor ponto de partida para racionalizar ao máximo seu trajeto pelo mundo, perdendo o menos de tempo possível.
“Papai Noel tem 34 milésimos de segundo para cada parada”, resumiu o estudo.
De acordo com outro estudo que circula na internet, o trenó do Papai Noel, carregado de toneladas de presentes e se deslocando a uma velocidade supersônica, se desintegraria em 4,26 milésimos de segundo devido à resistência do ar.

Mares de Minerva

OK, OK, Maria Guimarães, você venceu (com seu voto de Minerva): eu mudei meu voto na Roda da Ciência na última hora, para dar empate, mas não consegui escapar desse assunto (Mares da Terra) sobre os quais não entendo nada. Assim, para dar a minha contribuição deste mês, apenas dou o link aqui para uma busca que fiz com a palavra “Ocean” no http://www.arxiv.org/ , repositório de preprints de livre acesso que todo mundo conhece interessado em ciência conhece ou deveria conhecer.

PS: Para eu me lembrar depois: o mito de Minerva é muito parecido com o de Ishtar. Minerva também é a deusa da guerra, ciência, poesia, tecnologia, invenção, medicina, conhecimento e comércio.

Figura: Head of Minerva by Elihu Vedder, 1896.

Deus e o Diabo na Terra da Estatística

Antônio Carlos Roque da Silva Filho, 2007

No princípio era o Caos
Deus não estava contente
Ele então pensou na forma de sino
E viu que ela era boa

Deus fez então o Quincunx Divino
E dele tirou as proporções de todos os seres e coisas
A uns fez grandes, a outros pequenos, a uns poderosos, a outros fracos
Mas a maioria no meio

Veio então o demônio
E achou tudo aquilo uma chatice
Porque um meio, uma escala natural?
E fez, em número ainda maior, coisas sem escala

Olhando para aquilo
Deus não ficou satisfeito (anteviu muitas catástrofes[1])
Mas achou melhor não intervir
Foi tratar de outros assuntos

[1] Fortes terremotos, violentos maremotos, pessoas exageradamente ricas, cidades gigantescas, etc.

Quem são eles? II

Foto: Marlenne Matee, protagonista do filme.

V Ciclo de Palestras e Filmes Científicos do DQ

Exibição do filme: “Quem somos nós?”

Data: 11 de outubro de 2007 ( quinta-feira ) – às 16h00
Local: Anfiteatro do Bloco das Exatas (sala 11 – DE)

Informações: Secretaria do Departamento de Química – Fone: (16) 3602-4386 – E-mail: [email protected]
Expediente da Diretoria

Para os meus amigos que gostam da Escola de Frankfurt

Title:
Adorno and Horkheimer: Diasporic Philosophy, Negative Theology, and Counter-Education
Authors:
Gur-Ze’ev, Ilan
Descriptors:
Theology; Philosophy; Judaism; Jews; Critical Theory
Source:
Educational Theory, v55 n3 p343-365 Aug 2005
Peer-Reviewed:
Yes
Publisher:
Journal Customer Services, Blackwell Publishing, 350 Main Street, Malden, MA 02148. Tel: 800-835-6770 (Toll Free); Fax: 781-388-8232; e-mail: [email protected]
Publication Date:
2005-08-00
Pages:
23
Pub Types:
Journal Articles; Reports – Evaluative
Abstract:
From a contemporary perspective, the work of the Frankfurt School thinkers can be considered the last grand modern attempt to offer transcendence, meaning, and religiosity rather than “emancipation” and “truth.” In the very first stage of their work, Adorno and Horkheimer interlaced the goals of Critical Theory with the Marxian revolutionary project. The development of their thought led them to criticize orthodox Marxism and ended in a complete break with that tradition, as they developed a quest for a unique kind religiosity connected with the Gnostic tradition and emanating, to a certain extent, from Judaism. This religiosity offers a reformulated Negative Theology within the framework of what I call “Diasporic philosophy.” In his later work, Horkheimer explicitly presented Critical Theory as a new Jewish theology. Rearticulating Critical Theory is of vital importance today, both for understanding the current historical moment and for going beyond the oppressive dimensions of Critical Pedagogy. This article does not satisfy itself by offering a new reconstruction of Critical Theory; its goal is to offer a blueprint for a Diasporic counter-education that transcends Critical Pedagogy and goes beyond the emancipatory dimensions of Judaism itself.

Deus joga dados?

OK, OK, eu sei que o livro vai demorar ainda alguns meses para ficar pronto, mas estou colocando aqui um de seus capítulos (ver capítulo15.pdf) para eventualmente receber algum feedback. Abaixo, coloco o sumário provisório do livro, mais um trecho para quem estiver com preguiça de ir ler o pdf.

A proposta deste livro, a Teologia do Acaso (TA), pode ser resumida assim:
· Existem inúmeros pontos de contato entre a idéia científica de Acaso e a idéia religiosa de Deus.
· Esses pontos refletem não uma coincidência superficial, mas uma identidade de natureza filosófica profunda.
· Todo ser humano precisa se relacionar com o Deus-Acaso: sendo indiferente a ele (agnosticismo), temendo-o e tentando controlá-lo (religiões mágicas, tecnologia), tentando compreendê-lo (filosofia e ciência), celebrando nossa incrível “sorte” por estarmos vivos em um universo belo e complexo (adoração e louvor místicos), tentando alinhar nossas ações com uma idéia de Deus que supere a idéia de Acaso: uma vontade divina de justiça e bem estar para os homens (religiões éticas).
· Esta última posição, porém, não supera realmente a idéia de Deus-Acaso, pois toda a evidência dessa Vontade benévola se baseia em uma interpretação de padrão, em uma filtragem, que mantém na memória os eventos do Acaso que nos favoreceram (individual ou coletivamente) e minimiza ou reinterpreta os eventos desfavoráveis.
· Existe porém uma posição teológica alternativa: aprofundar a idéia de que Deus é o Acaso interpretado e personalizado, e que a espiritualidade reflete nossa atitude e relacionamento individual com o Acaso, sendo a Religião, entre outras coisas, uma formalização de nossa atitude coletiva frente a Ele.

O que ganharíamos com tal mudança de perspectiva? Listo algumas das possíveis vantagens da TA:
· Ela lança uma nova luz sobre inúmeros textos bíblicos, desde o uso do jogo de dados para a manifestação da vontade divina até as lamentações de Jó ao formular o problema do mal, ou mesmo a formulação de Jesus: “Ele manda a chuva igualmente sobre justos e injustos”.
· Ela resolve o problema do mal sem apelar para uma “Queda da Natureza” que degrada seu status como jardim a ser preservado pela humanidade, idéia tão necessária para os dias de hoje.
· O problema do mal é resolvido também sem culpabilizar o ser humano, uma solução extremamente cruel para quem sofre. Tal solução é popular em certos circulos espiritualistas onde se culpa a própria vítima por sua desgraça (como testemunha o livro de Jó). Apenas o mal que é fruto direto da ação do homem (por exemplo, a injustiça social) é sua responsabilidade.
· Ela resolve, ou pelo menos se mostrar um caminho promissor para a solução, o dilema entre a visão religiosa e a visão científica do Universo. Na Teologia do Acaso, enfatiza-se a convergência, não a divergência entre estas visões de mundo.Ela até mesmo promove um possível diálogo com os ateus: a afirmação básica do ateísmo é a de que não existe Deus, apenas Acaso. A visão da TA é a de que Deus é o Acaso interpretado, o Acaso é uma força todo-poderosa (um Deus) que rege o Universo.

Foto: Do interessante tópico da Wikipedia Roda da Fortuna.

Nu Wa

Certa vez li em um livro o seguinte mito chinês:

Conta-se que Nu Wa existia desde o começo do mundo. Sentindo-se solitária, cria os animais e seres humanos para lhe fazer companhia. Os homens são feitos a partir de argila amarela. Vendo-os, porém, fracos e desprotegidos, ela lhes dá o conhecimento do fogo, das ferramentas e das artes. Acredita ter feito uma obra maravilhosa e sobe aos céus para relatar seus feitos ao Imperador Celeste. Este porém, ao verificar o feito, mostra-se contrariado. Explica a Nu Wa: “Estas criaturas agora detêm um conhecimento próprio dos deuses. Não haverá limites para suas obras, tudo farão com orgulho crescente, e um dia negarão até mesmo a existência de um imperador celeste!”

Gostaria de citar este mito em meu livro, mas perdi a referência. A Wikipedia fornece várias informações sobre Nu Wa, mas esta versão do mito não é citada. Se algum de vocês encontrar na rede informações sobre esta versão, me mande um comentário que eu recompenso com um livro (repetido) da Coleção Argonauta, OK?
Minha tese: acho que Nu Wa é a versão oriental de Inana ou Ishtar, deusa dos conhecimentos secretos, alvo do mito da Queda hebreu, tendo em comum com estas o símbolo da serpente e que até hoje decora o caduceu de Hermes.
PS: Não, não, essa figura não representa Nu Wa e Fuxi subindo aos céus em um disco voador…

Quem são eles?

Não aguento mais as pessoas perguntarem o que achei do filme “Quem somos nós?”. Assim, tomando emprestado um post do Dragão na Garagem, vou aqui divulgando “Quem são eles”. Talvez em uma crítica eu não fosse tão ácido quanto o Widson Porto (afinal, o filme apenas sinaliza o vazio espiritual das pessoas, que alguns querem preencher com vazio quântico), mas o post do Widson é bastante informativo. Além do mais, se até o místico Ken Wilber achou o filme picareta, quem sou eu para discordar, não é mesmo?

Antes de se perguntar quem somos nós, você deveria perguntar quem são as pessoas que fizeram esse filme. Porque isso pode afetar completamente a experiência de assisti-lo.Um dos principais narradores de “Quem Somos Nós?” é Ramtha, o espírito de um guerreiro da Lemúria. Preste atenção: a pessoa que vai falar pelos próximos 90 minutos com você sobre Biologia, Neurologia e Física Quântica é o espírito de um guerreiro que viveu em um continente mitológico há 35.000 anos, canalizado por um médium! Não sei quanto a você, mas se algum dos meus professores tivesse apresentado essas credenciais no primeiro dia de aula eu teria me retirado da sala e da universidade. Para evitar que você faça o mesmo no cinema essa preciosa informação somente é revelada no encerramento do filme, já nos créditos finais, o que é uma trapaça danada se você pensar bem.

O médium que canaliza Ramtha no filme é a mulher loira conhecida pelo pseudônimo de JZ Knight. Segundo ela Ramtha, um espírito iluminado que, tal qual Jesus, ascendeu aos céus depois de sua morte, se manifestou pela primeira vez na cozinha da sua casa em 1977. De lá para cá, a mulher fundou uma seita, a Ramtha School of Enlightenment e passou a faturar milhões em seminários, cursos, livros, fitas e bibelôs sobre os ensinamentos de Ramtha. Como JZ possui o copyright sobre Ramtha, é pouco provável que o espírito se manifeste para outro futuro milionário por um bom tempo (será que alguém já registrou o domínio intelectual sobre o Dr. Fritz?). Ah sim, por coincidência os produtores e os três diretores de “Quem Somos Nós?” são membros da seita de Ramtha. Você sabe o que isso significa, certo? Que “Quem Somos Nós?” é simplesmente um longo comercial sobre uma lucrativa seita que promove a crença em reencarnação, continentes lendários, UFOS e outras bobagens esotéricas. Se você está apto a aceitar isso será mais um expectador feliz desse filme; na verdade, depois dele, pode até ingressar na seita.

Outro falante em “Quem Somos Nós?” é Jeffrey Satinover. Jeff é um médico que acredita que a homosexualidade é uma doença e que ele tem a cura (http://www.satinover.com/main.htm clique no link “homosexuality”). Além de afirmar que o homosexualismo é um mal psiquiátrico que pode ser tratado com antidepressivos, Satinover afirma que o liberalismo causa danos cerebrais. De acordo com um artigo exposto em seu site (use o link “liberalism”), Satinover acredita que…
“…é possível que dos mais ou menos 70% que apoiaram, digamos, Bill Clinton, uma parte substancial sofresse de retardadamento mental como resultado da influência liberal das universidades e da mídia” Ou seja, basicamente este homem, que logo falará conosco sobre física quântica, consciência global e paz mundial, está dizendo que se você está contra Bush provavelmente é um retardado mental. Se você ainda por cima for gay isso quer dizer que é doente e retardado mental. Não vamos nem mencionar que Satinover também mantém links para sites que tratam do Código da Bíblia (a crenca pseudocientífica de que a Bíblia traz criptografadas previsões sobre o futuro da humanidade).

Temos ainda em “Quem Somos Nós?” o físico PhD, John Hagelin. Hagelin é físico téorico com importantes trabalhos publicados na área das supercordas, embora sua última contribuição decente para a ciência tenha sido em 1994. Desde então Hagelin envolveu-se cada vez mais com a Meditação Transcedental, técnica do guru indiano que-diz-que-pode-levitar-mas-que-ninguém-nunca-viu-levitar Maharishi Mahesh Yogi do qual Hagelin é discípulo, assim como o foram os Beatles. Suas sucessivas tentativas de incorporar o misticismo oriental em suas teorias físicas o deixaram à margem da comunidade científica e o afastaram de seus ex-colaboradores. Seu mais notável trabalho desde então foi um estudo sobre como a meditação coletiva diminuiu a criminalidade na cidade de New York. Por este trabalho irreprodutível Hagelin foi laureado do prêmio Ig Nobel da Paz, uma paródia do prêmio Nobel. Hagelin foi quatro vezes candidato à presidência dos EUA; hoje preside o Instituto de Ciência, Tecnologia e Política Pública da Universidade Maharishi, uma universidade nova-era fundada por seu guru.

Completando o time de “Quem Somos?” vêm o quiroprático Joe Dispenza (só para esclarecer: a quiroprática é uma pseudomedicina sem nenhuma comprovação científica) e Michael Ledwith, ex-quase arcebispo de Dublin, Irlanda. Michael, que mudou seu nome para Miceal, foi afastado da Igreja Católica por defender a tese de que Jesus Cristo tinha um irmão gêmeo idêntico (embora possa ter colaborado para seu afastamento o fato de ter sido acusado de abusar sexualmente de um jovem seminarista, caso que foi resolvido mediante um populdo acordo financeiro). Autor do livro “O Universo Hamburger” (não, eu não estou inventando) Ledwith ministra o curso “Além do Código Da Vinci – Revelando a Vida Quântica de Jesus”, unindo de maneira inacreditável dois dos mais lucrativos filões em voga atualmente. Ambos são discípulos do culto Ramtha, embora isso não seja revelado nos créditos do filme.

Quem também aparece no filme é o físico David Albert, professor na universidade de Columbia, nos EUA. David é um físico respeitável com credenciais sólidas. Por isso ficou chocado ao ver como as entrevistas que deu foram editadas de maneira a dar a entender que coaduna com as opiniões místicas dos produtores do filme:

Eu fui editado de maneira a suprimir completamente meus verdadeiros pontos de vista sobre o assunto que o filme trata. Eu sou, na realidade, profundamente contrário às tentativas de unir física quântica a consciência. Mais ainda, eu expliquei tudo isso, com grandes detalhes, em frente à câmera, para os produtores do filme. Se eu soubesse que eu poderia ser tirado do contexto tão radicalmente eu com certeza não teria aceitado participar do filme.

Um ex-padre que pregava o evangelho do irmão gêmeo de Jesus, um médico que quer curar os gays e acha que os liberais são retardados mentais, outro que exerce uma terapia não reconhecida pela ciência, um físico praticante de levitação, um cara morto há 35.000 anos baixando em uma dona loira e, em má companhia nesta turma, um físico sério enganado pelos discípulos de uma seita maluca.
Para continuar, clique aqui.

Marcelo Knobel

Via Via Gene, até o Diário de Bordo do Marcelo Knobel:

A religião tem um forte impacto na sociedade norte-americana, com uma forte influência calvinista. Ao contrário de outros países, os americanos valorizam muito a religião, e esperam que o presidente sempre termine os seus discursos com a frase “God bless America”, por exemplo, ou que se refira ao demônio, em seus discursos. O calvinismo e o pioneirismo dos primeiros imigrantes também fazem parte da cultura americana hoje. Os norte-americanos apreciam o individualismo, a competitividade, a coragem de arriscar, e acreditam que podem subir na vida devido a seus próprios esforços (é o chamado sonho americano). Não é à-toa que o herói americano é solitário, corajoso, teimoso, um verdadeiro caubói (ou um Rambo, em uma versão mais atualizada). Um dos piores insultos por aqui é sugerir que alguém possa depender de outros.

Eles ajudam os outros, mas sempre indiretamente, através de colaborações financeiras para associações locais, nacionais e internacionais, o tão cultuado filantropismo. De fato, os números do terceiro setor por aqui são impressionantes. Vamos aos dados de 2005: US$ 1,1 trilhões (10 % do PIB, maior que quase todos os países do mundo, com exceção de apenas seis). O setor emprega 12 milhões de pessoas (7,2 % dos empregos norte-americanos), mas conta com um contingente de aproximadamente 100 milhões de pessoas, considerando empregos indiretos, voluntários, etc… São 1,3 milhões de organizações de caridade ou filantrópicas, que movimentam 260 milhões de dólares doados em média por ano, sendo que desse valor aproximadamente 200 milhões são doados por pessoas físicas.

Isso possibilita uma força incrível em diferentes setores, e, em particular, o setor cultural, incluindo aí os museus e centros de ciências. A competitividade é evidentemente exacerbada, pois eles têm que literalmente lutar pelas mesmas fontes de recursos. O setor de captação de recursos está fortemente estruturado, e há toda uma ciência por trás das estruturas dessas organizações, incluindo a presidência, a diretoria, os conselheiros, e a equipe. Na realidade, estou ainda tentando compreender toda a complexidade deste setor aqui nos EUA.

Matter waves: waves matter?

OK, OK, eu sei, é um trocadilho intraduzível. Mas pelo menos é original meu! (existirá algo novo debaixo do sol?)

Mariana escreveu na minha lousa os versinhos abaixo, que eu entitulei “Dupla Fenda” (para os entendidos, duas palavras bastam…):

Dupla Fenda

Onda

Anda?

A onda anda.

Aonde a onda anda?

Ainda anda a onda?

A onda ainda

Anda?

Onde?

Infelizmente, parece que os versos não são dela, mas foram tirados da apostila do curso Positivo usada no Colégio Metodista. OK, eu dei uma recauchutada neles, para aparecer metade de um comprimento de onda.

Acho que devia comentar algumas coisas desse colégio. Por exemplo, nas aulas de religião, aprende-se cidadania, ou ecologia, ou como elogiar seus colegas, ou coisas desse tipo que as crianças odeiam. OK, OK, isso parece uma prática perversamente eficaz, pois se ensinassem religião nas aulas de religião, as crianças acabariam por rejeitá-la… Hummm. Nas aulas de ciência ensinam Big Bang e Darwinismo.
Segundo Freeman Dyson, é por causa disso que as pessoas detestam ciência: são forçadas a aprendê-la na escola. Ele dá como exemplo o século XIX, onde não havia currículo de ciências. Nesse ambiente, os físicos floresceram, porque todo mundo queria fazer clubinho de ciência fora da escola. No século XX, obrigaram as crianças a ter aula de física, e a física inglesa decaiu.
Dyson propõe que se ensine apenas, mas de forma intensa, ferramentas de pensamento para as crianças: idioma materno, segundo idioma, redação, linguagem matemática, lógica, busca e filtragem de informação na Web, linguagens de computação. Uma educação instrumental, nao uma educação baseada em fatos (que ficam rapidamente ultrapassados). Ciências empíricas seriam optativas, para aqueles realmente a fim. Daria um belo currículo, não é mesmo? E, de quebra, resolvia pra melhor o problema do ensino de ciências na escola…

A tumba de Cameron

Bom, já estamos em março e portanto o tema de fevereiro Religião e Ciência da Roda de Ciência já terminou. Ainda bem, pois mais uns dias de debates acalorados e a Roda se desfazia (o Daniel e o Adilson ficaram chateados comigo, embora por motivos antagônicos!).

Em todo caso, acho que não poderia deixar de comentar a tese do documentário de Simcha Jacobovici e James Cameron (A tumba perdida de Jesus).

Do NYT: In recent years, audiences have demonstrated a voracious appetite for books, movies and magazines that reassess the life and times of Jesus, and there is already a book timed to coincide with this documentary, which will be on the air next Sunday.

“This is exploiting the whole trend that caught on with ‘The Da Vinci Code,’ ” said Lawrence E. Stager, the Dorot professor of archaeology of Israel at Harvard, in a telephone interview. “One of the problems is there are so many biblically illiterate people around the world that they don’t know what is real judicious assessment and what is what some of us in the field call ‘fantastic archaeology.’ ”

Professor Stager said he had not seen the film but was skeptical.

Mr. Cameron said he had been “trepidatious” about becoming involved in the project but got engaged out of “great passion for a good detective story,” not to offend and not to cash in.

“I think this is the biggest archaeological story of the century,” he said. “It’s absolutely not a publicity stunt. It’s part of a very well-considered plan to reveal this information to the world in a way that makes sense, with proper documentation.”

The documentary, “The Lost Tomb of Jesus,” revisits a site discovered by archaeologists from the Israel Antiquities Authority in the East Talpiyot neighborhood of Jerusalem in 1980, when the area was being excavated for a building.

Ten burial boxes, or ossuaries, were found in the tomb, and six of them had inscriptions. The Discovery Channel filmmakers say, and archaeologists interviewed concur, there is no possibility the inscriptions were forged, because they were catalogued at the time by archaeologists and kept in storage in the Israel Antiquities Authority.

The documentary’s case rests in large part on the interpretation of the inscriptions, which they say are Jesus, Mary, Mary Magdalene, Matthew, Joseph and Judah.

In the first century, these names were as common as Tom, Dick and Harry. But the filmmakers commissioned a statistician, Andrey Feuerverger, a professor at the University of Toronto, who calculated that the odds that all six names would appear together in one tomb are one in 600, calculated conservatively — or as much as one in one million.

Concordo que o documentário aproveita a onda de livros e filmes sobre Jesus, Maria Madalena etc, a maioria defendendo posições gnósticas. Eu mesmo pretendo entrar nessa onda com o livro (que já tem três capítulos escritos!) Deus e Acaso, colocarei uns trechos aqui futuramente.

Observação interessante: o diretor Simcha Jacobovici fez outro documentário no ano passado (The Exodus Decoded) tentando provar que o Exôdo era um fato histórico (não sei que fim levou isso).

Uma coisa curiosa e divertida é que o número de hipóteses sobre a morte de Jesus tem aumentado dramaticamente nos últimos anos. Por ordem cronológica:

Jesus, sábio hindu e asceta sexual: A revista Planeta costumava fazer reportagens enormes sobre a tumba de Jesus que estaria situada na India, ou seja, Jesus teria sobrevivido à cruz e emigrado para a Cashemira.

Jesus, o ET assexuado: A mesma revista Planeta (ou será a revista UFO?) defendeu a teoria de que Jesus era um ET que subiu os céus numa nuvem-UFO, sendo que um dia voltará para estabelecer o Reino dos Céus (ou seja, implantar a sociedade galáctica aqui, composta por anjos etc).

Jesus, o homossexual: Esta tese foi defendida pelo movimento gay. O companheiro de Jesus seria João, “o discipulo a quem Jesus amava”.

Jesus, uma mulher? Já algumas feministas radicais defendiam que o crucifixo deveria ter uma mulher em vez de homem, a fim de combater o machismo. Seria Jesus um fruto de partenogênese de Maria?

Jesus, amante de Maria Madalena, que fugiu para a França: Esta é a tese de Dan Brown e seu Código Da Vinci. Mas se Cameron estiver correto, então Maria Madalena foi enterrada em Jerusalém em vez da França, e o filho de Jesus seria Judas e não Sara. E por consequência, cai também a tese de que os reis merovíngeos eram descendentes do “Sang Real” (Santo Graal).

Acho que alguém precisa avisar o pessoal que essas idéias todas são incompatíveis entre si… É interessante também como, mais que a filosofia de Jesus, é sua sexualidade a que desperta maior interesse. Será que Freud explica isso?

As Máquinas do Prazer de Deus

Post mensal da Roda de Ciência. Por favor, deixe os comentários lá.

Como vocês devem ter notado (e me perdoar), este mês eu apenas coloquei aqui alguns posts sobre ciência e religião com material não original. É que eu pretendia escrever um post longo sobre a questão de que uma precondição para se ser um bom cientista seria o de ser ateu (uma afirmativa que acredito que Richard Dawkins endossaria).
Obviamente tal afirmativa é absurda por deixar muita gente boa de fora, desde Newton, Maxwell e Faraday até, na atualidade, o cosmólogo George Ellis (quaker) e mesmo meu avô em doutorado (o orientador do meu orientador), Barry Simon (judeu ortodoxo).

Mas fica para outra vez. Estou indo para o Simpósio do IINN daqui a pouco, não sei quando poderei blogar de novo. Fica aqui algo que escrevi um tempo atrás.

Não seremos nós as máquinas do prazer de Deus?

Poeta cujo nome não me lembro, citado por Ray Bradbury no livro As Máquinas do Prazer (The Machineries of Joy).

DENNIS OVERBYE, do New York Times:

DISPLAYING ABSTRACT – I was a free man until they brought the dessert menu around. There was one of those molten chocolate cakes, and I was suddenly being dragged into a vortex, swirling helplessly toward caloric doom, sucked toward the edge of a black (chocolate) hole. Visions of my father’s heart attack …. There was one of those molten chocolate cakes, and I was suddenly being dragged into a vortex, swirling helplessly toward caloric doom, sucked toward the edge of a black (chocolate) hole. Visions of my father’s heart attack (…)

Humpft! Meses atrás eu li este artigo por completo no NYT, mas agora ele está protegido e inacessível. O pessoal do CopyRight de jornal podia ser mais camarada, não?

Bom, o artigo do NYT era sobre o livre arbítrio, ou sua ausência, segundo alguns neurocientistas que talvez precisassem ler o artigo de Maxwell para perceber que a Física não é tão de terminista assim – na verdade, a Física contemporânea não é determinista de forma alguma, algo que parece que vai demorar décadas para o pessoal absorver…)

Acho que Maxwell está correto: ao contrário do que Sartre dizia, somos livres em apenas cerca de 0,1 por cento de nosso comportamento. É claro que isso faz uma grande diferença, pois é nesses pontos críticos que você decide a sua vida. Agora, tente provar que você é livre interrompendo o sexo com sua mulher… Não, amigos, somos todos cativos, a maior parte do tempo.

Então, acredito que não existe problema nenhum em uma religião como o judaismo e cristianismo primitivos sugerirem que somos máquinas, entes puramente materiais, que respiram (“ruah”, vento, traduzido infelizmente por “espírito”) e dependem essencialmente do sangue (traduzido do hebraico como “alma”).

Somos todos cilônios! É isso o que a ciência diz. Ou “criaturas”, como diz a Bíblia, feitas de humus (“homo”) e que retornarão ao humus. E é por isso que os cilônios estão certos. Eles, como nós, somos as máquinas do prazer de Deus.

PS: Retiro o que eu disse em parte: aqueles soldados torturadores da Galactica não são nada humanos…

Faces, Faces Everywhere

Este artigo do NYT comenta sobre o fato de que parece que temos um módulo especializado para reconhecimento de faces. Uma coisa interessante, ligada ao tema do Roda de Ciência deste mês, é o porque grande parte dessas faces são interpretadas como tendo significado religioso (a foto acima é chamada de “face de Deus”. As faces usualmente são interpretadas como a Virgem Maria, Jesus Cristo, Abraham Lincoln ou mesmo um ET (no caso da face marciana em Sidônia, que desapareceu quando fotos melhores foram obtidas).

Hipótese: Outra pesquisa mostra que temos neurônios especializados (“neurônio de Jennifer Aniston“) para rápida detecção de personalidades bem conhecidas. Juntando as duas coisas, teriamos então que as faces mais facilmente identificadas em padrões aleatórios seriam as ligadas a esses neurônios.

Previsão: deve existir um(s) neurônio(s) especializados na detecção da face – historicamente construida – de Jesus Cristo (nos católicos, além disso, um neurônio da Virgem Maria).

Update: Daniel Doro Ferrante indicou na Roda de Ciência um interessante link sobre reconhecimento de padrões em estímulos aleatórios: apophenia.

At the Edge

Via Ciência em Dia: Um interessante post sobre Dawkins e o debate Ciência, Ateísmo e Religião foi colocado no Cosmic Variance. Recebeu até agora 75 comentários. Vale a pena dar uma olhada.

Foto: De pé, a partir da esquerda: Steven Pinker, Jeff Bezos e John Brockman. Sentados: Katinka Matson, Daniel C. Dennett, Richard Dawkins e W. Daniel Hillis.


Ciência na Bíblia

Este texto é o primeiro capítulo de um livro que estou escrevendo. Ok, ok, não vai ser nenhum Código DaVinci, mas se vender tanto quanto “O Comentário do comentário do comentário do Código DaVinci” já me dou por satisfeito…